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domingo, 28 de dezembro de 2014

Entre as molas

Esses dias andei pensando... O tempo é uma estrada feita de mola que só tende a esticar. E quanto mais se estica um lado, mais distante ficamos da sua outra ponta. Ele não poderia ser uma reta porque precisa amaciar os percalços da vida. Mas o que vai ficando nesse meio? Ou melhor, o que vai surgindo e desabrochando enquanto ela cresce? Quando mais novo, eu costumava analisar o quanto mais distante eu estava ficando de um determinado ano. Épocas e momentos especiais iam se alongando sempre mais. De repente, aquele ano mágico ia se tornando velho e mais velho, até virar apenas uma pequena sombra distante. Era a mola distendendo-se e fazendo do garotinho, um adolescente; e desse, um homem.

Hoje cruzam por mim diariamente Eduardas, Luanas, Thalias, que, não fosse um simples detalhe, me pareceriam meros nomes de jovens adolescentes. Porém, alguns anos atrás não era comum encontrar por aí uma garota chamada Thalia ou mesmo Eduarda - o masculino sim era o comum -, assim como o feminino de Marcelo também soava estranho e só a Machado de Assis e a seu Brás Cubas remetia-se tal referência. Daí que olhando a idade dessas meninas, entre seus 16 e 18 anos, a explicação é bastante óbvia. Em 1996 a Rede Globo exibia - como agora voltará a exibir - um dos seus maiores sucessos da teledramaturgia, a novela O Rei do Gado, cuja mocinha se chamava Luana, uma boia-fria bronca, mas de coração doce, que cativou não só Bruno Mezenga, mas o público brasileiro. E haja Luanas a nascerem naquele ano, filhas do poder de influência da mídia.

O mesmo aconteceu no ano seguinte, quando Manoel Carlos arrebatou o público com sua Helena que sacrificou seu bebê vivo em troca do filho morto da filha, para não vê-la sofrer diante da impossibilidade de voltar a engravidar, em Por Amor. A filha mimada e egoísta, apesar de sofrer forte rejeição do público, parece que conquistou o coração de alguns futuros papais, que batizaram suas filhas naquele ano de Eduarda, nome da mocinha da história. E quem não se lembra do fenômeno das três Marias da atriz e cantora mexicana Thalia? Maria Mercedes, Mari-Mar e Maria do Bairro consagraram Thalia no Brasil e a fez visitar o país, pela primeira vez, em 1997, quando todos passaram a conhecer não só a atriz, mas também a cantora, e seu nome virou sensação.

São meras constatações, mas que me fizeram refletir sobre essa mola que se distende mais a cada dia, fora do nosso controle. Não penso melancólico sobre os bebês que nasciam batizados com os nomes da época e hoje estão às portas da universidade, de onde parece que saímos ontem. Apenas me divirto com as mudanças que acontecem. Não há como descrever o tempo, como segurá-lo, ou mesmo observá-lo, ele simplesmente passa, e só depois o sentimos, ou sentimos as mudanças que ele nos deixa. O tempo é o hoje, é o agora, é o sol que se põe no fim da tarde, é o garotinho atravessando a rua, a folha de papel picada caindo da sacada, o tempo é o instante, é o momento que nos cerca, o que fica atrás dele é essa estrada percorrida sem sinalização de retorno. Sendo uma mola, às vezes nos aproximamos de algum caminho percorrido, quando nos vem alguma saudade ou quando uma Eduarda te faz lembrar que já temos algumas estradas construídas, não muito longas, mas que já nos mostraram algo a mais e nos tornaram mais flexíveis.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Ainda há espaço pra Maneco?

Uma narrativa lenta, os costumeiros barracos em família, o cotidiano quase caricato de tão puxado para o dia a dia... Não imaginei algum dia escrever isso, mas Em Família cansa. Parece que dessa vez Manoel Carlos errou a mão, ou sua fórmula - assim como Glória Perez com Salve Jorge - já tenha se desgastado. A impressão que fica é que não há mais o que mostrar, tudo já é conhecido, e ninguém tem paciência para acompanhar um pouco mais do mesmo.

