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quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Um 2015 mais molhado!

Último dia do ano. Contagem regressiva para 2015 e hora de contabilizar os ganhos e perdas do ano que termina. Dentro de poucas horas um novo ciclo tem início e 365 novos desafios nos aguardam nessas próximas páginas que escreveremos. 2014 - assim como imaginei na virada de 2013 -, foi um ano de ganhos para mim. Desde seu início obtive grandes bênçãos. Saí de uma fase de recessão e voltei a caminhar com minhas próprias pernas. Aprendi a conduzir o banco do motorista e conquistei minha habilitação. Mudei de cidade. Conheci pessoas novas e fiz novas amizades. Passei a ganhar finalmente o meu dinheiro. Vi minha prima de longas datas dar um passo a mais em sua vida e senti a emoção de ver aquela garotinha que dançava lambada comigo 20 anos atrás subir ao altar e dizer "sim" para um novo futuro. 

Na família continuamos unidos, com saúde, felizes e cheios de esperança. Esperança em um amanhã cada vez melhor, com mais harmonia, solidariedade e principalmente amor em todos os corações. Mas além disso tudo, que 2015 nos traga algo que faltou em 2014: água. Que a fonte da vida retorne aos córregos, rios, riachos, açudes, barragens, que possamos ter um 2015 molhado de chuva e água em abundância. É triste terminar 2014 e perceber que uma crise geral de falta d'água tomou conta do país. Triste saber que o açude, que mais me parecia um oceano e muito me banhei na infância, hoje é um lago de terra seca e capim. Que a atmosfera nos presenteie e os céus nos abençoem com muitas perspectivas de chuva em 2015 e que saibamos cuidar e preservar esse bem tão essencial a toda humanidade.

Que a água venha e volte a brotar nas nascentes, a encher os rios, a escorrer pelas bicas, a molhar o pasto, a saciar o gado, a fortificar as lavouras, a irrigar as plantações, a desabrochar as flores, a germinar a terra, a renovar a vida. Que venha 2015, e que ele nos livre desse mundo vazio e estéril que começa de fato a nos ameaçar. Um 2015 mais molhado a todos nós! Merecemos.

domingo, 28 de dezembro de 2014

Entre as molas

Esses dias andei pensando... O tempo é uma estrada feita de mola que só tende a esticar. E quanto mais se estica um lado, mais distante ficamos da sua outra ponta. Ele não poderia ser uma reta porque precisa amaciar os percalços da vida. Mas o que vai ficando nesse meio? Ou melhor, o que vai surgindo e desabrochando enquanto ela cresce? Quando mais novo, eu costumava analisar o quanto mais distante eu estava ficando de um determinado ano. Épocas e momentos especiais iam se alongando sempre mais. De repente, aquele ano mágico ia se tornando velho e mais velho, até virar apenas uma pequena sombra distante. Era a mola distendendo-se e fazendo do garotinho, um adolescente; e desse, um homem.

Hoje cruzam por mim diariamente Eduardas, Luanas, Thalias, que, não fosse um simples detalhe, me pareceriam meros nomes de jovens adolescentes. Porém, alguns anos atrás não era comum encontrar por aí uma garota chamada Thalia ou mesmo Eduarda - o masculino sim era o comum -, assim como o feminino de Marcelo também soava estranho e só a Machado de Assis e a seu Brás Cubas remetia-se tal referência. Daí que olhando a idade dessas meninas, entre seus 16 e 18 anos, a explicação é bastante óbvia. Em 1996 a Rede Globo exibia - como agora voltará a exibir - um dos seus maiores sucessos da teledramaturgia, a novela O Rei do Gado, cuja mocinha se chamava Luana, uma boia-fria bronca, mas de coração doce, que cativou não só Bruno Mezenga, mas o público brasileiro. E haja Luanas a nascerem naquele ano, filhas do poder de influência da mídia.

O mesmo aconteceu no ano seguinte, quando Manoel Carlos arrebatou o público com sua Helena que sacrificou seu bebê vivo em troca do filho morto da filha, para não vê-la sofrer diante da impossibilidade de voltar a engravidar, em Por Amor. A filha mimada e egoísta, apesar de sofrer forte rejeição do público, parece que conquistou o coração de alguns futuros papais, que batizaram suas filhas naquele ano de Eduarda, nome da mocinha da história. E quem não se lembra do fenômeno das três Marias da atriz e cantora mexicana Thalia? Maria Mercedes, Mari-Mar e Maria do Bairro consagraram Thalia no Brasil e a fez visitar o país, pela primeira vez, em 1997, quando todos passaram a conhecer não só a atriz, mas também a cantora, e seu nome virou sensação.

São meras constatações, mas que me fizeram refletir sobre essa mola que se distende mais a cada dia, fora do nosso controle. Não penso melancólico sobre os bebês que nasciam batizados com os nomes da época e hoje estão às portas da universidade, de onde parece que saímos ontem. Apenas me divirto com as mudanças que acontecem. Não há como descrever o tempo, como segurá-lo, ou mesmo observá-lo, ele simplesmente passa, e só depois o sentimos, ou sentimos as mudanças que ele nos deixa. O tempo é o hoje, é o agora, é o sol que se põe no fim da tarde, é o garotinho atravessando a rua, a folha de papel picada caindo da sacada, o tempo é o instante, é o momento que nos cerca, o que fica atrás dele é essa estrada percorrida sem sinalização de retorno. Sendo uma mola, às vezes nos aproximamos de algum caminho percorrido, quando nos vem alguma saudade ou quando uma Eduarda te faz lembrar que já temos algumas estradas construídas, não muito longas, mas que já nos mostraram algo a mais e nos tornaram mais flexíveis.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

O espelho de alguém

Quando eu era mais novo, fã de Sandy e Junior, naturalmente, queria ser como Junior. Deixava o cabelo igual, usava roupas semelhantes, tentava reproduzir seu jeito de se portar, buscando me espelhar ao máximo, naquela figura que para mim era um ícone, um modelo a ser seguido. Mas mesmo com todos os esforços, era impossível me igualar por completo. O cabelo não tinha o mesmo caimento, o pescoço dele parecia ser mais comprido, o sorriso era mais espontâneo. Contudo, a diferença mais crucial estava nos ombros. Os meus sempre foram muito largos, ombros de nadador, como me diziam, mesmo sem praticar o esporte. Junior, por sua vez, tinha a espádua curta, descendo numa nítida inclinação a partir do pescoço. Aquilo era realmente uma diferença anatômica que eu não poderia corrigir. Incontáveis vezes sonhei ter seus ombros curtinhos para que as roupas ganhassem em mim o mesmo contorno que ganhavam nele. Mas nem tudo poderia ser perfeito.

Certa vez, durante uma entrevista no programa da Xuxa, Junior foi questionado por ela, sobre algum possível defeito que gostaria de corrigir em seu corpo. E inesperada foi a minha reação quando descobri que Junior desejava ter ombros mais largos. Era isso mesmo! Aquilo que para mim sempre foi um empecilho para me “igualar” a ele, era exatamente o que Junior gostaria de ter. Foi só aí que me dei conta da ideia absurda que estava alimentando. A perfeição que eu buscava não existe, porque nunca ninguém será unanimemente perfeito. A anatomia de Junior era a ideal aos meus olhos, porque era a que estava nele, a que fazia parte do ídolo que idolatrava. Mas não tinha me ligado ainda que ele também poderia ter seu próprio ícone a se espelhar. Comecei então a dar valor aos meus ombros, afinal, não eram os de Junior, mas eram os que ele desejaria ter, e sabe lá quem mais.

Esse episódio me voltou à mente essa semana durante uma reunião no centro espírita que frequento. Sempre ao chegar, recebemos um panfleto com algumas frases, geralmente extraídas do livro Vida Feliz, de Divaldo Pereira Franco, pelo espírito Joanna de Ângelis. E nesse dia, uma das frases dizia o seguinte: “mesmo que não saibas, és exemplo para alguém. Sempre existem pessoas que estão observando os teus atos, mesmo os equivocados, e se afinam com eles. Desse modo, és responsável, não só pelo que realizes, como também, pelo que as tuas ideias e atitudes inspirem a outros”. Nunca tinha me questionado ser exemplo para alguém. Eu que sempre busco o espelho do outro. Quem iria querer me ter como modelo para qualquer coisa? Nunca faço nada de interessante. Sou um tipo tão normal que beira a anormalidade. Só um desavisado poderia enxergar algo útil em mim. Mas... e se existe mesmo esse alguém? Se realmente estou servindo de base para outra pessoa traçar suas atitudes e comportamentos? Há um perigo então aqui.

São tantos rostos cruzando nosso caminho diariamente. Tantos passos apressados em ruas que nunca pisamos, pessoas que jamais tornaremos a rever. Será que durante uma travessia numa calçada, não estamos sendo observados e inspirando alguém a nos copiar? Um simples gesto, um bater de cabelo, o andar, um sorriso. Qualquer detalhe pode despertar o interesse do outro. Afinal, involuntariamente, somos a perfeição de alguém. Nossa vida pode realmente influenciar as decisões do próximo, e ainda atrair semelhantes das variadas esferas. Encosto, arrimo, obsessor, estão todos ligados a quem de alguma forma facilitou o acesso à pessoa. Quem sabe não temos o sorriso, a roupa, o cabelo ou o ombro perfeito para algum desencarnado? Já li um caso de um espírito que se ligou a uma atriz famosa para garantir que ela não deixasse de interpretar determinado papel. Provavelmente, ele estava mais envolvido com a vida da personagem do que com a da atriz.

