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segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Pra reinar de novo

O Rei do Gado está de volta. Em sua segunda exibição no Vale a Pena Ver de Novo e quarta transmissão no país, contando a original em 1996 e a do Canal Viva em 2011. Como comemoração aos 50 anos da Rede Globo, eu não vejo melhor opção a ser eleita para tal ocasião. Um dos maiores êxitos da nossa teledramaturgia, recordista de audiência à época, O Rei do Gado continua a ser sinônimo de sucesso. Ela representa uma era ouro das nossas produções dramatúrgicas, não se encontrando lá nos primórdios da emissora, nas saudosas obras da era Janete Clair, nem nas atuais fases de vacas magras das recentes produções. Ela marca uma fase de grande amadurecimento das nossas telenovelas, com textos mais densos, histórias envolventes e surpreendentes, quando autores ousavam e abusavam da criatividade.

Dos trabalhos de Benedito Ruy Barbosa - dos quais tenho conhecimento -, considero a saga das famílias Berdinazi e Mezenga a obra-prima da sua carreira. Apaixonado pelo universo rural e construtor de personagens fortes, de personalidade marcante, Benedito conseguiu através da rixa das duas famílias e do romance proibido de Giovana e Henrico - que atravessou geração e renasceu em Bruno e Luana -, fascinar o país e falar da terra, a grande protagonista de toda a novela. Foi pela disputa por um pedaço de chão entre as terras de Antônio Mezenga e Giuseppe Berdinazi que surgiu todo o ódio entre as duas famílias. Foi a terra que produziu os quatro milhões de pés de café e enricou o velho Geremias. A mesma terra que Bruno Mezenga precisava de pastagem para seu gado, e que Regino tanto sonhava dividida entre seu povo do Movimento dos Sem Terra, sem nenhum pedaço de chão .

Ao abordar a luta do MST de maneira pacífica, humanizada, Benedito conseguiu fazer o país enxergar a questão com uma maior identificação. Jogou escancaradamente na cara do povo a cruel desigualdade social em que o país se encontrava, e que hoje, 18 anos depois, ainda não está muito distante da nossa realidade. A figura de um senador íntegro e incorruptível, que abraçou a causa da reforma agrária como sua, mais parecia uma piada, embora simbolizasse a esperança em políticos que ainda se importam com o futuro da nação e o querem ver limpo de toda essa bandidagem 'legal'.

Personagens bem construídos e bem interpretados, em histórias críveis, tocantes e bem desenvolvidas, transformaram O Rei do Gado nesse grande clássico da nossa teledramaturgia desde a primeira tomada, quando fomos abrilhantados com os sete capítulos iniciais impecáveis de sua primeira fase, na década de 40. Um primor de qualidade e superprodução, que chegou a durar dois meses para ficar pronta, tamanho era o capricho da equipe envolvida. Cenas memoráveis acompanharam toda a trama e fizeram o telespectador entrar realmente na emoção que era proposta. Simbologias, metáforas e muita poesia embalaram os capítulos com câmeras que adentravam os ambientes e as sensações dos personagens, como um amigo confidente que sorri e sofre junto.

Impossível não destacar a interpretação de Tarcísio Meira na figura do inflexível Berdinazi. Sua cena no cafezal plantando a medalha do filho morto na guerra, na esperança de vê-lo renascer é de uma verdade cênica e poesia incomparáveis na teledramaturgia nacional. Raul Cortez também soube conduzir precisamente seu velho rancoroso e solitário Geremias, corroído pelo remorso dos erros do seu passado. A dúbia Rafaela, de Glória Pires, chegava a despertar diferentes reações nos telespectadores, que ora a sentiam como vilã, ora se apiedavam dela, nada mais humano. Letícia Spiller, que acabara de sair de sua espevitada Babalu, de Quatro por Quatro, não poupou encanto e talento na sua doce e determinada Giovana. Encanto que pudemos ver ressurgir logo na primeira cena de Patrícia Pillar como a bronca Luana. Por trás do jeito xucro e arredio da cortadora de cana, podíamos perceber os traços delicados da Berdinazi de Letícia. 

São muitos os destaques da história, mas não poderia deixar de mencionar também a riqueza de Zé do Araguaia e Donana, de Stenio Garcia e Bete Mendes. Juntos, eles representaram fielmente o universo rural da segunda fase fundindo-se quase em um personagem só. E claro, Antônio Fagundes, que conseguiu dar vida a dois personagens completamente diferentes e cheios de nuances e sensibilidade. O maior mérito de Benedito em O Rei do Gado talvez esteja na valorização de personagens incomuns nas telenovelas, mas corriqueiros no dia a dia. É possível enxergar-se em O Rei do Gado ou enxergar um amigo, um vizinho... E ainda não falei de sua trilha sonora, a mais vendida de todos os tempos, recheada do sertanejo da época e de pérolas como Admirável Gado Novo, de Zé Ramalho, e Correnteza, de Tom Jobim, na voz de Djavan. Em tempos de escassez de boas histórias para acompanhar, a re-reprise de O Rei do Gado talvez seja uma boa oportunidade para relembrarmos que já tivemos e temos capacidade para produzir grandes e memoráveis obras na nossa teledramaturgia. Finalizo com a frase do capítulo final que resume bem todo o fio da trama:

"Deus quando fez o mundo, não deu terra pra ninguém, porque todos os que aqui nascem são seus filhos. Mas só merece a terra aquele que a faz produzir, para si e para os seus semelhantes. O melhor adubo da terra é o suor daqueles que trabalham nela".

domingo, 28 de dezembro de 2014

Entre as molas

Esses dias andei pensando... O tempo é uma estrada feita de mola que só tende a esticar. E quanto mais se estica um lado, mais distante ficamos da sua outra ponta. Ele não poderia ser uma reta porque precisa amaciar os percalços da vida. Mas o que vai ficando nesse meio? Ou melhor, o que vai surgindo e desabrochando enquanto ela cresce? Quando mais novo, eu costumava analisar o quanto mais distante eu estava ficando de um determinado ano. Épocas e momentos especiais iam se alongando sempre mais. De repente, aquele ano mágico ia se tornando velho e mais velho, até virar apenas uma pequena sombra distante. Era a mola distendendo-se e fazendo do garotinho, um adolescente; e desse, um homem.

Hoje cruzam por mim diariamente Eduardas, Luanas, Thalias, que, não fosse um simples detalhe, me pareceriam meros nomes de jovens adolescentes. Porém, alguns anos atrás não era comum encontrar por aí uma garota chamada Thalia ou mesmo Eduarda - o masculino sim era o comum -, assim como o feminino de Marcelo também soava estranho e só a Machado de Assis e a seu Brás Cubas remetia-se tal referência. Daí que olhando a idade dessas meninas, entre seus 16 e 18 anos, a explicação é bastante óbvia. Em 1996 a Rede Globo exibia - como agora voltará a exibir - um dos seus maiores sucessos da teledramaturgia, a novela O Rei do Gado, cuja mocinha se chamava Luana, uma boia-fria bronca, mas de coração doce, que cativou não só Bruno Mezenga, mas o público brasileiro. E haja Luanas a nascerem naquele ano, filhas do poder de influência da mídia.

O mesmo aconteceu no ano seguinte, quando Manoel Carlos arrebatou o público com sua Helena que sacrificou seu bebê vivo em troca do filho morto da filha, para não vê-la sofrer diante da impossibilidade de voltar a engravidar, em Por Amor. A filha mimada e egoísta, apesar de sofrer forte rejeição do público, parece que conquistou o coração de alguns futuros papais, que batizaram suas filhas naquele ano de Eduarda, nome da mocinha da história. E quem não se lembra do fenômeno das três Marias da atriz e cantora mexicana Thalia? Maria Mercedes, Mari-Mar e Maria do Bairro consagraram Thalia no Brasil e a fez visitar o país, pela primeira vez, em 1997, quando todos passaram a conhecer não só a atriz, mas também a cantora, e seu nome virou sensação.

São meras constatações, mas que me fizeram refletir sobre essa mola que se distende mais a cada dia, fora do nosso controle. Não penso melancólico sobre os bebês que nasciam batizados com os nomes da época e hoje estão às portas da universidade, de onde parece que saímos ontem. Apenas me divirto com as mudanças que acontecem. Não há como descrever o tempo, como segurá-lo, ou mesmo observá-lo, ele simplesmente passa, e só depois o sentimos, ou sentimos as mudanças que ele nos deixa. O tempo é o hoje, é o agora, é o sol que se põe no fim da tarde, é o garotinho atravessando a rua, a folha de papel picada caindo da sacada, o tempo é o instante, é o momento que nos cerca, o que fica atrás dele é essa estrada percorrida sem sinalização de retorno. Sendo uma mola, às vezes nos aproximamos de algum caminho percorrido, quando nos vem alguma saudade ou quando uma Eduarda te faz lembrar que já temos algumas estradas construídas, não muito longas, mas que já nos mostraram algo a mais e nos tornaram mais flexíveis.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Ainda há espaço pra Maneco?