Quem vinha seguindo o ritmo dos últimos autores, de João Emanuel Carneiro a Walcyr Carrasco, sentiu a diferença ainda no primeiro capítulo. Embora Glória e Walcyr não tenham mantido o frenesi de Avenida Brasil, os primeiros capítulos de Salve Jorge e Amor à Vida foram bem mais movimentados. A história de Em Família até parece envolvente, mas a lentidão de novela das seis com que vem sendo apresentada tem prejudicado seu desempenho.

E ainda há mais três fatores que têm contribuído para a novela andar para trás: o excesso de atores desconhecidos do grande público entre os protagonistas e os principais coadjuvantes das duas primeiras fases; a história centrada num grupo de adolescentes, que faz lembrar uma Malhação no horário nobre; e a longa, exaustiva e monótona segunda fase da trama. Na verdade, se Maneco tivesse reunido toda a história dessas duas fases num primeiro capítulo bem enxuto, conseguiria mostrar ainda umas duas ou três cenas da terceira fase, deixar o público ansioso pelo que viria depois e garantir uma boa estreia.

Todavia, o autor optou por esmiuçar o máximo possível a adolescência de sua última Helena, e a resposta do público, sedento por agilidade, veio em sequência: 33 pontos de audiência no primeiro dia - o pior dos últimos tempos - 29.4 no segundo e 29.2 no terceiro. A Globo já providenciou as alterações para não continuar perdendo seus preciosos pontinhos na programação: a reedição dos capítulos. A mudança para a fase com Júlia Lemmertz, que já tinha sofrido uma antecipação do roteiro original do capítulo 12 para o 10, agora chegará no capítulo 8. Tudo isso para ver se a fase atual da trama, com o elenco de peso da casa, consegue prender os telespectadores e garantir a liderança com tranquilidade.

E como uma falha nunca anda desacompanhada, o tal "Momentos em Família" ao final de cada capítulo não deixa claro para o público se o que é produzido é ficção ou realidade. A princípio parece tratar-se de fatos, até pela tradição do autor de acrescentar um depoimento real a cada dia, nas novelas anteriores. Mas é possível perceber que há manipulação de imagens, cortes e intervenção de atores. A ideia original de aproximar as histórias apresentadas no folhetim com as de pessoas normais ficou embaçada, e o que se vê mais parece uma novela dentro da outra. E para completar o ciclo de estranhezas de Em Família, a disposição dos créditos do elenco na abertura não estava tão desajustada desde que O Clone, em 2001, inovou a maneira como eles aparecem.

Mas Em Família está só no comecinho, pode fazer muito ainda para ganhar a fidelidade do público. Talvez quando a história começar a se desenvolver no Rio de Janeiro, no elitizado Leblon, as coisas tomem um rumo. Ou a mesma fórmula batida de Maneco prove que a inovação é essencial, até mesmo para quem tem um estilo único. Parece que sozinho, o bom texto trabalhado em Por Amor, Laços de Família, Mulheres Apaixonadas, Páginas da Vida e Viver a Vida não consegue mais o mesmo sucesso. E esse nem foi o problema da última - duramente criticada -, mas a falta de uma boa trama para a Helena de Taís Araújo, e até mesmo a interferência do Ministério Público do Trabalho na vilania da personagem de Klara Castanho, como se ela, "uma velha disfarçada de criança", não conseguisse distinguir realidade de ficção.

