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sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Bem antes do útero

E naquela tarde, Pablo cruza com Marcelo na entrada do Pavilhão da Reencarnação.

– Oi! Você por aqui... Vai reencarnar também? – pergunta Pablo.

– Não. Vim só pegar alguns dados do planejamento do meu primo – responde Marcelo.

– Ah, tá. Tenho te visto pouco aqui. O que anda fazendo? Ainda ajuda na produção do setor de alimentos?

– Só meio expediente. Sou concursando agora.

– Como?

– Estudo pra concurso público. Minha turma tem mais de cem alunos. Não viu os outdoors? É aquele Aprovação Master com os professores que chegaram da Colônia Bom Jesus do Sucesso.

– Não, eu nem sabia que havia concurso aqui no astral.

– Não. Não há.

– Então...

– É que pretendo prestar concurso pra analista da Receita Federal em 2035 no Brasil. Os professores conseguiram ter acesso à maior parte dos conteúdos que provavelmente irão cair nessa época e nos passaram.

– Nossa! Mas tá um pouco adiantada essa sua preparação, não? E se você resolver seguir outra profissão quando encarnar?

– Não, não tá não. Minha futura tia se preparou com duas encarnações de antecedência pra analista do senado. Dom Pedro Segundo ainda governava o Brasil e ela já estudava aqui numa turma intensiva pra esse cargo. E eu já planejei tudo. Com os conhecimentos que já obtive aqui, provavelmente eu consigo terminar o ensino médio com 14 ou 15 anos. Faço faculdade de economia ou administração - porque não tenho muita afinidade com direito -, paralelamente a um bom curso preparatório, e em seguida presto o concurso. Se eu tiver sorte, passo no primeiro.

– Com toda essa preparação, é impossível não passar.

– Não é garantido. Só na minha sala tem uns quarenta que querem o mesmo cargo que eu. E a tendência é a concorrência ficar cada vez maior. Mas eu tô me preparando, se não for no primeiro, tento o segundo, o terceiro... E você? O que pretende ser dessa vez?

– Ah... bom... Eu tô me planejando pra fazer filosofia, que é uma ciência que tenho interesse.

– Eu não aconselho o setor privado. Ele é até bom pra quem tem determinação, mas os resultados são a longo prazo, você só começa a ganhar bem lá pelos quarenta, e ainda assim pode ir pra rua a qualquer hora. No serviço público além da estabilidade, você tem a chance de ganhar bem antes dos vinte e cinco. A geração que anda reencarnando agora tá toda focada nos concursos. Se eu fosse você investia também. Bom, deixe eu ir. Minha aula começa em uma hora. Sucesso pra você.

Marcelo sai. Pablo pensa um pouco e o chama.

– Marcelo! Se eu entrar na sua turma agora, será que eu ainda tenho chance de conseguir técnico administrativo nessa encarnação?

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Meu jardim botânico

Quando todos os benefícios e tecnologias do mundo moderno não conseguem saciar nossa sede interior, só resta pedir auxílio à velha inquilina natureza. Só ela com sua imponente e modéstia paciência consegue acalentar as lamúrias mais íntimas da nossa alma. Nada mais gostoso do que dividir confidências ao pé de uma jaqueira, trocar reminiscências com um ipê amarelo ou mesmo partilhar as horas com um bambu. A natureza nos acolhe na sua majestosa simplicidade para nos lembrar, quiçá, de alguns valores perdidos na humanidade. Foi assim que me senti esses dias ao rever um dos lugares mais exuberantes do Rio de Janeiro. O Jardim Botânico é uma pequena porção do paraíso inserida no coração de uma metrópole. O silêncio, a paz e a quietude só quebrados pelo ruído da água nas fontes e córregos. Um privilégio para poucos. E pensar que toda a costa brasileira já foi um dia assim.

É nessas horas que me reporto aos portugueses quando aqui chegaram. Quando confundiram uma limpa e espetacular baía com a foz de um grande rio. A maravilha da natureza em sua perfeita manifestação. O paraíso particular dos índios. Como o homem foi capaz de devastar tamanha riqueza? Um pequeno passeio pela Estrada da Mata Atlântica, um caminho que contorna uma boa parte do jardim, serpenteando a Floresta da Tijuca, é suficiente para se render por inteiro ao poder da criação. Árvores gigantescas que se perdem à vista, frondosas e protetoras sombras, o solo macio da terra molhada, o ruído das folhas secas, o canto de algum passarinho, o lodo úmido em algumas pedras... me senti isolado do resto do mundo, a dez minutos de Copacabana.

Ali, mergulhado os pensamentos na mais profunda sintonia de espírito, recordei um pequeno jardim que fez história na minha infância. Na casa dos meus tios-avós existia um grande terreno ao fundo e em volta da casa com algumas árvores e plantações. O muro da casa era colado com o da minha avó e não era alto. Meu avô pulava frequentemente por lá para ir tomar café e bater papo com os irmãos. A casa era bem antiga. Paredes largas, chão de barro em alguns cômodos, fogão a lenha, sótão e vários quartos escuros. Tinha um certo medo de entrar lá. Mas esse medo não era empecilho para me afastar da pequena “floresta” que era o jardim do lado direito da casa. Havia muita planta, flores e ervas medicinais lá, divididos em dois ou três corredores. O ambiente era úmido, pois os galhos altos das plantas impediam que a luz solar chegasse até o chão. Apesar de ir pouco, eu adorava aquele lugar. Me sentia numa floresta. Fantasiava histórias e aventuras nas quais eu me perdia, improvisava abrigo, fugia dos animais. Ganhava a imaginação.

Era um ambiente único, incomum a tudo que eu estava acostumado. Infelizmente, minha diversão tinha sempre prazo de validade bastante curto. Meus tios não se mostravam receptivos à minha presença lá, aliás, à de ninguém. Mas criança e jardim era sinal de desastre pra natureza. E parece que eles tinham radar. Eu pulava o muro discretamente, atravessava o terreno em ponta de pés e quando adentrava os primeiros passos no jardim, eles me repreendiam. Algumas vezes fingia sair e me escondia entre algumas plantas. Era quando eles me delatavam ao meu avô, que pacientemente vinha me pedir para não tornar a perturbá-los. Mas o lugar era fascinante demais para abandonar assim. Cheguei a bancar o bom menino com meus tios para ganhar a confiança deles. Ia tomar café à tarde lá, conversava sobre assuntos de interesse de ambos, ganhava elogios, mas apesar do esforço, o jardim permanecia inacessível.

Das poucas lembranças que me restaram dele, ficaram as histórias, o aroma do ambiente, a umidade, o perigo (de ser descoberto), a tranquilidade. Acho que cheguei a brincar de se esconder, uma ou duas vezes, no máximo, com minhas primas. Não mais que isso. O paraíso não poderia ser violado. E apesar das interferências dos meus tios, a pequena floresta acabou abandonada e destruída quando a casa foi vendida. Aparentemente, de nada adiantou tantos cuidados. Mas se eles não preservassem o precioso jardim enquanto estava sob os seus cuidados, ele não seria aquele prodigioso espetáculo da natureza, nem despertaria a minha contemplação. Bom mesmo se mais gente estivesse plantando, cuidando e dedicando um tempinho do dia para a preservação da maior dádiva do planeta. Possibilitando mais jardins e florestas à nossa volta, reaproximando a natureza do homem, reequilibrando o meio ambiente, tornando nosso ar mais puro e estimulando as endorfinas dos sonhos.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Os incensos

E mais uma vez me pegava comprando mais de dez pacotinhos de incenso na loja. Sempre que isso acontecia, algum funcionário me dava uma rápida olhadela para conferir a figura que estava se preparando para uma grande sessão de descarrego. Isso não me incomodava. Minha amizade com os incensos teve início quando eu ainda era criança e minha mãe aparecia aqui acolá com algum, que ganhava como brinde de uma revista. Depois quando viajávamos para Natal nas férias, sempre comprávamos alguns na lojinha Arte Final do shopping. O cheirinho que exalava de lá era tão bom, tão agradável, que nunca passávamos sem comprar ao menos um pacotinho. Era um verdadeiro alucinógeno.

Quando fui para Campina Grande, vez por outra, minha mãe levava algum para o apartamento. Eu também comprava quando estava sozinho. Mas foi depois do teatro que passei a apreciar mais a essência deles. A cada ensaio, Chico acendia um ou dois, espalhava pelo ambiente e deixava queimando enquanto a gente se aquecia. Nas apresentações eles também estavam presentes, afastando qualquer interferência nociva e equilibrando o espaço com boas energias. O resultado final era sempre bom, se era contribuição dos incensos, eu não sei, mas era melhor continuar com eles.

Por fim, eu mesmo já os estava levando para os espetáculos. Enquanto todo mundo se preparava para a apresentação, eu acendia alguns pelo camarim e pelo palco e deixava a fumaça tomar conta. O aroma, a chama e as cinzas que caíam, me tranquilizavam, me levavam conforto, transformavam aquele lugar num pedacinho do meu lar e estreitavam os laços entre mim e o palco. A partir daí passei a comprar grandes quantidades e espalhar ao menos um em cada cômodo do apartamento. Me banhava de sândalo, cravo, mirra, flor de laranjeira, benjoim, canela. Muitas vezes dava para se sentir o perfume ainda das escadas.

Até que uma vez, ao receber a visita de um amigo, que se mostrou curioso com a quantidade de varetinhas queimadas sobre um pequeno jarro na janela, fui chamado a atenção para uma curiosidade. Como eu, ele também gostava de incenso, mas me disse que não acendia muito porque os vizinhos podiam pensar que ele cheirava marijuana. Sim! Eu não sabia, mas os chegados na cannabis, costumam acender incensos para camuflar o cheiro da maconha em volta. 

