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sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Bem antes do útero

E naquela tarde, Pablo cruza com Marcelo na entrada do Pavilhão da Reencarnação.

– Oi! Você por aqui... Vai reencarnar também? – pergunta Pablo.

– Não. Vim só pegar alguns dados do planejamento do meu primo – responde Marcelo.

– Ah, tá. Tenho te visto pouco aqui. O que anda fazendo? Ainda ajuda na produção do setor de alimentos?

– Só meio expediente. Sou concursando agora.

– Como?

– Estudo pra concurso público. Minha turma tem mais de cem alunos. Não viu os outdoors? É aquele Aprovação Master com os professores que chegaram da Colônia Bom Jesus do Sucesso.

– Não, eu nem sabia que havia concurso aqui no astral.

– Não. Não há.

– Então...

– É que pretendo prestar concurso pra analista da Receita Federal em 2035 no Brasil. Os professores conseguiram ter acesso à maior parte dos conteúdos que provavelmente irão cair nessa época e nos passaram.

– Nossa! Mas tá um pouco adiantada essa sua preparação, não? E se você resolver seguir outra profissão quando encarnar?

– Não, não tá não. Minha futura tia se preparou com duas encarnações de antecedência pra analista do senado. Dom Pedro Segundo ainda governava o Brasil e ela já estudava aqui numa turma intensiva pra esse cargo. E eu já planejei tudo. Com os conhecimentos que já obtive aqui, provavelmente eu consigo terminar o ensino médio com 14 ou 15 anos. Faço faculdade de economia ou administração - porque não tenho muita afinidade com direito -, paralelamente a um bom curso preparatório, e em seguida presto o concurso. Se eu tiver sorte, passo no primeiro.

– Com toda essa preparação, é impossível não passar.

– Não é garantido. Só na minha sala tem uns quarenta que querem o mesmo cargo que eu. E a tendência é a concorrência ficar cada vez maior. Mas eu tô me preparando, se não for no primeiro, tento o segundo, o terceiro... E você? O que pretende ser dessa vez?

– Ah... bom... Eu tô me planejando pra fazer filosofia, que é uma ciência que tenho interesse.

– Eu não aconselho o setor privado. Ele é até bom pra quem tem determinação, mas os resultados são a longo prazo, você só começa a ganhar bem lá pelos quarenta, e ainda assim pode ir pra rua a qualquer hora. No serviço público além da estabilidade, você tem a chance de ganhar bem antes dos vinte e cinco. A geração que anda reencarnando agora tá toda focada nos concursos. Se eu fosse você investia também. Bom, deixe eu ir. Minha aula começa em uma hora. Sucesso pra você.

Marcelo sai. Pablo pensa um pouco e o chama.

– Marcelo! Se eu entrar na sua turma agora, será que eu ainda tenho chance de conseguir técnico administrativo nessa encarnação?

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

O espelho de alguém

Quando eu era mais novo, fã de Sandy e Junior, naturalmente, queria ser como Junior. Deixava o cabelo igual, usava roupas semelhantes, tentava reproduzir seu jeito de se portar, buscando me espelhar ao máximo, naquela figura que para mim era um ícone, um modelo a ser seguido. Mas mesmo com todos os esforços, era impossível me igualar por completo. O cabelo não tinha o mesmo caimento, o pescoço dele parecia ser mais comprido, o sorriso era mais espontâneo. Contudo, a diferença mais crucial estava nos ombros. Os meus sempre foram muito largos, ombros de nadador, como me diziam, mesmo sem praticar o esporte. Junior, por sua vez, tinha a espádua curta, descendo numa nítida inclinação a partir do pescoço. Aquilo era realmente uma diferença anatômica que eu não poderia corrigir. Incontáveis vezes sonhei ter seus ombros curtinhos para que as roupas ganhassem em mim o mesmo contorno que ganhavam nele. Mas nem tudo poderia ser perfeito.

Certa vez, durante uma entrevista no programa da Xuxa, Junior foi questionado por ela, sobre algum possível defeito que gostaria de corrigir em seu corpo. E inesperada foi a minha reação quando descobri que Junior desejava ter ombros mais largos. Era isso mesmo! Aquilo que para mim sempre foi um empecilho para me “igualar” a ele, era exatamente o que Junior gostaria de ter. Foi só aí que me dei conta da ideia absurda que estava alimentando. A perfeição que eu buscava não existe, porque nunca ninguém será unanimemente perfeito. A anatomia de Junior era a ideal aos meus olhos, porque era a que estava nele, a que fazia parte do ídolo que idolatrava. Mas não tinha me ligado ainda que ele também poderia ter seu próprio ícone a se espelhar. Comecei então a dar valor aos meus ombros, afinal, não eram os de Junior, mas eram os que ele desejaria ter, e sabe lá quem mais.