Enfim, talvez em nome das grandes obras que já saíram de suas mãos, seja de bom tom ter um pouco mais de paciência com Manoel Carlos e aguardar o desenrolar dos próximos capítulos. Afinal, com clichês ou não, Em Família é sua despedida, e tem muito autor por aí que deveria estar de despedindo também das telenovelas, mas infelizmente ainda estarão no ar por um bom tempo.

domingo, 20 de março de 2011

Centésimo desatino

Parecia ontem. Não! Já faz quase 4 anos. Essa seria mais uma simples postagem não fosse o detalhe que ela é a publicação número 100 do Celeiro. Noventa e nove ideias, opiniões, sonhos, recordações e momentos hilariantes da vida desse cara aqui estão espalhados nesse espaço. O ano era 2007, outubro. A intenção: criar um blog para escrever crônicas sobre o ponto de vista do meu dia-a-dia maluco no terceiro ano da faculdade de Comunicação Social. Primeiro devo agradecer ao talentoso fotógrafo, Tareb Edson, que por perda de contato não sei se enveredou para outra profissão, de modo que pra mim ficou a imagem do fotógrafo. Foi por descobrir o seu blog, as crônicas bem-humoradas e as reflexões que fazia que me inspirei a criar minha própria página. Tanto que até hoje ainda tenho o link dele, mesmo não havendo atualizações há cinco anos. Naquela época, dava para abrir uma página e se admirar com o que encontrava, hoje de cada dez perfis no Twitter, oito tem um link de um blog, parece que já vem no pacote.

Meu primeiro texto não poderia ser outro, foi sobre o processo que me levou ao estágio do Sebrae durante a Feira do Empreendedor. O primeiro comentário que recebi foi da minha amiga Kárem, em 9 de outubro, um dia depois de publicar a primeira história. Bem, extraindo um trecho do seu enorme a carinhoso comentário, ela escreveu: "É um cantinho bastante aconchegante e que promete muitas risadas e fortes emoções!!". Não sei se consegui corresponder a profecia, mas analisando alguns dos 318 comentários que constam no Celeiro até então, pude perceber que ao menos alguns sorrisos fui capaz de arrancar. Com o passar dos anos, o Celeiro foi se modificando, ganhando modernos layouts, novas aventuras em cada publicação e obtendo reconhecimento ao mesmo tempo em que seu dono se descobria, crescia e compartilhava com ele suas conquistas e frustrações.

Hoje, 20 de março de 2011, três anos, cinco meses e doze dias após a primeira postagem entrar no espaço cibernético e o nome Celeiro do Sam começar a ser difundido, eu chego ao meu centésimo texto. Poderia já ter escrito duzentos, quinhentos ou mil histórias, ou poderia estar na quarenta, na setenta. Não! Estou na cem! Só escrevo quando sinto necessidade de externar alguma inquietação ou relatar outras peripécias da vida desse jovem irrequieto aqui, embora essa necessidade tenha sido bem mais constante nos últimos tempos. Não por acaso, ou totalmente porventura, atinjo essa meta numa data curiosa. Ontem foi aniversário da minha avó. Um ser que sempre irradia luz à minha vida. Temos uma ligação tão intensa que aos que acreditam na reencarnação, há quem diga que esse moço aqui deveria ter vivido de perto toda a febre da beatlemania, pois eu poderia ter sido o filho mais novo da minha avó que morreu atropelado no auge de Ticket to Ride.

Curiosamente, na mesma data de hoje em 1969, John Lennon se casou com Yoko Ono no território britânico de Gibraltar. Aos olhos de "todo" beatlemaníaco, ela seria a grande vilã da separação da banda e por isso condenada a eterna expiação de seus pecados. Já não parto desse pressuposto. Quem conhece a história do quarteto a fundo, sabe que o fim dos Beatles seria inevitável com ou sem Yoko. Tudo bem, ela pode ter antecipado um pouquinho, mas foi o descomunal amor da vida de John Lennon. As loucuras que esse cara fazia com ela eram inimagináveis. A canção The Ballad of John and Yoko narra esses momentos dos dois, que mais pareciam uma brincadeira com o mundo. Não sei se isso é babaquice de fã, mas se meu ídolo está feliz, devo embarcar junto na felicidade dele. E a contrapartida se mostrou significativa com uma década de memoráveis composições em sua carreira solo.

