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domingo, 26 de fevereiro de 2012

Meu jardim botânico

Quando todos os benefícios e tecnologias do mundo moderno não conseguem saciar nossa sede interior, só resta pedir auxílio à velha inquilina natureza. Só ela com sua imponente e modéstia paciência consegue acalentar as lamúrias mais íntimas da nossa alma. Nada mais gostoso do que dividir confidências ao pé de uma jaqueira, trocar reminiscências com um ipê amarelo ou mesmo partilhar as horas com um bambu. A natureza nos acolhe na sua majestosa simplicidade para nos lembrar, quiçá, de alguns valores perdidos na humanidade. Foi assim que me senti esses dias ao rever um dos lugares mais exuberantes do Rio de Janeiro. O Jardim Botânico é uma pequena porção do paraíso inserida no coração de uma metrópole. O silêncio, a paz e a quietude só quebrados pelo ruído da água nas fontes e córregos. Um privilégio para poucos. E pensar que toda a costa brasileira já foi um dia assim.

É nessas horas que me reporto aos portugueses quando aqui chegaram. Quando confundiram uma limpa e espetacular baía com a foz de um grande rio. A maravilha da natureza em sua perfeita manifestação. O paraíso particular dos índios. Como o homem foi capaz de devastar tamanha riqueza? Um pequeno passeio pela Estrada da Mata Atlântica, um caminho que contorna uma boa parte do jardim, serpenteando a Floresta da Tijuca, é suficiente para se render por inteiro ao poder da criação. Árvores gigantescas que se perdem à vista, frondosas e protetoras sombras, o solo macio da terra molhada, o ruído das folhas secas, o canto de algum passarinho, o lodo úmido em algumas pedras... me senti isolado do resto do mundo, a dez minutos de Copacabana.

Ali, mergulhado os pensamentos na mais profunda sintonia de espírito, recordei um pequeno jardim que fez história na minha infância. Na casa dos meus tios-avós existia um grande terreno ao fundo e em volta da casa com algumas árvores e plantações. O muro da casa era colado com o da minha avó e não era alto. Meu avô pulava frequentemente por lá para ir tomar café e bater papo com os irmãos. A casa era bem antiga. Paredes largas, chão de barro em alguns cômodos, fogão a lenha, sótão e vários quartos escuros. Tinha um certo medo de entrar lá. Mas esse medo não era empecilho para me afastar da pequena “floresta” que era o jardim do lado direito da casa. Havia muita planta, flores e ervas medicinais lá, divididos em dois ou três corredores. O ambiente era úmido, pois os galhos altos das plantas impediam que a luz solar chegasse até o chão. Apesar de ir pouco, eu adorava aquele lugar. Me sentia numa floresta. Fantasiava histórias e aventuras nas quais eu me perdia, improvisava abrigo, fugia dos animais. Ganhava a imaginação.

Era um ambiente único, incomum a tudo que eu estava acostumado. Infelizmente, minha diversão tinha sempre prazo de validade bastante curto. Meus tios não se mostravam receptivos à minha presença lá, aliás, à de ninguém. Mas criança e jardim era sinal de desastre pra natureza. E parece que eles tinham radar. Eu pulava o muro discretamente, atravessava o terreno em ponta de pés e quando adentrava os primeiros passos no jardim, eles me repreendiam. Algumas vezes fingia sair e me escondia entre algumas plantas. Era quando eles me delatavam ao meu avô, que pacientemente vinha me pedir para não tornar a perturbá-los. Mas o lugar era fascinante demais para abandonar assim. Cheguei a bancar o bom menino com meus tios para ganhar a confiança deles. Ia tomar café à tarde lá, conversava sobre assuntos de interesse de ambos, ganhava elogios, mas apesar do esforço, o jardim permanecia inacessível.

Das poucas lembranças que me restaram dele, ficaram as histórias, o aroma do ambiente, a umidade, o perigo (de ser descoberto), a tranquilidade. Acho que cheguei a brincar de se esconder, uma ou duas vezes, no máximo, com minhas primas. Não mais que isso. O paraíso não poderia ser violado. E apesar das interferências dos meus tios, a pequena floresta acabou abandonada e destruída quando a casa foi vendida. Aparentemente, de nada adiantou tantos cuidados. Mas se eles não preservassem o precioso jardim enquanto estava sob os seus cuidados, ele não seria aquele prodigioso espetáculo da natureza, nem despertaria a minha contemplação. Bom mesmo se mais gente estivesse plantando, cuidando e dedicando um tempinho do dia para a preservação da maior dádiva do planeta. Possibilitando mais jardins e florestas à nossa volta, reaproximando a natureza do homem, reequilibrando o meio ambiente, tornando nosso ar mais puro e estimulando as endorfinas dos sonhos.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Marlon e a bola

Escutava Fagner na sala com minha mãe. Marlon corria pra lá e pra cá com sua bolinha de desodorante roll-on, seu objeto sagrado. Vez por outra, minha mãe chamava sua atenção para ele tirar a bola de perto dos móveis, antes que ela rolasse pra baixo de algum. Quando isso acontecia, ele traçava em sua cabeça todas as estratégias possíveis para retirá-la de lá, e em última alternativa, quando sentia que não seria capaz de fazê-lo, suplicava nossa ajuda da única maneira que conhecia: latindo! E nesse dia não seria diferente. Em pouco tempo o vimos com o focinho encostado no canto da estante e a bunda pra cima, em sua típica posição de herói farejador. Como percebemos que seria impossível ele retirar a bola dali, começamos a contar quanto tempo demoraria até ele pedir ajuda. Não deu outra! Começou com um pequeno grunhido, um chorinho, em seguida olhou para a gente e latiu. Era o sinal. Sua salvação dependia de nós. Minha mãe foi até lá e retirou sua bolinha.

Contudo, como já era de se esperar, pouco tempo depois, já estava ele de novo, focinho no chão e bunda pra cima. Só que dessa vez ele conseguiu a proeza de fazer a bola entrar em umas das cavidades externas da caixa de som. Meu aparelho de som é daqueles antigos, cujas caixas são bem maiores e separadas do conjunto. Ainda tem toca-discos nele. Uma raridade! Brinco com meu primo de 13 anos que ele tem a idade do meu aparelho. E claro que com as caixas no chão, era de se admirar que Marlon ainda não tivesse inserido a bola lá. Mas o dia chegou! Minha mãe ainda foi lá, procurou por trás da estante imaginando que estivesse por ali, mas nada. A direção do focinho dele só indicava um lugar, a bola estava dentro da caixa. E foi o que constatei quando cheguei lá. Conseguia até tocar nela, sentia correr de um lado a outro, mas era praticamente impossível retirá-la de lá. "Esqueça, Marlon! Essa bolinha você perdeu!".

Marlon, no entanto, não iria abrir mão de seu objeto precioso assim de cara. Fincou raiz ao pé da caixa e ali ficou. Não adiantava chamá-lo ou tentar fazer esquecê-lo. Ele não queria papo! Conseguiria sua bolinha a qualquer custo. Não tardou muito e começaram os latidos, os choramingados, uma pata forçando inutilmente o buraco, outra arranhando a tela. Minha avó encontrou a outra bolinha dele e antes de entregar, eu tentei subestimar a inteligência canina. Peguei a bola, coloquei no bolso, fui até a caixa, fingi que estava tentando retirar a outra, passei secretamente aquela entre minhas mãos e mostrei a Marlon como se fosse a que estava presa. Ele começou a pular de alegria, eu joguei então a bola no chão e ele correu até ela. Pronto! Problema resolvido! Foi o que pensei. Não deu dois segundos, Marlon cheirou a bola e olhou para mim, esperando que eu lhe entregasse a bola verdadeira. Como percebeu que eu não a tinha, voltou a seu lugar em frente a caixa e lá deitou.

Seu tormento continuou ainda ao longo da tarde. Todo mundo saía da sala e ele continuava lá. Se por acaso saísse para beber água ou lambiscar sua ração logo estava de volta. Quando alguém passava, ele olhava suplicante e latia. Mas não havia como retirar a bola dali. Joguei várias vezes a outra bolinha contra o chão, na tentativa de animá-lo a correr atrás, sem sucesso. Impaciente com a insistência de Marlon em obter aquela bendita bola, fiz minha última tentativa. Desconectei os fios do aparelho de som, retirei a caixa do local, enfiei os dedos na abertura do buraco e balancei a caixa até sentir a bola rolando em torno da saída. A manobra durou alguns segundos, até que em uma das voltas, a bolinha passou pela cavidade, encontrou meus dedos e mergulhou saindo. Meu sorriso não era de vitória, ao menos não minha. Marlon era quem verdadeiramente tinha conseguido retirar a bola através da sua eterna dedicação, afinal, na sua esperteza canina, o que entrou devia sair. Soltei a bola no chão, ele agarrou apressadamente e saiu desfilando com seu troféu na boca.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Por que não suporto canto de galo

Diferente do latido do cachorro, que incomoda simplesmente pelo barulho, o canto do galo traz uma melancolia, um descontentamento, um presságio fúnebre. Talvez porque o galo já vá dormir anunciando o despertar. E a sua pressa me incomoda. Quem mora perto de algum entende o que eu falo. Parece que ele passa a madrugada inteira avisando que o dia vai amanhecer, só que ainda não amanheceu, então por que ele não cala o bico e vai dormir? Quem sofre de insônia ver o dia se aproximar a cada canto. É um pesadelo!

Me lembro quando ainda criança, de acordar pelas três ou quatro horas da madrugada pra viajar para a cidade vizinha. O ônibus saía muito cedo porque seu destino final era a cidade de Mossoró, 4h de distância, então era preciso chegar o quanto antes na parada. Essas viagens para a casa da minha tia eram sempre uma festa, mesmo que o motivo fosse uma consulta médica ou um exame, afinal, o encontro com as primas era farra garantida. Porém, levantar cedo e se preparar para a viagem ainda era uma tortura. Entre luzes acesas, sonolência e lençóis sendo puxados, aquela cantoria infernal rompendo a madrugada: o galo!

Além da sensação de estresse por acordar àquela hora, obrigando a pupila a se contrair a cada piscada em contato com a luz do quarto, ainda era forçado a escutar aquela ave avisando que o dia não tardava a chegar, embora não tivesse chegado ainda. Na parada esquecida por todos, menos pelos galos, minha mãe, minha avó e eu aguardávamos de braços cruzados o ônibus passar. Esses minutos eram os mais tediosos. Podia sentir  no ar o desconforto daquela espera. O frio, o sono, os olhos puxados, a impaciência, tudo pedia para que aquele momento passasse logo. E como demorava!