Uma narrativa lenta, os costumeiros barracos em família, o cotidiano quase caricato de tão puxado para o dia a dia... Não imaginei algum dia escrever isso, mas Em Família cansa. Parece que dessa vez Manoel Carlos errou a mão, ou sua fórmula - assim como Glória Perez com Salve Jorge - já tenha se desgastado. A impressão que fica é que não há mais o que mostrar, tudo já é conhecido, e ninguém tem paciência para acompanhar um pouco mais do mesmo.

Quem vinha seguindo o ritmo dos últimos autores, de João Emanuel Carneiro a Walcyr Carrasco, sentiu a diferença ainda no primeiro capítulo. Embora Glória e Walcyr não tenham mantido o frenesi de Avenida Brasil, os primeiros capítulos de Salve Jorge e Amor à Vida foram bem mais movimentados. A história de Em Família até parece envolvente, mas a lentidão de novela das seis com que vem sendo apresentada tem prejudicado seu desempenho.

E ainda há mais três fatores que têm contribuído para a novela andar para trás: o excesso de atores desconhecidos do grande público entre os protagonistas e os principais coadjuvantes das duas primeiras fases; a história centrada num grupo de adolescentes, que faz lembrar uma Malhação no horário nobre; e a longa, exaustiva e monótona segunda fase da trama. Na verdade, se Maneco tivesse reunido toda a história dessas duas fases num primeiro capítulo bem enxuto, conseguiria mostrar ainda umas duas ou três cenas da terceira fase, deixar o público ansioso pelo que viria depois e garantir uma boa estreia.

Todavia, o autor optou por esmiuçar o máximo possível a adolescência de sua última Helena, e a resposta do público, sedento por agilidade, veio em sequência: 33 pontos de audiência no primeiro dia - o pior dos últimos tempos - 29.4 no segundo e 29.2 no terceiro. A Globo já providenciou as alterações para não continuar perdendo seus preciosos pontinhos na programação: a reedição dos capítulos. A mudança para a fase com Júlia Lemmertz, que já tinha sofrido uma antecipação do roteiro original do capítulo 12 para o 10, agora chegará no capítulo 8. Tudo isso para ver se a fase atual da trama, com o elenco de peso da casa, consegue prender os telespectadores e garantir a liderança com tranquilidade.

E como uma falha nunca anda desacompanhada, o tal "Momentos em Família" ao final de cada capítulo não deixa claro para o público se o que é produzido é ficção ou realidade. A princípio parece tratar-se de fatos, até pela tradição do autor de acrescentar um depoimento real a cada dia, nas novelas anteriores. Mas é possível perceber que há manipulação de imagens, cortes e intervenção de atores. A ideia original de aproximar as histórias apresentadas no folhetim com as de pessoas normais ficou embaçada, e o que se vê mais parece uma novela dentro da outra. E para completar o ciclo de estranhezas de Em Família, a disposição dos créditos do elenco na abertura não estava tão desajustada desde que O Clone, em 2001, inovou a maneira como eles aparecem.

Mas Em Família está só no comecinho, pode fazer muito ainda para ganhar a fidelidade do público. Talvez quando a história começar a se desenvolver no Rio de Janeiro, no elitizado Leblon, as coisas tomem um rumo. Ou a mesma fórmula batida de Maneco prove que a inovação é essencial, até mesmo para quem tem um estilo único. Parece que sozinho, o bom texto trabalhado em Por Amor, Laços de Família, Mulheres Apaixonadas, Páginas da Vida e Viver a Vida não consegue mais o mesmo sucesso. E esse nem foi o problema da última - duramente criticada -, mas a falta de uma boa trama para a Helena de Taís Araújo, e até mesmo a interferência do Ministério Público do Trabalho na vilania da personagem de Klara Castanho, como se ela, "uma velha disfarçada de criança", não conseguisse distinguir realidade de ficção.

Enfim, talvez em nome das grandes obras que já saíram de suas mãos, seja de bom tom ter um pouco mais de paciência com Manoel Carlos e aguardar o desenrolar dos próximos capítulos. Afinal, com clichês ou não, Em Família é sua despedida, e tem muito autor por aí que deveria estar de despedindo também das telenovelas, mas infelizmente ainda estarão no ar por um bom tempo.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

O que fica de Amor à Vida

Desde que Amor à Vida estreou, e principalmente ao longo de seus meses, eu me questionava por que a direção da Globo resolvera alterar o título original da novela. Afinal, Em Nome do Pai se encaixava perfeitamente bem nas atrocidades de Félix e nos seus atritos com César. Mas aí o capítulo final de ontem calou todas as minhas indagações. Eu já assisti a diversos finais de novelas, mas não me recordo de nenhum que tenha me emocionado tanto. Walcyr voou alto na sua estreia no horário nobre da Globo, desde as diversas reviravoltas de seus personagens ao longo dos 221 capítulos de sua trama, até selar o primeiro beijo gay das telenovelas globais.

Sem dúvida alguma, o grande protagonista de Amor à Vida foi Félix. De vilão a mocinho querido dos telespectadores, a sua redenção foi uma das decisões mais bem acertadas do autor. Já havia lido por aí que Walcyr tinha estragado Félix, desfazendo um dos melhores vilões da tevê atualmente. Não vejo assim. Félix foi realmente apresentado como o grande monstro da trama no primeiro capítulo, cometeu diversos crimes, foi cruel, insensível e prejudicou várias pessoas, porém, ele foi à sarjeta bem antes do esperado. Aliás, uma das maiores características da novela foi justamente essa: não prender trama. O reencontro de Paloma com sua filha, que poderia ter sido o gancho de muitos autores para o capítulo final, Walcyr já desvendou bem antes do capítulo 30. E bem antes também desmascarou Félix para a irmã.

O muro de orgulho e prepotência foi aos poucos se quebrando e cedendo lugar à compreensão, à tolerância e à humildade nos braços acolhedores de Márcia, a grande Tetê Para-choque e Para-lama, outra personagem, que apesar de alguns exageros, segurou a novela com honra. Mas os desmandos de Félix tinham uma origem: sua relação mal resolvida com o pai, que embora não justificasse muito suas atitudes, mostrava o que a falta de amor e de compreensão é capaz de fazer. A rejeição de César, a vida inteira, pelo filho - devido a sua homossexualidade -, gerou ódio e transformou-se em ação, ação destrutiva, Félix virou uma fruta podre, cujo toque espalhava veneno e destruição pelo caminho de todos.

Ah, mas aí entrou o amor, e só o amor e o perdão para mudar tudo. O amor de Márcia - sua babá perdida -, o amor de Niko - o amigo conquistado -, o perdão e o amor de Pilar e até de Paloma. Félix se sentiu acolhido para recomeçar, ter sua nova chance, e diante de tanta demonstração de afeto, percebeu que era possível viver no bem. E ninguém precisa ser condenado à cruz quando está disposto a se modificar e refazer seus atos pelo amor. Aos poucos, a figura do Félix de antes foi desaparecendo e o vilão se transformou realmente no protagonista da história, suplantando Paloma e Bruno, e ganhando até par romântico com direito a torcida do público.

O capítulo final de Amor à Vida foi tão intenso que fica difícil descrever tudo. Algumas passagens, todavia, merecem destaque. A revelação de Pilar sobre sua culpa na morte da mãe de Aline; a fuga de Edith com Wagner; o perdão de Paulinha a Félix; a dança sensual de Márcia, vestida de chacrete, para Atílio/Gentil; Amarylis sendo desmascarada por Niko; a visita de Paulinha a Ninho na prisão e o remorso dele pelos seus atos; a notícia de Jonathan de que passou no vestibular de arquitetura e a comemoração de Félix; Valdirene quase parindo no casamento da mãe; o destino de Aline; e claro, o desfecho de César, que se viu inválido, traído, humilhado, sem perspectiva de vida, e foi encontrar, justamente nos braços do filho rejeitado, a ajuda e o acolhimento de que tanto necessitava no momento. Tão verdadeiro, tão humano. E aí mais uma vez o amor agiu e levou todo mundo às lágrimas. Numa fotografia deslumbrante, Félix revela seu amor a César, que reconhece a dedicação do filho e o aceita finalmente com um “eu também te amo”, que o ex-vilão tanto desejou escutar em toda sua vida. A vitória do amor sobre o preconceito e a intolerância. Com tudo isso, o tão polêmico beijo entre Félix e Niko, numa cena de pura delicadeza e cumplicidade, depois daquele reconhecer que o chefe de cozinha mudou sua vida, foi apenas a cereja do bolo.