Esse episódio me voltou à mente essa semana durante uma reunião no centro espírita que frequento. Sempre ao chegar, recebemos um panfleto com algumas frases, geralmente extraídas do livro Vida Feliz, de Divaldo Pereira Franco, pelo espírito Joanna de Ângelis. E nesse dia, uma das frases dizia o seguinte: “mesmo que não saibas, és exemplo para alguém. Sempre existem pessoas que estão observando os teus atos, mesmo os equivocados, e se afinam com eles. Desse modo, és responsável, não só pelo que realizes, como também, pelo que as tuas ideias e atitudes inspirem a outros”. Nunca tinha me questionado ser exemplo para alguém. Eu que sempre busco o espelho do outro. Quem iria querer me ter como modelo para qualquer coisa? Nunca faço nada de interessante. Sou um tipo tão normal que beira a anormalidade. Só um desavisado poderia enxergar algo útil em mim. Mas... e se existe mesmo esse alguém? Se realmente estou servindo de base para outra pessoa traçar suas atitudes e comportamentos? Há um perigo então aqui.

São tantos rostos cruzando nosso caminho diariamente. Tantos passos apressados em ruas que nunca pisamos, pessoas que jamais tornaremos a rever. Será que durante uma travessia numa calçada, não estamos sendo observados e inspirando alguém a nos copiar? Um simples gesto, um bater de cabelo, o andar, um sorriso. Qualquer detalhe pode despertar o interesse do outro. Afinal, involuntariamente, somos a perfeição de alguém. Nossa vida pode realmente influenciar as decisões do próximo, e ainda atrair semelhantes das variadas esferas. Encosto, arrimo, obsessor, estão todos ligados a quem de alguma forma facilitou o acesso à pessoa. Quem sabe não temos o sorriso, a roupa, o cabelo ou o ombro perfeito para algum desencarnado? Já li um caso de um espírito que se ligou a uma atriz famosa para garantir que ela não deixasse de interpretar determinado papel. Provavelmente, ele estava mais envolvido com a vida da personagem do que com a da atriz.

E exatamente como Junior não fazia ideia da fixação que eu tinha em me assemelhar a ele, essa atriz não poderia imaginar os transtornos que sua personagem causara nesse fã. É correto então atribuir aos dois a responsabilidade dos atos cometidos pelos fãs? Tenho minhas dúvidas. Não havia uma intenção direta dos artistas para os fãs tomarem determinadas atitudes. Por outro lado, independente da intenção, foi através do contato indireto entre eles que os fãs agiram. Há sim, alguma responsabilidade, com certeza, em todos os nossos atos, mas não há como saber de onde pode surgir a próxima identificação, que tipo de pensamento ou atitude pode desencadear essa afinação. Mesmo os mais singelos comportamentos, podem despertar bizarras situações. É imprevisível! Por isso, o importante mesmo é saber que observamos e somos observados todos os dias, por quem menos imaginamos. E não podemos esquecer nunca, que enquanto buscamos um espelho no outro, também estamos sendo o espelho de alguém.

sábado, 2 de julho de 2011

Lembrete


Como identificar os sinais que a vida nos dá? Não é normal... uma leveza no corpo, ou seria um peso? Não sei como descrever ao certo, algo semelhante ao estado de alguém que fez uso de tranquilizante para dormir, mas numa hora improvável. Não havia tomado nada ainda. Era cedo, queria assistir a novela das nove. Mas cedi ao descanso e em pouco tempo estava dormindo. Acordei duas horas depois. Como perdi a novela, continuei a assistir a segunda parte do episódio da série Ghost Whisperer que tenho acompanhado online. O seriado americano sobre a vida de uma mulher que consegue manter contato com espíritos presos à Terra. Cada dia me fascina mais desvendar os mistérios da vida na lógica espírita. Só lembrar que cheguei a essa série através do livro do co-produtor executivo e médium James Van Praagh. 

Exatamente à meia-noite meus olhos foram atraídos pelo relógio digital do computador. Pouco tempo depois me vi escrevendo em uma comunidade no orkut sobre um rapaz que morreu recentemente. Seus amigos criaram uma comunidade, e na descrição falava-se sobre a sobrevivência da amizade entre as intempéries da vida. Senti que devia escrever algo, já que sei o que é ver amigos ir pra longe, sem deixar de ser o que sempre foram. Até aqui tudo não fazia muito sentido, até eu conferir a data das postagens dos fóruns: 02 de julho. A ficha caiu! Cinco anos da morte de meu pai.