Alguns anos mais tarde, voltei a madrugar toda semana quando passei a morar na casa dos meus tios para estudar. Novamente o mesmo estresse pra levantar, a sensação de vazio, o desejo de ficar, a obrigação de ir... e o velho galo nos ouvidos. O frio, o silêncio e o aperto na estrada invadiam minha mente. A esperança de um dia não ser mais necessário repetir aquela viagem se somava aos conselhos do meu avô de que tudo na vida tem seu propósito. Isso tudo enquanto tentava mover algum membro do meu corpo de lugar, antes que ficasse dormente.

Inevitavelmente, tive que repetir muitas vezes aquela viagem, não só enquanto morei na casa dos meus tios, como depois ao fazer faculdade. Devido a contramão entre a minha cidade e Campina Grande onde estudava, o único horário disponível para pegar todas as conduções até lá era saindo de madrugada. Não havia alternativa. Com o celular pra despertar, encostava a cabeça no travesseiro e logo estava de pé, só não dava pra ter certeza se o que me acordava era mesmo o alarme ou o canto do bendito galo.

Hoje estou de certo modo livre dessa jornada, mas não totalmente livre do chefe do galinheiro. Toda noite antes mesmo que a madrugada tenha início, lá o escuto entoando seu canto de superioridade, ainda bem que os cachorros urinam ao invés de uivar pra demarcar território. Há quem aprecie uma boa sinfonia de galo, quem relembre seus tempos no mato, no sítio ou na fazenda, mas no meu caso essa cantoria sempre foi constante, e acreditem, por mais lembranças boas que possam trazer, todo dia não há quem aguente.

Posso estar sendo rigoroso demais com nosso amigo tenor, contudo, não posso desassociar seu canto dos momentos de insatisfação que vivi. Ele estava lá, e inconscientemente, toda a melancolia daqueles dias retorna ao seu sinal. A noite perde um pouco sua extensão, já que aquele que só deveria entrar em cena ao nascer do sol, fica a madrugada inteira ensaiando. E olha que nem estou considerando a crendice de que canto de galo fora de hora é indício de má sorte. Até porque se assim o fosse, ele já estaria extinto.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Pragmatizando...!?

Por muito tempo fui perseguido pela palavra 'pragmático'. Esbarrava com ela sem nunca entender completamente o significado de alguém pragmático, mesmo consultando dicionários, fóruns yahoo e todo tipo de 'pédias'. Talvez porque eu nunca tenha sido uma pessoa pragmática. Minha vida foi alimentada de ideologias nada práticas. Uma amiga sempre me dizia que dava a solução e eu arranjava o problema. Eu gostava de acreditar em um ideal de felicidade e não abdicava de viver essa fantasia. Mas quem sonha demais em um mundo que valoriza a praticidade, parece estar sujeito a virar sonâmbulo na sociedade. Idealizar a vida é uma tarefa válida, é acreditar nas possibilidades de mudança do mundo, permitir ser romântico, cafona, piegas! Mas sonhar, sonhar... querer, querer não basta. Sem um pouco de agilidade parece que nada sai do abstrato e entra no concreto.

Fazendo uma análise das pessoas ao meu redor, depois que consegui desvendar o mistério por trás dessa palavra, descobri que sempre tive um exemplo clássico de alguém assim. A palavra que me seguia pelas esquinas estava dentro da minha própria família sintetizado na figura da minha tia Auxiliadora. Se alguém pode exemplificar o que é o pragmatismo é ela. Posso fazer um mau julgamento, mas tenho a impressão de que ela nunca se agarrou em nenhuma nuvem. Claro, ela até pode ter suas fantasias, mas nunca deixou que elas fossem a sua vida. Praticidade é com ela mesmo! Não me vem à mente nenhuma ocasião em que ela não tenha chegado a solução de algum problema com o qual se deparou. É a verdadeira desatadora dos nós, simplesmente porque onde vemos um grande obstáculo através da neblina das nossas ilusões, ela vê o prático, o ágil e o possível. 

Mas não é uma tarefa fácil abandonar as convicções adquiridas ao longo dos anos para se entregar à praticidade. Afinal, se os sonhos nos movem, como deixá-los de lado em nome de uma vida mais prática? Será que todas as pessoas idealistas virão a se tornar pragmáticas algum dia? Se é um caminho para tornar a vida mais fácil, perde-se um pouco o sentido do ser, já que uma saída prática quase nunca é a que idealizamos. E o que fazer? Frustrar-se com o mundo diante da impossibilidade das conquistas ou aceitar a solução paliativa sugerida? A vida nos força a ser pragmáticos. Diariamente situações nos obrigam a deixar de lado certos anseios e nos conformar com o que pode ser oferecido. O conformismo e o comodismo são outras armadilhas que nos distanciam ainda mais do ideal. Em um dia tenho total confiança em mim e quero desafiar o mundo, no dia seguinte o mundo parece um rival grande demais, e um buraquinho é o melhor local para se abrigar.

Provavelmente se tivesse sido uma pessoa pragmática, teria feito uma faculdade visando unicamente o mercado de trabalho e o dinheiro no bolso. O idealista, pois, cria o seu mundo ideal e segue pelos mais diversos caminhos para chegar nele, sem a garantia que um dia chegará, ao passo que o prático enxerga as garantias futuras e a estabilidade financeira e batalha por isso. Mas não sei se seria melhor ter uma vida prática, que a meu ver parece uma vida sem muito brilho ou felicidade alguma. É como se quem partisse para uma "faculdade prática" fosse desprovido de vocação e enxergasse no dinheiro o único caminho do sucesso. Então o que fazer hoje? Continuar insistindo nas possibilidades incertas daquilo que idealizo ou partir para algo útil, rápido e seguro, abandonando todo aquele universo imaginário? Às vezes, sonhar demais cansa, e um atalho pelo caminho surge quase como um oásis em um deserto tão infértil de realizações, infelizmente.

sábado, 2 de julho de 2011

Lembrete


Como identificar os sinais que a vida nos dá? Não é normal... uma leveza no corpo, ou seria um peso? Não sei como descrever ao certo, algo semelhante ao estado de alguém que fez uso de tranquilizante para dormir, mas numa hora improvável. Não havia tomado nada ainda. Era cedo, queria assistir a novela das nove. Mas cedi ao descanso e em pouco tempo estava dormindo. Acordei duas horas depois. Como perdi a novela, continuei a assistir a segunda parte do episódio da série Ghost Whisperer que tenho acompanhado online. O seriado americano sobre a vida de uma mulher que consegue manter contato com espíritos presos à Terra. Cada dia me fascina mais desvendar os mistérios da vida na lógica espírita. Só lembrar que cheguei a essa série através do livro do co-produtor executivo e médium James Van Praagh. 

Exatamente à meia-noite meus olhos foram atraídos pelo relógio digital do computador. Pouco tempo depois me vi escrevendo em uma comunidade no orkut sobre um rapaz que morreu recentemente. Seus amigos criaram uma comunidade, e na descrição falava-se sobre a sobrevivência da amizade entre as intempéries da vida. Senti que devia escrever algo, já que sei o que é ver amigos ir pra longe, sem deixar de ser o que sempre foram. Até aqui tudo não fazia muito sentido, até eu conferir a data das postagens dos fóruns: 02 de julho. A ficha caiu! Cinco anos da morte de meu pai.

Não posso dizer que tudo o que aconteceu foi interferência dele, mas preciso admitir que fiquei surpreso quando constatei que era realmente o dia. Diferente da minha mãe, não sou muito ligado em datas, e havia esquecido completamente. Seria ele, de certa forma, querendo me lembrar? E sim, por quê? Já parei em muitas oportunidades para pensar sobre o destino do meu avô, da minha tia e do meu pai. Será que encontraram logo a luz? Será que me ajudaram todas as vezes que pedi proteção antes de subir em um palco? Ou será que eles é que precisam da minha oração? Já os senti distantes, próximos, mas ainda não tive essa certeza.

É inebriante a sensação de imaginar um mundo invisível a nossa volta, capaz de nos influenciar tanto para o bem como para o mal. Sempre senti uma ligação muito íntima com o espiritual desde criança. As histórias de alma penada me assustavam, e despertavam minha curiosidade. No fundo queria ser médium. As missas de domingo na igreja nunca tiveram um sentido místico de verdade. Jamais fui a uma com o intuito de alimentar a alma, como nos encontros nos centros espíritas. Uma hora ou outra nossa alma procura o seu equilíbrio. Hoje as histórias de fantasmas não me assustam mais, e ficaria muito feliz se descobrisse, em mais alguns anos, que teria mesmo a capacidade de me comunicar com os mortos. Sei que é um trabalho difícil, porque na falta de preparo, espíritos perturbados podem interferir negativamente em nossa vida, contudo, era algo que gostaria de arriscar, já que isso é o que mais tem me movido nos últimos tempos. Penso que traria um grande alívio a minha alma irrequieta. Tudo faz tão mais sentido.

Não sei se consegui captar a mensagem que recebi do meu pai essa noite. Se é que foi uma mensagem, e se é que foi dele. Mas tenho absoluta certeza que alguma comunicação se estabeleceu aqui. Não acredito em coincidências. Elas existem pela ajuda de alguém. Se foi realmente meu pai querendo que eu me lembrasse dele, ou simplesmente sua maneira de se mostrar presente em minha vida, então a intenção foi alcançada, porque direcionei meus pensamentos a ele e vim escrever aqui, depois de alguns dias sem "inspiração". Vim celebrar a maravilha da perpetuidade da vida e a graça de poder sentir a presença dos que se foram através de caminhos que só a alma pode compreender. 

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Nas alturas

Ela estava ali diante de mim, como sempre esteve. Mas dessa vez algo novo se fazia presente. Algo vivo, interno, pulsante, mais psíquico do que físico. Eu acompanhava a fila e sentia a hora se aproximar. Apesar de alguma insegurança, não titubeei novamente; entreguei o bilhete e sentei na cadeira reservada a mim. Preso ali, comecei a perceber nos primeiros movimentos, por que aquele lugar sempre foi sinônimo de apreensão em minha vida. Desde criança quando os parques de diversões chegavam à cidade para a festa do padroeiro, comumente evitava os brinquedos perigosos que envolviam velocidade e altura. Era bem mais seguro ficar rodando em um cavalinho colorido do carrossel ou nos aviõezinhos a um metro do chão. Mas de longe a primeira imagem que se tinha do parque era dela, suntuosa, imponente, soberana entre todos, a roda-gigante. Era inevitável não olhá-la. Ficava atônito com tamanha engrenagem girando com tanta precisão, e mais perplexo ainda com as pessoas que se dispunham a girar naquelas altitudes. Ah, aí estava a razão.

