E eis que a coroa do BBB cai finalmente sobre uma mulher que não seja necessitada ou esteja fora dos padrões de beleza. Maria, nome simples, que lembra a mãe de Jesus, na verdade estaria mais para Madalena. Nome, inclusive que fez questão de manter em sigilo durante toda sua estadia na casa. Os vídeos de ensaios sensuais e até concursos digamos, um pouco extravagante, nunca foram mencionados em qualquer site da emissora enquanto o programa estava no ar. Afinal, como enfatizou Bial, Maria era uma das protagonistas, e assim sendo o misto de mulher ingênua e ousada era o que agradava aos interesses dos produtores e iludia os telespectadores. Ah, qualquer mulher pode ser assim, morosa e libertina, sem deixar de ser autêntica. Mas aquelas atitudes dela não eram impulsos naturais de uma mulher inocente, mas resultado de sua experiência nos BBBs da vida. Até anteontem cheguei a pensar que o programa estava tentando de tudo para tornar Daniel o campeão, mas será que no fundo não era apenas uma máscara para o prêmio acabar caindo finalmente numa mulher sedutora, livre dos estereótipos de todos os vencedores até então?
Não sou contra a vitória de Maria. Até torci por ela. Só me senti um pouco traído por descobrir só agora, e pelo próprio site da emissora, o passado devasso da felizarda. A notícia correu o país antes, eu que infortunadamente por buscar notícias do programa apenas no site da Globo não associei granizo ao orvalho. Ah, ela não era tão boba assim. Será que teria torcido por ela com essa informação em mãos? Agora passado o espanto, creio que sim. Entendi porque MauMau, que virou Luís Maurício depois ninguém sabe porquê, se afastou da menina quando retornou à casa. Não atiro nenhuma pedra em quem expõe sua figura na internet, disputa sua beleza em concursos e se exibe em cliques eróticos, o próprio site da emissora faz o mesmo com cada brother eliminado na página do Paparazzo. Só que a autenticidade da participante foi apenas até a esquina, já que as atitudes de determinados comportamentos não revelavam de fato a todos quem era aquela jovem. Mas desde quando o programa se dedica em evidenciar os verdadeiros perfis dos participantes? O mais importante é criar personagens e jogar traços caricatos para apontar o lado mais vil e apelativo do ser humano em rede nacional.
Algo semelhante ao que se encontra no texto Dr. Fausto da Silva, do dramaturgo paraibano Paulo Pontes, um grande nome da televisão brasileira, precursor da série A Grande Família e do premiado espetáculo Gota d'Água em parceria com Chico Buarque. Em Dr. Fausto da Silva somos apresentados aos bastidores de um programa de TV e a toda escória que habita os corredores de uma emissora, capaz de vender a própria alma pela audiência. Fausto da Silva seria uma espécie de Luiz Datena, Ratinho, Márcia Goldschmidt, Roberto Cabrini e por que não, Pedro Bial? Já que seu discurso incitante na véspera da final do BBB noticiando que um novo milionário sairia do programa no dia seguinte, lembra muito o discurso apelativo do Dr. Fausto anunciando que dentro de instantes deceparia uma parte de si diante dos telespectadores. O texto foi escrito em 1972, embora não pareça diferir muito dos dias atuais.
O fundamental em programas como Brasil Urgente, Casos de Família, Programa do Ratinho ou Big Brother Brasil é explorar o lado mais miserável do ser humano e poder tripudiar em cima de sua própria desgraça. A vitória de Maria não mostra que o público está mudando e abandonando certos preconceitos. O prêmio acabou indo a outra "ingênua", já que o verbo "mariar" foi o figurino que melhor lhe caiu bem desde sua chegada e se revelou de bastante interesse à produção. E só ficou mesmo na casa quem o Brasil queria ver e não causava repulsa. A explicação para Ariadna ser a primeira eliminada? Como se questionou Bial, "quem é o burro agora?". Não sei porque senti a necessidade de procurar um espelho na hora, dá um retoque no cabelo talvez, como Rodrigão. Bom, a tese de doutorado sobre o porquê de apenas homens ganharem o BBB - com duas exceções - acaba de perder fundamento, ou talvez ganhe outro a mais. O público gosta do barraco, mas quer a vitória do bonzinho, ao mesmo tempo em que também quer se ver, com suas fraquezas, medos, falta de escrúpulos e pudor. E Maria reunia a ingenuidade do bom moço e o atrevimento velado de cada um. E com sua caridade aos anseios dos telespectadores, faturou a bolada dessa inusitada edição. Dica pro próximo aspirante a vencedor.