Não posso dizer que tudo o que aconteceu foi interferência dele, mas preciso admitir que fiquei surpreso quando constatei que era realmente o dia. Diferente da minha mãe, não sou muito ligado em datas, e havia esquecido completamente. Seria ele, de certa forma, querendo me lembrar? E sim, por quê? Já parei em muitas oportunidades para pensar sobre o destino do meu avô, da minha tia e do meu pai. Será que encontraram logo a luz? Será que me ajudaram todas as vezes que pedi proteção antes de subir em um palco? Ou será que eles é que precisam da minha oração? Já os senti distantes, próximos, mas ainda não tive essa certeza.

É inebriante a sensação de imaginar um mundo invisível a nossa volta, capaz de nos influenciar tanto para o bem como para o mal. Sempre senti uma ligação muito íntima com o espiritual desde criança. As histórias de alma penada me assustavam, e despertavam minha curiosidade. No fundo queria ser médium. As missas de domingo na igreja nunca tiveram um sentido místico de verdade. Jamais fui a uma com o intuito de alimentar a alma, como nos encontros nos centros espíritas. Uma hora ou outra nossa alma procura o seu equilíbrio. Hoje as histórias de fantasmas não me assustam mais, e ficaria muito feliz se descobrisse, em mais alguns anos, que teria mesmo a capacidade de me comunicar com os mortos. Sei que é um trabalho difícil, porque na falta de preparo, espíritos perturbados podem interferir negativamente em nossa vida, contudo, era algo que gostaria de arriscar, já que isso é o que mais tem me movido nos últimos tempos. Penso que traria um grande alívio a minha alma irrequieta. Tudo faz tão mais sentido.

Não sei se consegui captar a mensagem que recebi do meu pai essa noite. Se é que foi uma mensagem, e se é que foi dele. Mas tenho absoluta certeza que alguma comunicação se estabeleceu aqui. Não acredito em coincidências. Elas existem pela ajuda de alguém. Se foi realmente meu pai querendo que eu me lembrasse dele, ou simplesmente sua maneira de se mostrar presente em minha vida, então a intenção foi alcançada, porque direcionei meus pensamentos a ele e vim escrever aqui, depois de alguns dias sem "inspiração". Vim celebrar a maravilha da perpetuidade da vida e a graça de poder sentir a presença dos que se foram através de caminhos que só a alma pode compreender. 

domingo, 20 de março de 2011

Centésimo desatino

Parecia ontem. Não! Já faz quase 4 anos. Essa seria mais uma simples postagem não fosse o detalhe que ela é a publicação número 100 do Celeiro. Noventa e nove ideias, opiniões, sonhos, recordações e momentos hilariantes da vida desse cara aqui estão espalhados nesse espaço. O ano era 2007, outubro. A intenção: criar um blog para escrever crônicas sobre o ponto de vista do meu dia-a-dia maluco no terceiro ano da faculdade de Comunicação Social. Primeiro devo agradecer ao talentoso fotógrafo, Tareb Edson, que por perda de contato não sei se enveredou para outra profissão, de modo que pra mim ficou a imagem do fotógrafo. Foi por descobrir o seu blog, as crônicas bem-humoradas e as reflexões que fazia que me inspirei a criar minha própria página. Tanto que até hoje ainda tenho o link dele, mesmo não havendo atualizações há cinco anos. Naquela época, dava para abrir uma página e se admirar com o que encontrava, hoje de cada dez perfis no Twitter, oito tem um link de um blog, parece que já vem no pacote.

Meu primeiro texto não poderia ser outro, foi sobre o processo que me levou ao estágio do Sebrae durante a Feira do Empreendedor. O primeiro comentário que recebi foi da minha amiga Kárem, em 9 de outubro, um dia depois de publicar a primeira história. Bem, extraindo um trecho do seu enorme a carinhoso comentário, ela escreveu: "É um cantinho bastante aconchegante e que promete muitas risadas e fortes emoções!!". Não sei se consegui corresponder a profecia, mas analisando alguns dos 318 comentários que constam no Celeiro até então, pude perceber que ao menos alguns sorrisos fui capaz de arrancar. Com o passar dos anos, o Celeiro foi se modificando, ganhando modernos layouts, novas aventuras em cada publicação e obtendo reconhecimento ao mesmo tempo em que seu dono se descobria, crescia e compartilhava com ele suas conquistas e frustrações.