E exatamente como Junior não fazia ideia da fixação que eu tinha em me assemelhar a ele, essa atriz não poderia imaginar os transtornos que sua personagem causara nesse fã. É correto então atribuir aos dois a responsabilidade dos atos cometidos pelos fãs? Tenho minhas dúvidas. Não havia uma intenção direta dos artistas para os fãs tomarem determinadas atitudes. Por outro lado, independente da intenção, foi através do contato indireto entre eles que os fãs agiram. Há sim, alguma responsabilidade, com certeza, em todos os nossos atos, mas não há como saber de onde pode surgir a próxima identificação, que tipo de pensamento ou atitude pode desencadear essa afinação. Mesmo os mais singelos comportamentos, podem despertar bizarras situações. É imprevisível! Por isso, o importante mesmo é saber que observamos e somos observados todos os dias, por quem menos imaginamos. E não podemos esquecer nunca, que enquanto buscamos um espelho no outro, também estamos sendo o espelho de alguém.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

A essência que eu respiro

Assim como dei início às postagens de 2011 escrevendo sobre o significado especial da água em minha vida, como fonte de renovação e inspiração, quero abrir o Celeiro 2012 tecendo o valor de outro elemento a mim tão vital como ao ar. De longe, é a maior sintonia que estabeleço com a essência profunda da alma. Diante da absurda quantidade de ideias e pensamentos que circulam todos os dias na minha mente, o papel em branco é a melhor via que encontro para converter borrões em algo tangível. Ah, a vida não teria a menor graça não fossem as formas tridimensionais das palavras, as reticências dos textos, as entrelinhas. A vida ganha, sem dúvida, mais colorido no papel. É nisso que acredito. É por isso que vivo cada dia. Pincelando o ar com o perfume das experiências, o sabor da meninice, a melodia dos corações. Oh, criptogramas de palavras que vagueiam pelos campos tão férteis da mais legítima felicidade. Vastas margens de sonhos em cristalinas fontes de conhecimento e criação. Que prazer te navegar!

Recordo que na escola quando regressávamos às aulas, a professora sempre nos cobrava uma redação sobre as nossas experiências durante as férias. Eu não entendia por que a maioria dos alunos reclamava da tarefa e a cumpria como o primeiro fardo daquele ano que tinha início. A meu ver, era uma das melhores atividades da primeira semana. Adorava descrever e narrar os fatos que haviam transcorrido comigo, sempre encontrando uma maneira de tornar cada detalhe mais divertido do que até realmente fora. Como era gostoso refazer os acontecimentos, tendo agora todos em minhas mãos, ao meu controle. A sensação de comando sempre foi algo intrínseco ao meu ser. Se durante um trabalho em grupo eu estivesse à frente da tarefa, o esforço era nítido, e o resultado eu dominava por completo. Por outro lado, se eu fosse apenas mais um peão no tabuleiro, não conseguia desenvolver nem 10% da minha capacidade. Me encostava. E não era preguiça, apenas não conseguia me envolver por inteiro se não estivesse na direção.

O domínio que me faltava lá, eu vertia na vida dos bonecos, meus melhores amigos e brinquedos. Fui o diretor de suas vidas, suas histórias, seus destinos. Era seu deus. Sozinho na sala, no quarto ou no quintal, traçava as linhas de cada ser que passava a existir em minhas mãos. Criei alguns filmes que reprisava em outros momentos. Até uma novela surgiu nesse período. Meu quarto ficava arrumado (ou bagunçado) com os ambientes e os núcleos da trama, e toda noite das sete às oito horas eu exibia um capítulo, com direito a vinheta de abertura e comerciais. E como a novela foi um grande sucesso, reprisei também algum tempo depois. Era inefável alçar voo à imaginação e se deixar levar pelos caminhos que a própria alma desde cedo revelava tão autênticos.

Quando os anos tornaram inviáveis as aventuras com os bonecos, transferi meu mundo para a folha de papel. As primeiras histórias que me recordo escrever envolviam romances conturbados, acidentes, mistérios, relações destroçadas pela guerra, e até pessoas abduzidas por OVNIs. Não poupava esforços à imaginação. Acho até que hoje sou bem mais moderado que naquela fase. Não me preocupava tanto com formas e contextos, o importante era o que vinha na cabeça e eu queria explorar. Desde essa época eu já percebia que a arte, a fantasia, a ficção, era muito mais exuberante que a realidade. Hoje continuo me alimentando dessa fonte que não seca. Sempre que preciso me encaixar, compreender a lógica dos acontecimentos, reviver o passado, é na escrita que encontro o amparo certo. É nela que ganho a sustentação e a confiança no porvir. Seja na intrépida personagem de um seriado, na narração de um flashback da vida ou na simples descrição de um palito de fósforo. Escrever... levar as minúcias do meu mundo ao conhecimento do próximo é, sem dúvida, o meu grande alento.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

O verdadeiro celeiro

Loch Stack, Arkle - Escócia
Alguém já se perguntou onde fica a casa que serve de imagem ao Celeiro? Ou mesmo se ela existe, não é a simples projeção de uma natureza exuberante? De fato ela existe sim e eu até descobri onde está localizada. Confesso que quando a encontrei pela primeira vez e decidi usá-la como cenário no blog, não me fiz tantas perguntas sobre sua origem. A paisagem era simplesmente o que importava e que conseguia refletir a atmosfera entre mim e o espaço que havia criado. Posso dizer que havia encontrado o celeiro. E mesmo que não fosse a fachada típica de um abrigo para cereais e outras provisões, aquela casa isolada, fechada e aparentemente inabitada simbolizava um ideal de bem-estar. Representava meu porto seguro, minha fortaleza.

Mas tudo é uma questão de ângulo. Nesse post há uma foto em que a casinha abandonada não parece tão deslumbrante assim. Na margem de um lago e com sua vegetação um pouco escassa, não lembra muito a figura que leva o título do blog. Mas aí sim ela parece mais real, sem grandes encantamentos, viva de fato. A casinha deve ter um dono, mas não consegui obter muita informação além do seu exato endereço. No noroeste da Escócia, em uma das mais belas montanhas do condado de Sutherland (assim descreveram e parece ser) chamada Arkle, à beira do lago Loch Stack, ela se destaca entre a paisagem quase intocável pela interferência humana na região. Se alguém chegou realmente a morar ali não tenho como saber, é possível que sim, e os motivos que os levaram a abandonar esse pedaço de paraíso podem ser muitos. Mas ele não deixa de ser, no mínimo, um convite à reflexão.

Desde que criei o blog, o layout da página passou por algumas modificações, mas nunca coloquei a imagem de um celeiro de verdade. Sempre foi o mar, as montanhas, as nuvens, alguns balões, praias, estradas... porque a figura utilizada não tinha o compromisso de ser fiel ao nome do blog, afinal, o celeiro em si era o espaço reservado às minhas divagações, e portanto, não precisava colocar um abrigo cheio de feno para ilustrar isso. Daí encontrei a casa solitária da Escócia, e de repente me senti ligado. Achei que ela podia representar bem o papel do Celeiro do Sam sem se remeter à figura tradicional. Sim, ela podia! Sua parede de pedra, seu singelo telhado, suas duas chaminés, a natureza em volta, a água que tanto respiro, ali poderia sim ser meu cantinho, poderia sintetizar um pouco da minha utópica filosofia de vida. Eu viveria tranquilamente ali, por quê não? Ao menos virtualmente. E que bom que o lugar quase desenhado para acompanhar a paisagem realmente existe. Traz uma sensação de cumplicidade, como se aquela pequenina e escondida habitação me pertencesse um pouco. Assim me sinto, como dono e amigo dela. Talvez um dia possamos nos encontrar de fato, e em meio às descobertas do encantamento, os registros de uma parceria.

P.S.: No final da página tem outra foto de um ângulo mais privilegiado. Uma verdadeira pintura!

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Mantenha a distância um pouco próximo!

Deixando de lado a minha hipocondria, talvez eu tenha descoberto o mal de todos os meus fracassos. Nem é preciso ir muito longe no meu histórico comportamental para encontrar traços de uma desregulação emocional, raciocínio extremista e relações caóticas. Não seria lá grande coisa, se eu não tivesse descoberto que essas particularidades fazem parte de um diagnóstico maior, que talvez tenha me acompanhado desde muito sem que eu pudesse identificar. Me refiro ao Transtorno de Personalidade Borderline ou Limítrofe, também conhecido pelas siglas TPB ou TPL. Ih, lá vem Samuel de novo com outra doença pro repertório! Não, não dessa vez! Ou sim! O fato de eu dizer que tenho determinado transtorno é porque eu sinto que tenho, e não porque acho interessante e quero ter. Acompanhe o raciocínio! Se eu quase nunca ou só a muito custo consigo terminar o que comecei, afasto aqueles de quem mais preciso enquanto cobro paradoxalmente sua atenção, tenho tendência a paranoia, julgo as pessoas sempre pela última interação, e todas essas características estão presentes nos sintomas do TPB, o que devo pensar?

Em mais uma navegada dessas que leva a outra pela net, acabei caindo na imensa página do TPB da Wikipédia. Fui lendo por curiosidade e aos poucos me encontrei por lá. Descobri que uma das principais características do borderline é a intolerância à rejeição. Os borderlines são extremamente carentes de atenção, e quando falo carente não significa que ninguém lhe dê atenção, é que nunca é o suficiente. E como consequência, sentem-se ignorados quando perdem os holofotes. Escondem também profundos traços de masoquismo e sadismo. São muito imaturos emocionalmente, impacientes, buscam sempre recompensas imediatas, daí a falta de persistência em continuar os projetos, não toleram frustrações e tendem a colocar a culpa sempre em outros por suas próprias falhas.

Com um borderline não há meio-termo, ou ele gosta de alguém ou alguma coisa ou não. O que não quer dizer que o "não" de hoje não será o "sim" de amanhã, suas opiniões são facilmente inconstantes e contraditórias, assim como seu comportamento oscilante entre adulto e infantil. E aqui mais uma grande característica minha: irritam-se facilmente por coisas banais, e apesar de conseguir demonstrar certa "normalidade" em várias situações triviais, exibem escandalosamente a incapacidade em controlar sua raiva. Quem já presenciou meus excessos, sabe do que digo. Outras particularidades do borderline são os problemas com a identidade, sensações de irrealidade e despersonalização (sensação de não ser real, de inexistir), o que gera uma forte tendência suicida aliada a sentimentos crônicos de vazio e tédio. Como válvula de escape é comum a automutilação, a troca de uma dor emocional por uma física. Isso explica a sensação de deleite em arrancar a pele da sola do meu pé, e mais recentemente, dos lábios.