Mas 20 de março também costuma ser o dia do equinócio de outono no hemisfério sul. E a partir de amanhã, na astrologia, o sol entra no signo de áries e o ano astrológico tem início. Áries tem como elemento o fogo e entre suas características, a coragem, o pioneirismo, o entusiasmo, e também a impaciência, a impulsividade e a raiva. Bem, e eu sou ariano. Então o sol entra na minha casa a partir de amanhã e todas as minhas manifestações estarão mais acentuadas, ou não, não domino a lógica da astrologia. Mas aprendi pesquisando que áries é regido por Marte, planeta que tem o poder da conquista e da busca pela realização pessoal. Uma dica para investir nesse território? Um ariano que cruzou meu caminho em dois momentos foi Junior Lima. Na infância e adolescência ao embalar minhas aventuras ao lado de sua irmã Sandy, quando ainda não era devassa, e ano passado ao ler um texto meu no Celeiro sobre o seriado da dupla e indicá-lo em seu Twitter. Meu blog ficou mais popular que o clipe de Stefhany Absoluta. Com a diferença que continuei a pé.

Quem quase nasce ariano também é o autor de novelas Manoel Carlos. Mais uma semana e ele herdaria todo o temperamento impulsivo dessa espécie. O que talvez interferisse na construção de suas Helenas e de suas narrativas cheias de sensibilidade e romantismo, palavra-chave no pisciano. Mas seguindo os acontecimentos de 20 de março que marcam a data da minha centésima postagem, em 1815 Napoleão entrou em Paris depois de escapar de seu exílio na ilha de Elba dando início ao Governo dos Cem Dias; Albert Einstein publicou sua teria geral da relatividade em 1916; os EUA iniciaram a invasão ao Iraque em 2003; e em 2006 o Museu da Língua Portuguesa foi inaugurado na Estação da Luz em São Paulo. Tudo isso não tem nada a ver comigo, nem com o Celeiro, mas achei que se encaixaria no contexto de alguma forma. Afinal, aqui tem espaço suficiente para tantas proezas, que não estaria ainda nem próximo de encerrar o primeiro ato. Tenho bastante disposição para escrever e muitos delírios ainda na alma que precisam se transformar em palavras e ideias absurdas. Que maravilha um ser pensante e a loucura de se julgar normal em meio a lucidez da insanidade. E aí quem sabe o Celeiro seguirá uma outra profecia e será imenso do tamanho do amor que um dia alguém ousou sentir por mim.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Palpite

Descobri essa semana através da mídia que o autor de telenovelas Manoel Carlos irá se despedir da teledramaturgia em 2014, e que a atriz Lilia Cabral será sua última Helena. Desde que Mulheres Apaixonadas foi ao ar em 2003 havia o murmuro de que Maneco só faria mais uma única novela. Aí veio Páginas da Vida, a minissérie Maysa e Viver a Vida. Contudo, agora parece que não tem volta. E como ficam os telespectadores sem suas Helenas, sem o Leblon, sem Tom Jobim, sem o realismo cotidiano que só Maneco consegue traduzir em seus folhetins? Como fã incondicional do seu estilo de escrever, desde que vi a poesia traduzida em ficção na consagrada Por Amor de 1997, eu esqueço às vezes, que os autores de novelas também se aposentam, e que Maneco já terá 81 anos quando sua última obra for ao ar em 2014.