Não sei necessariamente quando percebi que algum medo de altura havia em mim. Mas a cada novo degrau uma falta de equilíbrio maior. A gravidade dizia que meu lugar era a terra firme, o céu era para os pássaros. O medo era real e se mostrava evidente nas minhas opções no parque, e pode ter se somado posteriormente a uma labirintite que só complicou ainda mais a estabilidade no ar. Lembro de uma única vez que tentei desafiar esse medo, era o último dia do parque e depois de tanto ouvir as declarações entusiasmadas de meus amigos, fui convencido a embarcar no Twist, uma espécie de carrossel de cadeiras numa modulação bem mais acelerada e que subia durante o passeio formando um ângulo de quase 90 graus. Não sei a que sensação eles se referiam, porque a única que senti foi desespero agarrado ao cabo de sustentação, vendo a qualquer momento a cadeira ou o meu sapato voar até os fundos da rodoviária. Aturdido entre os gritos de euforia e as imagens do parque, que haviam se transformado em vultos, não fazia ideia se a altura ou a falta de estabilidade era a pior impressão.

Contudo, apesar de toda essa insatisfação, a altitude sempre me instigou. Mais novo queria ser astronauta, acho que não visualizava a viagem, apenas o desenho do planeta de cima. Mantinha ainda uma relação de cumplicidade com o super-homem, que voava. Gostava também de subir nas escadas da caixa d'água da casa de minha avó, apesar de todos os alertas da família. E quando morei em um prédio de dez andares em Natal, o meu passatempo predileto era subir no telhado à noite e olhar a cidade. Absurda contradição. Mas quem falou também que temos que ser tão lógicos? Acredito que o meu medo estava ligado ao domínio. Se o lugar era alto, mas me permitia ter o controle da situação, então era divertido, do contrário: "mainhaaaa!" Hoje avalio como um medo saudável. Todos têm medo de alguma situação aparentemente fora de controle. Algo semelhante ao medo de fantasmas. Eu, como a maioria das crianças, ficava assustado ao ouvir histórias de assombração, embora sempre insistisse em escutar, deixando o medo para me perturbar depois embaixo dos lençóis.

Talvez por essas contradições eu tenha ficado receoso do desafio de encarar uma roda-gigante pela primeira vez aos 24 anos. Mas eu havia decidido superar esse trauma de infância e fui um dos primeiros a incentivar o passeio no majestoso círculo. Bateu aquele friozinho na subida, a sensação de cair no nada durante as descidas, um esforço tremendo para manter o foco em algo e não perder o eixo, e no final ao olhar para ela novamente, achei imensamente maior do que antes e me julguei um insano por ter girado naquela altura. Ah, mas a sede de um parque estava apenas começando. Para ressarcir a ausência dele em todos os anos perdidos, fui em carrinhos, aviõezinhos, trem fantasma, e me arrisquei a ir em uma mini montanha-russa, depois de uma roda-gigante aquele trilhinho era fichinha. Basta informar que na saída perdi um pouco da coordenação motora das pernas, depois de acreditar que iria despencar do vagão em cada descida. Com esses testes de adrenalina, achei melhor não arriscar a barca viking e muito menos o tal do Samba, rodando sem parar. Ainda surgiu um convite pra repetir a roda-gigante. Não, pensando bem, outro dia, quem sabe.

Novamente não sei se o medo ou a falta de estabilidade provocando uma ânsia de vômito era a sensação que dominava ao final da experiência. Contudo, penso que foi propício o resultado alcançado. Embora não tenha superado completamente esse medo, consegui reverter uma situação que me incomodava desde a infância. Ao olhar uma roda-gigante agora, eu lembro que já estive ali. Penso que é importante o desbloqueio de qualquer mecanismo que trave o nosso progresso. O medo em demasia congela o ser humano e o impede de viver livremente. Uma fobia vai levando a outra e do nada estamos encurralados em uma cerca de pânicos. A altura passa longe de ser o meu maior medo na vida, temo muito mais alguma doença grave, que me leva a temer determinados comportamentos para evitar ter alguma, então fico condicionado ao limite que esse medo me reserva na vida. Por isso, é bom correr riscos algumas vezes, pular de para-quedas, fazer rapel (ainda faço um dia ), saltar no nada. Voar simplesmente sem se preocupar a que altura está do chão. Enfrentar os medos é cruzar os limites, ir além de onde acreditamos ser capaz e tornar o inimaginável, factível.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Impressões

E aquelas tardes tinham um sabor especial, eram verdadeiras reuniões invioláveis. Entre a diversão e o compromisso, amizades despontavam e descobertas prazerosas emergiam para um mundo ainda inexplorável de pré-adolescentes. Os encontros eram sempre no meu quarto. Os móveis eram afastados, a galera se espalhava pelo chão, o toca-fitas era ligado e pela sequência gravada na fita K-7 começávamos a nos apresentar. Em meio à garotada, minha mãe, que na função de produtora mais parecia outra criança. Geralmente esse período de ensaio durava apenas uma semana antes da apresentação. Tempo relativamente curto para assimilar passos, trejeitos e a própria música dos artistas escolhidos, mas não estávamos tão preocupados em acertar todas as coreografias, e sim em acreditar que éramos aqueles cantores e dançarinos famosos. Não importava se seria uma Déborah Blando morena, uma Sandy loira ou um Jacaré branco desde que a dedicação e a intenção fossem as melhores.

E dedicação se encontrava mesmo no capricho dos convites feitos à mão, em pedacinhos de cartolina, e entregues de porta em porta entre os vizinhos e amigos próximos; e até na confecção do figurino, normalmente uma reprodução meio pirata de algum modelo de roupa famosa, só que em tecido bem mais modesto. As especulações sobre os números a ser apresentados aguçavam a curiosidade de algumas crianças que se debruçavam sobre a janela do meu quarto nos horários dos ensaios, a fim de conferir em primeira mão o que estávamos preparando dessa vez. Sempre após os encontros no início da noite, saíamos todos juntos conversando em grande empolgação até a prefeitura da cidade, de onde cada um tomava seu rumo até nos reunirmos de novo no dia seguinte. Eu me dirigia habitualmente à casa da minha avó, onde quase sempre jantava miojo feito por mim mesmo, que à época era um grande achado da culinária infantil. De algum modo me sentia responsável, vivo, senhor do meu caminho. Era o garoto que trabalhava em algo produtivo e ainda preparava seu próprio alimento. Não era pouca coisa.

Quando o grande dia finalmente chegava, eu despertava com os primeiros sinais de luz a fim de não perder um segundo sequer as emoções que aquela ocasião proporcionava. E o dia era realmente cheio. Primeiro tínhamos que decorar a área de entrada de nossa casa. Uma cortina grande cobria toda a parede onde ficava a porta e alguns balões eram colocados em torno do ambiente. Inquieto para estar ocupado em alguma tarefa, olhava agitado todos que se ocupavam no único ofício que não conseguia realizar, encher aquelas bexigas com ar. Era ridículo, parece que só conseguia soprar pra dentro. Mas não ficaria desocupado por muito tempo, era hora de recolher o máximo de cadeiras entre os vizinhos para os convidados sentarem. E com minha sede de parecer útil, nunca deixava de ir buscar assento nos lugares mais distantes, como a casa da minha avó. E lá seguia eu atravessando a cidade num domingo ensolarado com uma cadeira de fitilho vermelha contra o peito e um sorriso no rosto.

Como em qualquer evento, alguns imprevistos estão sujeitos a acontecer. E me lembro de uma vez que faltou energia na cidade na manhã de uma apresentação. Falta de energia em cidade pequena é sempre um transtorno, nunca se sabe quando a força vai voltar, e quando inesperadamente chega não há quem não fique sabendo com a ovação de um grande gol pelas ruas. Pois desde que sem energia, sem espetáculo, uma vez que sem energia não há som, e sem som não há apresentação. Inconformado com a ideia de ver o grande dia vir abaixo, precisava encontrar alguma solução. Decidi que usaríamos pilhas no meu aparelho de som pequeno, mas onde encontrar pilhas grandes no comércio fechado de domingo? Depois de fuçar todos os buracos abertos da cidade, acabei encontrando, mas o volume do aparelho não se mostrou muito satisfatório para a realização do evento. Fiquei matutando, como encontrar uma solução possível? De onde arrancar energia? Sol? Gerador da igreja? Por que não? Não foi preciso tanto. Perdido em meus raciocínios escutei aquela ovação. Estava salvo.

Tomar banho, separar os figurinos pela ordem de apresentação, esperar os convidados, tudo era um ritual seguido com a maior satisfação. As meninas ficavam no meu quarto e os meninos faziam de camarim o quarto da minha mãe. Quando a nossa apresentadora chegava (minha ex-professora de alfabetização), eu lhe passava a lista com os números a ser exibidos. Em pouco tempo a área estava tomada por vizinhos e curiosos que passavam. Sentada sempre na primeira fila, minha avó, que nunca perdia a oportunidade de ver o neto em ação. E enfim começava. O corre-corre era grande na troca de roupa após uma apresentação. Eu com um olho no controle do som, o outro na área e ainda atento aos meus horários de entrar e mudar o figurino. A sensação de conquista ao final se misturava com vazio. Meta cumprida e não mais músicas, tardes animadas, caminhadas até a prefeitura, miojo com sabor de compromisso. Lamentavelmente tudo acaba, mas esses momentos já morriam um pouquinho no silêncio da noite vazia de um dia tão fervilhante de vida.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Um aniversário

Um flash de vida nunca se esvai das entranhas de um coração
Nem lembro como acordei. Só me recordo dos preparativos. Das minhas primas Agda, Ana Carla, Larissa, Pollyana e Andréa circularem pela casa. De sentarmos na calçada inclinada da garagem com o portão aberto. Ah, o portão! Ele nunca era aberto. Não havia carro e sempre entrávamos pelo portão menor. Deixá-lo totalmente aberto como naquele dia era uma completa realização. Era como se nossa casa passasse a ser uma extensão da rua, onde não havia limites. Na cozinha um entra e sai. Muita gente ocupada correndo de um lado pro outro. O cheiro de doce atiçava o paladar. Tentava surrupiar algum, mas tinha aquelas mulheres também que eu não conhecia, e ficava envergonhado. Na sala outras pessoas enchiam bexigas. Vez por outra se ouvia o pipocar de alguma e o riso de alguém. Minha mãe sempre aparecia pedindo para terem cuidado. Ela estava realmente agitada com todo aquele movimento na casa, a cabeça em tantos convidados e sempre a suspeita que não haveria comida suficiente para todos. Eu apenas observava todo o ambiente e tentava me divertir com tantas pessoas se dedicando em tornar aquele dia inesquecível em minha vida.