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quinta-feira, 31 de março de 2011
sábado, 19 de março de 2011
Alimente o meu ego
Sempre queremos mais! Queremos ser alguém. Queremos ser vistos. Queremos mostrar. Queremos ser! De todas as características da personalidade humana, o ego é aquela capaz de abrir uma fenda na estrada tornando a passagem inacessível. Somos escravos do espelho, e não apenas o de vidro, mas o narcisismo presente em cada um em diferentes intensidades. Sentimos a necessidade do elogio alheio, do incentivo amigo, do carinho do próximo. Como sabemos, alguns afagos faz bem ao ego. Eis o intrépido ego! Nada de mau buscar nos olhos dos outros o mérito por algo realizado. É uma carência humana a busca constante pela própria superação, desejar ser relevante na vida de alguém. Um arquiteto já disse uma vez em uma palestra que até um tijolo quer ser mais do que ele é, afinal, nenhum tijolo foi feito pra ser apenas um tijolo. E onde podemos chegar, quantos edifícios seremos capazes de erguer, vai depender do quanto deixamos que esse traço da nossa personalidade determine o nosso alicerce.
Se o ser humano busca sua importância no mundo, seu nome reconhecido ou até imortalizado, por quê não?, nada mais vinculado ao ego do que a fama. O reconhecimento público que pode ir do porteiro do prédio a um monge do outro lado do planeta, pode gerar mais estrago que uma úlcera no duodeno. Não é difícil ganhar notoriedade nos dias de hoje e conquistar um número razoável de admiradores pelo mundo. É só analisar a quantidade de celebridades instantâneas que surgiram do nada e ganharam fama nos últimos anos, muitos motivados apenas pela perda do anonimato, sem qualquer conteúdo para acrescentar ou oferecer ao público. O Big Brother Brasil é a mais influente fábrica desse artigo, porque transforma anônimos em celebridades a cada ano. Há uma necessidade alucinante pelo reconhecimento, ludibriado pelo glamour que essa exposição representa na sociedade e na vida de cada um.
E por que cada vez mais pessoas partem em busca desse estrelato? É só a fama, a perseguição dos paparazzis e a participação nas colunas de fofocas? De certo não. Depois de assistir ao filme de outra celebridade autogerada na mídia, Bruna Surfistinha, pude refletir melhor acerca da situação. Não é a notabilidade que faz tantos buscar a fama. É a necessidade de ser amado, de se sentir querido e idolatrado por inúmeras pessoas. Inacreditável concluir que um dos maus do novo século é a falta de afeto ou a demonstração dele. Num universo cada dia mais individualista, é paradoxo pensar que o alimento do ego está na doação alheia. Eis aí mais outra ilusão desse status: a adoração gerada pela calorosa multidão de fãs não cobre a carência afetiva que cada um necessita. Só neutraliza temporariamente os efeitos da escassez de estima; e quando esse indivíduo cai no esquecimento da frenética mídia, entra novamente na briga de ego e dessa vez com a agravante da desvalorização pessoal.
Como então conseguir ser alguém e manter a posição depois de ser exposto ao julgamento do mundo? Quem sabe não se afogando no rio de Narciso. O controle do ego é tão complicado e impreciso quanto o fluxo aéreo. Quem trabalha com arte, principalmente atores, bailarinos, cantores, pintores, escritores, entre outros, estão sempre expondo sua imagem e precisam saber dosar os tipos de críticas que recebem, os elogios ou até mesmo a ausência total deles. Quem atua, dança, canta, pinta, escreve, não quer apenas fazer o seu trabalho, quer que o outro se aproxime e descreva as sensações que aquela arte despertou. E até estar preparado e solidificado o suficiente para encarar todos os tipos de reação, um irrisório comentário pode destruir a autoestima, levar à depressão e pôr fim numa carreira promissora.
Talvez por esse despreparo muitos jovens não saibam o que fazer do futuro e se percam nas opiniões alheias. Eu mesmo. Há momentos que me pergunto por que ninguém me enxerga. Se Geisy Arruda virou história por usar minissaia na faculdade, Felipe Neto e PC Siqueira foram pra TV depois que viraram celebridade na internet, outra ganha um CrossFox por colocar um clipe no YouTube, e até um gato que parece com o vilão da série Harry Potter ganha os jornais, por que também não posso? Há instantes que queria poder erguer um caminhão com o dedo mindinho pro mundo inteiro se voltar pra mim. Ser alguém no mundo a todo custo! Mas será que vale? Será que já não sou? A popularidade não equivale necessariamente a relevância de alguém no mundo. O que queremos de fato é ser admirado pelo que fazemos, e será que a quantidade de pessoas que irá perceber esse valor é mais importante do que as reações sinceras e os sentimentos que brotarão de quem nos cerca? Provavelmente não, se nosso eu estiver em harmonia. Do contrário alguma voz vai continuar sussurrando no ouvido que é preciso sempre subir mais e mais, alcançar o Empire State, o Burj Khalifa*, o Everest e não sossegar enquanto metade do planeta não conseguir perceber e aplaudir a presença magnífica daquele ser dotado de uma necessidade exaustiva de satisfazer a sua larva interna vulcânica chamada ego.