Hoje, 20 de março de 2011, três anos, cinco meses e doze dias após a primeira postagem entrar no espaço cibernético e o nome Celeiro do Sam começar a ser difundido, eu chego ao meu centésimo texto. Poderia já ter escrito duzentos, quinhentos ou mil histórias, ou poderia estar na quarenta, na setenta. Não! Estou na cem! Só escrevo quando sinto necessidade de externar alguma inquietação ou relatar outras peripécias da vida desse jovem irrequieto aqui, embora essa necessidade tenha sido bem mais constante nos últimos tempos. Não por acaso, ou totalmente porventura, atinjo essa meta numa data curiosa. Ontem foi aniversário da minha avó. Um ser que sempre irradia luz à minha vida. Temos uma ligação tão intensa que aos que acreditam na reencarnação, há quem diga que esse moço aqui deveria ter vivido de perto toda a febre da beatlemania, pois eu poderia ter sido o filho mais novo da minha avó que morreu atropelado no auge de Ticket to Ride.

Curiosamente, na mesma data de hoje em 1969, John Lennon se casou com Yoko Ono no território britânico de Gibraltar. Aos olhos de "todo" beatlemaníaco, ela seria a grande vilã da separação da banda e por isso condenada a eterna expiação de seus pecados. Já não parto desse pressuposto. Quem conhece a história do quarteto a fundo, sabe que o fim dos Beatles seria inevitável com ou sem Yoko. Tudo bem, ela pode ter antecipado um pouquinho, mas foi o descomunal amor da vida de John Lennon. As loucuras que esse cara fazia com ela eram inimagináveis. A canção The Ballad of John and Yoko narra esses momentos dos dois, que mais pareciam uma brincadeira com o mundo. Não sei se isso é babaquice de fã, mas se meu ídolo está feliz, devo embarcar junto na felicidade dele. E a contrapartida se mostrou significativa com uma década de memoráveis composições em sua carreira solo.

Mas 20 de março também costuma ser o dia do equinócio de outono no hemisfério sul. E a partir de amanhã, na astrologia, o sol entra no signo de áries e o ano astrológico tem início. Áries tem como elemento o fogo e entre suas características, a coragem, o pioneirismo, o entusiasmo, e também a impaciência, a impulsividade e a raiva. Bem, e eu sou ariano. Então o sol entra na minha casa a partir de amanhã e todas as minhas manifestações estarão mais acentuadas, ou não, não domino a lógica da astrologia. Mas aprendi pesquisando que áries é regido por Marte, planeta que tem o poder da conquista e da busca pela realização pessoal. Uma dica para investir nesse território? Um ariano que cruzou meu caminho em dois momentos foi Junior Lima. Na infância e adolescência ao embalar minhas aventuras ao lado de sua irmã Sandy, quando ainda não era devassa, e ano passado ao ler um texto meu no Celeiro sobre o seriado da dupla e indicá-lo em seu Twitter. Meu blog ficou mais popular que o clipe de Stefhany Absoluta. Com a diferença que continuei a pé.

Quem quase nasce ariano também é o autor de novelas Manoel Carlos. Mais uma semana e ele herdaria todo o temperamento impulsivo dessa espécie. O que talvez interferisse na construção de suas Helenas e de suas narrativas cheias de sensibilidade e romantismo, palavra-chave no pisciano. Mas seguindo os acontecimentos de 20 de março que marcam a data da minha centésima postagem, em 1815 Napoleão entrou em Paris depois de escapar de seu exílio na ilha de Elba dando início ao Governo dos Cem Dias; Albert Einstein publicou sua teria geral da relatividade em 1916; os EUA iniciaram a invasão ao Iraque em 2003; e em 2006 o Museu da Língua Portuguesa foi inaugurado na Estação da Luz em São Paulo. Tudo isso não tem nada a ver comigo, nem com o Celeiro, mas achei que se encaixaria no contexto de alguma forma. Afinal, aqui tem espaço suficiente para tantas proezas, que não estaria ainda nem próximo de encerrar o primeiro ato. Tenho bastante disposição para escrever e muitos delírios ainda na alma que precisam se transformar em palavras e ideias absurdas. Que maravilha um ser pensante e a loucura de se julgar normal em meio a lucidez da insanidade. E aí quem sabe o Celeiro seguirá uma outra profecia e será imenso do tamanho do amor que um dia alguém ousou sentir por mim.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Tráfego transcendental