Ainda era um guri de 6 anos quando acompanhei pela primeira vez, uma novela de Manoel Carlos, Felicidade. Quatro anos depois, assistia História de Amor. Mas quero frisar aqui um marco em sua carreira de novelista, que me fez aos 12 anos me render por completo ao seu trabalho. "Do que você seria capaz por amor?" Esse era o teaser que ia ao ar com os atores da novela respondendo o que fariam por amor, antes mesmo das primeiras chamadas de Por Amor ir ao ar. Era uma história densa, profunda, mas que Maneco soube jogar com sutileza e poesia, tocando fundo na sensibilidade humana. Que mãe não sacrificaria sua felicidade em nome da felicidade do filho? Como julgar a atitude de Helena? Egoísta? Fraca? Superprotetora? Talvez todos esses adjetivos. Mas humana. Fica claro desde o início da trama que Helena criou errado sua filha Maria Eduarda, a tornando frágil, insegura, mimada e orgulhosa. E nem a cumplicidade de amigas que conservaram durante a vida conseguiu mudar esse fato. Gabriela Duarte conseguiu criar uma personagem tão autêntica que por anos ficou estigmatizada como a enjoada de Por Amor e gerou revolta em muitos telespectadores que criaram um site exigindo que ela morresse na trama.

Se por um lado tínhamos o conflito de Helena e sua filha, por outro tínhamos Suzana Vieira dando vida a uma de suas mais bem sucedidas personagens, Branca Letícia. Uma mulher amargurada no casamento, mãe de três filhos, mas que só dedicava amor a um, e ainda mantinha uma paixão escancarada pelo viúvo Atílio, Antônio Fagundes. A novela ganhava força com outros núcleos pesados como a família de Laura Trajano, a ex-namorada do filho mais velho de Branca, Marcelo, apaixonada até o fim da trama por ele, e que infernizava o casamento de Maria Eduarda. O núcleo de Orestes, o ex-marido alcoólatra de Helena, que buscava na sua filha de 6 anos do segundo casamento a força para se livrar do vício. E claro, o romance mais repleto de química da teledramaturgia brasileira até então: Milena e Nando. Carolina Ferraz esbanjou sensualidade, delicadeza e irreverência na sua personagem, e Eduardo Moscovis se encaixou direitinho entre a leveza e a objetividade de Milena. Sem falar que a trilha sonora dos dois, tanto Palpite de Vanessa Rangel, como Só Você de Fábio Jr, foram um dos maiores sucessos do ano. Assim como com a canção Per Amore de Zizi Possi marcou a trama e entrou na memória afetiva de cada telespectador.

Foi realmente uma trama memorável. E hoje, quase 13 anos após sua exibição, e coincidentemente no mesmo período em que era reexibida pelo canal Viva, eu consegui conhecer o local onde foi gravada sua última cena no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Helena, Atílio, Maria Eduarda, Marcelo e Marcelinho caminham em harmonia enquanto redescobrem o verdadeiro valor da vida, ou aprendem a amar, como Atílio enfatiza para Helena quando ela confessa que trocou as crianças na maternidade: "você não sabe amar... mas pode aprender". Bom, eu tenho um palpite, a teledramaturgia brasileira não será jamais a mesma depois que Manoel Carlos deixar definitivamente de assinar suas novelas. Sorte do ator que pôde um dia ter feito parte do elenco de alguma obra de Maneco. Meu amigo Júlio diz que eu sou rasgado demais quando teço elogios a Manoel Carlos, mas desculpa, Júlio, quando alguém consegue transmitir princípios de integridade familiar, numa verdadeira crônica do cotidiano, com suas harmonias e dissonâncias, usando sensibilidade e acima de tudo humanidade, eu não posso falar menos. É só aguardar ansioso sua próxima trama e lamentar ser a última.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

O resto é mar

Somos movidos a quê? O que nos faz levantar e seguir uma rotina exaustiva todos os dias? Há quem diga que o dinheiro move o mundo. Somos escravos do poder das cédulas. Mas prefiro acreditar que os sonhos movem o universo. São eles que nos impulsionam, nos arrastam quilômetros e remexem nosso eu interno em busca de uma saída que há muito já sabemos onde existe. Sem os sonhos, entramos quase num automático e deixamos o corpo nos comandar a um ir e vir sem fim à espera de um fim que nunca chega. Com a exigência de um profissional cada dia mais competente, qualificado, experiente, a competição, a correria, as cobranças, somos forçados a esquecer o que nos impulsiona, e nos jogar nesse turbilhão a fim de existir. O bom de quando adentramos muito nessa zona, é que podemos chegar ao centro e parar, ficar observando o mundo girando a nossa volta, como no olho de um furacão. Só aí podemos perceber que precisamos de mais, que precisamos deixar de rodar com os outros e criar nossa própria rota.