Quando a tarde se fez presente, eu já estava pronto. Roupa feita na costureira da minha mãe. Uma camisa quadriculada de vermelho e branco com um colete e uma bermuda jeans. Minha mãe também havia preparado algo especial para ela. Um short marrom da moda de cintura alta acompanhado de um cinto, uma blusa de cetim rosa e para completar, um colar estilo idade da pedra que descia até os seios. Saí do quarto e circulei pela sala, agora toda decorada com balões. Na parede atrás da mesa, um isopor em formato de casa com a frase: "Uma tarde no circo com Samuel e amigos". Nem preciso dizer que o bolo era um palhaço. O nariz vermelho e redondo saltando para cima. Parecia delicioso! O rapaz encarregado de filmar o evento em VHS já se fazia presente, assim como os vizinhos mais chegados e boa parte da família. Afinal, meus tios e primos tinham vindo à cidade só para me prestigiar. Na área de entrada ficou uma caixa grande onde eu colocaria os presentes, e claro, na parede outro palhaço com a cabeça enorme de isopor  e os braços e pernas feitos de bexigas.

Aos poucos a casa foi se enchendo. Os convidados me olhavam sem parar e isso começou a me preocupar. Não sabia mais para onde olhar e aos poucos já nem sabia como caminhar. Parece que roubavam cada expressão minha toda vez que me observavam. Finalmente minha avó chegou. Me abraçou, me beijou e ali em seus braços me senti seguro e protegido. Com ela chegaram também meu tio e minha prima Agda, que trazia o presente da minha tia Auxiliadora. Eu sabia de antemão que ela me daria um robô preto de meio metro que andava e mexia as mãos. Agarrei o pacote e, apesar da ansiedade, coloquei na caixa, queria saboreá-lo sozinho depois. Um carro então estaciona lá fora, e dele sai pacientemente um homem de calça jeans, camisa branca e cabelo grisalho. Sua entrada desvia os olhares dos convidados sobre mim. Ao menos até ele se aproximar, passar a mão no meu cabelo sorrindo e proferir sua saudação: "diga, comandante".

Meu pai era um militar do exército aposentado. Em seu ofício, percorrera o país partindo também o coração de muitas jovens. Não era seu primeiro filho e nem seria o último, assim como minha mãe não detinha o título de exclusividade. Aliás, estavam separados há quase dois anos. Com essa situação perdi a relação de intimidade, e uma onda de medo e responsabilidade assolavam meu ser, inconscientemente, sempre que o via. Meu pai era dado a mágico também nas horas vagas, e numa festa com o tema circo, sua mesa já estava posta e o picadeiro armado. Todo mundo se apertava para ver o grande mágico Seledon. A área ficou lotada. Gente em pé, gente sentada. Várias crianças com olhares curiosos agarrados ao portão do lado de fora. E eu? Bom, eu fiquei meio que escondido entre as pessoas. Tinha medo dele querer realizar alguma mágica com o aniversariante. Me fazer urinar ou botar ovo em cena como fez com um menino. Não. Naquela hora eu queria ser mais um simples convidado do que qualquer anfitrião.

Inexplicavelmente, gostava de estar em cena, de estar em evidência em um palco. E basta rebobinar um pouquinho a fita antes do show de mágicas do meu pai, para me encontrar dançando lambada na sala com minha prima Agda aos olhares atônitos de todos. Sim. É verdade. Minha prima cinco anos mais velha aprendeu a dança "proibida" do Kaoma e resolveu que precisava de um par para praticar em casa. E lá estava eu, dançando no meio da minha festa de aniversário. E mesmo com a expressão fechada, não de raiva, mas de insegurança, ainda dancei com outra colega da escola, essa da minha idade, e a cozinha literalmente fez um break. Foram todos assistir o desempenho daquelas duas crianças ousando ser gente grande. Minha avó olhava fascinada. Minha mãe direcionou toda sua agitação naquela cena, focou e congelou por alguns minutos. Nem eu sabia por que impulso estava levando à praça um hábito corriqueiro da infância. Talvez um anseio de me mostrar capaz de algo que poucas crianças naquela idade ousariam fazer.

As horas foram passando. A festa ganhando a noite. O time da cozinha dedicado em servir os convidados e certificar que todos estavam providos, e como minha mãe previu, as iguarias começaram a faltar. Mas nada de desespero. Hora de cantar parabéns e cortar o bolo. Todos se reuniram em volta da mesa. Muito barulho. No som Sacrifice de Elton John. Algumas crianças colocavam a cabeça nas lancherinhas para ver o que tinha dentro. Colocaram um banquinho para que eu ficasse numa altura razoável. Eu observava tudo esperando que alguém me dissesse o próximo comando. De repente o disparo e todos cantavam e batiam palmas sorridentes para mim. Naquela hora não sabia o que fazer. Me perdi completamente. Batia palmas junto com todo mundo ou só ficava olhando aquela celebração? Ninguém me passou a informação. Então sorrateiramente do impulso de bater palma, fui escorregando as mãos devagar até elas congelarem na altura da cintura. Olhos esbugalhados. Parecia que eu é que seria devorado ao final ao invés do bolo. E quando a cantiga cessou, veio o pior. Tive que apagar a vela. Foram três tentativas, várias vozes me encorajando, meu pai me pedindo força e só aí a chama evaporou. Mas nem fui eu o responsável. Um menino, provavelmente impaciente com a situação e louco pelos docinhos, se antecipou e contribuiu com seu sopro.

Desfeita as formalidades, todos foram se dissipando e as crianças formando filas para receberem as lembrancinhas, enquanto a sessão de fotos tinha início em frente ao bolo. Bateram uma fotografia minha com minha avó e depois a família toda queria uma foto exclusiva com ela. Em seguida minha mãe mandou chamar meu pai para a foto da família. Embora separados, ela ainda nutria uma remota esperança de reconciliação. Nos preparavam para o flash quando só então reparei que a vela de 6 anos do bolo estava voltada para mim e não para os convidados, como seria o correto. Com essa constatação, olhei para a câmera e a cena foi registrada. A mesma foto que agora olho aqui sobre a escrivaninha do meu apartamento e que todos os dias me encara com desafio. Faz exatos 20 anos. Minha mãe não voltou mais com meu pai. Ele teve outra família, outros filhos e hoje já nem se encontra mais entre nós. Eu fui crescendo, tentando superar os fantasmas da insegurança, encarar o mundo sem medo de falhar, embora aqui acolá busque nas fobias e inocência daquele garotinho a grande razão de continuar seguindo sempre. Encontro naquelas raízes o fruto do cara de 26 anos que me torno hoje.

domingo, 20 de março de 2011

Centésimo desatino

Parecia ontem. Não! Já faz quase 4 anos. Essa seria mais uma simples postagem não fosse o detalhe que ela é a publicação número 100 do Celeiro. Noventa e nove ideias, opiniões, sonhos, recordações e momentos hilariantes da vida desse cara aqui estão espalhados nesse espaço. O ano era 2007, outubro. A intenção: criar um blog para escrever crônicas sobre o ponto de vista do meu dia-a-dia maluco no terceiro ano da faculdade de Comunicação Social. Primeiro devo agradecer ao talentoso fotógrafo, Tareb Edson, que por perda de contato não sei se enveredou para outra profissão, de modo que pra mim ficou a imagem do fotógrafo. Foi por descobrir o seu blog, as crônicas bem-humoradas e as reflexões que fazia que me inspirei a criar minha própria página. Tanto que até hoje ainda tenho o link dele, mesmo não havendo atualizações há cinco anos. Naquela época, dava para abrir uma página e se admirar com o que encontrava, hoje de cada dez perfis no Twitter, oito tem um link de um blog, parece que já vem no pacote.

Meu primeiro texto não poderia ser outro, foi sobre o processo que me levou ao estágio do Sebrae durante a Feira do Empreendedor. O primeiro comentário que recebi foi da minha amiga Kárem, em 9 de outubro, um dia depois de publicar a primeira história. Bem, extraindo um trecho do seu enorme a carinhoso comentário, ela escreveu: "É um cantinho bastante aconchegante e que promete muitas risadas e fortes emoções!!". Não sei se consegui corresponder a profecia, mas analisando alguns dos 318 comentários que constam no Celeiro até então, pude perceber que ao menos alguns sorrisos fui capaz de arrancar. Com o passar dos anos, o Celeiro foi se modificando, ganhando modernos layouts, novas aventuras em cada publicação e obtendo reconhecimento ao mesmo tempo em que seu dono se descobria, crescia e compartilhava com ele suas conquistas e frustrações.

Hoje, 20 de março de 2011, três anos, cinco meses e doze dias após a primeira postagem entrar no espaço cibernético e o nome Celeiro do Sam começar a ser difundido, eu chego ao meu centésimo texto. Poderia já ter escrito duzentos, quinhentos ou mil histórias, ou poderia estar na quarenta, na setenta. Não! Estou na cem! Só escrevo quando sinto necessidade de externar alguma inquietação ou relatar outras peripécias da vida desse jovem irrequieto aqui, embora essa necessidade tenha sido bem mais constante nos últimos tempos. Não por acaso, ou totalmente porventura, atinjo essa meta numa data curiosa. Ontem foi aniversário da minha avó. Um ser que sempre irradia luz à minha vida. Temos uma ligação tão intensa que aos que acreditam na reencarnação, há quem diga que esse moço aqui deveria ter vivido de perto toda a febre da beatlemania, pois eu poderia ter sido o filho mais novo da minha avó que morreu atropelado no auge de Ticket to Ride.

Curiosamente, na mesma data de hoje em 1969, John Lennon se casou com Yoko Ono no território britânico de Gibraltar. Aos olhos de "todo" beatlemaníaco, ela seria a grande vilã da separação da banda e por isso condenada a eterna expiação de seus pecados. Já não parto desse pressuposto. Quem conhece a história do quarteto a fundo, sabe que o fim dos Beatles seria inevitável com ou sem Yoko. Tudo bem, ela pode ter antecipado um pouquinho, mas foi o descomunal amor da vida de John Lennon. As loucuras que esse cara fazia com ela eram inimagináveis. A canção The Ballad of John and Yoko narra esses momentos dos dois, que mais pareciam uma brincadeira com o mundo. Não sei se isso é babaquice de fã, mas se meu ídolo está feliz, devo embarcar junto na felicidade dele. E a contrapartida se mostrou significativa com uma década de memoráveis composições em sua carreira solo.

Mas 20 de março também costuma ser o dia do equinócio de outono no hemisfério sul. E a partir de amanhã, na astrologia, o sol entra no signo de áries e o ano astrológico tem início. Áries tem como elemento o fogo e entre suas características, a coragem, o pioneirismo, o entusiasmo, e também a impaciência, a impulsividade e a raiva. Bem, e eu sou ariano. Então o sol entra na minha casa a partir de amanhã e todas as minhas manifestações estarão mais acentuadas, ou não, não domino a lógica da astrologia. Mas aprendi pesquisando que áries é regido por Marte, planeta que tem o poder da conquista e da busca pela realização pessoal. Uma dica para investir nesse território? Um ariano que cruzou meu caminho em dois momentos foi Junior Lima. Na infância e adolescência ao embalar minhas aventuras ao lado de sua irmã Sandy, quando ainda não era devassa, e ano passado ao ler um texto meu no Celeiro sobre o seriado da dupla e indicá-lo em seu Twitter. Meu blog ficou mais popular que o clipe de Stefhany Absoluta. Com a diferença que continuei a pé.