Já critiquei muito os enredos pastelões de Walcyr Carrasco, seus diálogos óbvios, seu humor escrachado, mas hoje ele ganhou um grande ponto comigo. Em tempos em que se vê tanta desordem no mundo, tanta intolerância, violência, injustiça e incompreensão, a lição de amor, já difundida lá atrás na canção dos Beatles, veio brotar onde menos se esperava. Walcyr provou que o título da novela faria jus à sua história, e Amor à Vida, apesar de ficção, foi um grande exemplo para a humanidade de que o nosso planeta ainda tem chance, de que o amor ainda pode transformar esse mundo para melhor. 

terça-feira, 13 de setembro de 2011

A noite volta a ter lua cheia

Quando Mulheres de Areia foi ao ar pela primeira vez, eu era um garoto de 7 anos que acompanhava telenovelas. Com tão pouca idade já sabia separar o trigo do joio das produções, e logo me apaixonei pela trama. Dezoito anos depois, é impressionante como o primeiro capítulo da novela ainda mantém o mesmo encanto de antes. O que é bom, o será sempre. É uma dupla satisfação poder rever a novela, e perceber que o Vale a Pena Ver de Novo está retomando seus bons tempos e entrando no eixo. Depois de algumas reprises despropositadas, o programa engatou com a reexibição de O Clone, mantendo-a por oito meses no ar e registrando um total de 175 capítulos, número recorde para o horário. Talvez a experiência positiva das reprises na íntegra dos grandes clássicos da teledramaturgia pelo Canal Viva, tenha incentivado a Globo a exibir novelas mais antigas, e a diminuir o número de cortes das tramas, o que parece muito apropriado, principalmente quando a exibição vem alcançando bons resultados de audiência.

Um dos fatores mais curiosos quando se repete uma novela muito antiga, além da pouca lembrança que mantemos dos acontecimentos da história, é poder rever os atores 10 ou 15 anos mais jovens. Glória Pires parecendo irmã de Cléo Pires, Guilherme Fontes com rosto de menino, Humberto Martins na versão Cauã Reymond de 93, Andréa Beltrão no auge da juventude, Susana Vieira quando ainda se portava como uma atriz distinta e até Daniel Dantas com pinta de galã. O tempo é realmente cruel nesse aspecto. Só percebemos o nosso estado atual quando olhamos para trás e nos vemos tão vigorosos e esbeltos quanto os adolescentes na saída da escola. Mas esse é o poder mágico da telenovela. Uma vez registrado com 20 anos naquele personagem, para sempre jovem.

Mulheres de Areia fez parte da boa safra de produções da nossa teledramaturgia. Época em que era prazeroso ligar a tevê e se deixar conduzir por uma boa e bem amarrada história, capaz de nos arrancar da cozinha ou do banheiro ao som da vinheta do comercial. Isso tem feito muita falta. Uma novela que convença não pela parafernália e superprodução envolvida, mas pelo conteúdo simples de sua trama. A simplicidade é sempre mais difícil de alcançar, mas quando se chega nela, o realismo é inevitável. E se uma mulher era capaz de tal proeza, seu nome era Ivani Ribeiro. Autora que desenvolveu um trabalho esmerado na construção da realidade retratada em suas obras e no trato que dava a seus personagens, sempre vivos, ativos, frágeis, humanos. E penso que daí nasce grande parte do sucesso de seus trabalhos.

Não modestamente, Ivani Ribeiro é a única autora que teve suas novelas reprisadas pela Rede Globo mais de uma vez. A Gata Comeu, A Viagem e agora Mulheres de Areia somam três exibições ao longo dos anos. Se esse registro não é suficiente para revelar a qualidade de suas produções, então a curiosidade que encontrei sobre a novela na internet, reforça a tese. Dizem que quando exibida para a Rússia, a novela alcançou tanto sucesso, que o governo exibiu o capítulo final em um dia de eleição, evitando assim que alguém viajasse na data e se abstivesse das votações. Verdade ou mito, mais um ponto a favor de Ivani, Mulheres de Areia e da força da teledramaturgia nacional. 

domingo, 12 de junho de 2011

Garantindo o seu posto

Quem inventou a competitividade? ... Algum primata invejoso que não conseguiu a caça maior? Desde os micróbios da origem da evolução de Darwin que existe a competição e a seleção dos mais hábeis. Me lembro dos livros de ciências da 7ª série e das girafas de pescoço mais curto. Para sobreviver numa região onde os alimentos estavam no topo das árvores, só usando uma vara, e assim as pescoçudas evoluíram e deixaram pra trás uns possíveis primos dos cavalos. A competição estimula a qualidade e a criatividade, mas pode ser muito cruel também hoje em dia, uma vez que só permanecendo os pescoçudos, a concorrência vai ficando cada dia pior. Gosto de pensar que nem sempre os escolhidos são os melhores, que uma boa leva fica pelo caminho. Quem garante que as girafas de pescoço mais curto não eram melhores? As coitadinhas só não tiveram muita sorte. E sorte também é fundamental durante uma competição.

Quem saiu na frente na corrida espacial durante a Guerra Fria? Os soviéticos quando lançaram em 1957 a indefesa Laika a bordo da Sputnik e Iuri Gagarin em 1961 para dar uma volta completa na órbita da Terra, ou os americanos com a chegada do homem à Lua em 1969? Referente à Laika, gosto de enfatizar que a cadelinha acabou morrendo seis horas após o lançamento, vítima do superaquecimento da nave e do estresse causado por não ter sido avisada que iria sozinha para o espaço. Ainda assim, tenho uma forte inclinação pelos russos, e particularmente acho a palavra cosmonauta mais expressiva e garbosa do que astronauta, apesar de crer que a NASA deve ter uma aparelhagem bem mais sofisticada, ou tudo não passa de merchandising? Ah, a publicidade! O que seria dela sem a competição?

Não sei se posso considerar a peleja da Rede Record contra a Globo como competição de fato, tendo em vista que a primeira não estabelece uma concorrência real, já que procura se igualar e não competir propriamente com a outra. Mas já posso considerar a mais nova corrida da teledramaturgia brasileira, e agora entre Globo e SBT. Quem iria pensar que a emissora de Sílvio seria a primeira a transmitir o primeiro beijo gay feminino da televisão brasileira. E depois de dada a largada, a disputa agora é em torno das primeiras carícias mais ousadas entre dois homens. O SBT já divulgou: em julho sairá o primeiro beijo gay masculino entre os atores Carlos Thiré e Lui Mendes também em Amor e Revolução. Bem, isso se Eduardo e Hugo não forem pra cama antes. Sim! Insensato Coração, a novela com mais homossexuais assumidos até então, desde o início criou polêmica sobre um suposto beijo entre alguns dos seus personagens, o que já até havia sido desmentido pelos autores, mas será que a concorrência anda incomodando e eles agora não querem que o SBT tenha o título da primeira emissora liberal do país?