Nesse momento, eu me lembrei das vezes que os funcionários das lojas me olhavam quando eu passava com toda aquela quantidade de incenso no caixa. Vai ver eles não pensassem que eu iria fazer um descarrego, mas a confraternização dos amigos da folhinha. Lembrei também das minhas sessões de purificação e dos vizinhos que passavam me olhando quando eu saía do apartamento e o aroma me acompanhava. De repente tudo ganhara uma outra dimensão. Eu era o novo maconheiro do condomínio. De hippie é que eu não tinha cara. Foi um episódio engraçado, mas de uma coisa eu tenho certeza, deixar de comprar meus bastõezinhos por fama de maconheiro ou macumbeiro é que não vou mesmo.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Marlon e a bola

Escutava Fagner na sala com minha mãe. Marlon corria pra lá e pra cá com sua bolinha de desodorante roll-on, seu objeto sagrado. Vez por outra, minha mãe chamava sua atenção para ele tirar a bola de perto dos móveis, antes que ela rolasse pra baixo de algum. Quando isso acontecia, ele traçava em sua cabeça todas as estratégias possíveis para retirá-la de lá, e em última alternativa, quando sentia que não seria capaz de fazê-lo, suplicava nossa ajuda da única maneira que conhecia: latindo! E nesse dia não seria diferente. Em pouco tempo o vimos com o focinho encostado no canto da estante e a bunda pra cima, em sua típica posição de herói farejador. Como percebemos que seria impossível ele retirar a bola dali, começamos a contar quanto tempo demoraria até ele pedir ajuda. Não deu outra! Começou com um pequeno grunhido, um chorinho, em seguida olhou para a gente e latiu. Era o sinal. Sua salvação dependia de nós. Minha mãe foi até lá e retirou sua bolinha.

Contudo, como já era de se esperar, pouco tempo depois, já estava ele de novo, focinho no chão e bunda pra cima. Só que dessa vez ele conseguiu a proeza de fazer a bola entrar em umas das cavidades externas da caixa de som. Meu aparelho de som é daqueles antigos, cujas caixas são bem maiores e separadas do conjunto. Ainda tem toca-discos nele. Uma raridade! Brinco com meu primo de 13 anos que ele tem a idade do meu aparelho. E claro que com as caixas no chão, era de se admirar que Marlon ainda não tivesse inserido a bola lá. Mas o dia chegou! Minha mãe ainda foi lá, procurou por trás da estante imaginando que estivesse por ali, mas nada. A direção do focinho dele só indicava um lugar, a bola estava dentro da caixa. E foi o que constatei quando cheguei lá. Conseguia até tocar nela, sentia correr de um lado a outro, mas era praticamente impossível retirá-la de lá. "Esqueça, Marlon! Essa bolinha você perdeu!".

Marlon, no entanto, não iria abrir mão de seu objeto precioso assim de cara. Fincou raiz ao pé da caixa e ali ficou. Não adiantava chamá-lo ou tentar fazer esquecê-lo. Ele não queria papo! Conseguiria sua bolinha a qualquer custo. Não tardou muito e começaram os latidos, os choramingados, uma pata forçando inutilmente o buraco, outra arranhando a tela. Minha avó encontrou a outra bolinha dele e antes de entregar, eu tentei subestimar a inteligência canina. Peguei a bola, coloquei no bolso, fui até a caixa, fingi que estava tentando retirar a outra, passei secretamente aquela entre minhas mãos e mostrei a Marlon como se fosse a que estava presa. Ele começou a pular de alegria, eu joguei então a bola no chão e ele correu até ela. Pronto! Problema resolvido! Foi o que pensei. Não deu dois segundos, Marlon cheirou a bola e olhou para mim, esperando que eu lhe entregasse a bola verdadeira. Como percebeu que eu não a tinha, voltou a seu lugar em frente a caixa e lá deitou.

Seu tormento continuou ainda ao longo da tarde. Todo mundo saía da sala e ele continuava lá. Se por acaso saísse para beber água ou lambiscar sua ração logo estava de volta. Quando alguém passava, ele olhava suplicante e latia. Mas não havia como retirar a bola dali. Joguei várias vezes a outra bolinha contra o chão, na tentativa de animá-lo a correr atrás, sem sucesso. Impaciente com a insistência de Marlon em obter aquela bendita bola, fiz minha última tentativa. Desconectei os fios do aparelho de som, retirei a caixa do local, enfiei os dedos na abertura do buraco e balancei a caixa até sentir a bola rolando em torno da saída. A manobra durou alguns segundos, até que em uma das voltas, a bolinha passou pela cavidade, encontrou meus dedos e mergulhou saindo. Meu sorriso não era de vitória, ao menos não minha. Marlon era quem verdadeiramente tinha conseguido retirar a bola através da sua eterna dedicação, afinal, na sua esperteza canina, o que entrou devia sair. Soltei a bola no chão, ele agarrou apressadamente e saiu desfilando com seu troféu na boca.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Por que não suporto canto de galo

Diferente do latido do cachorro, que incomoda simplesmente pelo barulho, o canto do galo traz uma melancolia, um descontentamento, um presságio fúnebre. Talvez porque o galo já vá dormir anunciando o despertar. E a sua pressa me incomoda. Quem mora perto de algum entende o que eu falo. Parece que ele passa a madrugada inteira avisando que o dia vai amanhecer, só que ainda não amanheceu, então por que ele não cala o bico e vai dormir? Quem sofre de insônia ver o dia se aproximar a cada canto. É um pesadelo!

Me lembro quando ainda criança, de acordar pelas três ou quatro horas da madrugada pra viajar para a cidade vizinha. O ônibus saía muito cedo porque seu destino final era a cidade de Mossoró, 4h de distância, então era preciso chegar o quanto antes na parada. Essas viagens para a casa da minha tia eram sempre uma festa, mesmo que o motivo fosse uma consulta médica ou um exame, afinal, o encontro com as primas era farra garantida. Porém, levantar cedo e se preparar para a viagem ainda era uma tortura. Entre luzes acesas, sonolência e lençóis sendo puxados, aquela cantoria infernal rompendo a madrugada: o galo!

Além da sensação de estresse por acordar àquela hora, obrigando a pupila a se contrair a cada piscada em contato com a luz do quarto, ainda era forçado a escutar aquela ave avisando que o dia não tardava a chegar, embora não tivesse chegado ainda. Na parada esquecida por todos, menos pelos galos, minha mãe, minha avó e eu aguardávamos de braços cruzados o ônibus passar. Esses minutos eram os mais tediosos. Podia sentir  no ar o desconforto daquela espera. O frio, o sono, os olhos puxados, a impaciência, tudo pedia para que aquele momento passasse logo. E como demorava!

Alguns anos mais tarde, voltei a madrugar toda semana quando passei a morar na casa dos meus tios para estudar. Novamente o mesmo estresse pra levantar, a sensação de vazio, o desejo de ficar, a obrigação de ir... e o velho galo nos ouvidos. O frio, o silêncio e o aperto na estrada invadiam minha mente. A esperança de um dia não ser mais necessário repetir aquela viagem se somava aos conselhos do meu avô de que tudo na vida tem seu propósito. Isso tudo enquanto tentava mover algum membro do meu corpo de lugar, antes que ficasse dormente.

Inevitavelmente, tive que repetir muitas vezes aquela viagem, não só enquanto morei na casa dos meus tios, como depois ao fazer faculdade. Devido a contramão entre a minha cidade e Campina Grande onde estudava, o único horário disponível para pegar todas as conduções até lá era saindo de madrugada. Não havia alternativa. Com o celular pra despertar, encostava a cabeça no travesseiro e logo estava de pé, só não dava pra ter certeza se o que me acordava era mesmo o alarme ou o canto do bendito galo.

Hoje estou de certo modo livre dessa jornada, mas não totalmente livre do chefe do galinheiro. Toda noite antes mesmo que a madrugada tenha início, lá o escuto entoando seu canto de superioridade, ainda bem que os cachorros urinam ao invés de uivar pra demarcar território. Há quem aprecie uma boa sinfonia de galo, quem relembre seus tempos no mato, no sítio ou na fazenda, mas no meu caso essa cantoria sempre foi constante, e acreditem, por mais lembranças boas que possam trazer, todo dia não há quem aguente.

Posso estar sendo rigoroso demais com nosso amigo tenor, contudo, não posso desassociar seu canto dos momentos de insatisfação que vivi. Ele estava lá, e inconscientemente, toda a melancolia daqueles dias retorna ao seu sinal. A noite perde um pouco sua extensão, já que aquele que só deveria entrar em cena ao nascer do sol, fica a madrugada inteira ensaiando. E olha que nem estou considerando a crendice de que canto de galo fora de hora é indício de má sorte. Até porque se assim o fosse, ele já estaria extinto.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Nas alturas

Ela estava ali diante de mim, como sempre esteve. Mas dessa vez algo novo se fazia presente. Algo vivo, interno, pulsante, mais psíquico do que físico. Eu acompanhava a fila e sentia a hora se aproximar. Apesar de alguma insegurança, não titubeei novamente; entreguei o bilhete e sentei na cadeira reservada a mim. Preso ali, comecei a perceber nos primeiros movimentos, por que aquele lugar sempre foi sinônimo de apreensão em minha vida. Desde criança quando os parques de diversões chegavam à cidade para a festa do padroeiro, comumente evitava os brinquedos perigosos que envolviam velocidade e altura. Era bem mais seguro ficar rodando em um cavalinho colorido do carrossel ou nos aviõezinhos a um metro do chão. Mas de longe a primeira imagem que se tinha do parque era dela, suntuosa, imponente, soberana entre todos, a roda-gigante. Era inevitável não olhá-la. Ficava atônito com tamanha engrenagem girando com tanta precisão, e mais perplexo ainda com as pessoas que se dispunham a girar naquelas altitudes. Ah, aí estava a razão.

Não sei necessariamente quando percebi que algum medo de altura havia em mim. Mas a cada novo degrau uma falta de equilíbrio maior. A gravidade dizia que meu lugar era a terra firme, o céu era para os pássaros. O medo era real e se mostrava evidente nas minhas opções no parque, e pode ter se somado posteriormente a uma labirintite que só complicou ainda mais a estabilidade no ar. Lembro de uma única vez que tentei desafiar esse medo, era o último dia do parque e depois de tanto ouvir as declarações entusiasmadas de meus amigos, fui convencido a embarcar no Twist, uma espécie de carrossel de cadeiras numa modulação bem mais acelerada e que subia durante o passeio formando um ângulo de quase 90 graus. Não sei a que sensação eles se referiam, porque a única que senti foi desespero agarrado ao cabo de sustentação, vendo a qualquer momento a cadeira ou o meu sapato voar até os fundos da rodoviária. Aturdido entre os gritos de euforia e as imagens do parque, que haviam se transformado em vultos, não fazia ideia se a altura ou a falta de estabilidade era a pior impressão.