Quem quase nasce ariano também é o autor de novelas Manoel Carlos. Mais uma semana e ele herdaria todo o temperamento impulsivo dessa espécie. O que talvez interferisse na construção de suas Helenas e de suas narrativas cheias de sensibilidade e romantismo, palavra-chave no pisciano. Mas seguindo os acontecimentos de 20 de março que marcam a data da minha centésima postagem, em 1815 Napoleão entrou em Paris depois de escapar de seu exílio na ilha de Elba dando início ao Governo dos Cem Dias; Albert Einstein publicou sua teria geral da relatividade em 1916; os EUA iniciaram a invasão ao Iraque em 2003; e em 2006 o Museu da Língua Portuguesa foi inaugurado na Estação da Luz em São Paulo. Tudo isso não tem nada a ver comigo, nem com o Celeiro, mas achei que se encaixaria no contexto de alguma forma. Afinal, aqui tem espaço suficiente para tantas proezas, que não estaria ainda nem próximo de encerrar o primeiro ato. Tenho bastante disposição para escrever e muitos delírios ainda na alma que precisam se transformar em palavras e ideias absurdas. Que maravilha um ser pensante e a loucura de se julgar normal em meio a lucidez da insanidade. E aí quem sabe o Celeiro seguirá uma outra profecia e será imenso do tamanho do amor que um dia alguém ousou sentir por mim.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Enquanto espero...


Sozinho no apartamento esperando minha mãe e minha avó chegarem de viagem. Elas vêm em um carro da família, e por isso seria a primeira vez que nosso amigão de quatro patas Marlon iria conhecer o solo paraibano, mas minha mãe se sentiu mal ainda no início da viagem e o deixou na casa da minha tia em Pau dos Ferros. Pena! Eu tava louco pra vê-lo. As horas correm, mas o carro nada. Pensei que só chegariam à noite, mas saíram mais cedo e já estão quase chegando. Por enquanto, o tic tac irritante do relógio é a minha única companhia. O céu nublado me lembra chuva, e a chuva me lembra calça molhada e PDA, nos dias que recenseei embaixo d'água. Fechei meu primeiro setor, tô esperando o pagamento do IBGE.

Hoje também dei entrada na minha carteira de trabalho, ainda não tinha uma. E dia 18 tem avaliação para retirada de drt de ator. Apostila pra ler e monólogo pra apresentar, que ainda não decidi. Às vezes não sei se devo permanecer investindo nessa carreira, mas um drt na carteira não atrapalha. E ainda tem o de jornalista depois, se eu tirar. Ontem foi 7 de setembro, e o mês ainda me lembra a festa de São Miguel Arcanjo no dia 29, que não sei se irei mais uma vez participar. Queria comprar um pequinês, mas não encontro por aqui. Agora não tô podendo tomar leite, refrigerante e café, nem comer frituras, tomates e carne gorda devido uma esofagite erosiva. Resultado que obtive através de uma endoscopia digestiva que fiz depois de anos fugindo dela. E até agora não sei se saí com minhas próprias pernas da sala de exame até a de repouso. Nada de minha mãe e minha avó.

Terça que vem tem ensaio de Última Estação, os personagens estão definidos, e me sinto bem com os que farei. Talvez o cenário de Pluft venha aqui pra casa. Tenho que renovar minha consulta de vista. A lente de contato tá pior que o óculos de 2004. O cabelo precisa de um corte, mas cansei do mesmo modelo, queria algo novo. Queria ganhar na Sena, conhecer Gramado, fazer um Cruzeiro. Cansei da posição dos móveis no quarto, mas não tenho muita opção de mudança. A fitinha do Senhor do Bonfim, o TOC, o relógio velho, a mochila, coisas que me identificam. Minha mãe vai trazer um chuveiro elétrico e não vou mais precisar ferver água pra tomar banho no frio. E me vem cada detalhe. O roteiro que não terminei, o camarão que não posso comer, as eleições se aproximando e Marina me conquistando, o nome de uma pomada Omcilon-A 1 grama no porta-recados, o comprimido em jejum e antes do almoço e jantar, essa postagem que não termina, o carro que não chega, as nuvens se dissipando, o pequinês faltando, o tic tac incomodando, o celular chamando. São elas. Chegaram! Vou descer pra recebê-las.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Eu!

Para aqueles que acham que sou um menino de ouro!

Já roubei perfume da casa de amigos da minha mãe. Já menti quando achavam que era verdade. Já enganei. Já apertei a campainha e corri. Já escrevi cartas de amor. Já gritei com quem amava. Já chorei ouvindo música. Já dancei lambada até cair. Já dublei Junior, Leonardo, Xororó, Latino, Roberto Carlos e Marcelo Augusto. Já corri pela cidade pra não tomar injeção. Já mandei gente se lascar. Já sonhei com uma casa grande e três filhos. Já beijei sem vontade. Já me apaixonei. Já fiz escândalos. Já fugi de compromissos. Já "fiquei" sem querer. Já discuti com médicos. Já fui imparcial aos sentimentos dos outros. Já desejei ser famoso, ser um super-herói. Já quis matar também e esconder o corpo. Já desejei voltar no tempo e salvar John Lennon e Daniella Perez. Já saí sem cueca. Já nadei pelado. Já me masturbei no banheiro. Já comprei revista pornô. Já morei sozinho. Já dividi apartamento. Já passei mico na rua. Já quis fugir de casa. Já senti vergonha de abraçar meu pai. Já quis escrever novelas. Já me escorei nos outros. Já tomei as rédeas. Já fingi doença pra não ir à escola. Já desejei conhecer Sandy e Junior. Já quis ir a um show dos Beatles. Já dei foras. Já levei também. Já fiz chantagem emocional. Já desprezei. Já sofri calado. Já quis ir pra Lua. Já quis ser monge, arquiteto, biólogo marinho e astronauta. Já chorei olhando a chuva. Já jogaram balde d'água em mim. Já me empurraram na lama. Já passei mal em exames. Já quis morrer. Já acreditei em mim. Já caí das nuvens.

terça-feira, 7 de abril de 2009

24 anos

Hoje decidi agradecer! Vivemos pedindo e cobrando tanto. Resolvi parar um pouco e agradecer a tudo que já tive e àquilo que acredito torna o mundo mais divertido. Agradecer à Deus pelo universo. À evolução humana. À essa terra maravilhosa que nos faz respirar e se inspirar mais a cada dia. À família Rêgo por ter deixado Portugal e vindo tentar a vida no Rio Grande do Norte. Agradecer a Manoel José de Carvalho por ter fundado o município de São Miguel. A Mariana Ricardina do Rêgo por ter ao lado de Thomé Ribeiro Machado juntado meus bisavós José Vicente do Rêgo e Olímpia Maria da Anunciação que trouxeram pra mim uma das criaturas mais abençoadas deste mundo, minha linda avó Josefa de Souza Rêgo. Obrigado pelo imenso amor ao longo de tantos anos.

Quero agradecer também a Julio Ferreira de Oliveira e Maria Emília de Oliveira por darem vida a um homem de sabedoria e coragem intensas, Altino Ferreira de Oliveira. Obrigado vô pelo exemplo e pelo apoio! Obrigado Elisiário Dias e Augusta Honório Dias por darem vida a Seledon Dias da Cunha, muito obrigado, painho, pelas palavras que me guiou em alguns momentos de minha vida, e até pelas que não segui. Obrigado vovó e vovô mais uma vez por terem trazido tantas criaturas boas ao mundo, dentre elas, aquela a quem sou responsável por respirar agora. Obrigado, maminha, acima de tudo pela vida, mas também pelo amor incondicional, pelo apoio infinito, companheirismo, pelas festas de aniversário, pelos shows de dublagens, pela presença sempre constante. Obrigado por acreditar em mim e suportar todos os meus problemas.

Agradeço a tia Auxiliadora pela dedicação, pelos infinitos presentes, mas antes de tudo obrigado pelo amor e carinho tão transparente. Obrigado, Ingridy, por tantos anos compartilhados, pela dedicação, por dar colorido e tornar especiais muitos momentos de minha vida. Obrigado Pau dos Ferros por me proporcionar incontáveis histórias. Obrigado Educandário, Vastí, Thiago, Jordânia, Eliene, Sincos, tia Vilaneide, Assis, tio Dagmar, Avani, Andréa, Ana Carla, Vinícius, Larissa, Pollyana. Obrigado, Agda, por me apresentar ao ritmo da lambada e pelas memoráveis tardes de rebolado lá em vovó. Valeu mesmo! Obrigado Kaoma! Obrigado Claudivânia imensamente pela cumplicidade de uma irmã. Obrigado Globo pelo Xou da Xuxa! Arigatô Japão, pelos Flashman, Chageman, Jaspion e Cavaleiros do Zodíado. Obrigado, Ranyere, pelos incríveis anos de aventura. Obrigado King por todos os companheiros latidos.

Agradeço verdadeiramente a Cassiano Gabus Mendes por Que Rei Sou Eu?, a Whalter Negrão por Top Model, Benedito Ruy Barbosa por Pantanal, Renascer e O Rei do Gado, Ivani Ribeiro por A Viagem e Mulheres de Areia. Obrigado Glória Perez por O Clone e por seu exemplo de força de mãe. Obrigado doce Daniella Perez. Manoel Carlos, Por Amor e Mulheres Apaixonadas. Silvio de Abreu, A Próxima Vítima e Torre de Babel. Walcyr Carrasco por Xica da Silva. Obrigado Warner Bros por Smallville. Obrigado anos 60, 70, 80, 90, 2000. Obrigado movimento hippie! Obrigado grandes deuses do rock mundial, John Lennon, George Harrison, Paul McCartney e Ringo Starr, eternos Beatles. Obrigado Sandy e Junior, por embalar uma juventude de sonhos, alegrias e muita diversão. Obrigado Mamonas Assassinas por tentar buscar um mundo mais irreverente.

Ah, ainda tenho que agradecer a Natal, essa cidade encantadora por tudo que me proporcionou, pelas suas praias azuis que em algumas horas foram meu bálsamo nas dúvidas e incertezas da vida. Obrigado bairro de Lagoa Seca! Rua São João! Obrigado Cristina por sua fiel amizade e apoio em todas as horas. Obrigado Dona Severina por seus deliciosos cachorros-quentes. Obrigado Neide pelo português da vida e por confiar em mim e me encorajar na minha caminhada. Miss Lene e Sarah, muito obrigado pelos verdadeiros sorrisos de amizade. E Miss Lene, obrigado por me introduzir ao espiritismo. Ah, obrigado a Allan Kardec por conseguir espalhar pelo mundo os princípios de uma doutrina tão rica e concreta.