Há muito deixei de acreditar em sonhos. O mundo pareceu mais cruel e foi conseguindo corroer todos com o passar dos anos. Pulava de galho em galho na tentativa de me agarrar a algo que me desse satisfação e ao menos que fosse capaz de me sustentar em pé. Sacava cartas da manga que poderiam me fazer virar o jogo, mas logo eram descartadas e fui ficando sem saída, sem chão. Talvez entrar no furacão fosse a resposta do enigma. Mas por esses acasos da vida, ou sinais que nos despertam por alguns minutos, uma viagem inesperada caiu no meu colo com uma piscada de olho. Desde não sei quando exatamente, eu sinto que algo me chama ao sudeste do país, especificamente ao Rio. Por inúmeras intempéries fui adiando essa ida, sonhando com a cidade e nunca a possibilidade de ao menos conhecer. Durante quatro anos na universidade de comunicação, nunca saí da minha cidade a nenhum congresso, então se eu contasse a mim mesmo que estaria em janeiro de 2011 no Rio em um congresso de filosofia, certamente eu não acreditaria.

Uma esquete que começou por render uma graninha extra para um trabalho de grupo de universidade, me rendeu um passaporte para a vida. Quando Suellen me comunica que haveria um congresso de seu curso de filosofia em Niterói e que ela estava pensando em escrever nossa esquete no seu trabalho, eu fui o primeiro a incentivar. Essa oportunidade eu não perderia. Com todas as adversidades, embarcamos nessa aventura. Dois dias dentro de um ônibus. Dormindo pouco, comendo o mínimo e pagando muito, tomando banho aqui e ali, cruzando uma Bahia sem fim, torcicolo, tudo parecia não importar quando fomos maravilhados com a vista do Cristo ainda pequeno lá no alto do Corcovado, e aqueles cinematográficos morros do Pão de Açúcar. Não havia pisado ali antes, mas como lembra Gilberto Gil, o Rio de Janeiro continua lindo.

Nem toda a desorganização do congresso, as condições do alojamento, a falta d'água, os banhos de cuia, as luzes acesas de madrugada, os ventiladores parados e o calor nos evaporando, conseguiram estragar o meu humor. Afinal, a cidade existia, e eu estava nela. Havia deixado de olhar o Rio de cima e deslocado meu eixo para dentro. A cada passo uma lembrança, uma realidade. Era a bossa nova, Tom Jobim, Manoel Carlos, tudo me acenava. Pela primeira vez numa cidade grande não me sentia perdido, onde quer que estivesse. Afinal, tinha a noção do mapa e da localidade dos bairros na minha cabeça como se nunca houvesse saído dali. Percebi com essa experiência, que os sonhos podem realmente se tornar realidade, e quando isso acontece nos sentimos em casa, como se apenas tivéssemos chegado de uma longa viagem e estivéssemos prontos para viver uma vida que sempre foi nossa. Tenho gás para voltar a acreditar que a felicidade ainda é possível.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Sei lá... Maneco Tem Sempre Razão

Maneco! Maneco das Helenas, do Leblon, da família. Maneco da Regina Duarte, do Doutor Moretti. Maneco do amor de mãe incondicional, das mulheres e suas paixões. Maneco do singelo. Maneco da Bossa Nova, do Tom Jobim e da Miúcha. Maneco, Maneco, Maneco... Eis um homem que consegue um dos maiores feitos da teledramaturgia brasileira, quiçá do mundo. Com seus folhetins recheados de realismo, de uma vida como a minha, como a sua, consegue manter por mais de 200 dias no ar uma história sem vilão. Tudo bem, alguns podem se queixar pela ausência dele, mas na busca de uma verdade próxima ao dia-a-dia da sociedade, Maneco consegue criar uma trama, na qual todos podem ser os vilões e os mocinhos, afinal, ninguém é perfeito e todos estamos susceptíveis a falhas, a cometer erros e a mudar.