Contudo, apesar de toda essa insatisfação, a altitude sempre me instigou. Mais novo queria ser astronauta, acho que não visualizava a viagem, apenas o desenho do planeta de cima. Mantinha ainda uma relação de cumplicidade com o super-homem, que voava. Gostava também de subir nas escadas da caixa d'água da casa de minha avó, apesar de todos os alertas da família. E quando morei em um prédio de dez andares em Natal, o meu passatempo predileto era subir no telhado à noite e olhar a cidade. Absurda contradição. Mas quem falou também que temos que ser tão lógicos? Acredito que o meu medo estava ligado ao domínio. Se o lugar era alto, mas me permitia ter o controle da situação, então era divertido, do contrário: "mainhaaaa!" Hoje avalio como um medo saudável. Todos têm medo de alguma situação aparentemente fora de controle. Algo semelhante ao medo de fantasmas. Eu, como a maioria das crianças, ficava assustado ao ouvir histórias de assombração, embora sempre insistisse em escutar, deixando o medo para me perturbar depois embaixo dos lençóis.

Talvez por essas contradições eu tenha ficado receoso do desafio de encarar uma roda-gigante pela primeira vez aos 24 anos. Mas eu havia decidido superar esse trauma de infância e fui um dos primeiros a incentivar o passeio no majestoso círculo. Bateu aquele friozinho na subida, a sensação de cair no nada durante as descidas, um esforço tremendo para manter o foco em algo e não perder o eixo, e no final ao olhar para ela novamente, achei imensamente maior do que antes e me julguei um insano por ter girado naquela altura. Ah, mas a sede de um parque estava apenas começando. Para ressarcir a ausência dele em todos os anos perdidos, fui em carrinhos, aviõezinhos, trem fantasma, e me arrisquei a ir em uma mini montanha-russa, depois de uma roda-gigante aquele trilhinho era fichinha. Basta informar que na saída perdi um pouco da coordenação motora das pernas, depois de acreditar que iria despencar do vagão em cada descida. Com esses testes de adrenalina, achei melhor não arriscar a barca viking e muito menos o tal do Samba, rodando sem parar. Ainda surgiu um convite pra repetir a roda-gigante. Não, pensando bem, outro dia, quem sabe.

Novamente não sei se o medo ou a falta de estabilidade provocando uma ânsia de vômito era a sensação que dominava ao final da experiência. Contudo, penso que foi propício o resultado alcançado. Embora não tenha superado completamente esse medo, consegui reverter uma situação que me incomodava desde a infância. Ao olhar uma roda-gigante agora, eu lembro que já estive ali. Penso que é importante o desbloqueio de qualquer mecanismo que trave o nosso progresso. O medo em demasia congela o ser humano e o impede de viver livremente. Uma fobia vai levando a outra e do nada estamos encurralados em uma cerca de pânicos. A altura passa longe de ser o meu maior medo na vida, temo muito mais alguma doença grave, que me leva a temer determinados comportamentos para evitar ter alguma, então fico condicionado ao limite que esse medo me reserva na vida. Por isso, é bom correr riscos algumas vezes, pular de para-quedas, fazer rapel (ainda faço um dia ), saltar no nada. Voar simplesmente sem se preocupar a que altura está do chão. Enfrentar os medos é cruzar os limites, ir além de onde acreditamos ser capaz e tornar o inimaginável, factível.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Impressões

E aquelas tardes tinham um sabor especial, eram verdadeiras reuniões invioláveis. Entre a diversão e o compromisso, amizades despontavam e descobertas prazerosas emergiam para um mundo ainda inexplorável de pré-adolescentes. Os encontros eram sempre no meu quarto. Os móveis eram afastados, a galera se espalhava pelo chão, o toca-fitas era ligado e pela sequência gravada na fita K-7 começávamos a nos apresentar. Em meio à garotada, minha mãe, que na função de produtora mais parecia outra criança. Geralmente esse período de ensaio durava apenas uma semana antes da apresentação. Tempo relativamente curto para assimilar passos, trejeitos e a própria música dos artistas escolhidos, mas não estávamos tão preocupados em acertar todas as coreografias, e sim em acreditar que éramos aqueles cantores e dançarinos famosos. Não importava se seria uma Déborah Blando morena, uma Sandy loira ou um Jacaré branco desde que a dedicação e a intenção fossem as melhores.

E dedicação se encontrava mesmo no capricho dos convites feitos à mão, em pedacinhos de cartolina, e entregues de porta em porta entre os vizinhos e amigos próximos; e até na confecção do figurino, normalmente uma reprodução meio pirata de algum modelo de roupa famosa, só que em tecido bem mais modesto. As especulações sobre os números a ser apresentados aguçavam a curiosidade de algumas crianças que se debruçavam sobre a janela do meu quarto nos horários dos ensaios, a fim de conferir em primeira mão o que estávamos preparando dessa vez. Sempre após os encontros no início da noite, saíamos todos juntos conversando em grande empolgação até a prefeitura da cidade, de onde cada um tomava seu rumo até nos reunirmos de novo no dia seguinte. Eu me dirigia habitualmente à casa da minha avó, onde quase sempre jantava miojo feito por mim mesmo, que à época era um grande achado da culinária infantil. De algum modo me sentia responsável, vivo, senhor do meu caminho. Era o garoto que trabalhava em algo produtivo e ainda preparava seu próprio alimento. Não era pouca coisa.

Quando o grande dia finalmente chegava, eu despertava com os primeiros sinais de luz a fim de não perder um segundo sequer as emoções que aquela ocasião proporcionava. E o dia era realmente cheio. Primeiro tínhamos que decorar a área de entrada de nossa casa. Uma cortina grande cobria toda a parede onde ficava a porta e alguns balões eram colocados em torno do ambiente. Inquieto para estar ocupado em alguma tarefa, olhava agitado todos que se ocupavam no único ofício que não conseguia realizar, encher aquelas bexigas com ar. Era ridículo, parece que só conseguia soprar pra dentro. Mas não ficaria desocupado por muito tempo, era hora de recolher o máximo de cadeiras entre os vizinhos para os convidados sentarem. E com minha sede de parecer útil, nunca deixava de ir buscar assento nos lugares mais distantes, como a casa da minha avó. E lá seguia eu atravessando a cidade num domingo ensolarado com uma cadeira de fitilho vermelha contra o peito e um sorriso no rosto.

Como em qualquer evento, alguns imprevistos estão sujeitos a acontecer. E me lembro de uma vez que faltou energia na cidade na manhã de uma apresentação. Falta de energia em cidade pequena é sempre um transtorno, nunca se sabe quando a força vai voltar, e quando inesperadamente chega não há quem não fique sabendo com a ovação de um grande gol pelas ruas. Pois desde que sem energia, sem espetáculo, uma vez que sem energia não há som, e sem som não há apresentação. Inconformado com a ideia de ver o grande dia vir abaixo, precisava encontrar alguma solução. Decidi que usaríamos pilhas no meu aparelho de som pequeno, mas onde encontrar pilhas grandes no comércio fechado de domingo? Depois de fuçar todos os buracos abertos da cidade, acabei encontrando, mas o volume do aparelho não se mostrou muito satisfatório para a realização do evento. Fiquei matutando, como encontrar uma solução possível? De onde arrancar energia? Sol? Gerador da igreja? Por que não? Não foi preciso tanto. Perdido em meus raciocínios escutei aquela ovação. Estava salvo.

Tomar banho, separar os figurinos pela ordem de apresentação, esperar os convidados, tudo era um ritual seguido com a maior satisfação. As meninas ficavam no meu quarto e os meninos faziam de camarim o quarto da minha mãe. Quando a nossa apresentadora chegava (minha ex-professora de alfabetização), eu lhe passava a lista com os números a ser exibidos. Em pouco tempo a área estava tomada por vizinhos e curiosos que passavam. Sentada sempre na primeira fila, minha avó, que nunca perdia a oportunidade de ver o neto em ação. E enfim começava. O corre-corre era grande na troca de roupa após uma apresentação. Eu com um olho no controle do som, o outro na área e ainda atento aos meus horários de entrar e mudar o figurino. A sensação de conquista ao final se misturava com vazio. Meta cumprida e não mais músicas, tardes animadas, caminhadas até a prefeitura, miojo com sabor de compromisso. Lamentavelmente tudo acaba, mas esses momentos já morriam um pouquinho no silêncio da noite vazia de um dia tão fervilhante de vida.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Um aniversário

Um flash de vida nunca se esvai das entranhas de um coração
Nem lembro como acordei. Só me recordo dos preparativos. Das minhas primas Agda, Ana Carla, Larissa, Pollyana e Andréa circularem pela casa. De sentarmos na calçada inclinada da garagem com o portão aberto. Ah, o portão! Ele nunca era aberto. Não havia carro e sempre entrávamos pelo portão menor. Deixá-lo totalmente aberto como naquele dia era uma completa realização. Era como se nossa casa passasse a ser uma extensão da rua, onde não havia limites. Na cozinha um entra e sai. Muita gente ocupada correndo de um lado pro outro. O cheiro de doce atiçava o paladar. Tentava surrupiar algum, mas tinha aquelas mulheres também que eu não conhecia, e ficava envergonhado. Na sala outras pessoas enchiam bexigas. Vez por outra se ouvia o pipocar de alguma e o riso de alguém. Minha mãe sempre aparecia pedindo para terem cuidado. Ela estava realmente agitada com todo aquele movimento na casa, a cabeça em tantos convidados e sempre a suspeita que não haveria comida suficiente para todos. Eu apenas observava todo o ambiente e tentava me divertir com tantas pessoas se dedicando em tornar aquele dia inesquecível em minha vida.