* Maior arranha-céu do mundo com 828 metros localizado em Dubai.
Se o ser humano busca sua importância no mundo, seu nome reconhecido ou até imortalizado, por quê não?, nada mais vinculado ao ego do que a fama. O reconhecimento público que pode ir do porteiro do prédio a um monge do outro lado do planeta, pode gerar mais estrago que uma úlcera no duodeno. Não é difícil ganhar notoriedade nos dias de hoje e conquistar um número razoável de admiradores pelo mundo. É só analisar a quantidade de celebridades instantâneas que surgiram do nada e ganharam fama nos últimos anos, muitos motivados apenas pela perda do anonimato, sem qualquer conteúdo para acrescentar ou oferecer ao público. O Big Brother Brasil é a mais influente fábrica desse artigo, porque transforma anônimos em celebridades a cada ano. Há uma necessidade alucinante pelo reconhecimento, ludibriado pelo glamour que essa exposição representa na sociedade e na vida de cada um.
E por que cada vez mais pessoas partem em busca desse estrelato? É só a fama, a perseguição dos paparazzis e a participação nas colunas de fofocas? De certo não. Depois de assistir ao filme de outra celebridade autogerada na mídia, Bruna Surfistinha, pude refletir melhor acerca da situação. Não é a notabilidade que faz tantos buscar a fama. É a necessidade de ser amado, de se sentir querido e idolatrado por inúmeras pessoas. Inacreditável concluir que um dos maus do novo século é a falta de afeto ou a demonstração dele. Num universo cada dia mais individualista, é paradoxo pensar que o alimento do ego está na doação alheia. Eis aí mais outra ilusão desse status: a adoração gerada pela calorosa multidão de fãs não cobre a carência afetiva que cada um necessita. Só neutraliza temporariamente os efeitos da escassez de estima; e quando esse indivíduo cai no esquecimento da frenética mídia, entra novamente na briga de ego e dessa vez com a agravante da desvalorização pessoal.
Como então conseguir ser alguém e manter a posição depois de ser exposto ao julgamento do mundo? Quem sabe não se afogando no rio de Narciso. O controle do ego é tão complicado e impreciso quanto o fluxo aéreo. Quem trabalha com arte, principalmente atores, bailarinos, cantores, pintores, escritores, entre outros, estão sempre expondo sua imagem e precisam saber dosar os tipos de críticas que recebem, os elogios ou até mesmo a ausência total deles. Quem atua, dança, canta, pinta, escreve, não quer apenas fazer o seu trabalho, quer que o outro se aproxime e descreva as sensações que aquela arte despertou. E até estar preparado e solidificado o suficiente para encarar todos os tipos de reação, um irrisório comentário pode destruir a autoestima, levar à depressão e pôr fim numa carreira promissora.
Talvez por esse despreparo muitos jovens não saibam o que fazer do futuro e se percam nas opiniões alheias. Eu mesmo. Há momentos que me pergunto por que ninguém me enxerga. Se Geisy Arruda virou história por usar minissaia na faculdade, Felipe Neto e PC Siqueira foram pra TV depois que viraram celebridade na internet, outra ganha um CrossFox por colocar um clipe no YouTube, e até um gato que parece com o vilão da série Harry Potter ganha os jornais, por que também não posso? Há instantes que queria poder erguer um caminhão com o dedo mindinho pro mundo inteiro se voltar pra mim. Ser alguém no mundo a todo custo! Mas será que vale? Será que já não sou? A popularidade não equivale necessariamente a relevância de alguém no mundo. O que queremos de fato é ser admirado pelo que fazemos, e será que a quantidade de pessoas que irá perceber esse valor é mais importante do que as reações sinceras e os sentimentos que brotarão de quem nos cerca? Provavelmente não, se nosso eu estiver em harmonia. Do contrário alguma voz vai continuar sussurrando no ouvido que é preciso sempre subir mais e mais, alcançar o Empire State, o Burj Khalifa*, o Everest e não sossegar enquanto metade do planeta não conseguir perceber e aplaudir a presença magnífica daquele ser dotado de uma necessidade exaustiva de satisfazer a sua larva interna vulcânica chamada ego.
* Maior arranha-céu do mundo com 828 metros localizado em Dubai.
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