Como não poderia deixar de ser, obrigado apaixonante Campina Grande. Muito, mas muito obrigado mesmo por me oferecer o encontro com o quarteto mágico, Isabeli, Ana Célia, Kárem e Lea. Aprendi com vocês que o amor amigo existe. Obrigado Miss Coutinho por existir em minha vida. Obrigado também, Izabel, Vanessa, Silmara, Clara. Obrigado Sebrae! Obrigado Professor Custódio pelas experiências nas difusoras do Centenário, Liberdade e Conceição e a todos aqueles professores que deixaram um pouco de si.

E agora aquele agradecimento especial ao palco mais cheio de vida e de significado na minha história: obrigado teatro por existir! Obrigado Chico, Regina, Chalena, Guto, Emilia, Elio, Álvaro, Renato, Haendel por contribuírem seus vastos conhecimentos comigo. Valeu Yamamoto! E aqueles que se uniram a mim pelo palco, mas o coração agarrou pra si. Obrigado Luciene, Julio, Sami Izu, Ellen, Adriano, Maísa, Mônica, Tibério, Tupi, Mirian e Edinaldo. Rangers, estamos ligados pelo cordão da vida e esses laços não se perderão nem nessa e nem nas próximas existências. E pra finalizar, obrigado terra, ar, fogo, vida, pelos 24 anos de existência e história.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

O Embrulho e o Presente

Mais um dia das mães se aproxima. As lojas começam a explorar os presentes para as mamães com promoções e ofertas “imperdíveis”, naquela que já é a segunda maior data de aquecimento do mercado, perdendo apenas para o Natal. Mas será que as lojas sabem mesmo o melhor presente para cada mãe em particular? E será que esses presentes são mesmo o que toda mãe desejaria ganhar nesse dia? Mãe é um ser complicado. Sofre dores terríveis para nos pôr no mundo. Depois nos enche de carinho e proteção ao longo da vida. Sofre, rir, chora e se desespera conosco e com os nossos problemas. Nos surpreendem quando achamos que já sabemos tudo delas. Somos sempre os seus bebês. Os mais bonitos do mundo. Nos machucam para ensinar o caminho do bem e se mutilam quando alguém nos faz o mal. Tem como encontrar nas lojas algo que nem a essência humana ainda conseguiu desvendar?

Era junho de 1994, Copa do Mundo dos Estados Unidos. O Brasil fervia na busca pelo tetracampeonato. Fitas verdes e amarelas enfeitavam as ruas sempre a cada jogo. Era época das famosas luvinhas da vitória, que cobriam apenas os dedos indicador e médio com as cores do Brasil. Eu estava na casa dos meus exatos 9 anos de idade. Costumava usar uma camisa verde e amarela nesses dias e outra branca com estrelas azuis e vermelhas e com o cachorrinho mascote da Copa. Nem chegava a acompanhar com precisão os jogos. A minha animação era ver a gritaria na rua, as comemorações nos bares e restaurantes a cada gol e as passeatas recheadas de bandeiras ao término de mais uma etapa.

Naquela época, comecei a sair de casa com os amigos seguindo os conselhos da minha mãe. Os amigos que me acompanhavam, Adriano e Eusélio, eram meus vizinhos. Geralmente saíamos à tardinha, depois de tomar banho e nos perfumar todo. Até parecia que íamos nos encontrar com várias garotas. Nós percorríamos vários pontos da cidade. Andávamos por estradas de terra, ruas que não tínhamos o costume de passar com freqüência, casas de farinha abandonadas e tudo era sempre uma descoberta. Chegamos a penetrar em eventos de escolas, festas de aniversário de algum amigo de Adriano sem sermos convidado. Um dia quando percebi estávamos explorando a vegetação dos muros do hospital.

Nossa aventura tinha um destino novo da cidade a cada dia e sempre terminava na casa da minha avó por volta das 6h da tarde. Já havia se tornado um ritual. Todo dia naquelas horas já estávamos prontos para caminhar. Contudo, naquele momento de Copa, o clima estava pesado na cidade. O fluxo de carro havia se intensificado e as comemorações eram imprevisíveis e até agressivas. A pedido da minha mãe, nossos passeios foram encurtados em meia-hora nesse período, horário em que os jogos eram transmitidos. Porém, certa vez, algo fugiu ao nosso controle.

Saímos de casa como de costume. Percorremos os lugares que havíamos escolhidos para aquele dia, na certeza que teríamos que retornar cedo. No entanto, o passeio foi se esticando e fomos descobrindo novos lugares, querendo ir sempre mais a fundo. Já era noite quando atravessamos a rua de trás da casa da minha avó. Não queríamos terminar o passeio daquele dia ali. A cidade estava em festa com mais uma vitória do Brasil. Assim, seguimos na direção da igreja matriz. Nossa intenção era percorrer outros caminhos, mas paramos lá e resolvemos explorar as escadarias. Subíamos um degrau e saltávamos para a rua. Depois dois degraus, três, quatro, até nos aproximar do último e saltar já a uma altura considerável. Essa brincadeira durou algum tempo e quando percebemos, já havíamos extrapolado o limite de voltar para casa. Deixamos a igreja e pegamos o rumo de casa.

Ainda na praça da igreja nos encontramos com uma amiga da minha mãe que nos informou que ela estava desesperada atrás de mim. Aceleramos os passos e quando chegamos na esquina de um beco da rua da minha avó, avistamos uma grande multidão reunida ao fim. Adriano me perguntou sobre o que teria acontecido e eu em tom de brincadeira respondi: -“é minha mãe atrás de mim”. Surpresa foi a minha quando chegamos ao fim do beco e vi minha mãe falando desesperada, porém um pouco aliviada, no meio de toda aquela gente que olhava pra mim como se eu acabasse de ser resgatado de um prédio em chamas.

Realmente tinha sido minha mãe a responsável por todo aquele fuzuê na rua. Eu só a ouvia me perguntar onde eu tinha me enfiado, enquanto olhava assustado. Ela já tinha rodado várias ruas, batido na porta de várias pessoas, procurado a polícia e solicitado carro para sair atrás de mim seja onde fosse. E para aumentar o terrorismo, alguém dizia ter visto crianças que tinham sido atropeladas por perto. O desespero era evidente em seu rosto. Mas ao invés de uma surra, um abraço e um beijo acalmaram a situação.

Depois desse dia, meus passeios foram perdendo a força e acabaram alguns meses depois. Entretanto, descobri que nada pode ser maior para uma mãe do que se sentir impotente quando acredita que o filho está em perigo. Percebi que o melhor presente de uma mãe no dia das mães é ter a certeza que seu filho está bem, se alimentou direito, dormiu tranqüilo e continua respirando. Sua maior satisfação nesse dia é saber que por ser mãe, pode comemorá-lo. Então, o presente não é o que chega embrulhado no papel com várias fitas coloridas e um cartão em volta, mas as mãos que entregam e os braços que envolvem, mesmo que algum dia a tenham feito arrancar os cabelos e passar o maior vexame na rua. Afinal, o que é vexame a quem tenta proteger um ser com toda sua força, como se ainda o gerasse no mais íntimo do seu útero?

domingo, 16 de dezembro de 2007

Nada É Por Acaso

Algumas pessoas desejam veemente esquecer e até apagar o passado, se fosse possível, com vergonha de algumas peripécias cometidas quando não se sabia ao certo o significado da palavra "noção". Mas por que fugir e negar o nosso passado que já nos trouxe tantas alegrias em outros invernos? Era uma tarde de fim de ano na escola onde estudava na cidade de São Miguel. Eu fazia a primeira série e me destacava entre os alunos mais calmos, tímidos e comportados da escola, daqueles de grandes elogios até para a diretora. E ali naquela tarde eu estaria a ponto de descobrir a fonte que alimentaria toda uma adolescência de sonhos e fantasias. A diretora estava organizando uma festa de fim de ano na escola e levando alunos para participar recitando, dançando e dublando. E no salão dois alunos meio tímidos imitavam uma dupla recém-descoberta. A diretora se esforçava para mostrar a menina como a cantora fazia. A música era "A Resposta da Maraquinha" e a dupla era Sandy & Junior.

A princípio a música me pareceu alheia. Já tinha escutado o sucesso anterior deles "Maria Chiquinha", mas como diz o ditado, "não tinha ligado o nome aos bois". E aos poucos como quase que um feitiço fui me interessando pela música e pela dupla. Em casa sempre enfatizava os alunos que estariam dublando na festa da escola. Meus amigos debochavam a dublagem e eu seguia a onda, mesmo sentindo uma certa afinidade e até um pouco de inveja. O garoto que dublava tinha o cabelo estilo Chitãozinho & Xororó, do tipo que sempre desejei ter. Me imaginei no lugar dele imitando Junior e assim fui me identificando com a música, com o estilo e com a dupla cada vez mais.

E não foi preciso pedir ou desejar me aproximar daquela dupla, uma força oculta os direcionavam a mim. Acreditando na idéia de que criança canta para criança e que cada uma deve ouvir músicas infantis, minha tia Auxiliadora resolveu gravar em uma fita várias músicas de Sandy & Junior dos dois lps e me deu de presente. Pronto! Agora o destino estava traçado. Com aquelas músicas nas mãos e nos ouvidos a dupla estaria mais perto de mim do que imaginei. Aqueles garotinhos que cantavam "A horta", "Lambamania" e "Pó pra tapar taio" agora acabavam de ganhar mais um fã pelo país afora.
Quem deu os próximos passos para firmar essa ligação foi minha mãe. Numa tarde de domingo enquanto brincava com meus amigos na área de casa, ouvi "Splish Splash", a nova música de Sandy & Junior no Domingão do Faustão. Como minha tia já havia me abastecido com outra fita dos novos sucessos, reconheci a música e corri para a televisão. Meus olhos se enchiam de um encanto que eu não sabia de onde vinha. Minha mãe envolvida e animada com a desenvoltura daquelas crianças e vendo minha concentração, lançou um desafio: "você tinha coragem de dublar eles numa festinha?". Eu olhei para ela, sorri e concordei com um sorriso acanhado e desafiador. Era o que bastava para me animar e me lançar ainda mais nesse mundo do show business, mesmo que só para a minha cidade.