Quando a tarde se fez presente, eu já estava pronto. Roupa feita na costureira da minha mãe. Uma camisa quadriculada de vermelho e branco com um colete e uma bermuda jeans. Minha mãe também havia preparado algo especial para ela. Um short marrom da moda de cintura alta acompanhado de um cinto, uma blusa de cetim rosa e para completar, um colar estilo idade da pedra que descia até os seios. Saí do quarto e circulei pela sala, agora toda decorada com balões. Na parede atrás da mesa, um isopor em formato de casa com a frase: "Uma tarde no circo com Samuel e amigos". Nem preciso dizer que o bolo era um palhaço. O nariz vermelho e redondo saltando para cima. Parecia delicioso! O rapaz encarregado de filmar o evento em VHS já se fazia presente, assim como os vizinhos mais chegados e boa parte da família. Afinal, meus tios e primos tinham vindo à cidade só para me prestigiar. Na área de entrada ficou uma caixa grande onde eu colocaria os presentes, e claro, na parede outro palhaço com a cabeça enorme de isopor  e os braços e pernas feitos de bexigas.

Aos poucos a casa foi se enchendo. Os convidados me olhavam sem parar e isso começou a me preocupar. Não sabia mais para onde olhar e aos poucos já nem sabia como caminhar. Parece que roubavam cada expressão minha toda vez que me observavam. Finalmente minha avó chegou. Me abraçou, me beijou e ali em seus braços me senti seguro e protegido. Com ela chegaram também meu tio e minha prima Agda, que trazia o presente da minha tia Auxiliadora. Eu sabia de antemão que ela me daria um robô preto de meio metro que andava e mexia as mãos. Agarrei o pacote e, apesar da ansiedade, coloquei na caixa, queria saboreá-lo sozinho depois. Um carro então estaciona lá fora, e dele sai pacientemente um homem de calça jeans, camisa branca e cabelo grisalho. Sua entrada desvia os olhares dos convidados sobre mim. Ao menos até ele se aproximar, passar a mão no meu cabelo sorrindo e proferir sua saudação: "diga, comandante".

Meu pai era um militar do exército aposentado. Em seu ofício, percorrera o país partindo também o coração de muitas jovens. Não era seu primeiro filho e nem seria o último, assim como minha mãe não detinha o título de exclusividade. Aliás, estavam separados há quase dois anos. Com essa situação perdi a relação de intimidade, e uma onda de medo e responsabilidade assolavam meu ser, inconscientemente, sempre que o via. Meu pai era dado a mágico também nas horas vagas, e numa festa com o tema circo, sua mesa já estava posta e o picadeiro armado. Todo mundo se apertava para ver o grande mágico Seledon. A área ficou lotada. Gente em pé, gente sentada. Várias crianças com olhares curiosos agarrados ao portão do lado de fora. E eu? Bom, eu fiquei meio que escondido entre as pessoas. Tinha medo dele querer realizar alguma mágica com o aniversariante. Me fazer urinar ou botar ovo em cena como fez com um menino. Não. Naquela hora eu queria ser mais um simples convidado do que qualquer anfitrião.

Inexplicavelmente, gostava de estar em cena, de estar em evidência em um palco. E basta rebobinar um pouquinho a fita antes do show de mágicas do meu pai, para me encontrar dançando lambada na sala com minha prima Agda aos olhares atônitos de todos. Sim. É verdade. Minha prima cinco anos mais velha aprendeu a dança "proibida" do Kaoma e resolveu que precisava de um par para praticar em casa. E lá estava eu, dançando no meio da minha festa de aniversário. E mesmo com a expressão fechada, não de raiva, mas de insegurança, ainda dancei com outra colega da escola, essa da minha idade, e a cozinha literalmente fez um break. Foram todos assistir o desempenho daquelas duas crianças ousando ser gente grande. Minha avó olhava fascinada. Minha mãe direcionou toda sua agitação naquela cena, focou e congelou por alguns minutos. Nem eu sabia por que impulso estava levando à praça um hábito corriqueiro da infância. Talvez um anseio de me mostrar capaz de algo que poucas crianças naquela idade ousariam fazer.

As horas foram passando. A festa ganhando a noite. O time da cozinha dedicado em servir os convidados e certificar que todos estavam providos, e como minha mãe previu, as iguarias começaram a faltar. Mas nada de desespero. Hora de cantar parabéns e cortar o bolo. Todos se reuniram em volta da mesa. Muito barulho. No som Sacrifice de Elton John. Algumas crianças colocavam a cabeça nas lancherinhas para ver o que tinha dentro. Colocaram um banquinho para que eu ficasse numa altura razoável. Eu observava tudo esperando que alguém me dissesse o próximo comando. De repente o disparo e todos cantavam e batiam palmas sorridentes para mim. Naquela hora não sabia o que fazer. Me perdi completamente. Batia palmas junto com todo mundo ou só ficava olhando aquela celebração? Ninguém me passou a informação. Então sorrateiramente do impulso de bater palma, fui escorregando as mãos devagar até elas congelarem na altura da cintura. Olhos esbugalhados. Parecia que eu é que seria devorado ao final ao invés do bolo. E quando a cantiga cessou, veio o pior. Tive que apagar a vela. Foram três tentativas, várias vozes me encorajando, meu pai me pedindo força e só aí a chama evaporou. Mas nem fui eu o responsável. Um menino, provavelmente impaciente com a situação e louco pelos docinhos, se antecipou e contribuiu com seu sopro.

Desfeita as formalidades, todos foram se dissipando e as crianças formando filas para receberem as lembrancinhas, enquanto a sessão de fotos tinha início em frente ao bolo. Bateram uma fotografia minha com minha avó e depois a família toda queria uma foto exclusiva com ela. Em seguida minha mãe mandou chamar meu pai para a foto da família. Embora separados, ela ainda nutria uma remota esperança de reconciliação. Nos preparavam para o flash quando só então reparei que a vela de 6 anos do bolo estava voltada para mim e não para os convidados, como seria o correto. Com essa constatação, olhei para a câmera e a cena foi registrada. A mesma foto que agora olho aqui sobre a escrivaninha do meu apartamento e que todos os dias me encara com desafio. Faz exatos 20 anos. Minha mãe não voltou mais com meu pai. Ele teve outra família, outros filhos e hoje já nem se encontra mais entre nós. Eu fui crescendo, tentando superar os fantasmas da insegurança, encarar o mundo sem medo de falhar, embora aqui acolá busque nas fobias e inocência daquele garotinho a grande razão de continuar seguindo sempre. Encontro naquelas raízes o fruto do cara de 26 anos que me torno hoje.

domingo, 3 de abril de 2011

Esperando o efeito passar

- Você faz engenharia?

Havia acabado de assistir a mais um filme das comemorações do centenário de Chico Xavier, e ainda envolto de emoções caminhava em busca da saída do shopping. Pessoas passando por mim e minha mente ainda nos 110 minutos que ficaram na tela. Cheguei à saída, mas não podia ir embora ainda, precisava respirar um pouco o ar fresco daquela noite. Olhei em volta, todos os banquinhos estavam ocupados. Fiquei parado por alguns segundos na esperança que alguém abandonasse um deles e eu pudesse me sentar. Ao olhar mais ao lado percebi que em um dos bancos havia somente uma moça sentada. Resolvi ir até lá e ocupar o espaço restante. Da maneira sorrateira que me aproximei, atravessando até alguns galhos de palmeira, me surpreendi pela moça não pensar que iria assaltá-la. Sentei, coloquei a mochila em meu colo e fiquei revivendo todas as sensações que o filme tinha me proporcionado. Olhei para a moça do meu lado enquanto ela olhava na outra direção e tudo parecia tão sem importância tamanha a dimensão do que acabara de assistir. Ela então se voltou para o meu lado e eu desviei o olhar.

Mais alguns minutos, um rapaz apareceu e começou a conversar com ela sobre uma moto. Parece que a moto dele estava com problema e seria preciso levá-la até a oficina mais próxima. Ele não parecia aborrecido. Pelo horário a oficina estaria fechada, mas ele havia telefonado ao proprietário que autorizara levar o veículo até lá. Ele saiu então e logo o vi passando por nós empurrando uma Biz. A moça pegou o celular e ligou para alguém. Queria confirmar com uma amiga se iriam sair mais tarde, e enquanto narrava o problema com a moto do namorado, lamentava provavelmente não poder ir. Desligou o celular, olhou para os lados e entrou novamente no shopping. Eu, porém, nem pude me estender um pouquinho mais no banco. Logo uma senhora e um rapaz se aproximaram como se encontrassem os últimos ingressos para um show de rock. Com sua bagagem bastante espaçosa, fiquei bem mais exprimido no espaço que me restou do banco. Puxei meu braço debaixo de sua axila, quando ela se virou para mim, me examinou e saiu com essa: - Você faz engenharia?

Pensei: "quem é essa mulher? Será que está me confundindo com alguém?" Então a olhei surpreso, e neguei sua pergunta. Sua explicação era óbvia. Quando vê alguém da minha idade com uma mochila nas costas já sabe que faz engenharia na UFCG. Afinal, que outro curso alguém que usa mochila poderia fazer, não é verdade? Não, minha senhora, eu uso mochila simplesmente porque gosto. Claro que ela não se contentou com o fato de ter errado seu palpite e o interrogatório teve início.

- Terminei jornalismo. - respondi.

- Na UEPB? O curso é bom? Quer dizer que tudo depende do aluno. Se fizer um curso bem feito vai ter algum futuro, agora se for como eu fiz Serviço Social, aí já era, não consegue nada. Ô "cursozinho" difícil e mal feito esse que eu fiz. Você é daqui?

- Não. Rio Grande do Norte.

- Ah, então a gente pode falar mal da cidade. Porque pense numa cidade sem nenhum lazer e cheia de gente metida. Eu aguento porque não tenho outra opção. Olha esse trânsito! Já viu coisa mais absurda? Todo mundo quer passar na frente. Tá cheio demais aqui pra mim. Lá no Ceará também é assim? Eu penso que é só aqui.

- Rio Grande do Norte. - enfatizei.

- Ah, é. Natal!

- Não. Eu sou do interior.

- Ah, então não deve ter nem trânsito, né?