Em um momento de intensas conquistas homossexuais, com o reconhecimento da adoção por casais gays e a aprovação da união estável pelo Supremo Tribunal de Justiça, parece realmente o momento mais favorável para mais essa virada. No entanto é cedo para considerar a quebra do tabu na televisão aberta, principalmente porque diferente do beijo entre as atrizes Gisele Tigre e Luciana Vendramini, o autor Tiago Santiago já informou que irá colocar um locutor anunciando o beijo gay. Se partir por esse caminho, a Globo tem chance de recuperar a disputa. Gilberto Braga e Ricardo Linhares divulgaram essa semana que os personagens de Rodrigo Andrade e Marcos Damigo terão cenas já escritas de beijo e sexo previstas para ir ao ar também em julho. Claro que se aprovado pela direção da Globo tudo deverá ser bastante sutil, mas a competição entre as emissoras no próximo mês será cabeçuda. E quem irá garantir a sobrevivência da espécie dessa vez? Ouso dizer que é preciso ter muito peito, ou melhor, pescoço para alcançar o galho mais alto e quebrar esse círculo de medos e convenções que assombra os bastidores da televisão brasileira.

terça-feira, 12 de abril de 2011

A safra da vez

Há muito deixei de criar expectativa com a estreia de alguma telenovela na Rede Globo ou em qualquer outra emissora. Não sei se posso considerar perda de criatividade, saturação do modelo no mercado ou mesmo mudança de hábito dos telespectadores. A grande interrogação se deve ao fato de muita gente concordar que não se produzem mais novelas como antes. Mas não sou tão radicalista a esse ponto. Talvez se grandes sucessos como Beto Rockfeller, O Astro ou Tieta fossem lançados hoje não surtissem o mesmo efeito. A exemplo de Irmãos Coragem, Anjo Mau e Pecado Capital que bateram grandes índices de audiência na primeira versão e não emplacaram na segunda. Em contrapartida temos também Mulheres de Areia, A Viagem e Sinhá Moça que se mostraram bastante satisfatórias em seus remakes. As duas primeiras chegando até a superar o sucesso dos anos 70. Então fica difícil jogar toda a culpa nas novas produções ou dizer que somente as novelas do início da televisão brasileira é que eram dignas de apologias.

O que fez de Roque Santeiro, Vale Tudo, Pantanal e Xica da Silva grandes destaques da teledramaturgia nacional? Ouso dizer que a inovação. E até por que não? A ousadia. A primeira foi censurada em plena ditadura pela sua crítica bem-humorada ao fanatismo religioso e implicitamente ao regime militar em vigor na época. Já a trama de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères não teve medo de mostrar uma filha capaz de passar a perna na própria mãe em nome da sua ambição. Sem dúvida alguma, os mitos e segredos do mato e as paisagens exuberantes, totalmente opostas ao mundo urbano e agitado dos folhetins vigentes até o momento, fizeram de Pantanal a maior audiência de uma telenovela não produzida pela Rede Globo desde que o império de Roberto Marinho se consagrou. E o "atrevimento" de uma escrava que queria ser rainha nas Minas Gerais do século XVIII, com toda pompa, capaz de escandalizar a sociedade hipócrita da época com suas mais inusitadas peripécias, conquistou o país e marcou o nome de Taís Araújo como a primeira protagonista negra da história da televisão brasileira.

Partindo do pressuposto da inovação, seria errado pensar que toda obra que vai contra a maré tem mais chance de obter um grande êxito. É só lembrar fiascos recentes como o faroeste retratado na Bang Bang de Mário Prata e o grande reality show de Bosco Brasil em Tempos Modernos. Mas aí encontramos no caminho a clássica Que Rei Sou Eu?, que transportou os telespectadores para o período da Revolução Francesa, e com humor, bruxaria e combate conseguiu registrar sua passagem com bastante esplendor; e ainda a república das bananas na década de 50 com a irreverente e por momentos surrealista Kubanacan de Carlos Lombardi, que apesar de uma boa audiência, foi para muitos um projeto fracassado. Dá para perceber por aí que não basta querer inovar, é preciso saber como. Não à toa Glória Perez é a novelista que mais se destaca nesse quesito, trazendo sempre à discussão temas polêmicos e culturas desconhecidas do grande público, como o universo cigano e o islamismo. Em algumas tentativas acerta como Barriga de Aluguel e O Clone, e em outras como Explode Coração e América fica a dever.

Inevitavelmente, assim como na moda, as telenovelas também sobrevivem de ciclos, que vez por outra retornam. Provavelmente muitas tramas alcançaram o sucesso por virar a página no momento preciso. Se Pantanal quebrou o círculo de novelas urbanas e implantou na Globo o cenário rural com Renascer e O Rei do Gado, esse mesmo esquema saturou em Terra Nostra. Assim como as novelas de época se mostraram um ótimo filão para o horário das seis em O Cravo e a Rosa, e já chegou sem gás a Desejo Proibido. E ainda a temática espírita implantada em Alma Gêmea, que trouxe a segunda reprise de A Viagem, o remake de O Profeta, e a pincelada de Elizabeth Jhin pelo tema com Escrito nas Estrelas.

O que parece acontecer hoje com autores como Walcyr Carrasco, Aguinaldo Silva e Gilberto Braga é que eles estão há algum tempo em um território que ainda não se definiu qual é. As histórias não envolvem, não empolgam e quando pensamos que algo interessante está por vir, somos novamente decepcionados com a ausência total de originalidade. Não vou nem me estender ao ibope cada dia mais baixo, porque vejo isso como um processo natural, principalmente com o aumento de acesso aos canais pagos. Mas se vivenciamos uma fase improdutiva da telenovela, talvez tenha chegado a hora de virar a página mais uma vez. A estreia de Cordel Encantado ontem me surpreendeu e parece sinalizar essa mudança. Uma história como há muito tempo não se via na televisão. Baseada na literatura de cordel e com uma trama bem costurada já no primeiro capítulo, reis e cangaceiros se cruzam e prometem no mínimo prender os telespectadores por mais alguns capítulos. Só espero que seus personagens não se percam no decorrer da trama e que sua chegada abra novamente os caminhos para uma safra de produções originais e instigantes, que ainda é possível vivenciar na teledramaturgia de hoje.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Palpite

Descobri essa semana através da mídia que o autor de telenovelas Manoel Carlos irá se despedir da teledramaturgia em 2014, e que a atriz Lilia Cabral será sua última Helena. Desde que Mulheres Apaixonadas foi ao ar em 2003 havia o murmuro de que Maneco só faria mais uma única novela. Aí veio Páginas da Vida, a minissérie Maysa e Viver a Vida. Contudo, agora parece que não tem volta. E como ficam os telespectadores sem suas Helenas, sem o Leblon, sem Tom Jobim, sem o realismo cotidiano que só Maneco consegue traduzir em seus folhetins? Como fã incondicional do seu estilo de escrever, desde que vi a poesia traduzida em ficção na consagrada Por Amor de 1997, eu esqueço às vezes, que os autores de novelas também se aposentam, e que Maneco já terá 81 anos quando sua última obra for ao ar em 2014.

Ainda era um guri de 6 anos quando acompanhei pela primeira vez, uma novela de Manoel Carlos, Felicidade. Quatro anos depois, assistia História de Amor. Mas quero frisar aqui um marco em sua carreira de novelista, que me fez aos 12 anos me render por completo ao seu trabalho. "Do que você seria capaz por amor?" Esse era o teaser que ia ao ar com os atores da novela respondendo o que fariam por amor, antes mesmo das primeiras chamadas de Por Amor ir ao ar. Era uma história densa, profunda, mas que Maneco soube jogar com sutileza e poesia, tocando fundo na sensibilidade humana. Que mãe não sacrificaria sua felicidade em nome da felicidade do filho? Como julgar a atitude de Helena? Egoísta? Fraca? Superprotetora? Talvez todos esses adjetivos. Mas humana. Fica claro desde o início da trama que Helena criou errado sua filha Maria Eduarda, a tornando frágil, insegura, mimada e orgulhosa. E nem a cumplicidade de amigas que conservaram durante a vida conseguiu mudar esse fato. Gabriela Duarte conseguiu criar uma personagem tão autêntica que por anos ficou estigmatizada como a enjoada de Por Amor e gerou revolta em muitos telespectadores que criaram um site exigindo que ela morresse na trama.

Se por um lado tínhamos o conflito de Helena e sua filha, por outro tínhamos Suzana Vieira dando vida a uma de suas mais bem sucedidas personagens, Branca Letícia. Uma mulher amargurada no casamento, mãe de três filhos, mas que só dedicava amor a um, e ainda mantinha uma paixão escancarada pelo viúvo Atílio, Antônio Fagundes. A novela ganhava força com outros núcleos pesados como a família de Laura Trajano, a ex-namorada do filho mais velho de Branca, Marcelo, apaixonada até o fim da trama por ele, e que infernizava o casamento de Maria Eduarda. O núcleo de Orestes, o ex-marido alcoólatra de Helena, que buscava na sua filha de 6 anos do segundo casamento a força para se livrar do vício. E claro, o romance mais repleto de química da teledramaturgia brasileira até então: Milena e Nando. Carolina Ferraz esbanjou sensualidade, delicadeza e irreverência na sua personagem, e Eduardo Moscovis se encaixou direitinho entre a leveza e a objetividade de Milena. Sem falar que a trilha sonora dos dois, tanto Palpite de Vanessa Rangel, como Só Você de Fábio Jr, foram um dos maiores sucessos do ano. Assim como com a canção Per Amore de Zizi Possi marcou a trama e entrou na memória afetiva de cada telespectador.