Os shows

E pouco mais de um mês depois a área da minha casa se transformava no palco da primeira festa ou showzinho de dublagem da nossa rua. Vários vizinhos compareceram àquela inovadora apresentação. E entre as atrações Chitãozinho & Xororó (eu como Xororó), Leandro & Leonardo (eu como Leonardo), Trem da Alegria, uma peça onde eu era um dos protagonistas e claro Sandy & Junior cantando ou melhor dublando "Splish Splash". Foi o grande momento. A iniciativa foi um sucesso e ao término já se cogitava a data da próxima, agora bem mais estruturada e com figurino confeccionado. A diretora da escola foi chamada nessa segunda festinha. Mas teria sido melhor se não tivesse ido. O menino que ficou no som cortou o fim da música de Chitãozinho & Xororó e eu simplesmente dei um grito com ele lá do palco e saí "vexadinho" para reclamar nos bastidores. Bom, esse fato pode ficar esquecido, assim como a cara da diretora.

Os anos foram passando, eu fui crescendo e comigo Sandy & Junior e seus novos sucessos. Agora meu cabelo já era como o de Junior. E depois de quatro festinhas em casa fui chamado para me apresentar em uma escola. Lá, numa noite fria e com o auditório lotado fui Xororó e Junior. Mais uma vez mostrei meu semi-profissionalismo e ingenuidade infantil. Adriano, quem fazia Chitãozinho comigo, espantado com a multidão, acabou dublando até a minha parte da música e eu mais que depressa tentei baixar a mão dele, mostrando a todos que tínhamos errado. É, ainda bem que dessa vez a diretora da minha escola não estava presente.

O sucesso micaelense

Bom, depois dessa fase digamos que o 'sucesso' começou a surgir. Fui chamado a outras apresentações. A primeira foi em uma mini tentativa de produzir uma festinha como as nossas na garagem da casa de uma menina. Depois eu e Katiane, a Sandy by São Miguel, fomos chamados para o aniversário de uma outra escola, a mais respeitada da cidade. Agora era a época do grande hit "Com Você". Um mês depois lá estávamos nós de novo na mesma escola para o dia das mães. Foi uma festa bem organizada, cheia de brindes e com a participação de várias mães da cidade. Enquanto esperávamos a hora, nós corríamos pela escola e algumas pessoas diziam "esses são os que imitam Sandy e Junior". Nessa hora eu me sentia o próprio Junior. No palco "Criança Esperança" e "Com Você" fizeram a alegria das crianças, dos jovens e das senhoras.

Nas ruas as pessoas já me chamavam de Junior e perguntavam pela Sandy. Não preciso nem dizer que eu ficava todo fofo. Mais três festas ocorreram lá em casa e Sandy e Junior ficavam cada vez mais marcados em mim. Por fim passei a dublar apenas eles. Sandy e Junior passaram a ser referência a meu respeito, tudo o que era novidade vinham me avisar, me perguntavam se já havia comprado o novo cd e se já havia aprendido os novos passos. Mas como tudo tem um fim decidi que era hora de parar com as dublagens. Minha última apresentação foi aos catorze anos em outra escola da cidade. Os sucessos, "Beijo é bom" e "Em cada sonho", a do Titanic. Depois de oito anos dublando, gravando vídeos e decorando passos chegava ao fim minha "carreira" micaelense.

  • Os passos hoje
Os anos se passaram. O cabelo foi cortado e voltou a crescer de novo. Mas não abandonei os garotos que trouxeram tanta alegria à minha infância. Passei a ser um assíduo telespectador do seriado Sandy e Junior com vinte fitas de vídeo gravadas. Além de apresentações no Faustão, Xuxa, Vídeo Show, Criança Esperança, shows e tudo mais onde eles estivessem presentes lá estava eu também, de longe, registrando tudo. E onde eu pisasse todos ficavam conhecendo Samuel e Sandy e Junior. Era um trio. O pessoal do ensino médio em Pau dos Ferros, do cursinho em Natal. Enfim, aquela dupla que conheci num fim de tarde na escola lá pelos sete anos de idade, agora era o registro da minha história de vida adolescente. Até que o fanatismo foi abrindo espaço para outras ideais e aquele apego foi se tornando apenas saudade do passado. O único show deles que fui em dezembro de 2001 em Natal não foi exatamente o que esperava. Não tive a plena visão deles como desejava e voltei para casa frustrado.

Hoje assisti a última apresentação ao vivo deles juntos em um programa de tv e apesar de já não sentir o mesmo que sentia quando escutava "Power Rangers" ou "Inesquecível", todas as lembranças de uma época retornam com grande saudade. As músicas que fizeram não só a minha infância como também minha juventude, que embalaram paixões e segredos. Voltar ao meu passado e não falar de Sandy e Junior é como voltar ao Novo Testamento e não falar de Jesus. Por isso, embora afirme que meu envolvimento com a dupla hoje é apenas passado, eu não tenho a menor vergonha de admitir que já fui fã, já dublei e que os registros se encontram ainda espalhados em vários cantos da minha casa, basta conferir a coleção de cds, os posters no armário e as inúmeras revistas. Parece que a separação deles significa a ruptura completa do meu passado com o meu presente. A carreira de cada um agora é um outro caminho, do qual não sei se irei acompanhar. E mesmo que não me imagine seguindo o mesmo caminho hoje, se eu pudesse voltar no tempo e viver minha infância novamente, não me pergunte duas vezes, eu faria tudo de novo.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Um Mergulho no Amanhã

Outro dia enquanto aguardava minha vez de ser atendido em um consultório de oftalmologia, entraram duas crianças com seus pais e fiquei observando os quatro. Eram dois meninos, tinham 4 e 6 anos mais ou menos. Ao contrário de muitas crianças que por essa idade costumam ficar inquietas em consultórios, eles pareciam calmos e tranqüilos. A mãe era quem estava mais inquieta porque a autenticação do filho mais novo para a consulta não estava sendo confirmada. O pai pouco menos se importava com isso. E eles permaneciam ali, olhando quietos o ambiente, a tv, com poucas e vagas conversas. O fato me chamou a atenção por me fazer mergulhar na imaginação e me ver em alguns anos casado, com meus filhos e pensando se eu e Ingridy seríamos parecidos com a realidade daquele casal.

O meu desejo de ser pai sempre foi mais alto do que mesmo o casamento. Minha namorada e eu sempre brincamos sobre esse futuro que pode chegar, idealizamos os nomes dos nossos futuros filhos e até chegamos a querer ditar seus comportamentos, como se fosse possível. Mas, pelo menos sonhar e tentar enxergar como nosso futuro de casados será é razoavelmente possível. E isso me instigou com a presença daquele casal no consultório. Imaginei se eu seria descansado com relação a determinados tipos de assuntos familiares que as mulheres geralmente são mais dedicadas. Achei estranho a presença dos dois no consultório com os filhos, quando a quantidade de mães que levam os filhos ao médico é superior aos pais no Brasil. Mas logo percebi que o pai também ia se consultar.

Fiquei observando o comportamento tanto dos meninos quanto dos pais. Em alguns momentos realmente me vi abraçando e brincando com um dos meninos. Vi também Ingridy reclamando com a recepcionista sobre a autenticação e querendo ir reclamar na sede do convênio logo após sair dali. Parecia mesmo que o futuro tinha aberto uma lacuna e estava se desvendando diante de mim. E claro, dois meninos como sempre imaginei. Faltava só a menina. E Ingridy faria de tudo para tê-la. Tudo bem. Eu também depois de algum tempo venho desejando muito uma garotinha. E minha análise continuava. Buscava entender o comportamento deles e comparar com algum traço tanto meu como de Ingridy.

De repente o mais velho pergunta ao pai a hora. Talvez para testar o filho ou para mostrar que ele já conhece as horas, o pai o mostrou o relógio do consultório e mandou ele mesmo olhar a hora. Para surpresa geral, o garoto se confundiu e não soube dizer a hora, porém o mais novo se virou no mesmo momento para o relógio e informou exatamente a hora. Aí já me carregou para uma outra visão. Me senti o garotinho que perdia do mais novo algo tão simples. E por que isso? Sou filho único por parte de mãe e o excesso de amor e cuidado talvez tenha me travado em algum momento da vida aliado a uma imensa timidez. Mas aí também analiso. Os filhos mais novos geralmente são mais espertos e conseguem desenrolar mais rápido do que os mais velhos. Talvez por aprenderem valores morais ao mesmo tempo em que o mais velho aprende, e por não serem tão superprotegidos e detentores de todas as atenções.

Quando a mulher engravida é motivo de festa para toda a família. O primeiro filho, o início de uma outra etapa na vida de muita gente. É a mulher que vira mãe, a mãe que vira avó. É realmente uma fase de muitas mudanças e alegrias. E quando a criança nasce então, todas as atenções são voltadas para ela. É um “nenhenhem" pra cá e pra lá o tempo todo. A criança se torna a mais bonita, a única notícia da família para os amigos e as únicas fotos que enchem os álbuns e enchem também a paciência dos vizinhos. E até a chegada de outro, a criança carrega essas regalias, que podem ou não ser benéficas para ela. Daí quando chega o segundo, o terceiro, a empolgação acaba, perde a graça e a criança cresce querendo buscar dos familiares essas atenções que não tiveram. Talvez por isso se dediquem em aprender mais rápido e mostrem que são até capazes de superar o irmão, naquelas famosas rivalidades entre irmãos.

E assim trouxe minha imaginação de volta à minha realidade no consultório. Percebi que embora parecidos ou supostamente idealizados como meu futuro, aquele casal não era a minha realidade, ao menos por enquanto. E mesmo que um dia chegue em algum consultório com minha mulher e meus filhos, talvez não seja nada parecido com o que imaginei. Quem sabe ao invés de quietos, as crianças sejam impulsivas e barulhentas? Ou eu seja o preocupado e Ingridy a relaxada. Quem sabe as crianças sejam cobertas de mimos de um pai tão babão e minha mulher tente controlar esses vícios sem sucesso? Quem sabe? Quem sabe? É, o futuro é escuro. Não posso fantasiá-lo e idealizar algo que pode nunca acontecer. Só espero ser feliz e conseguir constituir uma família alegre, saudável e cheia de disposição e poder acompanhar cada passo dessa etapa da vida que tanto arquiteto. Afinal, quem decide se na história da educação e participação do crescimento dos filhos o pai será o mais ausente somos nós, e se depender de mim Ingridy terá um forte concorrente.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Aqueles Momentos

Um ano! Há exato um ano ia embora do nosso convívio uma guerreira. Chegava ao fim uma história de amor e dor, deixando saudade nos corações de quem ficava. Há exato um ano nós perdíamos Lúcia, minha tia que sempre esteve em meu coração e que algumas vezes até não percebi. Eu não poderia deixar de escrever algumas linhas para prestar minha homenagem nesse novo espaço que criei. Porém, ao contrário do que fiz ano passado quando produzi uma mensagem na missa de mês falando sobre a dor que sentíamos com sua perda, agora quero fazer diferente, quero exultar sua vida, tentar relembrar seus momentos bons e felizes e buscar passar isso aos leitores.