- Olha que incrível. Tem! - afirmei numa ironia que não sei de onde arranquei.

- E tem? (numa admiração impressionante). Mas garanto que não é como esse inferno aqui. E espere aí, você saiu de lá e veio fazer faculdade aqui? Não tinha nenhuma por lá, não? Ah, é porque é interior, né? Tá certo.  Eu já fui ao Rio Grande do Norte. Natal é maravilhoso. Natal! - enfatizou bem no final.

Fiquei cá comigo. Claro, minha senhora! Que outro lugar no Rio Grande do Norte poderia ser tão exuberante quanto a capital? Se até Campina Grande era ínfima aos anseios daquela cidadã, imaginem todo o interior de um outro estado que a seu ver deveria ser igual ou pior ao que nos encontrávamos.

- Você gosta daqui? - continuou investigando para saber se poderia prosseguir o tricô e ainda fazer um babado.

- Gosto!

- É, a gente se acostuma com o que tem. Já conheci muita gente que diz só sentir falta daqui depois que sai.

- A senhora é de onde? - agora quem não aguentou de curiosidade fui eu.

- João Pessoa! Meu marido que é campinense.

Ah, tá. Agora entendi. Primeiro mundo. Outra cultura. Temperatura amena. Cento e vinte quilômetros de uma realidade bem distante da nossa. O rapaz ao seu lado, que parecia seu filho, transparecia o incômodo que aquela conversa estava gerando ali através da facilidade daquela mulher em estabelecer diálogos tão "agradáveis" com estranhos. Ainda bem que o carro de seu marido chegou e ela saiu correndo com o garoto entre o trânsito caótico que descreveu. Ainda escutei seu "tchau". "Tchau, senhora! Cuidado com os raios UV mesmo à noite, afinal a senhora não está acostumada com um clima tão mirrado". Ainda tentei redirecionar meus pensamentos novamente ao filme, mas um novo casal se aproximou do banco com um filho pequeno.

A mulher e a criança sentaram e o homem permaneceu em pé. Esses ao menos não eram dados a colóquios com estranhos. E depois de acenderem um cigarro cada, e do homem afirmar que desejaria passar mal toda vez que iria fumar na tentativa de parar, se levantaram e foram embora. Agora o banco era só meu. Nenhuma ameaça de invasão. Só eu e meus pensamentos. Foi quando lá distante comecei a escutar a música A Whiter Shade of Pale da banda britânica Procol Harum que vinha de não sei onde. A canção famosíssima na década de 60, detentora de uma nostalgia sem igual e que recentemente esteve na série Afinal, O Que Querem as Mulheres? da Rede Globo, sendo a música preferida do personagem principal. Com essa definitivamente despertei de qualquer estado que o filme As Mães de Chico Xavier pudesse ter me deixado. Voltei rapidinho ao mundo real, peguei minha mochila, coloquei nas costas e fui embora deixando o banco vazio, enquanto a canção continuava soando ao fundo como uma trilha sonora. Minha ou do banco?

sexta-feira, 25 de março de 2011

Antes da alvorada

Luz apagada no quarto. Apenas o brilho do computador ilumina o ambiente. Os incensos de cravo e sete ervas queimando no parapeito interno da janela. A noite abafada não permite que o ar circule. A cama preparada para dormir. O canto dos galos à distância. Latidos de cachorros do outro lado da avenida. Nuvens em formato de golfinhos percorrem o céu. O silêncio! E o rangido da cadeira giratória. Cada coisa em seu lugar. A mochila encostada à parede. A coberta da cama no tapete. O tênis no canto do chão. A toalha molhada estendida na porta. Vou à janela. Os carros estacionados. As luzes apagadas nos apartamentos. O murmúrio da noite. A cidade dorme. O cheiro do repouso percorrendo as narinas. Finalmente uma brisa em meu rosto. A portaria, o estacionamento. O mesmo ponto de vista. A mesma altitude. O mesmo anseio: pular! Pular não! Voar!

Aqui dentro o vazio, a quietude, o abandono. Na cabeça o medo, a dúvida, a insegurança. Lá fora, o leão descansa. Em poucas horas o agito, a mudança, a perseguição. A cama a me agarrar, o ensaio daquela peça, o filme a assistir no dvd, o shampoo que acabou, o comprimido a engolir, a conta da padaria, as leituras a apresentar. Aniversários vêm. Aniversários vão. Promessas, sonhos, fantasias, olho gordo, simpatias. A motivação que chega. A coragem que leva embora. O tédio! Barulho lá embaixo. O portão se abre. Um carro em movimento. Mais alguém a partilhar as horas. No Twitter já não há quem circule. Aos poucos tudo se acomoda. E pelo quarto só os incensos continuam a se reduzir desenhando sua fumaça pelo ar.

Já não há o que pensar. Fome, sono, insônia e ninguém a desdenhar. Nenhuma mensagem no e-mail, nenhum comentário no blog, nenhuma notícia que não conheça, nenhum amigo online, nenhum vento na cortina. Só os incensos e eu! O nevoeiro inebriante que sai das hastes e percorre os contornos da janela, encontrando a saída e sumindo na cegueira da noite. Aquela chama vermelha libera uma torre de cinzas que se espalha até o chão. Agora somos só eu e ela, preenchendo o meu vácuo como a bruma de um atrevido cigarro ou um derivado da cannabis sativa adentrando os pulmões e entorpecendo os sentidos.

Aspiro o seu aroma e a jacente melancolia se irrompe numa intensa gargalhada. Não consigo reprimir. Posso acordar as paredes, os apartamentos, os e-mails, as nuvens e o vento. Amanhã terei uma multa na porta e uma dor latejante no juízo. Tudo é divertido. Sopro mais cinzas e abocanho as labaredas. Quero mergulhar no misticismo da noite. O vazio é preenchido e o medo se traveste de ousadia. Tudo posso antes dessa alvorada. Sorrir, xingar, bater, pular, cheirar, saltar, voar. E por fim com a queda dos últimos resíduos, também caio e salto exausto no reconforto da cama.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Um hipocondríaco no Rio

Fazia alguns meses que havia tomado essa decisão. Quero ir ao Rio. Preciso conhecer essa cidade que sempre me deslumbrou e me atrai como um ímã. E a oportunidade de embarcar com uma turma do curso de filosofia em um congresso em Niterói era quase que inacreditável pra me acordar pra vida. Mas poucos dias antes da viagem que não seria nada confortável, no mínimo uns dois dias dentro de um ônibus atravessando o país, comecei a me sentir diferente. Uma canseira do nada, palpitações, vista cansada. Sem falar na crise de garganta que acenava sua chegada. Talvez a tensão, a ansiedade. Na véspera de viajar fui ao meu psiquiatra e relatei o que sentia. Receita na mão, medicamento comprado e embarque garantido no dia seguinte. E claro, como bom hipocondríaco que se preze, uma farmácia inteira dentro da mochila. Entre estranhos, quietos e excêntricos, eu, Suellen e Cris, que iríamos apresentar uma esquete (pequena peça) sobre os textos de Medeia e Gota D'água, durante a apresentação do trabalho de Suellen. Apesar do enfado, foi uma viagem tranquila, por momentos até divertida. Só tinha que ficar atento aos horários dos anti-inflamatórios e antibióticos para a garganta. E quando o coração disparava um pouco mais, respiração profunda e comprimidos para relaxar. Se batesse aquele enjôo, sacava um Dramin e tudo resolvido.

Com todo esse reforço farmacológico, chegamos ao tão sonhado Rio de Janeiro. Todos os sintomas que eu pudesse ter sentido durante a viagem se esvaíram quando vi ainda de Niterói aquela imagem pequenina do aclamado Cristo Redentor. Olha! O Pão de Açúcar! É, realmente estávamos ali. Desci com cuidado do ônibus para poder pisar pela primeira vez em solo fluminense. Uau! Chegamos ao paraíso. Um pouco mais quente do que se pensava, mas ainda assim, deslumbrante. Fomos encaminhados de mala, cuia, bacia e bengala (ser ator tem seus vexames) ao nosso alojamento. Não era o Copacabana Palace, mas pra mim já estava de bom tamanho. A cada momento chegava mais gente de todo buraco do país. Era um carnaval de sotaque. Até quis brincar de "advinha de onde eu sou?", mas rolou um certo preconceito com quem não forçasse o "r" ou chiasse no "t". Teve uma discussão interessante acerca do organizador do evento ser gay, porque destinou os melhores banheiros aos homens com direito a espelho e ducha privada, enquanto as mulheres sofriam em duchas coletivas e apertadas. Mas no fim chegou-se a conclusão que a organizadora era que deveria ser lésbica, porque poderia ver toda a mulherada nua tomando banho.

No mesmo dia, depois de atravessar a Baía de Guanabara de barca e fazer uma visita à famosa praia de Copacabana, caímos num sono merecido e finalmente livre do desconforto das poltronas do ônibus, apesar de termos dormido com a luz acesa, pois nos avisaram que se apagassem a luz os ventiladores também desligavam, e no meio da noite acordei derretendo com a danada da luz acesa e os ventiladores parados zombando de mim. Amanheci já tenso com tudo isso. Depois enfrentamos uma fila do tamanho da ponte Rio-Niterói para comprar o ticket do nosso almoço no restaurante universitário, e outra maior ainda para entrar. O calor e a multidão começaram a me inquietar. Uma canseira nas pernas, coração acelerou. Olhava o Cristo e a sensação aumentava. E no dia seguinte ainda teria a nossa apresentação da esquete. Almocei e de volta ao alojamento tentei dormir um pouco. Inútil. Acordei pior. O coração ia sair pela boca, uma tremedeira. "Vou ter um infarto, uma parada cardíaca". Lá fomos eu, Suellen e Cris de táxi ao hospital mais próximo evitar que o ônibus retornasse com um passageiro a menos.