Foi realmente uma trama memorável. E hoje, quase 13 anos após sua exibição, e coincidentemente no mesmo período em que era reexibida pelo canal Viva, eu consegui conhecer o local onde foi gravada sua última cena no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Helena, Atílio, Maria Eduarda, Marcelo e Marcelinho caminham em harmonia enquanto redescobrem o verdadeiro valor da vida, ou aprendem a amar, como Atílio enfatiza para Helena quando ela confessa que trocou as crianças na maternidade: "você não sabe amar... mas pode aprender". Bom, eu tenho um palpite, a teledramaturgia brasileira não será jamais a mesma depois que Manoel Carlos deixar definitivamente de assinar suas novelas. Sorte do ator que pôde um dia ter feito parte do elenco de alguma obra de Maneco. Meu amigo Júlio diz que eu sou rasgado demais quando teço elogios a Manoel Carlos, mas desculpa, Júlio, quando alguém consegue transmitir princípios de integridade familiar, numa verdadeira crônica do cotidiano, com suas harmonias e dissonâncias, usando sensibilidade e acima de tudo humanidade, eu não posso falar menos. É só aguardar ansioso sua próxima trama e lamentar ser a última.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Maktub - estava escrito

Simples, complexa, objetiva, intensa. Ainda se ouvia o murmuro da ovelha Dolly quando eu soube que a Globo ia lançar uma novela chamada O Clone. Só pelo título já seria no mínimo curioso, e ainda por ser uma novela das 8, na qual o realismo e o drama estão mais presentes, não havendo espaço para transformar um tema legal em chacotas do horário das sete ou na superficialidade das seis. Era o retorno de Glória Perez ao horário nobre, afastada desde Explode Coração em 1996. Hoje, quase dez anos após a estreia de O Clone, a Rede Globo finalmente decidiu reprisá-la no Vale a Pena Ver de Novo em grande estilo, com direito a chamadas na programação de ano novo do canal. Depois de rodar o mundo, ganhar inúmeros prêmios nacionais e internacionais, o estrondoso sucesso de Glória Perez põe fim no intenso círculo vicioso de novelinhas chinfrinhas que culminou no fiasco de Sete Pecados. Parece realmente que voltamos aos tempos em que se valia a pena mesmo rever um folhetim de verdade, com narrativas e personagens fortes que fizeram história. Só espero que essa fase renda alguns véus a mais.

É indiscutível a repercussão da novela de Glória Perez, sem dúvida alguma seu melhor momento na televisão brasileira. Mas o que fez dessa telenovela, um grande êxito no mercado nacional e mundial? Com certeza a clonagem humana foi o carro-chefe da trama, porém, a autora soube jogar esse tema com uma perspicácia e sensibilidade impecáveis. Seria muito fácil pegar a ideia de se criar um clone e elaborar uma novela em cima disso. O tema em si já é instigante. Mas 'como' ele é desenvolvido é onde se esconde todo o segredo da trama. Levar um tabu como a clonagem humana para o universo islâmico foi uma grande jogada da autora. Criar o motivo inicial para se produzir o clone em torno da história de irmãos gêmeos foi outro grande insight. E por fim, implantar o embrião clonado de um branco em uma personagem negra, amarrou a novela que seu destino não seria outro senão o sucesso.

Com uma teia de acontecimentos formada em volta de seu tema central, só seria preciso um romance a Romeu e Julieta para apimentar ainda mais a história. Lucas e Jade conseguiram criar uma história de amor tão forte que deixou os mocinhos de Terra Nostra a ver navios. Era um romance puro, ingênuo, mas avassalador e invencível ao tempo. O Clone, entre tantos assuntos, tratou da posição do ser humano diante de suas escolhas na vida. Uma das mais belas cenas mostra esse conflito, quando Lucas se olha no espelho de sua casa, deprimido com o rumo de sua vida, clamando uma chance de refazer o passado, e então seu clone Leo entra, vinte anos mais jovem, e Lucas o vê através do espelho. Seria sua chance de refazer o passado? Se vê duas décadas mais jovem e visualizar os inúmeros destinos que sua vida poderia ter tomado, faria qualquer um tentar um recomeço.

E não há como falar em O Clone sem mencionar sua magnífica trilha sonora composta por Marcus Viana, o mesmo responsável pela trilha de Pantanal, dez anos antes. A música tema de Murilo Benício e Giovanna Antonelli ganhou até versão internacional na voz de Michael Bolton. Na abertura, a banda Sagrado Coração da Terra, criada pelo próprio Viana, brincava com o poder da criação do homem ao lado de um dos trabalhos mais bem elaborados de Hans Donner. Destaque também de Lenini, com o tema de Juca de Oliveira e seu cientista Albieri, o homem que ousou brilhantemente ter o mundo em suas mãos e acordou mortal. Clonagem humana, islamismo, fé, amor, perda, desencontros, sonhos. Por todos esses motivos e muito mais é que O Clone merece ser vista a partir do dia 10, porque antes de ser uma novela sobre o avanço da tecnologia, O Clone é uma novela humana, que trata do paradigma tecnológico com o olhar e a alma de um ser humano.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

A Globo e os seus sete pecados - Parte 3

E continua aqui a saga da atual reprise da Rede Globo no Vale a Pena Ver de Novo. Desde quando foi anunciado que Sete Pecados seria a próxima novela a ser reapresentada, eu venho arquitetando um golpe diabólico contra as fitas originais de telenovelas como essa. Quem sabe tocar fogo no acervo, levar pra reciclagem, ou fazer linha de empinar pipa pra que ninguém mais seja obrigado a saber que uma trama desse nível, se é que existe nível, está novamente no ar. Depois da resposta prontinha da emissora ao meu e-mail indignado, achei que tinha perdido a batalha contra o império Plim Plim. Entretanto, "however", felizmente, dessa vez eles estão descobrindo que não se trata de um único e-mail inofensivo, mas de vários spams incontroláveis.

Um fato que não se pode questionar, é que o grande determinante de um programa permanecer no ar em um canal de TV é a sua audiência. E contra ela, nenhuma desculpinha enlatada pode resolver o problema. Pois bem! Com pouco mais de dois meses no ar, Sete Pecados é a pior audiência do horário desde 2000. E agora não sou eu quem está dizendo, mas os telespectadores. Segundo o blog do jornalista Daniel Castro, a emissora está cortando quase 60% das cenas originais do folhetim. Ou seja, correndo contra o tempo pra tirar do ar o que nem deveria ter entrado. E olhe que não foi por falta de aviso. No capítulo 43 da reprise já estavam sendo exibidas cenas do 108, resultando o equivalente a dois capítulos e meio da trama por dia. E nesse ritmo, ela se despede da programação em 7 de janeiro, com apenas 85 capítulos, e entrando para o time das novelas reprisadas mais picotadas da emissora.

Algum maluco de um jornal online vinculado a Globo, divulgou uma notinha anunciando que Sete Pecados bateu recorde de audiência no dia 02 de novembro. Bem, vamos averiguar o fato. O record a que faziam referência era 16 pontos na programação, o que até parece muito, levando em conta que a trama não sai dos 11 pontos desde que reestreou. Contudo, se analisarmos as telenovelas exibidas anteriormente, esse número não parece tão expressivo. Sinhá Moça já registrava esse índice diariamente quando foi reprisada, Mulheres Apaixonadas se mantinha nos 17, Alma Gêmea nos 19 e Senhora do Destino nos 21. Talvez por ser um feriado em que exaltamos os mortos, nada mais justo do que a audiência subir nesse dia. E nem deu tempo de se acostumar, o pastelão voltou aos seus 11 pontos rapidinho no dia seguinte.