Me lembro da primeira novela de Manoel Carlos que assisti. Ainda tinha 6 anos, quando me envolvi nas aventuras das crianças Bia e Alvinho, e nas armadilhas de Débora. Ainda havia a figura forte da vilã em Felicidade, o que não demorou muito a se esfacelar como foi em História de Amor e Por Amor, sua primeira novela no horário nobre. As vilãs de Por Amor eram tão fortes como frágeis. Se Laura era obcecada por Marcelo, a ponto de cometer loucuras, era também sensível e sonhadora; e Branca, uma mulher de personalidade forte e infeliz no casamento, não suportava a solidão e sonhava viver seu antigo amor. Figuras humanas.

Prefiro assim. Ao invés de vilões capazes de tudo sem o menor escrúpulo ou fragilidade, gosto de tipos humanos, com suas qualidades e seus defeitos, suas forças e suas fraquezas. Um feito memorável aconteceu em Mulheres Apaixonadas, quando todos, ou quase todos os personagens, tiveram seus momentos de protagonista e os de figurante também. E como Maneco fez isso? Bom, o nome da novela já dizia, se a trama era sobre as mulheres e suas paixões, nada mais justo do que enfocar cada história no seu devido tempo. E assim, a paixão de Helena teve seu momento, a de Heloísa, a de Luciana, a de Edwiges, de Clara e Rafaela, de Raquel, de Estela... Quando uma história se destacava, as demais se afastavam, até chegar o seu momento. Foi uma novela incrível. A minha preferida do Maneco.

Viver a Vida se foi. Um final justo. Nada de especial. Por momentos passava a sensação de ser apenas mais um capítulo da novela e que no dia seguinte a teríamos de novo. Bem Maneco. Olha, já fui bastante noveleiro, acompanhei novelas de diversos autores, e digo que só teve um, ou melhor, uma autora que me encantou tanto quanto o Maneco. Ivani Ribeiro. A responsável pela sensacional A Viagem, a melhor novela com abordagem espírita até hoje. Quem quiser atirar pedra, fique à vontade, tem todo o direito, muitos até o criticam por aparecer somente a elite do Leblon em suas histórias, que seja! Porque pra mim, podem-se passar anos, se eu souber que uma novela de Manoel Carlos vai estrear, não duvidem que reservarei meu lugar em frente à primeira tv que aparecer.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Velhos Sonhos

O que um perfume, uma música ou uma ‘novela’ não são capazes de fazer. Por mais que as pessoas tentem me convencer do contrário, me chamem de nostálgico, de baú, é inevitável o fascínio que desenvolvo e a ligação que ainda preservo com o meu passado. Somos hoje o fruto necessariamente das nossas escolhas, dos caminhos tomados, enfim, do nosso passado. Desde muito pequeno fui encantado pelos mais de seis meses de aventuras e desenlaces das tramas da televisão brasileira. Me interessava bastante as mudanças que determinados personagens sofriam, o seu estado inicial, as pessoas que conhecia e não conhecia no início; e o seu estado final, com as pessoas que passou a conhecer e as que ficaram pra trás.

Imaginava que a nossa vida era exatamente assim. Hoje estamos aqui, amanhã ali, hoje conhecemos algumas pessoas, amanhã outras que nunca vimos estarão no nosso circulo de amizades. A grande diferença é que na telenovela existe o Vale a Pena Ver de Novo para podermos embarcar em todos os estágios como se vivêssemos tudo novamente. Na vida real, isso não acontece. O que passou, passou. No máximo fica alguma fotografia, um pequeno vídeo, mas todas as etapas nunca mais serão recuperadas. O tempo corre, as pessoas mudam, os sonhos se perdem, os momentos são esquecidos. Por quê?