O indivíduo borderline é geralmente visto ainda como genioso, temperamental ou "de lua", como já afirmava meu amigo Júlio, mas também superficialmente adorável e simpático. No entanto, pelas pessoas de sua grande intimidade, principalmente a família, com quem entra sempre em conflito, são vistos como agressivos e mal-humorados. Essa na verdade é a maneira que encontram para demonstrar seus medos e se protegerem, e nisso são árduos manipuladores, embora não admitam (foi difícil incluir esse traço aqui) e considerados até "pacientes impossíveis" por alguns terapeutas, conhecendo o ponto fraco das pessoas e abusando das chantagens. 

Só até aqui já poderia me encaixar com perfeição no transtorno, mas esta última informação é o meu atestado final. O borderline não sabe estabelecer limites saudáveis entre suas relações com as pessoas, de modo que se alguém se aproxima demais, ele começa a se sentir subjugado, com medo de estar perdendo o controle ou de que o outro fique enojado ao conhecê-lo de verdade e o abandone. Ele começa então a se distanciar, mas quando faz isso, sente-se solitário e se aproxima novamente, reiniciando o ciclo. Essa ininterrupta contradição é uma constante na vida do borderline e pode ser uma boa definição dos extremos do TPB, além de conseguir me descrever em uma lógica que antes só existia na minha cabeça. Portanto, se alguém ainda duvida que faço parte desse notável grupo, tenta contra-argumentar, eu não tenho mais objeção. Só um conselho! Pra tentar buscar um certo equilíbrio, mantenha sempre a distância sem deixar de ficar próximo.

sábado, 5 de novembro de 2011

Estilo alheio

As pessoas que não ambicionam nada e não arriscam nada, não servem para nada. O que se construiu em séculos se destrói num dia. Diga o que diga Aristóteles e toda sua filosofia, não há nada que se compare ao rapé. Nenhuma das frases anteriores são minhas. A primeira é da ópera As Bodas De Fígaro de Mozart, a segunda é de Gota D'água de Paulo Pontes e a última é de Don Juan de Molière. Mas já fiz uso delas corriqueiramente. É um hábito, nada saudável, que carrego desde muito. Apropriar-se de certas frases e palavras com as quais me deparo em personagens de livros, filmes, novelas e as tornar minhas. Creio que aconteça muito a prática de copiar certos bordões das telenovelas e levar para a rua. No meu caso geralmente faço uso dessas expressões quando me identifico com o personagem. Teve uma época em que era comum eu emendar uma frase na outra e ficar respondendo ideias preconcebidas. Quando assistia diariamente seriados americanos como Smallville, era automático, acabava a série e as frases já se formavam na minha cabeça. Na primeira oportunidade, despejava 'meu' conteúdo programado.

Esse costume não era um capricho sem fundamento. Estava baseado num cunho psicológico maior. Repetir frases que via na tevê era uma tentativa de me igualar àquelas figuras que me serviam de espelho. Na verdade gostaria de ser eles, de possuir sua linguagem, suas roupas, seus hábitos. E sempre foi assim. Buscava ser o outro e nunca eu. Os outros eram bem mais interessantes, tinham um corte de cabelo mais moderno, se expressavam com mais firmeza, dançavam mais atraentes. Se pudesse escolher, seria todos os personagens que já me identifiquei de James Dean a Orlando Bloom, mudando a aparência ao meu menor critério de beleza e harmonia do momento. Ser o mesmo sem graça sempre era um tédio! E reproduzir as frases que escutava, me transportava um pouco àquele mundo ideal. Nunca foi uma atitude aconselhável. Indicação de insegurança e falta de personalidade própria, mas ainda assim aumentava a autoestima.

Antes essa instabilidade se restringisse apenas ao comportamento. O meu desequilíbrio era completo, ao ponto de influenciar decisões importantes. Não quero dizer que fiz jornalismo por algum ideal midiatizado, passa longe daí. Mas não posso deixar de admitir que a opinião que tenho da carreira fica mais simpática quando vejo Clark e Lois na redação do Planeta Diário. Lamentavelmente sou influenciável. Mas quem não o é hoje, com tanta exposição de padrões de beleza, comportamento e felicidade na mídia? Algumas vezes me vejo fuçando as características de determinadas carreiras, querendo quem sabe cursar uma outra universidade, dar novos rumos à vida, tudo, claro, com uma certa influência ao que estou exposto. Já me peguei analisando os cursos de biologia marinha, astronomia, psicologia e turismo. Em outras ocasiões pesquisei sobre controlador de tráfego aéreo, marinheiro mercante e piloto de avião, os dois últimos somados a minha labirintite seriam uma piada. Até o profissional paramédico andei fuçando, influenciado pelo personagem da série Ghost Whisperer, quando tenho vertigem só de imaginar sangue.

E a grande verdade é que não preciso investigar profissão alguma, nem repetir testes vocacionais, porque já sei qual será o resultado. Eu sei no que devo investir porque nossa alma nos mostra aquilo a que temos aptidão, mas é preciso acreditar nisso e não se deixar tomar pelas ideias midiatizadas de perfeição e sucesso. No meu caso ainda oscilo entre quem quero ser e quem sou, se ambos são o mesmo, se misturam, ou se há separação. Talvez o primeiro passo seja enxergar a própria individualidade e se permitir ser, para depois ter capacidade de agir com propriedade. Repetir frases feitas não é o ideal, mas se auxilia na busca do autoconhecimento é válido. Ao menos é uma dica que ganhei de uma professora sobre redação: "comece copiando o estilo dos outros e logo estará produzindo o seu". Então é o que faço, inconsciente ou não. O problema é que até agora não consegui afirmar minha identidade e continuo seguindo o estilo alheio.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Pragmatizando...!?

Por muito tempo fui perseguido pela palavra 'pragmático'. Esbarrava com ela sem nunca entender completamente o significado de alguém pragmático, mesmo consultando dicionários, fóruns yahoo e todo tipo de 'pédias'. Talvez porque eu nunca tenha sido uma pessoa pragmática. Minha vida foi alimentada de ideologias nada práticas. Uma amiga sempre me dizia que dava a solução e eu arranjava o problema. Eu gostava de acreditar em um ideal de felicidade e não abdicava de viver essa fantasia. Mas quem sonha demais em um mundo que valoriza a praticidade, parece estar sujeito a virar sonâmbulo na sociedade. Idealizar a vida é uma tarefa válida, é acreditar nas possibilidades de mudança do mundo, permitir ser romântico, cafona, piegas! Mas sonhar, sonhar... querer, querer não basta. Sem um pouco de agilidade parece que nada sai do abstrato e entra no concreto.

Fazendo uma análise das pessoas ao meu redor, depois que consegui desvendar o mistério por trás dessa palavra, descobri que sempre tive um exemplo clássico de alguém assim. A palavra que me seguia pelas esquinas estava dentro da minha própria família sintetizado na figura da minha tia Auxiliadora. Se alguém pode exemplificar o que é o pragmatismo é ela. Posso fazer um mau julgamento, mas tenho a impressão de que ela nunca se agarrou em nenhuma nuvem. Claro, ela até pode ter suas fantasias, mas nunca deixou que elas fossem a sua vida. Praticidade é com ela mesmo! Não me vem à mente nenhuma ocasião em que ela não tenha chegado a solução de algum problema com o qual se deparou. É a verdadeira desatadora dos nós, simplesmente porque onde vemos um grande obstáculo através da neblina das nossas ilusões, ela vê o prático, o ágil e o possível. 

Mas não é uma tarefa fácil abandonar as convicções adquiridas ao longo dos anos para se entregar à praticidade. Afinal, se os sonhos nos movem, como deixá-los de lado em nome de uma vida mais prática? Será que todas as pessoas idealistas virão a se tornar pragmáticas algum dia? Se é um caminho para tornar a vida mais fácil, perde-se um pouco o sentido do ser, já que uma saída prática quase nunca é a que idealizamos. E o que fazer? Frustrar-se com o mundo diante da impossibilidade das conquistas ou aceitar a solução paliativa sugerida? A vida nos força a ser pragmáticos. Diariamente situações nos obrigam a deixar de lado certos anseios e nos conformar com o que pode ser oferecido. O conformismo e o comodismo são outras armadilhas que nos distanciam ainda mais do ideal. Em um dia tenho total confiança em mim e quero desafiar o mundo, no dia seguinte o mundo parece um rival grande demais, e um buraquinho é o melhor local para se abrigar.

Provavelmente se tivesse sido uma pessoa pragmática, teria feito uma faculdade visando unicamente o mercado de trabalho e o dinheiro no bolso. O idealista, pois, cria o seu mundo ideal e segue pelos mais diversos caminhos para chegar nele, sem a garantia que um dia chegará, ao passo que o prático enxerga as garantias futuras e a estabilidade financeira e batalha por isso. Mas não sei se seria melhor ter uma vida prática, que a meu ver parece uma vida sem muito brilho ou felicidade alguma. É como se quem partisse para uma "faculdade prática" fosse desprovido de vocação e enxergasse no dinheiro o único caminho do sucesso. Então o que fazer hoje? Continuar insistindo nas possibilidades incertas daquilo que idealizo ou partir para algo útil, rápido e seguro, abandonando todo aquele universo imaginário? Às vezes, sonhar demais cansa, e um atalho pelo caminho surge quase como um oásis em um deserto tão infértil de realizações, infelizmente.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Próxima parada: fim do mundo!

É melhor aproveitar o dia de hoje o máximo possível, porque segundo o pregador evangélico americano Harold Camping, o fim do mundo tem data: é amanhã! Nossa! O que posso fazer ainda hoje que não fiz em toda a vida? Tenho tantos lugares que gostaria de conhecer, mas não dá pra viajar pra todos em um só dia, então acho que escolho o Everest, com certeza vai dá pra assistir o espetáculo do apocalipse de camarote. Não sei exatamente em que se baseia esse pregador para anunciar pela segunda vez no mesmo ano o fim dos tempos. Primeiro ele disse que o mundo acabaria às 20h do dia 21 de maio, mas eis que o sol renasce no dia 22. Uma intensa divulgação com direito a cartazes espalhados nas ruas pelos fiéis de Camping anunciavam o grande dia, mas como ele não veio, os seguidores ficaram se perguntando o que teria acontecido por ainda estarem vivos. A cena me recorda um episódio que assisti ainda criança da Família Dinossauro, quando Dino acreditava que o mundo ia acabar porque Bob tinha quebrado uma tradição milenar, e todos se reuniam na sala envoltos em lençóis esperando a hora final. A surpresa dos fiéis deve ter sido parecida com a da família dinossauro aos primeiros raios do alvorecer.