A maior preocupação da Globo quanto à reprise é a sua influência no Vídeo Show (outro ser vegetativo da emissora) e na Sessão da Tarde, que acabam sofrendo com o desempenho da audiência da novela, que apesar de baixa, ainda se mantém na liderança (por falta de opção pior). Quem sabe em janeiro eles não lançam Beleza Pura, Eterna Magia, Bang Bang ou Pé na Jaca, e mudam o nome do programa também pra Vale a Pena Manipular de Novo. Afinal, essa é uma arte que a emissora domina como ninguém. E nem preciso dizer que estou de alma revigorada com o fiasco da trama. E deixo uma dica: da próxima vez, eles devem estudar melhor o conteúdo do meu e-mail se quiserem se manter na frente da Globo 2.

domingo, 5 de setembro de 2010

A Globo e os seus sete pecados - Parte 2

Insatisfeito em apenas comentar no Celeiro o meu desapontamento com a nova reprise do Vale a Pena Ver de Novo da Globo, Sete Pecados, escrevi um e-mail para a emissora, mesmo sabendo que não iria influenciar em nada a decisão deles e que pouca diferença fará a indignação de um quase paraibano com a sua programação. Contudo, surpreendentemente recebi a resposta ainda na mesma tarde. Eis abaixo a resposta da Rede Globo à minha crítica:

Samuel,

Há muitos fatores envolvidos na escolha de uma novela para ser reprisada no Vale a Pena Ver de Novo. Alguns são artísticos - há obras que ficam datadas, por exemplo - e outros tecnológicos, que apresentam um impacto na qualidade visual da obra. Além disso, novelas com temas leves, histórias alegres, divertidas, românticas e com generosas pitadas de aventura têm maiores chances de serem escolhidas.
Geralmente, as novelas das seis e das sete se enquadram nessa categoria. Quando a Rede Globo encontra novelas mais antigas, que atendem aos critérios citados, procura dar preferência a estas.
Lembramos, ainda, que as novelas exibidas no Vale a Pena Ver de Novo são de censura livre ou sofrem edição para que se adequem ao horário.
Respeitamos sua opinião e crítica. Suas considerações serão levadas ao conhecimento da direção de programação da Rede Globo.

Cordialmente, Rede Globo.


Ou seja, novelas insignificantes como Sete Pecados é que tem vez na programação. Eles mesmos assumem que "novelinhas" alegres, bobas, babacas é que podem ser reprisadas. Então pra que serve esse programa, se o intuito maior que seria exibir tramas que marcaram épocas, não acontece? Se a censura anda vetando as melhores sinopses do horário nobre, então por que a emissora não lança um Vale a Pena Ver de Novo à noite? Ou mesmo se as novelas das 18h e 19h são as que têm mais chance, por que não buscar alguma que realmente faça jus ao título do programa? Sete Pecados foi a decadência rasgada da programação. Sabem aquelas novelas que passam, simplesmente passam e logo vem outra? Uma dessas foi Sete Pecados. A loucura é maior ainda se formos analisar quais eram as outras duas opções do canal para reprise: O Profeta e Beleza Pura. A primeira remake de Ivani Ribeiro, que tentando seguir o exemplo de A Viagem, andou longe de conseguir o mesmo sucesso da versão original, e a segunda que não merece nem comentários.

É lamentável ver que uma das maiores ou a maior produtora de teledramaturgia do mundo, conhecida internacionalmente, esteja produzindo apenas por produzir, sem se preocupar com o conteúdo daquilo que dissemina. E a culpa é de quem? Autores? Atores? Modelos prontos? Padrões? Desse modo, dá pra entender que se um dos principais critérios das reprises do Vale a Pena Ver de Novo são produções recentes das faixas das 18h e 19h, não tem como o programa reprisar tramas relevantes, já que nada significante nos últimos anos tem sido produzido.

sábado, 4 de setembro de 2010

A Globo e os seus sete pecados




Vivemos no país da telenovela. Da maior exportadora mundial de novelas com qualidade. Uma verdadeira indústria do entretenimento e da ficção na telinha. Alguém poderia me citar ao menos uma telenovela que ficou marcada na memória? Com certeza muitas pessoas terão até mais de uma, e muitas novelas serão ditas, mas tenho certeza que ninguém dirá Sete Pecados. Então por que será que esse folhetim será a próxima atração do Vale a Pena Ver de Novo? Não dá pra entender. A Rede Globo tem atualmente mais de 260 telenovelas gravadas, grandes sucessos que correram o mundo, e é incapaz de reprisar uma trama que realmente valha a pena.

Aliás, tramas que valham a pena está cada dia mais em extinção no país. Foi-se o tempo das vacas gordas, quando se acompanhava um sucesso atrás do outro, quando era gostoso sentar diante da tv pra assistir um capítulo, se deleitar com os personagens e finalmente rever um grande sucesso depois de anos. O que nos sobra hoje são histórias monótonas, repetitivas, fatigantes, que só buscam explorar o ator ou a atriz bonitinhos e entupir as nossas veias de vácuo e merchandising.

Eu nem cheguei a pegar o início da teledramaturgia brasileira, nem acompanhei clássicos como O Bem Amado, Dona Xepa, Irmãos Coragem ou Roque Santeiro, embora tenho visto alguns capítulos da última em sua reprise. Contudo, ainda peguei o final da boa safra da emissora, e acompanhei Que Rei Sou Eu?, Vale Tudo, Tieta, Pedra Sobre Pedra, Renascer, A Viagem, Mulheres de Areia e O Rei do Gado. Claro, que telenovela é igual a música e religião, cada qual escolhe a sua, independente da opinião alheia. Então ainda consegui extrair o sumo de algumas outras no decorrer das décadas seguintes como o suspense policial de Sílvio de Abreu A Próxima Vítima, a fictícia Greenville em A Indomada e o caso Pedrinho em Senhora do Destino de Aguinaldo Silva (grande Nazaré), as Helenas de Maneco em Por Amor, Mulheres Apaixonadas e Páginas da Vida, a clonagem humana de Glória Perez em O Clone, e até o mundo irritante das Celebridade de Gilberto Braga.

Quanto ao humor não consigo deixar de citar duas novelas de Carlos Lombardi, que embora severamente criticadas, me divertiram pra caramba. Eis que falo de Uga Uga e Kubanacan, com uma "quedinha" maior pela última. A sátira a uma república das bananas na década de 50 era sensacional, acompanhado das atuações hilariantes de Adriana Esteves e Vladimir Brichta. Da Cor do Pecado entrou na minha lista por vários motivos, entre eles, a ambientação no Maranhão. Era um romance bobo com uma vilã óbvia, mas cheio de artimanhas, uma história que acabou agradando pela simplicidade.

Fechando a lista, acrescento duas tramas de Ana Maria Moretzsohn, Esplendor, ambientada no charme da década de 50, e Estrela-Guia, que apesar da crítica no fato de ser a novela de Sandy, foi uma história que nos levou de volta ao mundo alternativo dos hippies, do filme Hair, e a questionar os valores e os costumes da vida moderna. E por fim, a vida de jovens em repúblicas, em uma cidade do interior de Minas, ao lado de um romancezinho água com açúcar dos personagens centrais, me trouxe uma certa afinidade com a obra de Emanuel Jacobina, Coração de Estudante. Fora do universo global, as únicas que se sobressaem pra mim são Pantanal e Xica da Silva da Manchete e Éramos Seis do SBT.

É óbvio que entre essas novelas que citei haverá muita gente a questionar essa ou aquela, e citarão talvez outras que tenham sido relevantes ao seu ponto de vista. Entretanto, essas seleções são cada vez mais raras de fazer hoje em dia. Noveleiro desde os 3 anos de idade, pode-se dizer, hoje não acompanho mais novelas, salvo algumas raríssimas exceções, e fico tremendamente revoltado e impotente quando vejo que o único canal que poderia trazer de volta os bons tempos da teledramaturgia, se dedica em reexibir xaropes da despropositada nova safra da emissora e chamar de grande sucesso a infeliz Sete Pecados, que ainda nem começou e já devia ter terminado.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Sei lá... Maneco Tem Sempre Razão

Maneco! Maneco das Helenas, do Leblon, da família. Maneco da Regina Duarte, do Doutor Moretti. Maneco do amor de mãe incondicional, das mulheres e suas paixões. Maneco do singelo. Maneco da Bossa Nova, do Tom Jobim e da Miúcha. Maneco, Maneco, Maneco... Eis um homem que consegue um dos maiores feitos da teledramaturgia brasileira, quiçá do mundo. Com seus folhetins recheados de realismo, de uma vida como a minha, como a sua, consegue manter por mais de 200 dias no ar uma história sem vilão. Tudo bem, alguns podem se queixar pela ausência dele, mas na busca de uma verdade próxima ao dia-a-dia da sociedade, Maneco consegue criar uma trama, na qual todos podem ser os vilões e os mocinhos, afinal, ninguém é perfeito e todos estamos susceptíveis a falhas, a cometer erros e a mudar.