Nossa primeira parada foi no Hospital das Clínicas de Niterói. Requinte até no lixeiro. Ainda bem que plano de saúde serve para isso. Ao menos no nordeste. Não aceitaram minha Unimed. De volta à rua com um paciente à beira de um colapso, saímos sem destino em busca de outro hospital ou um táxi. Nessas horas é que acredito na intervenção divina. Acabamos nos deslocando exatamente ao hospital que uma moça do alojamento havia indicado. Chegamos e a notícia é que a situação era precária, e nem a emergência estava funcionando, só em casos extremos. Mas o meu era extremo! Saí do nordeste pra morrer em Niterói, sem conhecer o Cristo, Ipanema, Leblon, o Jardim Botânico? Fomos avisados de outro hospital duas esquinas dali, mas que a situação também era semelhante. Resolvemos arriscar. Fomos na recepção, fizemos uma ficha e pouco tempo depois um moço descontraído nos atendeu. Tinha uma tranquilidade na voz que até relaxei um pouco. Ele então nos encaminhou a uma médica em outra sala. Uma moça jovem também, simpática, mas não tanto quanto o rapaz, me examinou, perguntou o que eu sentia, segurou meu braço, que não parava de tremer e sentiu o pulso por alguns segundos. Diagnóstico: crise nervosa! Medicamento: 10mg de diazepam.

Saber que não estava em processo de infarto e que meu coração funcionava bem foi tranquilizante. Sentei na enfermaria à espera do meu medicamento. Foi aí que Suellen resolveu pensar alto: vai dormir por uns dois dias. "O quê?! Como assim? Não! Não vou dormir por dois dias aqui. E a esquete amanhã? E o Rio todo ainda a conhecer?" Para completar uma senhora começou a se tremer toda numa cadeira a minha frente. Outros gemiam. Saí de fininho em direção a saída, enquanto Suellen tentava tranquilizar a senhora. Quando a enfermeira chegou com o meu medicamento, cadê o senhor Francisco Samuel? Cris queria sumir em meio àquilo tudo. Lá Suellen me procura pelo hospital, até me encontrar do lado de fora. "Entra já e vai tomar aquele remédio, ou eu não apresento a esquete amanhã". - "Mas se eu tomar e dormir, não vamos apresentar do mesmo jeito". A discussão rolou ainda alguns minutos até que terminei entrando e tomando. Ela foi convincente. Ficamos ainda um tempinho por lá e fomos embora. Até boa parte da noite, as palpitações sumiram. Mas algumas horas depois retornaram. Tentei dormir, mas o efeito colateral do remédio ficou no mito. Passei a noite em claro.

Saímos para a apresentação pela manhã e eu só rezava para não cair no meio dela. Respirava fundo, tentava manter o equilíbrio, meio difícil para quem sofre também de labirintite. Mas enfim, conseguimos apresentar o trabalho, e olha, não passei mal durante a apresentação. Na verdade, me senti extremamente disposto ao final. Tanto que já queria atravessar a Baía de novo e sair explorando o Rio. O que acabamos fazendo nos dias seguintes. Conheci tudo que desejava, fui até guia de Suellen em algumas paradas, sem nem perguntar ao cobrador onde descia. Resolvi o problema da luz acesa, descobrindo onde apagavam as luzes sem desligar os ventiladores. E aquele mal estar? "Qual?" Me senti tão bem nos outros dias que enfrentaria mais um mês ali. Na volta pra casa estava tão exultante com tudo que tinha conhecido que esqueci até dos horários dos anti-inflamatórios. Fui um dos mais animados, enquanto boa parte da galera voltava com gripe, crise de garganta, febre. Aí nesses momentos que é bom ter um amigo hipocondríaco por perto. A farmácia da minha mochila foi o banquete e a salvação de todos.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Quando o velho som de novo

E dei pra ouvir Elis Regina. Sabe quando somos crianças que sonhamos em ter um determinado brinquedo, ficamos amolecendo os corações dos nossos pais para ganhar aquele jogo, aquele boneco, numa fixação que só passa depois que temos o rebento em nossas mãos? E aí depois que temos perdemos o interesse em poucos dias. Pois é, comigo aconteceu o contrário. Em um amigo secreto não convencional, e o que eu chamo de não convencional? Aquele onde cada um leva um presente unissex de um valor padrão e lá na hora cada qual vai escolhendo o seu, até ninguém poder mais trocar, e você ficar na dúvida se levou a melhor ou se foi sorteado com um bichinho de pelúcia ou uma caixa de bombom da Bis. Então, entre o troca-troca de presentes, acabei ficando com uma caixa que parecia conter uma camisa masculina, apesar do peso e do critério unissex já acusar que não seria. E assim no meio de muito papel picado dentro da caixa, encontrei um cd de Elis Regina.

Amigo oculto não convencional é mesmo uma grande pegadinha. Eu havia comprado um cd de Ana Carolina pensando na minha amiga Luciene, que por sua vez, havia comprado o de Elis Regina pensando em outra amiga. Resultado: nem Luciene terminou com o cd de Ana Carolina, nem Suellen com o de Elis, que acabou caindo nas minhas mãos. Nunca fui chegado nas canções de Elis Regina, mas achei interessante ter ganhado um presente que eu não compraria pra mim. Agora teria a oportunidade de conhecer melhor as músicas dessa cantora tão aclamada pelo público. Fui pra casa, coloquei o cd pra tocar e juro que tentei gostar das composições, mas as melodias me soavam muito forçadas, desconexas. Salvo algumas que já conhecia, como Fascinação, Atrás da Porta e Como Nossos Pais, não consegui pegar gosto pelas demais. O cd ficou lá entre as pilhas de cds de segundo escalão, aqueles que deixo pra ouvir quando perco o interesse nos preferidos.

E ano vai, ano vem, pensei até em me desfazer daquele elemento, dá-lo de presente a quem realmente merecia. Afinal, Suellen faria mais uso dele do que eu. Mas era um presente, e de uma amiga que hoje mora lá no Amapá, entre os índios e a selva amazônica (brincadeirinha). Ainda vou aí, Lu! Então permaneci com ele. E essa semana, dois anos depois de ter ganho o cd, resolvi colocá-lo no som e pela primeira vez pude apreciá-lo de uma maneira diferente. Não sei exatamente o que se passou, mas comecei a gostar do que estava ouvindo. E de repente pensei: puxa, isso é bom, por que não vi antes? E a cada música ia descobrindo um novo gosto, um novo estilo. Sempre achei que quem escutava Elis eram pessoas de um gosto musical refinado. Será que eu amadureci a tal ponto?

Não posso garantir que fiquei mais culto por ouvir e gostar das músicas de Elis, mas alguma coisa mudou em mim nesses dois anos para que eu pudesse rever a minha opinião sobre suas músicas. Nem que tenha sido a paciência e a disponibilidade para apreciar um estilo diferente do que estava acostumado. Talvez no momento atual suas melodias consigam chegar até mim. Como há alguns anos, a imagem de jovens que tentam mudar o mundo e no fim, apesar de todos os esforços, permanecem iguais aos pais, chegou até mim em Como Nossos Pais. Agora, depois da fase de desinteresse do presente, cheguei ao período de êxtase e de curtir adoidado, contrariando a ordem natural da ansiedade ao desprendimento na infância. Só sei que há três dias o cd não sai do som e quem passa lá só me vê escutando Elis Regina.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Questão de números

E naquela noite eu precisava deixar uma cópia do nosso documentário com a colega de trabalho da minha amiga Ana Célia, antes de pegar o ônibus pra casa. Chamavam essa colega popularmente de Galega, e fui informado que ela residia no mesmo condomínio que eu, era apenas uma questão de letras e números. Abandonei o U404 em direção ao E101. Ao chegar constatei que o interfone não funcionava. Haveria de esperar alguma alma caridosa surgir ali com uma chave que me permitisse entrar no bloco. Mas o tempo era meu inimigo também. Como o apartamento que procurava era no térreo, decidi dar a volta e chamar pela Galega na varanda. Ao passar pela janela do quarto, notei que havia uma moça no computador. Deduzi que seria a filha dela, já que haviam me informado que tinha uma. Chegando à varanda, rapidamente comecei a bater palmas, porém, ninguém apareceu. Bati de novo. E de novo. Nada! Como assim? Havia gente no quarto.

Retornei à janela do quarto. Não havia mais ninguém lá. Só um computador ligado e uma cortina voando na janela. O que poderia ter acontecido? Voltei a varanda. A menina deve ter ido pra lá. Mas nada! Também não havia ninguém lá. Foi quando me acometeu que a garota poderia ter se escondido de mim. Sim! Agora eu era visto como um bandido dentro do meu próprio condomínio. Não! Mas eu precisava deixar o dvd ali antes de viajar. Ela haveria de me receber. Voltei à janela, onde a cortina voando era o único movimento que se via no quarto, e comecei a chamar pela Galega. Informei que estava ali para deixar algo à mãe da garota, e que ela deveria entregar a minha amiga na agência bancária onde trabalhavam. Praticamente implorei que a moça aparecesse e só não afirmei que não era nenhum bandido, porque achei previsível demais. E se ela resolvesse ligar pra síndica ou pra polícia?

Retornei ao meu U404, peguei o celular e liguei para minha amiga enquanto voltava ao E101. A deixei a par da situação. Informei que a Galega não estava no apartamento e que sua filha havia me confundido com um ladrão. Mais que depressa, Ana Célia desliga o celular e liga para a Galega. Porém, ninguém atende. Óbvio! A Galega havia saído e provavelmente não tinha escutado o celular tocar. E no apartamento só estava a atormentada de sua filha, que a essa hora, ou já teria ligado pra alguém, ou teria petrificado de tanto medo. Resolvi constatar. O quarto permanecia no mesmo silêncio, e a proteção de tela do computador avisava que ninguém havia tocado aquele solo há algum tempo. Se ao menos pudesse entrar no bloco, tocaria a campainha e tentaria explicar mais uma vez a situação. Que menina complicada!