Um erro de cálculo! Foi o que anunciou Camping depois do mundo continuar existindo após sua previsão. O mais impressionante é que muita gente abandonou mesmo suas casas, desfez de bens, largou empregos e quando o juízo final não apareceu tiveram que assumir as consequências de seus atos. Teve até um funcionário aposentado que gastou mais de 140 mil dólares da sua poupança em publicidade para a profecia. Com o fim do mundo remarcado para 21 de outubro, Camping avaliou que não será necessário tanta divulgação como em maio. Por que será? Essa não é a primeira vez que somos comunicados de um suposto "dia do julgamento". Quem não se lembra das profecias de Nostradamus sobre o fim do mundo para 11 de agosto de 1999? Uma propagação em massa ganhou a mídia de todo o planeta. Olhos curiosos fixados para o céu daquela noite que nada visivelmente aconteceu. Mas há quem defenda um suposto eclipse no mês de julho daquele ano como algo referente à previsão de Nostradamus, justificando o erro de cálculo pela mudança de calendário Juliano para Gregoriano.

Mais recentemente temos as previsões maias sobre 2012, que já virou até temas de filmes, antecipando a catástrofe mundial que ainda nos aguarda. De acordo com o prenúncio, 2012 marcará o fim de um ciclo cósmico no planeta. O calendário maia termina de repente entre os dias 21 e 23 de dezembro de 2012 do nosso tempo. A causa física seria uma intensa chama radioativa, oriunda do centro da galáxia, que seria transmitida à Terra e a todo Sistema Solar. Violentos terremotos, erupções vulcânicas e furacões devastadores estariam entre alguns dos efeitos responsáveis pela destruição na nossa era. Fala-se também de inundações catastróficas e chuvas de fogo. Bem, se analisarmos os últimos anos podemos dizer que o fim dos tempos já chegou mesmo. Bomba atômica, tsunamis na Ásia, aviões contra prédios, efeito estufa, aquecimento global. Não é necessário esperar 2012 para constatar isso. Se os antigos previam o planeta em colapso para a nossa época, então eles não erraram os cálculos.

Mas e se o mundo for mesmo acabar amanhã? Alguém já fez seus planos para o último momento? Eu não consigo imaginar um local melhor para esperar o fim dos tempos do que  no Corcovado, aos pés do Cristo Redentor, ao lado da família e dos melhores amigos. Difícil seria não morrer antes de asfixia tamanha seria a quantidade de pessoas no local. Todavia, se os cálculos de Camping se confirmarem dessa vez, muita gente verá o juízo final da janela do trabalho, longe dos que amam e sem fazer as malas para a grande partida. Mas não é exatamente assim que as pessoas morrem mesmo? Quem é que está preparado quando a morte chega? Não existe aquela figura de manta preta e foice na mão que vem anunciar a hora de partir. Portanto, já que a morte não avisa quando irá dar às caras, é muito pouco provável que o mundo termine amanhã. Quando os primeiros raios do dia 22 surgirem no céu, não gostaria de ser um dos fiéis de Camping incrédulos por perceber que continuam vivos mais uma vez.

domingo, 18 de setembro de 2011

Cai o pano

Escrevi esse texto no fim de julho, mas por alguma razão não o publiquei. Considerei-o piegas demais ou não quis compartilhar meus sentimentos e ele ficou entre os rascunhos. Hoje ao reler não me pareceu tão ruim assim e aqui está:


Os mesmos passos de antes subindo os batentes, a mesma direção, os mesmos movimentos. O fim de mais um dia, não fosse a certeza que esses últimos passos fecham um ciclo. Não mais aquela portaria, não mais as escadas, o cansaço pelo corrimão, não mais essas paredes que me foram companhia em incontáveis episódios. E no entanto, tudo parece uma finidade perpétua. Consigo olhar o quarto que me foi abrigo e tempestade, e consigo fixar em minha memória que serão os últimos instantes de uma agradável e dolorida lembrança do passado. Mas não fossem as caixas espalhadas pela sala, as camas e os armários desmontados, o vazio do caos, eu poderia jurar que tudo continuaria como está. Não faço ideia da dimensão que a minha atitude pode alcançar. Do oco que me deixará abandonar um espaço onde vislumbrei alguns dos momentos mais significativos dessa jornada. Mas creio estar preparado para o por vir.

Não quero falar do que passou, mas do que fica. Daquilo que carrego independente dos móveis e eletrodomésticos. Ao penetrar uma cidade desconhecida seis anos atrás, sem amigos, colegas e poucos conhecidos jamais poderia imaginar quão grande minha rede de contatos poderia se transformar. Depois de vegetar três anos em uma faculdade que a cada dia arrancava um pouco de minha essência, resolvi agir me matriculando no curso de teatro. E essa foi realmente uma das melhores decisões que já tomei em minha vida. Ganhei não só o fôlego de volta, como uma nova família. O teatro é extasiante! Descobri nesse pouco tempo de experiência, o verdadeiro valor de representar, e acredito que descobri a linha que mais condiz com os meus ideais e habilidades, o que não garante que irei seguir. Por muitos anos me perguntei se deveria ter escutado a opinião do meu pai que Artes Cênicas tinha muito mais a ver comigo que Jornalismo. Hoje não tenho a menor dúvida que fiz a escolha certa no momento. Sempre acho que ninguém cruza o caminho de ninguém sem uma razão, embora no momento possamos desconhecer completamente.

Com a mesma convicção que decidi trocar Natal por Campina Grande, e percebi o momento de agir ao entrar no teatro, vejo que chegou a época de tomar novos rumos, e se isso significa deixar algumas conquistas para trás, será o preço a pagar. Sou um espírito livre, sempre fui. Nunca me imaginei preso a nada. Embora criado em uma bolha, sempre ansiei transpor os mais distantes limites. Gosto dos recomeços, das mudanças - principalmente se forem radicais. Gosto de descobrir o novo, e de desistir também - de preferência de última hora - a sensação de autonomia é inigualável. Sou um pouco metódico em organizar minha vida por fases, acho que consigo assimilar melhor separando "em pastas" a minha infância, adolescência, fase cursinho, universidade, teatro... para recordar com maior facilidade as lembranças. E o mais curioso de tudo é que mesmo curtindo a fase atual, sempre busco um ponto final para deixar o gostinho de retorno no ar. Aquele velho ditado: "o que é bom dura pouco", costumo seguir à risca.

Assim, Campina Grande vira mais uma notável página da minha vida. E como Natal, a incerteza de voltar um dia se mistura com a saudade. Olhar o apartamento preparado para me deixar é mais forte do que poderia supor. E não é ele quem vai me deixar, sou eu quem irei abandoná-lo. Se bem que o vendo todo bagunçado assim, aos poucos já não vai parecendo o palco da minha vida. Ele já não me pertence mais, ou eu já não pertenço aqui. Somos dois personagens de uma tragicomédia de muitos atos. O mais tenebroso de tudo é que um ato sempre leva a outro, e a peça vai a cada cena se aproximando mais do seu fim, até chegarmos ao último ato e as cortinas se fecharem de vez. Campina, dinamérica, 263B, TMSC, Sesc, UEPB e todos os personagens que contracenaram comigo nessa esquete da vida, saibam que vai embora comigo um pouco de vocês, e creio que ficará um pouco de mim por aqui também. Todavia, não se esqueçam que quando uma cortina se fecha, é sinal que ela pode se abrir novamente a qualquer momento e o espetáculo recomeça.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Retrato de alguém

Um pé na frente do outro. Nunca examinei com tanta precisão os meus passos ao caminhar. O azul do tênis desaparece entre o amarelo cinzento do pó da estrada. Nenhum sinal de esperança, além dos arbustos e do meu suor escorrendo pela face, cada vez mais, como uma cerveja fria vazando num copo cheio. As gotas geladas contrastam com a secura dos lábios e a chapa quente da cabeça. Cansaço, medo, insegurança, fôlego. Sinto a dor fustigar os últimos esforços das minhas pernas em se manter firmes. O sol me insulta ao abusar de sua intensidade sobre as minhas costas fatigadas com os 5kg da mochila, que agora somam 20. Uma pequena sombra embaixo do que já foi um grande umbuzeiro me protege agora contra o calor. Sentado num toco já apodrecido, bebo os últimos goles da água que me resta no cantil, e limpo o suor da testa com a mão. Nada! O isolamento completo! O abandono da alma. O encontro com o demônio privado. Neste resto de mundo, o resto do que seria um homem.

Já não há mais razão para remorso ou culpa. O que é fato não pode ser modificado, nem apagado. Encarar as atitudes com resignação é tudo que pode ser feito. Recordo-me uma vez ao visitar a casa de um amigo no sítio de um senhor muito intrigante: cabelos brancos, barba comprida e um olhar vazio. Ele era conhecido pelo trato grosseiro ao rebanho da região. E os animais respondiam na mesma linha a sua presença. Uma relação mútua de desafeto se estabelecia. Certa noite, encerrado seus serviços, o encontrei ao pé de uma cancela observando o gado. Ele não parecia mais o senhor agitado de antes, tinha uma expressão de pesar no rosto. Foi então que entre uma conversa e outra, ele me contou que a vida toda sonhou em ser caubói e participar de rodeios, mas sempre teve medo de encarar o desafio, deixando suas vitórias apenas para a imaginação, até quando percebeu que o objeto de seu sonho havia se transformado na razão de seu dissabor. Se afastou dizendo que pensar demais em como as coisas podem ser, não sobra tempo pra elas realmente serem. Então foi um pouco o que fiz. Decidi não mais pensar. E aqui estou, a olhar o nada do meu pensamento.