Me lembro da primeira novela de Manoel Carlos que assisti. Ainda tinha 6 anos, quando me envolvi nas aventuras das crianças Bia e Alvinho, e nas armadilhas de Débora. Ainda havia a figura forte da vilã em Felicidade, o que não demorou muito a se esfacelar como foi em História de Amor e Por Amor, sua primeira novela no horário nobre. As vilãs de Por Amor eram tão fortes como frágeis. Se Laura era obcecada por Marcelo, a ponto de cometer loucuras, era também sensível e sonhadora; e Branca, uma mulher de personalidade forte e infeliz no casamento, não suportava a solidão e sonhava viver seu antigo amor. Figuras humanas.

Prefiro assim. Ao invés de vilões capazes de tudo sem o menor escrúpulo ou fragilidade, gosto de tipos humanos, com suas qualidades e seus defeitos, suas forças e suas fraquezas. Um feito memorável aconteceu em Mulheres Apaixonadas, quando todos, ou quase todos os personagens, tiveram seus momentos de protagonista e os de figurante também. E como Maneco fez isso? Bom, o nome da novela já dizia, se a trama era sobre as mulheres e suas paixões, nada mais justo do que enfocar cada história no seu devido tempo. E assim, a paixão de Helena teve seu momento, a de Heloísa, a de Luciana, a de Edwiges, de Clara e Rafaela, de Raquel, de Estela... Quando uma história se destacava, as demais se afastavam, até chegar o seu momento. Foi uma novela incrível. A minha preferida do Maneco.

Viver a Vida se foi. Um final justo. Nada de especial. Por momentos passava a sensação de ser apenas mais um capítulo da novela e que no dia seguinte a teríamos de novo. Bem Maneco. Olha, já fui bastante noveleiro, acompanhei novelas de diversos autores, e digo que só teve um, ou melhor, uma autora que me encantou tanto quanto o Maneco. Ivani Ribeiro. A responsável pela sensacional A Viagem, a melhor novela com abordagem espírita até hoje. Quem quiser atirar pedra, fique à vontade, tem todo o direito, muitos até o criticam por aparecer somente a elite do Leblon em suas histórias, que seja! Porque pra mim, podem-se passar anos, se eu souber que uma novela de Manoel Carlos vai estrear, não duvidem que reservarei meu lugar em frente à primeira tv que aparecer.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Velhos Sonhos

O que um perfume, uma música ou uma ‘novela’ não são capazes de fazer. Por mais que as pessoas tentem me convencer do contrário, me chamem de nostálgico, de baú, é inevitável o fascínio que desenvolvo e a ligação que ainda preservo com o meu passado. Somos hoje o fruto necessariamente das nossas escolhas, dos caminhos tomados, enfim, do nosso passado. Desde muito pequeno fui encantado pelos mais de seis meses de aventuras e desenlaces das tramas da televisão brasileira. Me interessava bastante as mudanças que determinados personagens sofriam, o seu estado inicial, as pessoas que conhecia e não conhecia no início; e o seu estado final, com as pessoas que passou a conhecer e as que ficaram pra trás.

Imaginava que a nossa vida era exatamente assim. Hoje estamos aqui, amanhã ali, hoje conhecemos algumas pessoas, amanhã outras que nunca vimos estarão no nosso circulo de amizades. A grande diferença é que na telenovela existe o Vale a Pena Ver de Novo para podermos embarcar em todos os estágios como se vivêssemos tudo novamente. Na vida real, isso não acontece. O que passou, passou. No máximo fica alguma fotografia, um pequeno vídeo, mas todas as etapas nunca mais serão recuperadas. O tempo corre, as pessoas mudam, os sonhos se perdem, os momentos são esquecidos. Por quê?

Essa semana acompanhando alguns capítulos da atual reprise do Vale a pena Ver de Novo, Mulheres Apaixonadas, descobri que se ligamos nossos sonhos, nossos momentos a um perfume, uma música ou mesmo uma telenovela, podemos sim reviver muita coisa. Esse é o poder mágico que determinadas substâncias têm sobre algumas de nossas percepções. O cheiro atravessa o corpo e leva a alma aos lugares mais remotos do tempo, assim como a melodia nos faz voltar dez anos em apenas 3 minutos. Desse modo, encontrei outro túnel do tempo que nos faz viajar sem sair de onde estamos: a telenovela.

Quem nunca tentou se lembrar onde estava, o que fazia e até os detalhes da sua vida no ano da novela que está sendo reprisada? É sempre assim, basta passar a propaganda da reapresentação que já começa “ah, nessa época eu morava em tal lugar”, “eu lembro que eu sempre perdia o primeiro bloco porque estudava à noite”, “eu adorava dizer tal bordão”. É o passado dizendo “olá” de maneira bem sutil. Do mesmo modo aconteceu comigo.

E Mulheres Apaixonadas tem uma importância muito grande quando falo de novelas que nos lembram o passado. Ela foi ao ar no meu primeiro ano de cursinho em Natal, um garoto de 18 anos, cheio de sonhos e acreditando firmemente que todos eles poderiam acontecer. Suas músicas eram como trilha sonora dessa minha fase. E assim, sem perceber, Mulheres Apaixonadas se transformou em um grande detalhe da minha vida em 2003. Hoje, escutando a melodia, vendo os personagens, consigo até sentir o cheiro do apartamento, das revistas, do bairro, das roupas, o cheiro dos sonhos, de uma fase inesquecível.

Quando alguém me pega hoje acompanhando a novela em alguns momentos que tenho para assistir, pensa que se trata apenas do gosto por ela, dos conflitos, da história. Não! Acompanhar Mulheres Apaixonadas é como tentar resgatar aqueles momentos perdidos, aqueles sonhos que enchiam de alegria os meus dias. E como gostaria de poder vivê-los novamente, de poder ter outra vez 18 anos, de sonhar... ah, sonhar!!

Sempre comparando as novelas com a nossa vida, nem sempre estamos satisfeitos com o estado final de determinados personagens, preferindo até mesmo seu estado inicial. Na vida acontece o mesmo. Eu tinha bem mais força e paixão pela vida em 2003 do que agora. Respirava fielmente todos os sonhos que hoje a universidade conseguiu destruir quase totalmente. Posso até estar mais rico em sabedoria do que antes, mas trocaria tudo pela convicção e anseio de outrora. Contudo, fico feliz que ainda possa recordar esse e outros passados mágicos através de elementos incríveis que o tempo não pode jamais apagar.

Outro dia baixei pela internet o cd Meu Jeito de Ser de Angélica de 1993, uma outra grande recordação. Escutá-lo enquanto dou minha geral no apê uma vez por mês, me transforma, eu viajo, grito, tento fortemente retornar àqueles momentos, àqueles lugares. Nossa! Algumas vezes até consigo, e quando isso acontece, a emoção é inevitável. Não sei como as outras pessoas pensam, mas o que me faz agüentar a saudade dessas épocas e só viajar de vez em quando, é a sensação de que um dia elas irão voltar, é uma certeza de que poderei reviver algo semelhante de novo no mesmo lugar, mesmo que algumas vezes parece impossível. É como se ainda estivesse construindo a novela para que um dia ela seja reprisava novamente no Vale a Pena Viver de Novo.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

E Lá Vem o Trem...

Mais um novelo vai começar a se desmanchar a partir de segunda-feira na Rede Globo. Dessa vez trata-se de Ciranda de Pedra, de outro senil da teledramaturgia brasileira, Alcides Nogueira. A novela vem substituir a atual Desejo Proibido de Walter Negrão. Baseada na obra de Lygia Fagundes Telles, as chamadas de Ciranda de Pedra tentam mostrar que vem mais uma novidade no ar. Ou seja, Força de um Desejo parte 12. Desde 1999 quando a Globo descobriu que voltar a produzir novelas de época no horário das 18h era um bom negócio, ela vem investindo maciçamente.

Só para recapitular. Desde Força de um Desejo até agora foram 11 novelas de época que se alternaram quase que seguidamente no horário. Na lista temos Esplendor, O Cravo e a Rosa, A Padroeira, Chocolate com Pimenta, Cabocla, Alma Gêmea, Sinhá Moça, O Profeta, Eterna Magia e Desejo Proibido salvo algumas exceções como Estrela-Guia, Coração de Estudante, Sabor da Paixão, Agora é Que São Elas e Como Uma Onda. Agora vem mais outro “trunfo” da emissora. Uma estratégia que já vem sendo utilizada desde 2004 com Cabocla, o remake de tramas de épocas. Ah, mas Ciranda de Pedra não é um remake, é só uma “nova” adaptação do livro homônimo.