Sempre me questionei a respeito da existência humana no mundo. Por que eu sou eu e não outra pessoa? O que me faz ser quem sou? Um planeta vagando na imensidão do espaço, com seres pensantes, capazes de construir mundos de novas invenções a cada ciclo e uma sede insaciável pelo desconhecido. Qual nossa influência e verdadeira importância nessa área delimitada à nossa sobrevivência? Como descendente original de uma família católica, ir às missas aos domingos fazia parte das incubências de um praticante devoto do catolicismo, ao menos no compromisso presencial. Porém, esse hábito nunca significou nada além de uma obrigação de minha parte, sem me vincular às crenças que ouvia repetidamente a cada celebração, a ponto de chegar em um estágio de quase ateísmo na adolescência. Essa fase chegou ao fim quando vislumbrei algo "tangível" e concreto, fundamentado na razão e não apenas em crenças infundadas e distorcidas ao longo dos tempos. O espiritismo me abriu as portas para o inexplicável, para o que representamos genuinamente, e o melhor, para os caminhos que enfrentaremos após essa travessia.

Não é minha intenção converter nenhum católico, evangélico, budista, pagão ou ateu ao espiritismo. Quero apenas divagar alguns pensamentos acerca da existência humana e ousar lançar uma fagulha de incerteza na mente de algum leitor. Um dos principais, senão o maior princípio que permeia o espiritismo é a crença na reencarnação da alma. Algo completamente abominado para os cristãos católicos ou protestantes. Ora, muito comodismo usufruir de uma única vida e depois alcançar a salvação divina ou o castigo sepulcral. Uma única vida é pouco para evoluir uma alma e determinar sua posição no "paraíso" ou no "inferno". Imaginem todas as provas que são necessárias ser alcançadas numa constante evolução espiritual, com tantos aprendizados, conhecimentos que numa única existência seria impossível de se atingir. Por isso o espírito retorna quantas vezes forem necessárias até conseguir se elevar espiritualmente. Escolhendo muitas vezes quais provas deseja se submeter em sua nova jornada.

Alguém já se questionou o que poderia ter sido em uma existência anterior? Sempre há uma intuição que cada um carrega consigo como algo intrínseco sobre o que tenha cometido e que influencia até as determinadas atividades com que tenha familiaridade. Por isso vez por outra tenho conclusões excêntricas e até assustadores sobre o que realizei em outras situações. Já cheguei a pensar que fui um assassino e conheci as prisões de perto, ou que me dediquei a vidas desregradas, ao mesmo tempo em que me sinto ligado a mosteiros e poderia facilmente ter tido uma vida reclusa da sociedade, dedicada às orações e ao jejum. Bom, eu posso não ter a certeza do que fui no passado, mas o pequeno James Leininger, do estado da Louisiana nos EUA, hoje com 12 anos de idade, sabe desde seus 2 anos que o fascínio pelos aviões da Segunda Guerra Mundial  não era apenas admiração, mas uma similaridade com os pilotos dos porta-aviões americanos, mais especificamente com o jovem piloto morto em combate em 1945 James M. Huston Jr.

A envolvente e enigmática história contada meticulosamente no livro A Volta, narra a saga alucinada dos pais de James, Bruce e Andrea Leininger, em busca de explicações para os estranhos pesadelos que passaram a fazer parte da rotina da família a partir de maio de 2000, quando a criança ainda contava com seus 2 anos de idade. Acompanhado dos pesadelos que envolviam fortes agitações durante o sono, com chutes e impressionantes gritos de socorro, o garoto passou a descrever com ardilosa precisão detalhes sobre os tipos de aviões que decolavam dos navios de guerra nos anos 40. Recordou o nome do homem, que seria ele mesmo, o qual se debatia em um avião em chamas em seus sonhos, e ainda o nome de um amigo Jack Larsen. Imagens de acidentes aéreos e muita bomba eram constantes entre seus desenhos. E suas lembranças não pararam por aí, mais três amigos foram lembrados e ganharam homenagem em sua coleção de bonecos. Quando questionado pelos pais o porquê de tais nomes, ele saiu com a inesperada resposta: "foram eles que me receberam quando cheguei ao céu".