Foi quando retornando à entrada do bloco, vi uma alma caridosa circulando dentro. Corri e a mulher abriu a porta. Mal tive tempo de agradecer. Ela olhou pra mim, eu olhei pra ela. Não sei quem perguntou primeiro. Eis a Galega a minha frente. Atônito, tentei entender o que havia acontecido. Mas logo compreendi quando vi a porta do E103 aberta. Por algum motivo, me informaram o número do apartamento errado. Não sei se agradecia por ver finalmente a Galega e poder entregar o vídeo, ou se esganava quem havia me passado a informação errada. Mais uma espiada dentro do apê dela, encontrei a sua filha, uma garotinha bem menor do que a moça do E101. Entreguei o dvd e saí dali. Pensei na garota do outro apartamento. Estaria ainda escondida esperando seus pais chegarem para lhes relatar em soluços, o perigo que havia lhe ocorrido àquela noite? Pensei em ainda ir lá na janela e esclarecer que tudo não passou de um engano e que ela poderia voltar ao computador tranquila, mas achei que ela não acreditaria e já tinha sido traumatizada demais pra uma noite.

domingo, 17 de outubro de 2010

Perspectiva

E naquele dia fui ao banco. Fila cheia. Mais de cem na minha frente. Ausência de cadeiras vazias. Me acostei no chão ao lado da porta. Fiquei ali. De repente, algumas pernas começam a passar. Pernas gordas, pernas magras. Pernas curtas e compridas. Pernas apressadas, pernas lentas. Determinadas e confusas. Pernas em jeans, saias, bermudas, vestidos. Pernas em botas, sandálias, chinelos, sapatos, tênis. Pernas claras, pernas escuras. Silenciosas, barulhentas. Pernas lisas e peludas. Apenas pernas pra lá e pra cá. Um mundo de pernas. Uma infinidade de passos. Pernas que revelavam no caminhar o interior e o anseio de cada ser.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Bastidores do censo

O Censo 2010 acabou. Quem foi recenseado, foi. Quem não foi vai ter que se somar às estatísticas do IBGE. Me lembro de que quando criança devo ter presenciado alguma entrevista do censo em minha casa. Olhos curiosos ao que perguntavam. Achava bonitinho a gente ter que responder de que cor era, quantos cômodos havia na casa, se tinha geladeira, televisão, videocassete... De alguma forma sabia que estavam contando o país. Cresci ligado à geografia, aos atlas, vendo as estatísticas que o IBGE fornecia desde a vegetação ao turismo. Mas nunca havia eu mesmo respondido ao censo. E de uma maneira ou de outra, sempre simpatizei com o trabalho dos recenseadores. Achava interessante ir de casa em casa fazendo perguntas pessoais aos moradores. Então eis que o Censo 2010 não só me possibilitou responder sozinho ao IBGE, como fui a campo, ou melhor, aos domicílios particulares permanente ocupados entrevistar os moradores.

O compromisso que tomei comigo mesmo era de ser simpático, colher as informações corretamente, esclarecer os moradores e dar o melhor de mim para ajudar na construção de um novo retrato do país, que eu poderia ver no próximo atlas e saber que fui contribuinte com as informações daqueles dados. Bom, com esse pensamento teve início minha caminhada. Comecei me atrapalhando nas primeiras entrevistas, ficando receoso de verificar certos dados e constatando que lidar diretamente com as pessoas seria mais complicado do que o imaginado. A simpatia durou até a segunda esquina e o primeiro domicílio fechado. E havia horas que sentia vontade de dar uma sacudida no morador pra ver se o esclarecia. Descobri que a cor do brasileiro é o "moreno", moreno claro pra ser exato, como afirmou insistentemente uma senhora que não se encaixava nas cores que o IBGE sugeria. Alguns reclamavam das perguntas serem demais, outros de serem de menos. Questionavam a necessidade de certos quesitos: "saneamento básico? Tá muito ultrapassado", reclamou uma moradora.

Desculpas eram frequentes. Falta de tempo. "Volte outra hora". "O que é isso?". "E o que é IBGE?". "Isso serve pra quê?". Tentei ser prestativo e persuasivo o suficiente para não ter que voltar outro dia, nem perder a paciência. "Essa hora?". "Desculpe, mas durante o dia não tem ninguém em casa". Entrevistei por interfone, com morador na janela do primeiro andar, bati palmas, bati em portas até minhas falanges mudarem de cor, berrei em prédios fechados, apertei campainha pra toda uma infância de travessuras, deixei bilhetes embaixo de portas, peguei gente de toalha, de pijama, pelado, segurei bebê no colo, recebi cuspe de criança falando em cima de mim, entrei em ambientes sombrios, me confundiram com ladrão e fui recepcionado por muitos amiguinhos peludos. Fazendo justiça, muitos cães se mostraram bem mais evoluídos que seus donos no quesito recepção. Fiz até amizade com alguns que me avisavam se seus donos já estavam em casa. No meio disso tudo estava apenas um recenseador que precisava concluir seu setor.

Depois de algum tempo as perguntas saíam automaticamente. Eu acionava o piloto automático e seguia: "o domicílio é próprio? quantos banheiros existem? morava alguém no exterior...? 31 de julho de 2010?..." E por aí seguia. Peguei muitas famas no serviço de moto-táxi, já que em várias ocasiões quando tive que trabalhar à noite, dava pontos diferentes como referência. A princípio fui o evangélico devoto da Universal do Reino de Deus. Cada noite era morador de um edifício novo. Às vezes pedia que me pegassem em postos de gasolina ou em esquinas. Batendo ponto? Deviam pensar, tendo em vista o ambiente em volta ter sua fama própria. Vi um pouco a cara do país nas pessoas que me recebiam. Encontrei gente hospitaleira, simpática, dedicada em contribuir para as estatísticas e encontrei gente indelicada e arrogante que respondiam àquele pobre recenseador como a um favor. Diversos tipos passaram pelo meu caminho. Diversas situações. Me surpreendi uma noite quando descobri que a mulher alta que entrevistava, na verdade era um "menininho", como se definiu ao se referir ao seu nome masculino.

Aos poucos, na correria, na impaciência, na pressão do tempo, fui descobrindo que o trabalho dos recenseadores não era simplesmente entrar nas casas perguntando isso e aquilo. Consistia na verdade em um grande aparato que envolvia não só a minha disposição em perguntar, como a disposição dos moradores em contribuir. A falta de esclarecimento das pessoas em relação ao censo e ao IBGE foi bem maior do que pensei. Descobri um mundo que a mídia e a sociedade consideram extinto, mas na realidade ele ainda existe. Perguntar se as pessoas sabem ler... "Claro" era a resposta da maioria. Mas ainda existem analfabetos, mais do que deveria. E o saneamento básico falta em muitos lugares ainda.

Todavia, foi gratificante entrar assim mesmo na casa de muitos brasileiros, pessoas que nunca havia visto, sentir as energias de cada local, os sorrisos compartilhados, as caras fechadas, as ajudas, as lambidas. Descobri que existiam pessoas que almejavam também responder ao censo pela primeira vez, crianças curiosas me olhando mexer na maquininha, como eu olhava para o recenseador anotando no papel. Pouco antes de terminar meu último setor, me vi discutindo com o dono de um blog que postou algo falando mal do censo. Tomei as dores do IBGE. Acho que vesti a camisa e isso significa no mínimo, que se acredita naquilo que se faz, ou resumindo, um trabalho bem feito. Pois não acho que tomaria as dores do Sebrae quando estive lá, ou de uma empresa de comunicação. E de certa forma, ter feito um trabalho, onde a principal ferramenta era a entrevista, me trouxe de volta ao universo do jornalismo, e me fez avaliar minhas possíveis deficiências na área. E do censo levarei mais um aprendizado: tratar bem o recenseador que à minha casa for, no censo de 2020.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Detector de estresse

Odeio portas-eletrônicas de bancos, e parece que elas me odeiam também. Não há uma única vez que tente passar por elas, sem que aquela voz irritante da máquina diga: "objeto metálico, por favor, volte e coloque ao lado". Acho que eu poderia passar pelado que ela ia dizer a mesma coisa. E lá vamos nós. Deixa celular, trava, volta; deixa chaves, trava, volta; deixa óculos, trava, volta. Estava com a mochila carregada de compras que tinha feito antes no supermercado. O gerente me olha como um sujeito suspeito. A mulher atravessa a porta e me pede pra abrir a mochila pra ver o que tem dentro. Claro, né? De repente eu poderia ter uma bazuca e sair atirando em todo mundo lá em cima, inclusive em todos os seguranças armados, depois de roubar todo o dinheiro do banco, né?

A vontade era de jogar a mochila contra aquela porta de vidro e esfregar tudo que tinha dentro nas fuças daqueles seguranças, que se acham os "maiorais" por portarem uma arma na cintura e um colete à prova de balas. Mas como tinha que entrar lá, abri a mochila e mostrei minhas potentes armas de última geração: um pacote de biscoito cream-cracker, duas latas de leite desnatado, oito potinhos de Yakult, um guarda-chuva, uma garrafinha d'água, uma boina, um estojo de lente de contato, estava disposto a retirar tudo das sacolas e até abrir as embalagens, tamanha era minha revolta, quem sabe dentro de uma lata de leite eu não escondia quilos de munição, e o guarda-chuva era na verdade um fuzil M16.

Contudo, vendo que nenhum desses objetos era suficiente pra realizar um mega assalto, a segurança liberou o suspeito. Era hora de cruzar novamente a alfândega. Fui pela porta de saída pra não haver risco dela travar de novo, contudo... porém... todavia... entretanto... ela travou!! Novidade seria se não o fizesse. Finalmente depois de voltar e entrar de novo, consegui penetrar o solo "sagrado" daquele recinto e seguir a minha direção. Na volta, claro, ela nem se importou comigo. Óbvio, se eu não usei a bazuca lá dentro, saindo é que não iria usar.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Enquanto espero...


Sozinho no apartamento esperando minha mãe e minha avó chegarem de viagem. Elas vêm em um carro da família, e por isso seria a primeira vez que nosso amigão de quatro patas Marlon iria conhecer o solo paraibano, mas minha mãe se sentiu mal ainda no início da viagem e o deixou na casa da minha tia em Pau dos Ferros. Pena! Eu tava louco pra vê-lo. As horas correm, mas o carro nada. Pensei que só chegariam à noite, mas saíram mais cedo e já estão quase chegando. Por enquanto, o tic tac irritante do relógio é a minha única companhia. O céu nublado me lembra chuva, e a chuva me lembra calça molhada e PDA, nos dias que recenseei embaixo d'água. Fechei meu primeiro setor, tô esperando o pagamento do IBGE.