Não sou contra as novelas de época, pelo contrário, sou muito fã de obras que se passam em outros séculos, acredito que elas servem de resgate histórico e enriquecem o nosso conhecimento a respeito de costumes, hábitos e comportamentos. No entanto, não é isso que eu tenho encontrado nos folhetins ditos de época da Rede Globo. Só pra começar, todas as mocinhas que se apaixonam nas histórias são verdadeiras Mias Coluccis. Enfrentam os pais, saem de casa, moram sozinhas, se entregam aos amores. Não desmerecendo as jovens daquelas épocas, mas os pais exerciam uma pressão muito forte nas famílias para os filhos serem tão rebeldes como os que são representados. Tem dias que até parece um capítulo de Páginas da Vida ou da maçante Rebelde.

O encanto que dominava as verdadeiras novelas de época se perdeu no espaço. Bons tempos aqueles em que podíamos mergulhar na São Paulo de 30 com a simplória, porém rica Éramos Seis, podíamos vivenciar a força das espadas e a magia dos bruxos na França do século XVIII em Que Rei Sou Eu?, ou mesmo a escravatura e a vida pudica dos arraiais em Xica da Silva. Quando novela de época se tornou puramente negócio, sua essência desapareceu.

E agora vem o Vale a Pena Ver de Novo reprisando a chata e aguada Cabocla que mal disse fim. Se é pra repetir novelas das 6 que não fazem jus ao título do programa, é preferível reprisar clássicos como Mulheres de Areia, Barriga de Aluguel, Felicidade ou até mesmo sucessos recentes como Estrela-Guia e Esplendor. Coração de Estudante foi um segundo de lucidez de algum gênio do Projac.

O que falta de verdade para tornar novela de época, realmente novela de época é criatividade. E não acredito que seja possível a Benedito Ruy Barbosa, Alcides Nogueira, Walcyr Carrasco e tantos outros, buscar novidades a essa altura do campeonato. Só Walcyr Carrasco que escreveu a célebre Xica da Silva na extinta Manchete, se especializou em dramas à la Maria del Barrio na Globo, e ainda consegue gabarito quando escreves absurdos que distorcem a filosofia espírita como Alma Gêmea.

Quando Desejo Proibido ia começar até me animei um pouco. Parecia ser uma história diferente com um autor que não tem muitas referências em tramas antigas. Mas bastou chegar na cena do trem no primeiro capítulo, quando Laurinha conhece o padre Miguel que já me remeti a Sinhá Moça, Cabocla, Chocolate com Pimenta e tantas outras. É incrível como o mesmo ganha sentido de novo, quando é mostrado numa nova roupagem.

Admiro muito os grandes autores como Benedito Ruy Barbosa, Manoel Carlos, Glória Perez, Gilberto Braga, Sílvio de Abreu, Aguinaldo Silva, o próprio Alcides Nogueira, mas eles já deram sua cota de contribuição para a teledramaturgia brasileira. É preciso surgir uma nova fase com nomes que marquem toda uma nova geração. O grupinho de autores da Globo precisa urgentemente passar por uma faxina. Abrir as portas para as novas mentes, como já vem sendo feito com João Emanuel Carneiro, que inovou em Da Cor Do Pecado de forma simples e já conseguiu espaço no horário nobre. Espero que não seja o mesmo resultado da sua segunda e inóspita investida Cobras & Lagartos.

É uma tarefa difícil e nem todos os novatos conseguem se dar bem. A estreante Andréa Maltarolli tenta fazer algo diferente mexendo pra aqui e pra lá na insossa Beleza Pura, que de beleza não tem nada. O jeito, enquanto a galera não muda, é continuar não esperando muito do que vai começar. Contudo, acreditando que Alcides Nogueira foi autor de sucessos como as minisséries JK e Um Só Coração ao lado de Maria Adelaide Amaral, é possível que saia alguma coisa decente a partir de segunda-feira. É só esperar e conferir a estréia de Ciranda de Pedra. Mas se eu encontrar logo no primeiro capítulo algum futuro casal que se conhecem numa viagem de trem, desligo a TV na mesma hora.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Eternamente Seis

O romance brasileiro Éramos Seis de Maria José Dupré, publicado em 1943 e premiado pela Academia Brasileira de Letras foi uma das obras brasileiras mais adaptadas para o áudio-visual. O livro foi traduzido para o espanhol, francês e sueco e ganhou quatro adaptações em forma de telenovela e uma adaptação para o cinema.

Maria José Dupré ou Sra. Leandro Dupré, nasceu em Botucatu, estado de São Paulo em 1905. Estudou pintura e música e cursou a Escola Normal Caetano dos Campos, quando se formou professora. Sua vida na literatura começa após casar com o engenheiro Leandro Dupré. Foi responsável por vários clássicos da literatura infanto-juvenil, mas foi a história que se passa na São Paulo de 1921 a 1942, quando a cidade vivia em volta de casas antigas, intercaladas pelas linhas dos bondes e com uma população de 600 mil habitantes, que a consagrou.

Nesse cenário onde se encontram tantas mulheres dedicadas ao lar e outras que sonham que a independência profissional surge a história de Dona Lola e sua família, uma mulher batalhadora e dedicada ao marido Júlio e aos seus quatro filhos, Carlos, Alfredo, Julinho e Maria Isabel. A vida de Lola é mostrada desde a infância das crianças, até a sua velhice. Conforme os anos passam, a vida de Lola também se modifica. Júlio morre sem saber que sua casa ainda não foi paga, Alfredo some pelo mundo, Isabel se casa com um homem separado e Julinho se casa com a filha do patrão do seu pai e sofre com os ataques da mulher. Assim, os seis membros da família que dão nome à obra vão se desfalecendo.

A primeira adaptação do livro se deu ainda nos anos 40. Uma produtora argentina se interessou pelo enredo e filmou a história, obtendo grande êxito. Uma década depois do filme, no ano de 1958, a Rede Record fez sua primeira versão do livro em formato de telenovela ao vivo e com apenas duas exibições semanais. Gessy Fonseca foi a protagonista da trama. Nove anos mais tarde, em 1967, a TV Tupi resolveu adaptar o romance, tendo o roteiro de Pola Civelli e a direção de Hélio Souto. Cleyde Yáconis deu vida a personagem Lola e Silvio Rocha ao seu marido Julio. A novela ficou no ar apenas durante um mês no horário das 19h.

A terceira versão da obra foi produzida novamente pela TV Tupi no ano de 1977 com texto de Rubens Ewald Filho e Sílvio de Abreu, que iniciava sua carreira de roteirista. O papel de Julio aqui ficou com Gianfrancesco Guarnieri e o de Lola com Nicette Bruno, aclamada pela crítica e vencedora de diversos prêmios pela sua interpretação. Foi exatamente essa versão que deu base para sua última adaptação pelo Sistema Brasileiro de Televisão (SBT) em 1994. A novela foi ao ar de 9 de maio a 5 de dezembro, em 180 capítulos, sendo a única novela da emissora a ganhar o Troféu Imprensa na categoria de Melhor Novela. Irene Ravache foi quem comoveu e envolveu o país no drama de Lola nessa versão, ao lado de Othon Bastos.

A Revolução Constitucionalista de 1932 de São Paulo esteve presente na novela. O estopim da revolta no centro da cidade em 23 de maio foi retratado e serviu de pretexto para a morte de Carlos, o filho mais velho de Lola. Sua morte fez referência aos cinco jovens assassinados por partidários governistas que deu origem a um movimento de oposição conhecido como MMDC (Martins, Miragaia, Dráuzio e Camargo), as iniciais dos nomes dos jovens. O fato servia de crítica social à ditadura imposta por Getúlio Vargas e alertava ficcionalmente, com a figura de Carlos, sobre a possível existência de outros assassinatos desconhecidos na revolta.

Éramos Seis foi considerada o último grande sucesso em termos de telenovela da TV Tupi. Sua versão de 1977 foi a mais fiel adaptação do livro de Maria Dupré. O remake do SBT de 1994 foi o maior sucesso de telenovelas já produzidas pela emissora. A novela alcançou 20 pontos de audiência e chegou a bater de frente com a Rede Globo, que apresentava na época o remake de A Viagem no mesmo horário.

Mesmo desconhecendo a obra original e as quatro primeiras versões no cinema e na televisão, a adaptação do SBT foi extremamente gratificante e impecável desde o roteiro à direção, ambientação, trilha sonora e interpretação dos atores. Uma história simples, comovente e cheia de realismo, que tornou possível a inúmeras gerações o conhecimento de um clássico escrito 50 anos antes.

Éramos Seis na história, éramos seis na quantidade de obras produzidas. Um livro, um filme e quatro telenovelas. Eternamente seis.