Já tinha lido um livro da escritora americana Sarah Hinze, A Vida Antes da Vida, onde ela aborda a experiência de muitas crianças que conseguiam ainda nos primeiros anos recordar suas experiências em vidas passadas, mas nada tão envolvente quanto a narrativa da família Leininger. Aos poucos as peças do quebra-cabeça vão se encaixando, e aquilo que parecia um delírio de início, ganha força e evidências irrefutáveis de que o pequeno James era de fato a reencarnação do falecido piloto de guerra James M. Huston Jr. Em alguns anos de busca incessante, de contato com inúmeros veteranos de guerra e familiares de militares mortos, a família Leininger não havia mais como negar o incontestável. James com sua inocente maturidade, despejava diariamente de maneira natural fatos e informações inadmissíveis para uma criança de sua idade. Ele "reencontrou" a irmã de James Huston Jr, agora uma senhora com mais de 80 anos e a cumplicidade entre os dois era algo inexplicável. "Reviu" seus antigos companheiros de combate, e lamentou estarem tão envelhecidos. Seu caso chegou à TV, e acabou levando-os ao Japão e ao local onde o avião de James Huston havia caído no mar.

O fascinante no livro é mostrar através dos fatos como o espírito de um piloto da Segunda Guerra poderia habitar o corpo de uma criança mais de meia década depois. A ideia de reencarnação ficou tão evidente que convenceu muitos ex-combatentes, a irmã do falecido piloto e o próprio pai de James Leininger, um cético incorrigível e defensor de suas crenças religiosas. A história que daria tranquilamente um belo filme, chega ao fim quando o pequeno James "reencontra" o local de sua tragédia na outra vida e escuta de sua mãe que aquele homem embora tenha feito parte de suas lembranças por um longo tempo, havia chegado o momento de deixá-lo ir e seguir em frente. Com lágrimas nos olhos, James se despede dele e bate continência. Ou seja, apesar do garoto abrigar o espírito daquele ex-piloto, sua vida agora era outra, ele tinha uma nova família, outras missões a cumprir na sua escala evolutiva e precisava tocar o navio, agora como James Leininger e não mais como James M. Huston Jr. Tudo o que suas lembranças poderiam ter contribuído nessa nova empreitada chegara ao fim. Veteranos se reuniram, uma nova placa com os nomes dos soldados mortos que não haviam sido incluídos como baixa de guerra foi inaugurada, familiares tiveram acesso a registros até então desconhecidos sobre o destino dos militares mortos, e Anne Huston pôde finalmente receber o seu irmão que a deixou esperando por mais de 60 anos. Nos novos desenhos de James agora a tranquilidade, aviões sobrevoando pacificamente os céus e golfinhos mergulhando ao lado de navios, sem mais acidentes ou bombas. Assim como seus pesadelos, as memórias passadas foram se apagando e cedendo lugar ao que de fato ele era agora: apenas um garoto com mais uma vida cheia de desafios e metas a cumprir.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Além das fronteiras

Quem nunca olhou para o céu e se perguntou o que haveria além daquela imensidão de estrelas? Ontem me vi perplexo diante de uma constatação acerca da existência de vida inteligente em outros planetas. A revista Época divulgou o relatório do exército de 1997 sobre o caso do ET de Varginha. Como consta no documento, o caso mais famoso da presença alienígena no nosso país não passa de mais um mito da população. O que já era de se esperar. As inúmeras histórias sobre OVNIs e ETs no nosso planeta alimentam a fantasia de muitos curiosos e aumenta a pesquisa dos ufólogos em todo o mundo, em busca de captar algum sinal que prove a existência desses seres no nosso solo. Particularmente, não acredito que o planeta Terra já tenha sido visitado por extraterrestres e só não considero o fato uma perda de tempo, por acreditar na existência de vida inteligente em algum ponto fora da nossa galáxia.

Seria bastante difícil alguma espaçonave entrar na nossa atmosfera sem ser detectada pelos radares, satélites ou qualquer agência espacial. E haveria de ser uma espécie extremamente evoluída pra conseguir criar uma nave capaz de transportar tripulantes por tamanhas distâncias pelo universo. Um ufólogo da reportagem do ET de Varginha afirmou que não há nenhum registro científico até hoje que prove a existência de vida fora do nosso planeta. De certa forma, essa afirmação me pegou de súbito. Há tempos que tenho essa possibilidade como algo concreto em minha vida. E longe de acreditar nisso por influência do Superman. É algo simples, basta olhar para o céu e ver a sua imensidade de estrelas. Não dá pra pensar que temos o privilégio de viver no único planeta habitado dentre infinitas galáxias. É apenas uma questão evolutiva até o homem chegar em contato com civilizações de outros globos. A princípio achávamos que o sol girava em torno da Terra, depois o homem atravessou os oceanos e chegou à América, construiu um foguete e alcançou o espaço, a lua e hoje já lança sondas em Marte. Ainda nem conhecemos a nossa galáxia por completo. O próximo passo é só uma consequência.