Essa semana acompanhando alguns capítulos da atual reprise do Vale a pena Ver de Novo, Mulheres Apaixonadas, descobri que se ligamos nossos sonhos, nossos momentos a um perfume, uma música ou mesmo uma telenovela, podemos sim reviver muita coisa. Esse é o poder mágico que determinadas substâncias têm sobre algumas de nossas percepções. O cheiro atravessa o corpo e leva a alma aos lugares mais remotos do tempo, assim como a melodia nos faz voltar dez anos em apenas 3 minutos. Desse modo, encontrei outro túnel do tempo que nos faz viajar sem sair de onde estamos: a telenovela.

Quem nunca tentou se lembrar onde estava, o que fazia e até os detalhes da sua vida no ano da novela que está sendo reprisada? É sempre assim, basta passar a propaganda da reapresentação que já começa “ah, nessa época eu morava em tal lugar”, “eu lembro que eu sempre perdia o primeiro bloco porque estudava à noite”, “eu adorava dizer tal bordão”. É o passado dizendo “olá” de maneira bem sutil. Do mesmo modo aconteceu comigo.

E Mulheres Apaixonadas tem uma importância muito grande quando falo de novelas que nos lembram o passado. Ela foi ao ar no meu primeiro ano de cursinho em Natal, um garoto de 18 anos, cheio de sonhos e acreditando firmemente que todos eles poderiam acontecer. Suas músicas eram como trilha sonora dessa minha fase. E assim, sem perceber, Mulheres Apaixonadas se transformou em um grande detalhe da minha vida em 2003. Hoje, escutando a melodia, vendo os personagens, consigo até sentir o cheiro do apartamento, das revistas, do bairro, das roupas, o cheiro dos sonhos, de uma fase inesquecível.

Quando alguém me pega hoje acompanhando a novela em alguns momentos que tenho para assistir, pensa que se trata apenas do gosto por ela, dos conflitos, da história. Não! Acompanhar Mulheres Apaixonadas é como tentar resgatar aqueles momentos perdidos, aqueles sonhos que enchiam de alegria os meus dias. E como gostaria de poder vivê-los novamente, de poder ter outra vez 18 anos, de sonhar... ah, sonhar!!

Sempre comparando as novelas com a nossa vida, nem sempre estamos satisfeitos com o estado final de determinados personagens, preferindo até mesmo seu estado inicial. Na vida acontece o mesmo. Eu tinha bem mais força e paixão pela vida em 2003 do que agora. Respirava fielmente todos os sonhos que hoje a universidade conseguiu destruir quase totalmente. Posso até estar mais rico em sabedoria do que antes, mas trocaria tudo pela convicção e anseio de outrora. Contudo, fico feliz que ainda possa recordar esse e outros passados mágicos através de elementos incríveis que o tempo não pode jamais apagar.

Outro dia baixei pela internet o cd Meu Jeito de Ser de Angélica de 1993, uma outra grande recordação. Escutá-lo enquanto dou minha geral no apê uma vez por mês, me transforma, eu viajo, grito, tento fortemente retornar àqueles momentos, àqueles lugares. Nossa! Algumas vezes até consigo, e quando isso acontece, a emoção é inevitável. Não sei como as outras pessoas pensam, mas o que me faz agüentar a saudade dessas épocas e só viajar de vez em quando, é a sensação de que um dia elas irão voltar, é uma certeza de que poderei reviver algo semelhante de novo no mesmo lugar, mesmo que algumas vezes parece impossível. É como se ainda estivesse construindo a novela para que um dia ela seja reprisava novamente no Vale a Pena Viver de Novo.