Hoje também dei entrada na minha carteira de trabalho, ainda não tinha uma. E dia 18 tem avaliação para retirada de drt de ator. Apostila pra ler e monólogo pra apresentar, que ainda não decidi. Às vezes não sei se devo permanecer investindo nessa carreira, mas um drt na carteira não atrapalha. E ainda tem o de jornalista depois, se eu tirar. Ontem foi 7 de setembro, e o mês ainda me lembra a festa de São Miguel Arcanjo no dia 29, que não sei se irei mais uma vez participar. Queria comprar um pequinês, mas não encontro por aqui. Agora não tô podendo tomar leite, refrigerante e café, nem comer frituras, tomates e carne gorda devido uma esofagite erosiva. Resultado que obtive através de uma endoscopia digestiva que fiz depois de anos fugindo dela. E até agora não sei se saí com minhas próprias pernas da sala de exame até a de repouso. Nada de minha mãe e minha avó.

Terça que vem tem ensaio de Última Estação, os personagens estão definidos, e me sinto bem com os que farei. Talvez o cenário de Pluft venha aqui pra casa. Tenho que renovar minha consulta de vista. A lente de contato tá pior que o óculos de 2004. O cabelo precisa de um corte, mas cansei do mesmo modelo, queria algo novo. Queria ganhar na Sena, conhecer Gramado, fazer um Cruzeiro. Cansei da posição dos móveis no quarto, mas não tenho muita opção de mudança. A fitinha do Senhor do Bonfim, o TOC, o relógio velho, a mochila, coisas que me identificam. Minha mãe vai trazer um chuveiro elétrico e não vou mais precisar ferver água pra tomar banho no frio. E me vem cada detalhe. O roteiro que não terminei, o camarão que não posso comer, as eleições se aproximando e Marina me conquistando, o nome de uma pomada Omcilon-A 1 grama no porta-recados, o comprimido em jejum e antes do almoço e jantar, essa postagem que não termina, o carro que não chega, as nuvens se dissipando, o pequinês faltando, o tic tac incomodando, o celular chamando. São elas. Chegaram! Vou descer pra recebê-las.

domingo, 15 de agosto de 2010

Queimei a beca!!

Finalmente aconteceu a última solenidade da conclusão do meu curso, a "grande" colação de grau, que serviria de fato para a entrega do diploma de graduação, o que não é bem assim na minha universidade. Bom, como não poderia deixar de ser, o grande dia não passou em branco, na verdade passou bem passado até demais. Depois de minha colega de turma descer ao som das minhas colagens de música no baile de formatura, e o apresentador me chamar de Francisca Samuel, eu tinha que marcar esse outro dia de alguma forma. E eis que o marquei a ferro quente.

Um dia aparentemente normal até então. Fuçava na internet até umas 3h da tarde, quando resolvi que era hora de desamassar a beca da universidade que havia alugado a R$ 5,00. A cerimônia de colação era dali a 2 horas. Pego então a beca, ligo o ferro, procuro a graduação correta do tecido, que na minha cabeça era linho, afinal era uma beca, tinha que ser um tecido bom, e deixo esquentar enquanto volto ao computador. Alguns minutos depois, me lembro do ferro e corro pro quarto, pego o ferro, que a essa hora já estava mais do que na temperatura correta, e enfio na manga com tudo. Com tudo mesmo, porque quando o retirei, a manga veio junto, e o que sobrou foi um buraco em formato de triângulo na linda beca da universidade.

É, o estrago estava feito a pouco menos de 2 horas da colação. O que fazer? Ligar pra universidade e tentar pegar outra beca? Mas num sábado à tarde? Ainda tentei, mas ninguém atendeu. E olha que tentei vários números que encontrei no site. Nada! Bom, estava decidido a não ir mais, quando liguei para minha amiga Ana Célia, que iria colar grau também, contando a situação. Incentivado por ela, resolvi ir assim mesmo, afinal o que era um buraco em uma beca no meio de tanta gente vestida igual? Peguei linha e agulha e juntei as pontas do buraco, disfarçando a sujeirada. Nessas horas eu agradeço os vários dias que passei costurando as túnicas dos fantasmas para a peça de Pluft.

O local do evento estava lotado. Eu pensando que seria uma cerimônia simples com os aluninhos, me deparo com uma grã-finada se exibindo com suas becas sem buraco. Bom, tomei fôlego e fui. Fiquei meio que escondidinho, querendo fugir dali. Quanto à cerimônia se resumiu ao seguinte: um aglomerado de alunos vestidos de preto sentados num salão enorme com os padrinhos do lado, ouvindo o vice-reitor, os diretores dos centros acadêmicos tecerem elogios à universidade e um bocado de baboseiras. Me deu fome. Mas num dava nem pra sair e comprar uma pipoquinha porque todo mundo ia olhar pro meu buraco - no bom sentido. Depois de todo o blá blá blá, teve lá o juramento, que eu particularmente não estendi a mão e nem jurei nada. Pra quê? Já minto demais na minha vida.

Logo depois começou o tal ato da colação de cada centro. Um só aluno subia ao palco em nome de todos, enquanto os outros ficavam sentados esperando a varinha de condão invisível os coroar graduados. Ah!! Palmas, mais blá blá blá e confetes. Confesso que não senti nada de diferente depois. De repente, surge uma mulher no meio daquela tinta preta com uma lista e uma caneta na mão: "assine aí seu nome". Pronto? Me formei? Acabou a tal colação? E pra que diabos a gente tinha que estar vestido com essas becas, se nem fomos chamados um a um ao palco pra receber o diploma, como deveria ter sido? Se era só pra assinar uma lista de presença, eu deveria ter ido com minha roupa normal e deixado aquela beca queimada em casa, ou melhor, nem deveria ter alugado.

Bom, o desfecho dessa história se deu nos dias seguintes quando comprei um outro tecido lá, bem diferente do linho, e levei a uma costureira pra refazer a manga. Ah, e claro, quando se trata de universidade e fim de curso, tudo tem que complicar um pouquinho mais pra mim. Justamente o dia que escolhi pra ir à universidade devolver a beca, agora sem buraco, dou de cara com a intervenção do vigia me impedindo de entrar: era feriado na universidade naquele dia, sabe Deus de quê. Então só na semana seguinte consegui devolver a beca e dá entrada na papelada do diploma, que só tem prazo de ficar pronto em no mínimo três meses.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Observando...!

Um mundo de pedrinhas brancas ao longe. Alguns carros parados em fila indiana logo abaixo. O verde das plantas e o azul da piscina se destacam entre o branco e o vermelho das telhas. Um carro passa e derruba um rolo de papelão vazio. Outro em seguida passa por cima e o lança na rua abaixo. Dois rapazes se aproximam e um, olha com o pé. Um ônibus atravessa uma avenida distante à direita. Um garoto cruza a rua de bicicleta. Uma mulher passa apressada com uma sacola nas mãos.

Aqui dentro, o elevador abre. Dois homens elegantes saltam conversando. Uma mulher com criança no colo espera o próximo. Duas moças da limpeza saem pela porta de emergência e recolhem o lixo do corredor e dos banheiros. O elevador abre e a mulher com a criança entra. O elevador fecha.

Uma carroça com um homem e um garotinho atravessa a rua principal. Um flanelinha ajuda um senhor a estacionar o carro. Do outro lado, um fogo acompanhado por uma intensa fumaça se espalha nos limites da mata. Um homem se movimenta próximo. Outra carroça passa no local. Muito lixo perto. A piscina continua silenciosa lá embaixo.

O elevador abre novamente. Ninguém desce. Uma mulher sai de uma sala do outro lado com uma menina. A garotinha corre na frente até o elevador e aperta o botão. Lá embaixo, um senhor pára no meio da pista sem rumo. Ele olha para os lados, pensa e finalmente toma uma direção. Uma moto passa com uma garota de capacete rosa na garupa. O fogo cessa. Um avião cruza o céu ao longe. Uma moça rega o jardim de sua casa.

Aqui dentro uma mulher fala ao celular e depois acende a luz. As estrelas começam a brilhar nas pedras. O céu ainda clareia, mas na terra muitas estrelas amarelas já brilham. Carros continuam a passar. Corredor vazio. Silêncio.

sábado, 1 de maio de 2010

Em Algum Espaço

Aqui parado no meu apartamento, o ventilador ligado balançando a cortina e soprando as minhas costas, alguns papéis sobre a escrivaninha, escrevo a própria metalinguagem da sensação e dos desejos, as angústias, os anseios escondidos no mais profundo buraco da minha carcaça. Elton John curte esse momento comigo. Há pouco lavei a louça que eu mesmo cozinhei. Começo a compreender esse universo da culinária. Não sou ainda um expert, mas já consigo fazer um arroz com sabor e um feijão que me abre o apetite. Acho que poderia ter cultivado esse hábito há mais tempo. Acostumado a ter a comida pronta da quentinha todos os dias, não me interessava em aprender. Antes comia pouco e sobrava comida. Agora como tudo e quase nada se estrói.

Passei o ferro em algumas roupas que lavei outro dia. Lembro de minha avó sempre que o faço. A observei passando com tanta delicadeza e precisão um pano de prato um dia, que às vezes tento imitar. O apartamento ainda não viu a vassoura essa semana. Mas ao menos a pia da cozinha está limpa e não há roupa suja pra lavar.

Alguns galhos de árvores se movimentam lá fora pela janela. A conta do condomínio e do banco me acenam da escrivaninha. Ao lado alguns pequenos retratos meus, da minha mãe e da minha avó comigo no meu aniversário de 6 anos. Elton John também embalou essa data. A música sempre presente. A amiga que nos leva longe e nos mantém aqui, seguros e inseguros do amanhã.

Por um momento parece que o tempo para. A sujeira na parede pelas marcas dos antigos calendários, o terço que meu avô fazia balançando no armador, o tapete no chão ao lado da cama, fragmentos de ideias numa cadernetinha, poeira pelo chão. Só momentos. Apenas flashes de instantes perdidos na imensidão do tempo.