O interessante quando se fala de vida extraterrestre é a associação que as pessoas fazem a seres bizarros, monstruosos, com superpoderes e que querem destruir o nosso planeta. E o mito chega ao cinema reafirmando ainda mais essas teorias. Em Sinais ET o Extraterrestre, encontramos seres assustadores, esqueléticos, de olhos grandes, boca e nariz pequenos, e que em Sinais ainda têm medo de água. Em Independence Day e Guerra dos Mundos, os ETs são máquinas ou controlam máquinas superpoderosas que destroem o ser humano em fração de segundo. E por aí seguem vários outros filmes: A Invasão, MIB Homens de Preto, Alien, Tropas Estelares, O Dia em que a Terra Parou, Marte Ataca, Star Wars, Planeta dos Macacos. Em meio a tanta barbárie temos Kal-el de Kripton. Mas não vejo as civilizações extraterrestres com essa sede de matança, pelo contrário, penso que devem ter sociedades organizadas como a nossa, tecnologia similar ou mais ou menos avançada. Aliás, devem existir desde mundos pré-históricos a civilizações altamente industrializadas.

Imaginem por um momento se alguma agência espacial divulgasse ter encontrado vida inteligente fora da Terra. Seria um frenesi. Os olhos da população estariam voltados para o espaço mais do que nunca. A curiosidade em torno dos seres, de como faríamos o contato, a língua local, a amistosidade ou não deles e o receio de expor o nosso planeta ao desconhecido. A nossa missão seria com certeza de paz, de estabelecer contato e conhecer outras fronteiras do espaço. Podemos pensar que eles teriam a mesma reação, mas não poderíamos afirmar, afinal, é um outro mundo distante da nossa realidade. E nesse contato só poderíamos ter a certeza de um fato: o planeta mais evoluído iria querer impor a sua dominação, a menos que estivessem em níveis semelhantes. Contudo, seria tentador imaginar dois planetas vivendo em harmonia, compartilhando conhecimentos, tecnologias, recursos minerais e tendo até viagens e migrações de habitantes para cada planeta. Há também quem acredite que cada esfera do espaço e mesmo os planetas hostis da nossa galáxia sejam habitados por seres de natureza etérea, imperceptíveis aos nossos olhos. Mas aí já entraria no campo da espiritualidade e prefiro deixar os mistérios do universo aos limites do vôo da mente de cada um.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

As energias e suas mensagens

Os "acasos" da vida estão sempre nos indicando o caminho que nos levará a cumprir a nossa missão e continuar a jornada para a nossa evolução. Era mais uma quinta-feira intediante e eu resolvi ir ao shopping para me distrair. Comprei um lanche na praça de alimentação e fui até o cinema ver quais filmes estavam em cartaz, mas não me interessei em assistir nenhum. Caminhei um pouco pela Riachuelo, Lojas Americanas e quando já estava para sair resolvi entrar no Hiper Bompreço. Fui ao departamento de cd e dvd, mas nada me agradava, já ia saindo quando passei pela livraria.

O primeiro livro que peguei nas mãos foi o Almanaque dos Seriados de Paulo Gustavo Pereira, folheei-o por alguns instantes e me dirigi à sessão de livros espíritas. Dei uma volta em torno da estante e reparei em um livro que estava embaixo, num estilo meio rústico. Logo que peguei, olhei a contra-capa e não tive dúvida, era o livro que havia me interessado em comprar uma outra vez. “Até Que a Vida os Separe” de Mônica de Castro, ditado por Leonel, falava sobre troca de energias e abordava o amor e a rejeição de filhos pelos pais. Precisava comprar aquele livro. Peguei-o convicto de levá-lo e continuei olhando os outros, foi quando encontrei uma ótima promoção da escritora Agatha Christie. Três livros por apenas R$ 14,00. Já ouvira falar muito a seu respeito, mas nunca tinha lido nada dela. Achei que seria interessante e levei-os também.