Algumas aves escuras cruzam o céu a me observar. Mas não serei seu alimento. Não ainda! Recolho a mochila e sigo caminhada. Mais alguns quilômetros e a primeira visão de algo pulsante a se mexer. Uma iguana atravessa a estrada apressada como a fugir. De mim? Mais alguns passos e escuto vozes, uma música distante que se aproxima mais e mais. Avisto então um jumentinho amarrado a uma árvore e mais ao lado um casebre de taipa, mais parecendo um bar. Ali no meio do nada. Algumas mesinhas e banquinhos de tronco de árvore do lado de fora. Agora posso ouvir nitidamente a canção. De um toca-fitas de pilha fixado sobre uma base de madeira ao lado da porta sai: São Tantas Coisas, de Roberta Miranda. Fico estático diante de inusitada situação. Um homem então sai do casebre e me encara. Um sujeito retraído, calça bege envelhecida e dobrada no calcanhar, camiseta que um dia foi branca aberta até o peito e botina preta. Sua expressão sutil e desinteressada revela o desgaste de uma fisionomia que parece bem mais gasta do que realmente é. Uma alma castigada pela sorte? Entre o clima tenso entre nós dois, o refrão de Roberta Miranda: "vou confessar, renunciei você de tanto louco amor..."

Ainda me encarando, ele leva a mão direita ao bolso da calça e puxa um velho maço de cigarros, pega um isqueiro no outro bolso, acende e senta-se em um dos banquinhos, sem mais se importar comigo. Resolvo entrar naquele lugar. Uma mulher de meia-idade, rosto alheio e pele queimada do sol limpa um simples balcão e pouco caso faz com a minha presença. Quando volta o olhar em minha direção, pronuncio a única palavra que consegue sair de meus lábios: água! Minutos depois me esbaldo em um bife de panela com arroz e feijão tropeiro. Saciada a sede e a fome, sou informado onde poderei lavar o rosto. Do lado de fora, vou até um poço de onde puxo em um balde de alumínio amassado, a água para banhar a face e os pés. Hora de retomar a caminhada. Nem o jumento, nem o homem estão mais em frente ao casebre. Recolho minha mochila e pego a estrada revigorado.

sábado, 2 de julho de 2011

Lembrete


Como identificar os sinais que a vida nos dá? Não é normal... uma leveza no corpo, ou seria um peso? Não sei como descrever ao certo, algo semelhante ao estado de alguém que fez uso de tranquilizante para dormir, mas numa hora improvável. Não havia tomado nada ainda. Era cedo, queria assistir a novela das nove. Mas cedi ao descanso e em pouco tempo estava dormindo. Acordei duas horas depois. Como perdi a novela, continuei a assistir a segunda parte do episódio da série Ghost Whisperer que tenho acompanhado online. O seriado americano sobre a vida de uma mulher que consegue manter contato com espíritos presos à Terra. Cada dia me fascina mais desvendar os mistérios da vida na lógica espírita. Só lembrar que cheguei a essa série através do livro do co-produtor executivo e médium James Van Praagh. 

Exatamente à meia-noite meus olhos foram atraídos pelo relógio digital do computador. Pouco tempo depois me vi escrevendo em uma comunidade no orkut sobre um rapaz que morreu recentemente. Seus amigos criaram uma comunidade, e na descrição falava-se sobre a sobrevivência da amizade entre as intempéries da vida. Senti que devia escrever algo, já que sei o que é ver amigos ir pra longe, sem deixar de ser o que sempre foram. Até aqui tudo não fazia muito sentido, até eu conferir a data das postagens dos fóruns: 02 de julho. A ficha caiu! Cinco anos da morte de meu pai.

Não posso dizer que tudo o que aconteceu foi interferência dele, mas preciso admitir que fiquei surpreso quando constatei que era realmente o dia. Diferente da minha mãe, não sou muito ligado em datas, e havia esquecido completamente. Seria ele, de certa forma, querendo me lembrar? E sim, por quê? Já parei em muitas oportunidades para pensar sobre o destino do meu avô, da minha tia e do meu pai. Será que encontraram logo a luz? Será que me ajudaram todas as vezes que pedi proteção antes de subir em um palco? Ou será que eles é que precisam da minha oração? Já os senti distantes, próximos, mas ainda não tive essa certeza.

É inebriante a sensação de imaginar um mundo invisível a nossa volta, capaz de nos influenciar tanto para o bem como para o mal. Sempre senti uma ligação muito íntima com o espiritual desde criança. As histórias de alma penada me assustavam, e despertavam minha curiosidade. No fundo queria ser médium. As missas de domingo na igreja nunca tiveram um sentido místico de verdade. Jamais fui a uma com o intuito de alimentar a alma, como nos encontros nos centros espíritas. Uma hora ou outra nossa alma procura o seu equilíbrio. Hoje as histórias de fantasmas não me assustam mais, e ficaria muito feliz se descobrisse, em mais alguns anos, que teria mesmo a capacidade de me comunicar com os mortos. Sei que é um trabalho difícil, porque na falta de preparo, espíritos perturbados podem interferir negativamente em nossa vida, contudo, era algo que gostaria de arriscar, já que isso é o que mais tem me movido nos últimos tempos. Penso que traria um grande alívio a minha alma irrequieta. Tudo faz tão mais sentido.

Não sei se consegui captar a mensagem que recebi do meu pai essa noite. Se é que foi uma mensagem, e se é que foi dele. Mas tenho absoluta certeza que alguma comunicação se estabeleceu aqui. Não acredito em coincidências. Elas existem pela ajuda de alguém. Se foi realmente meu pai querendo que eu me lembrasse dele, ou simplesmente sua maneira de se mostrar presente em minha vida, então a intenção foi alcançada, porque direcionei meus pensamentos a ele e vim escrever aqui, depois de alguns dias sem "inspiração". Vim celebrar a maravilha da perpetuidade da vida e a graça de poder sentir a presença dos que se foram através de caminhos que só a alma pode compreender. 

domingo, 12 de junho de 2011

Garantindo o seu posto

Quem inventou a competitividade? ... Algum primata invejoso que não conseguiu a caça maior? Desde os micróbios da origem da evolução de Darwin que existe a competição e a seleção dos mais hábeis. Me lembro dos livros de ciências da 7ª série e das girafas de pescoço mais curto. Para sobreviver numa região onde os alimentos estavam no topo das árvores, só usando uma vara, e assim as pescoçudas evoluíram e deixaram pra trás uns possíveis primos dos cavalos. A competição estimula a qualidade e a criatividade, mas pode ser muito cruel também hoje em dia, uma vez que só permanecendo os pescoçudos, a concorrência vai ficando cada dia pior. Gosto de pensar que nem sempre os escolhidos são os melhores, que uma boa leva fica pelo caminho. Quem garante que as girafas de pescoço mais curto não eram melhores? As coitadinhas só não tiveram muita sorte. E sorte também é fundamental durante uma competição.

Quem saiu na frente na corrida espacial durante a Guerra Fria? Os soviéticos quando lançaram em 1957 a indefesa Laika a bordo da Sputnik e Iuri Gagarin em 1961 para dar uma volta completa na órbita da Terra, ou os americanos com a chegada do homem à Lua em 1969? Referente à Laika, gosto de enfatizar que a cadelinha acabou morrendo seis horas após o lançamento, vítima do superaquecimento da nave e do estresse causado por não ter sido avisada que iria sozinha para o espaço. Ainda assim, tenho uma forte inclinação pelos russos, e particularmente acho a palavra cosmonauta mais expressiva e garbosa do que astronauta, apesar de crer que a NASA deve ter uma aparelhagem bem mais sofisticada, ou tudo não passa de merchandising? Ah, a publicidade! O que seria dela sem a competição?

Não sei se posso considerar a peleja da Rede Record contra a Globo como competição de fato, tendo em vista que a primeira não estabelece uma concorrência real, já que procura se igualar e não competir propriamente com a outra. Mas já posso considerar a mais nova corrida da teledramaturgia brasileira, e agora entre Globo e SBT. Quem iria pensar que a emissora de Sílvio seria a primeira a transmitir o primeiro beijo gay feminino da televisão brasileira. E depois de dada a largada, a disputa agora é em torno das primeiras carícias mais ousadas entre dois homens. O SBT já divulgou: em julho sairá o primeiro beijo gay masculino entre os atores Carlos Thiré e Lui Mendes também em Amor e Revolução. Bem, isso se Eduardo e Hugo não forem pra cama antes. Sim! Insensato Coração, a novela com mais homossexuais assumidos até então, desde o início criou polêmica sobre um suposto beijo entre alguns dos seus personagens, o que já até havia sido desmentido pelos autores, mas será que a concorrência anda incomodando e eles agora não querem que o SBT tenha o título da primeira emissora liberal do país?

Em um momento de intensas conquistas homossexuais, com o reconhecimento da adoção por casais gays e a aprovação da união estável pelo Supremo Tribunal de Justiça, parece realmente o momento mais favorável para mais essa virada. No entanto é cedo para considerar a quebra do tabu na televisão aberta, principalmente porque diferente do beijo entre as atrizes Gisele Tigre e Luciana Vendramini, o autor Tiago Santiago já informou que irá colocar um locutor anunciando o beijo gay. Se partir por esse caminho, a Globo tem chance de recuperar a disputa. Gilberto Braga e Ricardo Linhares divulgaram essa semana que os personagens de Rodrigo Andrade e Marcos Damigo terão cenas já escritas de beijo e sexo previstas para ir ao ar também em julho. Claro que se aprovado pela direção da Globo tudo deverá ser bastante sutil, mas a competição entre as emissoras no próximo mês será cabeçuda. E quem irá garantir a sobrevivência da espécie dessa vez? Ouso dizer que é preciso ter muito peito, ou melhor, pescoço para alcançar o galho mais alto e quebrar esse círculo de medos e convenções que assombra os bastidores da televisão brasileira.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Me mente uma verdade

Hoje acordei e me deparei com as seguintes manchetes: Pico de dengue no Rio pode durar mais três semanas. Bebê é achado com queimaduras nas costas e na perna direita. Adolescente usa seringa para agredir colega em São Paulo. Pais rejeitam terceira gêmea após inseminação. Motociclista é arremessado de viaduto em Salvador. Rebeldes tentam retomar pólo petrolífero na Líbia. Vendas de carros no Japão têm a maior queda desde 1974. Protestos antigoverno espalham-se pela Síria e sete pessoas morrem. Duas toneladas de presas de elefantes são apreendidas na Tailândia. Oito mil animais silvestres morreram atropelados no Pantanal no ano passado. Petróleo atinge pinguins em ilha britânica. Motorista é flagrado levando cavalo no banco traseiro. ONU confirma oito mortes de funcionários em ataque no Afeganistão. Carro banhado a ouro é exposto na China. Deputado federal deprecia abertamente negros e homossexuais em seus discursos. Ex-menudo é acusado de agressão. Pastor vê podridão em gays e maldição sobre africanos. E hoje é o dia da mentira. Infelizmente é essa a verdade nossa de cada dia.