Tia, quero te dizer que hoje não é um dia de tristeza, pois sei que está sorrindo como sempre fez. E seu sorriso... ah, seu sorriso! Enchia de alegria quem estava em volta. E alguém sabe como esse sorriso cativante surgiu? Ah, deixe eu me lembrar. Eu não era nascido, mas eu conheço a história de uma jovem sonhadora que se apaixonou perdidamente por um rapaz da sua cidade. É, eles viveram uma longa história de amor, muitos anos de namoro, cartas, promessas. Mesmo tendo que trabalhar em São Paulo, ele não deixava de garantir seu retorno e alimentar a promessa do casamento.

Tá reconhecendo a história, tia? Acho que sim. Então deve lembrar o que aconteceu depois. É, pois é, o jovem retornou à cidade como prometido após alguns anos e cumpriu com sua palavra. Ele casou com a jovem. Foi o dia mais feliz da vida dela. Ah, depois eles foram morar em São Paulo. E lá viveram o ano mais feliz de suas vidas. Os detalhes eu não posso contar porque não estava lá, mas sei que lembra de todos. Das músicas, dos passeios à cidade de Aparecida, das pizzas e dos famosos sucos de laranja. Quanta história em um ano, não? E depois vem o inesperado, a gravidez, um filho.

A história que se segue daí poderia ter tomado vários rumos, mas o destino, Deus, o acaso, o direcionou para seu desenlace. A perca do filho, sua doença, não devem ser encarados como um problema e o fim de uma história. Nós estamos nesse mundo com uma missão e muitas vezes para cumpri-la, temos que nos submeter a determinadas situações, provas que talvez tenhamos solicitado antes mesmo de chegar. E se uma parte da sua tarefa foi contribuir para a inspiração de um pequeno escritor pode ter certeza que já foi cumprida. É, ele bebe sem cessar da fonte de vida de uma guerreira. A dona daquele sorriso, daquela gargalhada. Ah, até posso senti-la sorrindo.

E dos momentos seguintes que pude presenciar da história dessa jovem, me lembro de muitos. Lembra quando eu chegava das novenas do padroeiro e te encontrava na porta de casa olhando quem passava? Pois é, você sempre me informava se vovó já havia chegado. E da bateria? Lembro de te ver tapar os ouvidos e abrir aquele sorriso. E quando eu me machucava com algo sempre ouvia de você “Ô, Samuelzinho, cuidado!” Agora lembrou! É, esses momentos são apenas trechos de um longo convívio que não se perde entre os espaços do tempo. Saudade? Ela estará sempre presente, mas se ainda derramar alguma lágrima será de alegria por reviver esses momentos e infelizmente só poder tê-los na mente.

Acredito que consegui cumprir minha missão de hoje. Já que não pode olhar aqui comigo o meu celeiro e sorrir ao meu lado, quero que receba toda a minha emoção e energia que te dedico hoje. A história da jovem seguirá comigo enquanto vida me houver para poder um dia quem sabe revelá-la ao mundo. Sim, porque se nossa vida é uma novela, a sua já ganhou o Troféu Imprensa. Agora sou eu quem abro aquele sorriso e me despeço aqui na certeza que sempre estará por perto, seja na inocência e na ingenuidade dos últimos anos, seja na alegria e exuberância da juventude. Porque hoje eu só queria te abraçar... e abraçar... e abraçar...

Samuelzinho

Minha mãe, minha avó e meus tios (Lúcia, Vilaneide, Auxiliadora e Dagmar)

sábado, 3 de novembro de 2007

O Círculo da Vida

Crescer, casar, ter filhos e constituir uma família. Parece ser o sonho de muita gente, principalmente de muitas garotas. Mas se administrar a nossa própria vida já é uma tarefa complicada, imagine então organizar uma vida a dois. Lembro de imaginar quando criança que casamento era coisa de gente adulta e que demoraria muito pra chegar. Mas a primeira lição para mergulhar nesse estágio, eu descobri semana passada no casamento da irmã da minha namorada. Quando a marcha nupcial soou na entrada da igreja e Edivânia entrou vestida de noiva, a idéia de matrimônio finalmente se concretizou na minha cabeça.

Parece estranho. A garota que eu conheci assistindo novela mexicana e tricotando no sofá com um sorriso ingênuo de menina, agora estava abrindo as portas para um novo mundo. Deixando de lado as brigas infantis e as mordomias da mamãe para viver sua própria vida. Aquele namoro que pude acompanhar ao longo de três anos tornava-se uma relação eterna, ao menos foi o que prometeram diante do padre.

E no cartório um dia antes, estavam eles, ansiosos e felizes pelo futuro que se desdobrava. Eu, junto de Ingridy, minha namorada, fomos as testemunhas desse momento, ao lado de Clécio e Elisângela. Pausa para algumas fotos. Fui o fotógrafo quase oficial. E logo mais sorrisos e registros de momentos únicos. Sem muitos discursos, estavam 50% casados. Agora, a oficialização na igreja esperava para esse grande futuro.

E eis que entrava Edivânia na igreja. Seu noivo Lucenildo, com um leve sorriso e uma firmeza no olhar, escondia a ansiedade e o nervosismo. O sorriso da noiva exultava sua satisfação e demonstrava seu estado interior. Eu, como fotógrafo quase oficial fazia a minha parte e não perdia nenhum momento... opa, exceto pela entrega da aliança do noivo, quando o filme da máquina acabou.

Ao lado de três outros noivos, o casamento seguiu seus requisitos e o grande momento ficava cada vez mais próximo. Finalmente ocorreu a troca das alianças e o casal estava unido assim pelos laços do amor. Ué, mas cadê o beijo? Isso deve ser só em novela mesmo. Bom, assim eles partiram para assinar as papeladas da igreja. E logo em seguida os momentos dos flashes. Agora não era eu. O fotógrafo oficial os guiou numa sessão de fotos em seu estúdio.

Ah, naturalmente seguimos agora para a festa e onde tem festa tem comida. Mas fotógrafo só come depois de trabalhar. Tudo bem, eu espero. A festa foi no sítio Bonito, onde o casal iria residir a partir dali. A mãe da noiva que não pode ir à igreja a esperava na porta. O encontro das duas foi emocionante. Embora, algumas mães desejem ver suas filhas casadas e vivendo suas vidas, a separação sempre é cheia de grandes recordações e muita emoção. Flash! Aí fui eu!

E depois de fotos, comida, churrasco, bebidas, presentes, o dia chegava ao fim. O primeiro dia de uma nova história. O terreiro e a calçada pareciam já sentir a presença dos novos moradores. Agora era hora de criar suas próprias responsabilidades e experimentar o lado adulto da vida. Realmente parece que o casamento sela a divisão entre a juventude e o mundo adulto. É preciso estar bastante certo para saber enfrentar todos os desafios que nos esperam a partir dali. Afinal, novas criaturas estarão por vir e com elas a renovação dos laços que juramos naquele dia que parecia ser o mais importante da vida até a chegada deles. E assim continua o círculo da vida, numa eterna volta que fará da noiva de hoje, a mãe que se despede da filha amanhã.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Um Dia Especial

Há datas que significam muito para a gente por conter algum significado importante, como o nosso aniversário, o natal, o reveillon. Mas existem outras ocasiões que nos tocam sem nenhum motivo aparente. E assim se deu a minha identificação pelo dia de finados. Lembro fortemente das vezes que fui ao cemitério visitar familiares que nunca cheguei a conhecer, e sempre me animava por poder estar lá.

Não sei explicar o fascínio que encontrava em acender velas e caminhar pelo cemitério olhando os outros túmulos. Lembro de estar me curando de uma catapora aos nove anos e querer ainda assim ir ao cemitério, só não fui porque minha mãe não deixou. Talvez as experiências raras de ir a um cemitério pudessem explicar um pouco. Alguns tios meus geralmente iam a minha cidade prestar seus sentimentos e com eles minhas primas. Juntos saíamos pelas alamedas tentando encontrar os mais bonitos túmulos e as mais enigmáticas covas. Na inocência que escondia mais uma aventura do que sentimentos de saudade e lembranças.

O Dia de Finados sempre foi uma rotina lá em casa. Os preparativos da limpeza e pintura dos túmulos começavam uma semana antes. As coroas eram organizadas e levadas ao cemitério na manhã do mesmo dia. Eu sempre queria ser o responsável por pregá-las em cima dos túmulos, mas minha mãe não deixava, e algumas vezes, quando acordava cedo e conseguia ir com minha avó, ficava só olhando o menino que fixava as coroas. Era realmente um dia especial.

À tarde, umas 4 horas, todos nos arrumávamos e íamos ao cemitério novo, como é conhecido até hoje. Lá, a visita era à mãe da minha avó. Acendíamos velas e depois minha mãe, minha avó e meus tios rezavam enquanto eu ia “passear”. Pra mim, podia não ser o cemitério mais bonito que já havia entrado, mas escondia seus mistérios, e minha visita lá só acontecia uma vez ao ano.

À noite era a vez de irmos ao cemitério velho. Lá, havia mais familiares, inclusive Cicinho, meu tio que havia morrido ainda criança em um acidente e que mexe até hoje com os sentimentos da minha mãe. E o ritual continuava. Velas acesas e orações. Meu olhar se encontrava com outros enigmas. Tentava entender esse mistério da morte. Fixava meu olhar para toda aquela estrutura e para as gavetas onde se encontravam os corpos e não conseguia entender a inexplicável viagem que poderia ter levado embora aquelas pessoas. Porém, como criança que era, esquecia um pouco esses pensamentos e saia desbravando os outros túmulos.

Hoje, passados alguns anos das minhas peripécias infantis, o dia de finados ganhou um outro significado pra mim. Os passeios às alamedas tornaram-se um encontro com a saudade. As velas acesas refletem uma lembrança de momentos felizes. E encontro nos túmulos não mais apenas parentes desconhecidos, mas meu avô, meu pai e minha tia Lúcia. As orações que antes apenas ouvia minha família rezar, hoje as elaboro sozinho, movido por um sentimento de eterna saudade e memórias que nem o tempo será capaz de apagar.

Contudo, apesar das mudanças, uma incógnita persiste até hoje. Qual o destino daqueles que partem e nunca mais retornam? Será que eles entendem também o significado desse dia? Onde estão realmente? Conseguem receber as energias que as pessoas direcionam à elas nesse dia ou tudo é apenas uma simbologia e o resultado da saudade e da angústia dos que ficam aqui? Essas perguntas nem o tempo poderá me responder. Porém, a certeza da importância do dia de finados ficou mais acesa em mim hoje. O que poderia ser um interesse sem muitas explicações pode ter ficado sem resposta no passado, mas a necessidade e o desejo de estar no cemitério nesse dia permanecem. Embora com idéias e pensamentos diferentes, o Dia de Finados será sempre um dia especial em minha vida.