Naquela hora olhei para os últimos lançamentos na outra estante, aqueles livros bem mais importantes que todos devem ler nem que seja um na vida e me senti meio idiota gastando dinheiro em um livro espírita e outros policiais, quando podia me enriquecer mais culturalmente com aqueles clássicos. Mas mesmo me sentindo mais atrasado fui ao caixa e levei pra casa aqueles quatro novos amigos. Na mesma noite resolvi conhecê-los e comecei pelo espírita. Logo quando percebi já estava dominado pelas emoções dos personagens e mergulhado intensamente naquela história que com certeza me levaria a algum lugar, pois os livros espíritas têm uma particularidade que faz com que cada fato presente no início da história tenha sempre uma explicação e tudo se encaixe no final. Ansiava constantemente para saber onde aquela simples história e aqueles simples personagens iriam chegar.

Cada dia ao chegar em casa, jogava a mochila na cama e já me agarrava no livro querendo saber onde Fabrício, Selena, Adriano e os outros me levariam naquele dia e o que teriam a me dizer. Eu que vinha me entediando nos últimos tempos por ficar sozinho em casa, agora encontrava motivos para querer chegar logo. Eu havia me enganado, mas tinha feito a coisa certa. Os outros livros até podiam ser mais importantes, mas “Até que a vida os separe” estava se mostrando uma grande escolha. Há seis anos li pela primeira vez um livro espírita e comecei a me interessar mais pelos conceitos dessa doutrina. Na época estava quase descrente da existência de Deus e de uma sobrevivência da alma, contudo as idéias que acabava de descobrir me trouxeram novo alento e uma verdadeira crença. Ainda não cheguei a freqüentar nenhum centro espírita, porém, o espiritismo passou a ser mais presente em minha vida que até o levei para o tema de minha monografia. Quando meu pai faleceu comprei “O Livro dos Espíritos” de Allan Kardec e agora seis anos após “Esmeralda” de Zíbia Gasparetto, me encontrava viajando pelas linhas de um romance espírita.

A cada página uma nova descoberta, uma nova curiosidade, um novo mistério, a mesma fé se renovando. Dois dias antes havia escutado da minha amiga Luciene que faltava mais religião na vida de outra amiga. Percebi que faltava na minha também. Mas talvez não religião, mas crença, fé em algo. Ando meio afastado do catolicismo e embora não encontre muitas respostas lá, estava sem fé na minha vida, pois também não havia me dedicado ao espiritismo nos últimos tempos. O livro estava reafirmando a minha crença e me fazendo muito bem. Em alguns momentos me senti extremamente tocado e algumas lágrimas correram pelo meu rosto. Parecia que aqueles personagens existiam realmente e estavam me convidando a adentrar ainda mais pelo universo do espiritismo. Alguma mensagem ou mesmo algo de especial havia naquele livro, mas não sabia o quê.

Foi quando cinco dias após ter começado a leitura, cheguei ao seu fim, fechei o livro e um incontrolável pranto tomou conta de mim. As lágrimas caiam como cachoeiras e uma dor que me roia por dentro parece que obrigava ainda mais as lágrimas a saírem. Não sabia o que estava acontecendo, só queria chorar. Olhava para o livro e sentia mais vontade de mergulhar naquele oceano. Era como se elas estivessem presas em mim por muito tempo e agora conseguiam se libertar. Seja qual tenha sido a mensagem que o livro quis passar, com certeza havia me atingido. Um misto de impotência e poder tomavam conta de mim, poder de transformação, me senti dono do meu destino e paradoxalmente me senti maior ao me imaginar tão insignificante na imensidão do universo.

Alguns minutos depois começava a me controlar com a ajuda da água corrente da pia do banheiro e da água mineral do filtro. Água! Sempre a água. O alívio dos necessitados. De repente me sentia melhor, mais confortante, mais aliviado, como se um grande peso saísse de minhas costas, respirava mais fundo e sentia o ar entrando pelas narinas. Já não era o mesmo. Embora recentemente estivesse mais sensível a determinadas emoções e chorado à bessa assistindo Marley & Eu, eu sabia que aquele livro tinha sido o responsável por aquela inexplicável sensação e que ele não entrou à-toa na minha vida. Não sei aos que não acreditam em espiritismo, mas sinto que alguém me fez comprar o livro naquele dia como injeção de ânimo e uma grande mensagem foi captada inconscientemente pelo meu espírito, assim como acredito que tantas vezes desisti de comprar algo supérfluo por interferência de alguém que me soprou de que eu não o precisava. Como fala o livro, a troca de energia entre nós e os desencarnados é constante e muitas vezes agimos sem nos dar conta que ela existe e que está ali ao nosso lado. Estou agora no primeiro livro de Agatha Christie e até sinto-me atraído por ele, mas a cumplicidade e a harmonia presente na leitura anterior, Agatha que me perdoe, mas só Mônica conseguiu atingir.