Bom seria se cada notícia dessas fosse um trote que um amigo passou a outro hoje. Tantos infortúnios em apenas um único dia. Nenhuma mentira. Somente a verdade ríspida e nua a nos olhar desprovida de qualquer fantasia. Vamos mentir um pouco então para aplacar a rigidez do homem e a sucção da vida no mundo. Vamos combater todos os focos de dengue. Encontrar uma família ao bebê abandonado. Respeitar as leis de trânsito. Considerar a importância da vida animal paralela à nossa existência. Exercer a igualdade social. Extinguir a fome. Saciar a sede. Viver a liberdade de expressão, permitindo o direito de cada um. Abortar as guerrilhas, os conflitos de interesses e os atentados. Partilhar a paz. Irradiar o amor. Exterminar preconceitos. Olhar o planeta como uma única residência na qual todos devem cooperar pela sua limpeza e organização, na busca pela convivência pacífica e harmoniosa. Uau! Isso sim parece o dia da mentira.

Há algo errado na simetria da realidade. Onde se encontra o dia da verdade então? O dia em que todas as mentiras serão fatos? Onde sonhar já não será necessário e a utopia se fará presente? Penso que hoje, 1º de abril, seja o dia de buscar viver uma realidade longínqua da nossa. Mentir equivale a idealizar uma verdade cobiçada e inexistente. Hoje poderia ser o dia em favor dos sonhos. - Mente e me faz crer que é possível. - Me ilude com uma falsa verdade e por alguns segundos até meus fantasmas serão gente. Alguém já disse que acreditar ferozmente numa mentira pode torná-la verdade. Então vamos confiar na esperança de um amanhã mais justo, democrático, solidário e humano, e quem sabe transformar esse dia da mentira na nossa futura realidade. E para não perder o momento e já começar a acreditar no impossível...

... Eis as novas manchetes do dia: O salário mínimo subiu para R$ 1.000. Cinquenta bilhões de reais são destinados a modernização de hospitais públicos e capacitação de novos profissionais no país. Professores tem reajuste salarial de 250%. Medidas de inclusão social diminuem o crime organizado no Rio. A baía de Guanabara e o rio Tietê ganham projeto de despoluição das águas. O Brasil assume a posição de nova potência mundial. Floresta amazônica recupera 80% de sua área devastada. Mobilização global dos países reduz o nível de CFC na camada de ozônio. Estados Unidos e Oriente Médio assinam cessar fogo. Judeus e palestinos criam novo tratado e determinam pacificamente suas divisões territoriais. O casamento gay é legalizado na maior parte do mundo. A maconha tem seu uso aprovado na medicina. A Agência Espacial Internacional estabelece seu primeiro contato com vida inteligente fora da Terra e descobre definitivamente que Elvis não morreu, estava apenas de férias com James Dean, Marilyn Monroe, John Lennon e George Harrison numa colônia hare krishna anos-luz daqui.

domingo, 20 de março de 2011

Centésimo desatino

Parecia ontem. Não! Já faz quase 4 anos. Essa seria mais uma simples postagem não fosse o detalhe que ela é a publicação número 100 do Celeiro. Noventa e nove ideias, opiniões, sonhos, recordações e momentos hilariantes da vida desse cara aqui estão espalhados nesse espaço. O ano era 2007, outubro. A intenção: criar um blog para escrever crônicas sobre o ponto de vista do meu dia-a-dia maluco no terceiro ano da faculdade de Comunicação Social. Primeiro devo agradecer ao talentoso fotógrafo, Tareb Edson, que por perda de contato não sei se enveredou para outra profissão, de modo que pra mim ficou a imagem do fotógrafo. Foi por descobrir o seu blog, as crônicas bem-humoradas e as reflexões que fazia que me inspirei a criar minha própria página. Tanto que até hoje ainda tenho o link dele, mesmo não havendo atualizações há cinco anos. Naquela época, dava para abrir uma página e se admirar com o que encontrava, hoje de cada dez perfis no Twitter, oito tem um link de um blog, parece que já vem no pacote.

Meu primeiro texto não poderia ser outro, foi sobre o processo que me levou ao estágio do Sebrae durante a Feira do Empreendedor. O primeiro comentário que recebi foi da minha amiga Kárem, em 9 de outubro, um dia depois de publicar a primeira história. Bem, extraindo um trecho do seu enorme a carinhoso comentário, ela escreveu: "É um cantinho bastante aconchegante e que promete muitas risadas e fortes emoções!!". Não sei se consegui corresponder a profecia, mas analisando alguns dos 318 comentários que constam no Celeiro até então, pude perceber que ao menos alguns sorrisos fui capaz de arrancar. Com o passar dos anos, o Celeiro foi se modificando, ganhando modernos layouts, novas aventuras em cada publicação e obtendo reconhecimento ao mesmo tempo em que seu dono se descobria, crescia e compartilhava com ele suas conquistas e frustrações.

Hoje, 20 de março de 2011, três anos, cinco meses e doze dias após a primeira postagem entrar no espaço cibernético e o nome Celeiro do Sam começar a ser difundido, eu chego ao meu centésimo texto. Poderia já ter escrito duzentos, quinhentos ou mil histórias, ou poderia estar na quarenta, na setenta. Não! Estou na cem! Só escrevo quando sinto necessidade de externar alguma inquietação ou relatar outras peripécias da vida desse jovem irrequieto aqui, embora essa necessidade tenha sido bem mais constante nos últimos tempos. Não por acaso, ou totalmente porventura, atinjo essa meta numa data curiosa. Ontem foi aniversário da minha avó. Um ser que sempre irradia luz à minha vida. Temos uma ligação tão intensa que aos que acreditam na reencarnação, há quem diga que esse moço aqui deveria ter vivido de perto toda a febre da beatlemania, pois eu poderia ter sido o filho mais novo da minha avó que morreu atropelado no auge de Ticket to Ride.

Curiosamente, na mesma data de hoje em 1969, John Lennon se casou com Yoko Ono no território britânico de Gibraltar. Aos olhos de "todo" beatlemaníaco, ela seria a grande vilã da separação da banda e por isso condenada a eterna expiação de seus pecados. Já não parto desse pressuposto. Quem conhece a história do quarteto a fundo, sabe que o fim dos Beatles seria inevitável com ou sem Yoko. Tudo bem, ela pode ter antecipado um pouquinho, mas foi o descomunal amor da vida de John Lennon. As loucuras que esse cara fazia com ela eram inimagináveis. A canção The Ballad of John and Yoko narra esses momentos dos dois, que mais pareciam uma brincadeira com o mundo. Não sei se isso é babaquice de fã, mas se meu ídolo está feliz, devo embarcar junto na felicidade dele. E a contrapartida se mostrou significativa com uma década de memoráveis composições em sua carreira solo.

Mas 20 de março também costuma ser o dia do equinócio de outono no hemisfério sul. E a partir de amanhã, na astrologia, o sol entra no signo de áries e o ano astrológico tem início. Áries tem como elemento o fogo e entre suas características, a coragem, o pioneirismo, o entusiasmo, e também a impaciência, a impulsividade e a raiva. Bem, e eu sou ariano. Então o sol entra na minha casa a partir de amanhã e todas as minhas manifestações estarão mais acentuadas, ou não, não domino a lógica da astrologia. Mas aprendi pesquisando que áries é regido por Marte, planeta que tem o poder da conquista e da busca pela realização pessoal. Uma dica para investir nesse território? Um ariano que cruzou meu caminho em dois momentos foi Junior Lima. Na infância e adolescência ao embalar minhas aventuras ao lado de sua irmã Sandy, quando ainda não era devassa, e ano passado ao ler um texto meu no Celeiro sobre o seriado da dupla e indicá-lo em seu Twitter. Meu blog ficou mais popular que o clipe de Stefhany Absoluta. Com a diferença que continuei a pé.

Quem quase nasce ariano também é o autor de novelas Manoel Carlos. Mais uma semana e ele herdaria todo o temperamento impulsivo dessa espécie. O que talvez interferisse na construção de suas Helenas e de suas narrativas cheias de sensibilidade e romantismo, palavra-chave no pisciano. Mas seguindo os acontecimentos de 20 de março que marcam a data da minha centésima postagem, em 1815 Napoleão entrou em Paris depois de escapar de seu exílio na ilha de Elba dando início ao Governo dos Cem Dias; Albert Einstein publicou sua teria geral da relatividade em 1916; os EUA iniciaram a invasão ao Iraque em 2003; e em 2006 o Museu da Língua Portuguesa foi inaugurado na Estação da Luz em São Paulo. Tudo isso não tem nada a ver comigo, nem com o Celeiro, mas achei que se encaixaria no contexto de alguma forma. Afinal, aqui tem espaço suficiente para tantas proezas, que não estaria ainda nem próximo de encerrar o primeiro ato. Tenho bastante disposição para escrever e muitos delírios ainda na alma que precisam se transformar em palavras e ideias absurdas. Que maravilha um ser pensante e a loucura de se julgar normal em meio a lucidez da insanidade. E aí quem sabe o Celeiro seguirá uma outra profecia e será imenso do tamanho do amor que um dia alguém ousou sentir por mim.

sábado, 19 de março de 2011

Alimente o meu ego

Sempre queremos mais! Queremos ser alguém. Queremos ser vistos. Queremos mostrar. Queremos ser! De todas as características da personalidade humana, o ego é aquela capaz de abrir uma fenda na estrada tornando a passagem inacessível. Somos escravos do espelho, e não apenas o de vidro, mas o narcisismo presente em cada um em diferentes intensidades. Sentimos a necessidade do elogio alheio, do incentivo amigo, do carinho do próximo. Como sabemos, alguns afagos faz bem ao ego. Eis o intrépido ego! Nada de mau buscar nos olhos dos outros o mérito por algo realizado. É uma carência humana a busca constante pela própria superação, desejar ser relevante na vida de alguém. Um arquiteto já disse uma vez em uma palestra que até um tijolo quer ser mais do que ele é, afinal, nenhum tijolo foi feito pra ser apenas um tijolo. E onde podemos chegar, quantos edifícios seremos capazes de erguer, vai depender do quanto deixamos que esse traço da nossa personalidade determine o nosso alicerce.

Se o ser humano busca sua importância no mundo, seu nome reconhecido ou até imortalizado, por quê não?, nada mais vinculado ao ego do que a fama. O reconhecimento público que pode ir do porteiro do prédio a um monge do outro lado do planeta, pode gerar mais estrago que uma úlcera no duodeno. Não é difícil ganhar notoriedade nos dias de hoje e conquistar um número razoável de admiradores pelo mundo. É só analisar a quantidade de celebridades instantâneas que surgiram do nada e ganharam fama nos últimos anos, muitos motivados apenas pela perda do anonimato, sem qualquer conteúdo para acrescentar ou oferecer ao público. O Big Brother Brasil é a mais influente fábrica desse artigo, porque transforma anônimos em celebridades a cada ano. Há uma necessidade alucinante pelo reconhecimento, ludibriado pelo glamour que essa exposição representa na sociedade e na vida de cada um.

E por que cada vez mais pessoas partem em busca desse estrelato? É só a fama, a perseguição dos paparazzis e a participação nas colunas de fofocas? De certo não. Depois de assistir ao filme de outra celebridade autogerada na mídia, Bruna Surfistinha, pude refletir melhor acerca da situação. Não é a notabilidade que faz tantos buscar a fama. É a necessidade de ser amado, de se sentir querido e idolatrado por inúmeras pessoas. Inacreditável concluir que um dos maus do novo século é a falta de afeto ou a demonstração dele. Num universo cada dia mais individualista, é paradoxo pensar que o alimento do ego está na doação alheia. Eis aí mais outra ilusão desse status: a adoração gerada pela calorosa multidão de fãs não cobre a carência afetiva que cada um necessita. Só neutraliza temporariamente os efeitos da escassez de estima; e quando esse indivíduo cai no esquecimento da frenética mídia, entra novamente na briga de ego e dessa vez com a agravante da desvalorização pessoal.

Como então conseguir ser alguém e manter a posição depois de ser exposto ao julgamento do mundo? Quem sabe não se afogando no rio de Narciso. O controle do ego é tão complicado e impreciso quanto o fluxo aéreo. Quem trabalha com arte, principalmente atores, bailarinos, cantores, pintores, escritores, entre outros, estão sempre expondo sua imagem e precisam saber dosar os tipos de críticas que recebem, os elogios ou até mesmo a ausência total deles. Quem atua, dança, canta, pinta, escreve, não quer apenas fazer o seu trabalho, quer que o outro se aproxime e descreva as sensações que aquela arte despertou. E até estar preparado e solidificado o suficiente para encarar todos os tipos de reação, um irrisório comentário pode destruir a autoestima, levar à depressão e pôr fim numa carreira promissora.

Talvez por esse despreparo muitos jovens não saibam o que fazer do futuro e se percam nas opiniões alheias. Eu mesmo. Há momentos que me pergunto por que ninguém me enxerga. Se Geisy Arruda virou história por usar minissaia na faculdade, Felipe Neto e PC Siqueira foram pra TV depois que viraram celebridade na internet, outra ganha um CrossFox por colocar um clipe no YouTube, e até um gato que parece com o vilão da série Harry Potter ganha os jornais, por que também não posso? Há instantes que queria poder erguer um caminhão com o dedo mindinho pro mundo inteiro se voltar pra mim. Ser alguém no mundo a todo custo! Mas será que vale? Será que já não sou? A popularidade não equivale necessariamente a relevância de alguém no mundo. O que queremos de fato é ser admirado pelo que fazemos, e será que a quantidade de pessoas que irá perceber esse valor é mais importante do que as reações sinceras e os sentimentos que brotarão de quem nos cerca? Provavelmente não, se nosso eu estiver em harmonia. Do contrário alguma voz vai continuar sussurrando no ouvido que é preciso sempre subir mais e mais, alcançar o Empire State, o Burj Khalifa*, o Everest e não sossegar enquanto metade do planeta não conseguir perceber e aplaudir a presença magnífica daquele ser dotado de uma necessidade exaustiva de satisfazer a sua larva interna vulcânica chamada ego.

* Maior arranha-céu do mundo com 828 metros localizado em Dubai.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Tráfego transcendental

Sempre me questionei a respeito da existência humana no mundo. Por que eu sou eu e não outra pessoa? O que me faz ser quem sou? Um planeta vagando na imensidão do espaço, com seres pensantes, capazes de construir mundos de novas invenções a cada ciclo e uma sede insaciável pelo desconhecido. Qual nossa influência e verdadeira importância nessa área delimitada à nossa sobrevivência? Como descendente original de uma família católica, ir às missas aos domingos fazia parte das incubências de um praticante devoto do catolicismo, ao menos no compromisso presencial. Porém, esse hábito nunca significou nada além de uma obrigação de minha parte, sem me vincular às crenças que ouvia repetidamente a cada celebração, a ponto de chegar em um estágio de quase ateísmo na adolescência. Essa fase chegou ao fim quando vislumbrei algo "tangível" e concreto, fundamentado na razão e não apenas em crenças infundadas e distorcidas ao longo dos tempos. O espiritismo me abriu as portas para o inexplicável, para o que representamos genuinamente, e o melhor, para os caminhos que enfrentaremos após essa travessia.

Não é minha intenção converter nenhum católico, evangélico, budista, pagão ou ateu ao espiritismo. Quero apenas divagar alguns pensamentos acerca da existência humana e ousar lançar uma fagulha de incerteza na mente de algum leitor. Um dos principais, senão o maior princípio que permeia o espiritismo é a crença na reencarnação da alma. Algo completamente abominado para os cristãos católicos ou protestantes. Ora, muito comodismo usufruir de uma única vida e depois alcançar a salvação divina ou o castigo sepulcral. Uma única vida é pouco para evoluir uma alma e determinar sua posição no "paraíso" ou no "inferno". Imaginem todas as provas que são necessárias ser alcançadas numa constante evolução espiritual, com tantos aprendizados, conhecimentos que numa única existência seria impossível de se atingir. Por isso o espírito retorna quantas vezes forem necessárias até conseguir se elevar espiritualmente. Escolhendo muitas vezes quais provas deseja se submeter em sua nova jornada.

Alguém já se questionou o que poderia ter sido em uma existência anterior? Sempre há uma intuição que cada um carrega consigo como algo intrínseco sobre o que tenha cometido e que influencia até as determinadas atividades com que tenha familiaridade. Por isso vez por outra tenho conclusões excêntricas e até assustadores sobre o que realizei em outras situações. Já cheguei a pensar que fui um assassino e conheci as prisões de perto, ou que me dediquei a vidas desregradas, ao mesmo tempo em que me sinto ligado a mosteiros e poderia facilmente ter tido uma vida reclusa da sociedade, dedicada às orações e ao jejum. Bom, eu posso não ter a certeza do que fui no passado, mas o pequeno James Leininger, do estado da Louisiana nos EUA, hoje com 12 anos de idade, sabe desde seus 2 anos que o fascínio pelos aviões da Segunda Guerra Mundial  não era apenas admiração, mas uma similaridade com os pilotos dos porta-aviões americanos, mais especificamente com o jovem piloto morto em combate em 1945 James M. Huston Jr.

A envolvente e enigmática história contada meticulosamente no livro A Volta, narra a saga alucinada dos pais de James, Bruce e Andrea Leininger, em busca de explicações para os estranhos pesadelos que passaram a fazer parte da rotina da família a partir de maio de 2000, quando a criança ainda contava com seus 2 anos de idade. Acompanhado dos pesadelos que envolviam fortes agitações durante o sono, com chutes e impressionantes gritos de socorro, o garoto passou a descrever com ardilosa precisão detalhes sobre os tipos de aviões que decolavam dos navios de guerra nos anos 40. Recordou o nome do homem, que seria ele mesmo, o qual se debatia em um avião em chamas em seus sonhos, e ainda o nome de um amigo Jack Larsen. Imagens de acidentes aéreos e muita bomba eram constantes entre seus desenhos. E suas lembranças não pararam por aí, mais três amigos foram lembrados e ganharam homenagem em sua coleção de bonecos. Quando questionado pelos pais o porquê de tais nomes, ele saiu com a inesperada resposta: "foram eles que me receberam quando cheguei ao céu".

Já tinha lido um livro da escritora americana Sarah Hinze, A Vida Antes da Vida, onde ela aborda a experiência de muitas crianças que conseguiam ainda nos primeiros anos recordar suas experiências em vidas passadas, mas nada tão envolvente quanto a narrativa da família Leininger. Aos poucos as peças do quebra-cabeça vão se encaixando, e aquilo que parecia um delírio de início, ganha força e evidências irrefutáveis de que o pequeno James era de fato a reencarnação do falecido piloto de guerra James M. Huston Jr. Em alguns anos de busca incessante, de contato com inúmeros veteranos de guerra e familiares de militares mortos, a família Leininger não havia mais como negar o incontestável. James com sua inocente maturidade, despejava diariamente de maneira natural fatos e informações inadmissíveis para uma criança de sua idade. Ele "reencontrou" a irmã de James Huston Jr, agora uma senhora com mais de 80 anos e a cumplicidade entre os dois era algo inexplicável. "Reviu" seus antigos companheiros de combate, e lamentou estarem tão envelhecidos. Seu caso chegou à TV, e acabou levando-os ao Japão e ao local onde o avião de James Huston havia caído no mar.

O fascinante no livro é mostrar através dos fatos como o espírito de um piloto da Segunda Guerra poderia habitar o corpo de uma criança mais de meia década depois. A ideia de reencarnação ficou tão evidente que convenceu muitos ex-combatentes, a irmã do falecido piloto e o próprio pai de James Leininger, um cético incorrigível e defensor de suas crenças religiosas. A história que daria tranquilamente um belo filme, chega ao fim quando o pequeno James "reencontra" o local de sua tragédia na outra vida e escuta de sua mãe que aquele homem embora tenha feito parte de suas lembranças por um longo tempo, havia chegado o momento de deixá-lo ir e seguir em frente. Com lágrimas nos olhos, James se despede dele e bate continência. Ou seja, apesar do garoto abrigar o espírito daquele ex-piloto, sua vida agora era outra, ele tinha uma nova família, outras missões a cumprir na sua escala evolutiva e precisava tocar o navio, agora como James Leininger e não mais como James M. Huston Jr. Tudo o que suas lembranças poderiam ter contribuído nessa nova empreitada chegara ao fim. Veteranos se reuniram, uma nova placa com os nomes dos soldados mortos que não haviam sido incluídos como baixa de guerra foi inaugurada, familiares tiveram acesso a registros até então desconhecidos sobre o destino dos militares mortos, e Anne Huston pôde finalmente receber o seu irmão que a deixou esperando por mais de 60 anos. Nos novos desenhos de James agora a tranquilidade, aviões sobrevoando pacificamente os céus e golfinhos mergulhando ao lado de navios, sem mais acidentes ou bombas. Assim como seus pesadelos, as memórias passadas foram se apagando e cedendo lugar ao que de fato ele era agora: apenas um garoto com mais uma vida cheia de desafios e metas a cumprir.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Onde habita a intimidade?

O que é mais íntimo numa relação? Um beijo na boca ou o ato sexual de fato? O que desperta mais prazeres e sensações pelo corpo? É possível alguém chegar ao orgasmo apenas com um beijo? Mas não seria um beijo qualquer. Seria 'aquele' beijo! Existe ainda a famosa "lenda" sobre os profissionais do sexo não beijarem seus clientes para evitar intimidade. Mas que tipo de intimidade estamos falando afinal? Quer relação mais íntima do que compartilhar o próprio corpo com outra pessoa? Bem, esse é o ponto de vista moral quando associamos intimidade às partes do corpo que não costumam ser vistas no dia-a-dia. Entretanto, se transferimos esse critério de aproximação para o lado afetivo de cada um, as relações íntimas vão depender do estágio de entrega emocional que uma pessoa consegue extrair do âmago da outra. Nesse caso um beijo poderia causar bem mais estrago do que uma bem sucedida cópula.

Na falta de sono numa dessas madrugadas, resolvi assistir um filme pela internet. Um garoto de programa e sua noite de aventuras em um prédio. "Strapped", amarrado em inglês, nos convida a conhecer a vida de um jovem à medida que ele adentra em uma noite de prazer e dinheiro em meio ao desconhecido e muitos pseudônimos. Não sabemos onde habita o verdadeiro ser que circula pelos corredores vazios à procura de grana. Mas aos poucos, entre um cliente e outro que arranja ao acaso, é possível ir penetrando no autêntico território desse personagem. O seu envolvimento é sempre sexual, como uma máquina preparada apenas para satisfazer o desejo do próximo, enquanto se mantém na maioria das vezes distante das emoções alheia. E uma vez feito, se veste e parte para outra.

O detalhe curioso acontece já no fim de sua maratona pelo prédio, quando seus olhos quase vencidos pelo sono e seu corpo cansado de praticar todas as modalidades de sexo com os clientes, o jovem se depara com um rapaz que lhe faz um único pedido em troca do valor que ele conseguiu durante toda a noite: um beijo na boca. Contrariado, ele até tenta argumentar que não beija em serviço, que o seu trabalho é sexual e não afetivo. É aí então que o outro elabora uma explanação genial. Olhando fundo nos olhos do garoto de programa, ele diz que não quer ser tocado nos seus órgãos sexuais, não é sexo que ele precisa no momento, ele quer ser tocado no coração, e quer que o outro esteja presente com ele no momento. Convencido mais pelo dinheiro do que pela argumentação, o rapaz aceita, a princípio receoso, mas termina por se entregar e depois de um intenso, longo e extasiante beijo, atinge o orgasmo sem nem ao menos tocar em seu pênis.

Há quem diga, "ah, é filme". Mas será que alguém já tentou? Estamos acostumados a associar prazer e orgasmo diretamente aos órgãos sexuais, mas muitos não se atentam para o fato que outras regiões do corpo humano podem produzir efeitos semelhantes de maior, menor ou igual intensidade. E as pessoas que sofrem danos na coluna vertebral e perdem a sensibilidade abaixo da cintura nunca terão mais prazer? O filme que a princípio parecia não dizer nada, me chamou a atenção pela minúcia e sensibilidade que tratou a relação de intimidade entre duas pessoas, além do sexo. Enquanto simplesmente realizava seu trabalho proporcionando deleite nos outros, o rapaz não se envolvia e não estava junto na relação. No momento que dividiu um beijo passou a sentir o outro e se deixou levar pelas sensações que aquela experiência mútua produzia.

Daí me questiono onde está o maior grau de intimidade numa relação a dois. Será que o corpo tem mais domínio que o sentimento nisso tudo? Existe um maior que o outro ou ambos se completam? Só a relação sexual torna duas pessoas mais íntimas do que aquelas que apenas se beijaram? Talvez seja mais fácil jogar com o corpo do que com a emoção. Não digo que o beijo possa proporcionar mais prazer que o sexo, com verdade e afeição um pode levar ao outro, ou não, mas que nessa ligação de intimidade, o segundo ganha na categoria de melhor fotografia, enquanto o primeiro leva a direção de arte.

quarta-feira, 9 de março de 2011

E no fim... as cinzas

Quarta-feira de cinzas! Para muitos ainda uma extensão do feriadão de carnaval. No Rio de Janeiro a apuração das escolas de samba. De certo modo a vida vai se encaminhando à normalidade. Há quem acredite que o ano começa pra valer agora. Porém, uma curiosidade assolou meu juízo esses dias. Não que já não houvesse perturbado antes, mas resolvi pesquisar e ainda bem que nossa amiga internet está sempre a postos para nos esclarecer qualquer dúvida. Por que o carnaval acompanha sempre a data da quarta-feira de cinzas? E por que uma festa tão espalhafatosa, colorida, com direito a bebida e nudez gratuita estaria associada a uma data religiosa? Foi aí que tive que investigar o sentido das cinzas na religião católica. A partir dessa data, onde as cinzas simbolizam um convite à reflexão sobre a efemeridade da vida humana, dá-se início a Quaresma no calendário cristão ocidental, ou seja, quarenta dias antes da Páscoa, sem contar os domingos. E como a cerimônia da Páscoa é realizada sempre baseada na primeira lua cheia após o equinócio de outono no hemisfério sul, quando o dia e a noite tem a mesma duração, sua data transita entre março e abril.

Até aí tudo tranquilo. Mas onde entra o carnaval no meio disso tudo? Para entender, é preciso saber que o período da Quaresma é reservado a reflexão, a conversão espiritual e ao jejum, um momento no qual os fiéis se aproximam de Deus em busca de um crescimento espiritual, ou seja, nada de festas e badalações. Não que todos os católicos levem esse ritual ao pé da letra, mas quando a Igreja Católica implantou a Semana Santa no século XI, algum engraçadinho achou esses quarenta dias de privação muito longo e resolveu que os dias que antecedem a quarta-feira de cinzas deveriam ser marcados por muita festividade e animação, para compensar mais de um mês de penitência. Daí surgiu o carnaval. E ao contrário do que muitos pensam, o carnaval não é uma festa genuinamente brasileira, constatando que quando ele apareceu, o Brasil ainda era um mundo conhecido apenas pelos indígenas em seu habitat natural.

Nos carnavais de outrora havia muita comida, bebida e grandes celebrações numa busca incessante dos prazeres. A animação durava sete dias pelas ruas, praças e casas da Roma Antiga. Atividades eram suspensas, escravos ganhavam liberdade provisória, pessoas trocavam presentes, reis eram eleitos por brincadeira e comandavam cortejos, e as fitas que amarravam os pés do deus Saturno eram retiradas num convite à folia. Quando o período do Renascimento chegou, o baile de máscaras, as fantasias e os carros alegóricos foram incorporados às comemorações. Assim não fica difícil perceber o destino que essa festa tomou ao longo dos tempos. Paris foi a principal cidade no século XIX a exportar o modelo carnavalesco conhecido hoje. E o Brasil ganhou o mundo com sua fama, quando o Rio criou o estilo dos desfiles de escolas de samba, tendo entrado já para o Livro dos Recordes como o maior carnaval do mundo.

Dessa maneira, caro leitor, é que fiquei sabendo porque essa tradicional festa está sempre mudando de data entre os meses de fevereiro e março, e porque acontece sempre antes da quarta-feira de cinzas. Provavelmente essa minha descoberta não seja novidade para muita gente, mas ainda assim achei que deveria compartilhar com aqueles que como eu se questionavam o que a Sapucaí tem a ver com a missa. Agora faz sentido tanta algazarra nas ruas e no fim... as cinzas. Movidos ou não pelos sentimentos de reclusão e retiro espiritual do período que segue a Quaresma, as pessoas começam a se dedicar de verdade a seus afazeres e esquecem as festas que tiveram início ainda no natal do ano anterior. O ano verdadeiramente tem início. Se o carnaval fosse em junho então, o ano seria literalmente dividido ao meio. Agora preparados para o jejum das folias e a entrega à conversão desejo a todos um feliz 2011!