quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Um 2015 mais molhado!

Último dia do ano. Contagem regressiva para 2015 e hora de contabilizar os ganhos e perdas do ano que termina. Dentro de poucas horas um novo ciclo tem início e 365 novos desafios nos aguardam nessas próximas páginas que escreveremos. 2014 - assim como imaginei na virada de 2013 -, foi um ano de ganhos para mim. Desde seu início obtive grandes bênçãos. Saí de uma fase de recessão e voltei a caminhar com minhas próprias pernas. Aprendi a conduzir o banco do motorista e conquistei minha habilitação. Mudei de cidade. Conheci pessoas novas e fiz novas amizades. Passei a ganhar finalmente o meu dinheiro. Vi minha prima de longas datas dar um passo a mais em sua vida e senti a emoção de ver aquela garotinha que dançava lambada comigo 20 anos atrás subir ao altar e dizer "sim" para um novo futuro. 

Na família continuamos unidos, com saúde, felizes e cheios de esperança. Esperança em um amanhã cada vez melhor, com mais harmonia, solidariedade e principalmente amor em todos os corações. Mas além disso tudo, que 2015 nos traga algo que faltou em 2014: água. Que a fonte da vida retorne aos córregos, rios, riachos, açudes, barragens, que possamos ter um 2015 molhado de chuva e água em abundância. É triste terminar 2014 e perceber que uma crise geral de falta d'água tomou conta do país. Triste saber que o açude, que mais me parecia um oceano e muito me banhei na infância, hoje é um lago de terra seca e capim. Que a atmosfera nos presenteie e os céus nos abençoem com muitas perspectivas de chuva em 2015 e que saibamos cuidar e preservar esse bem tão essencial a toda humanidade.

Que a água venha e volte a brotar nas nascentes, a encher os rios, a escorrer pelas bicas, a molhar o pasto, a saciar o gado, a fortificar as lavouras, a irrigar as plantações, a desabrochar as flores, a germinar a terra, a renovar a vida. Que venha 2015, e que ele nos livre desse mundo vazio e estéril que começa de fato a nos ameaçar. Um 2015 mais molhado a todos nós! Merecemos.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Pra reinar de novo

O Rei do Gado está de volta. Em sua segunda exibição no Vale a Pena Ver de Novo e quarta transmissão no país, contando a original em 1996 e a do Canal Viva em 2011. Como comemoração aos 50 anos da Rede Globo, eu não vejo melhor opção a ser eleita para tal ocasião. Um dos maiores êxitos da nossa teledramaturgia, recordista de audiência à época, O Rei do Gado continua a ser sinônimo de sucesso. Ela representa uma era ouro das nossas produções dramatúrgicas, não se encontrando lá nos primórdios da emissora, nas saudosas obras da era Janete Clair, nem nas atuais fases de vacas magras das recentes produções. Ela marca uma fase de grande amadurecimento das nossas telenovelas, com textos mais densos, histórias envolventes e surpreendentes, quando autores ousavam e abusavam da criatividade.

Dos trabalhos de Benedito Ruy Barbosa - dos quais tenho conhecimento -, considero a saga das famílias Berdinazi e Mezenga a obra-prima da sua carreira. Apaixonado pelo universo rural e construtor de personagens fortes, de personalidade marcante, Benedito conseguiu através da rixa das duas famílias e do romance proibido de Giovana e Henrico - que atravessou geração e renasceu em Bruno e Luana -, fascinar o país e falar da terra, a grande protagonista de toda a novela. Foi pela disputa por um pedaço de chão entre as terras de Antônio Mezenga e Giuseppe Berdinazi que surgiu todo o ódio entre as duas famílias. Foi a terra que produziu os quatro milhões de pés de café e enricou o velho Geremias. A mesma terra que Bruno Mezenga precisava de pastagem para seu gado, e que Regino tanto sonhava dividida entre seu povo do Movimento dos Sem Terra, sem nenhum pedaço de chão .

Ao abordar a luta do MST de maneira pacífica, humanizada, Benedito conseguiu fazer o país enxergar a questão com uma maior identificação. Jogou escancaradamente na cara do povo a cruel desigualdade social em que o país se encontrava, e que hoje, 18 anos depois, ainda não está muito distante da nossa realidade. A figura de um senador íntegro e incorruptível, que abraçou a causa da reforma agrária como sua, mais parecia uma piada, embora simbolizasse a esperança em políticos que ainda se importam com o futuro da nação e o querem ver limpo de toda essa bandidagem 'legal'.

Personagens bem construídos e bem interpretados, em histórias críveis, tocantes e bem desenvolvidas, transformaram O Rei do Gado nesse grande clássico da nossa teledramaturgia desde a primeira tomada, quando fomos abrilhantados com os sete capítulos iniciais impecáveis de sua primeira fase, na década de 40. Um primor de qualidade e superprodução, que chegou a durar dois meses para ficar pronta, tamanho era o capricho da equipe envolvida. Cenas memoráveis acompanharam toda a trama e fizeram o telespectador entrar realmente na emoção que era proposta. Simbologias, metáforas e muita poesia embalaram os capítulos com câmeras que adentravam os ambientes e as sensações dos personagens, como um amigo confidente que sorri e sofre junto.

Impossível não destacar a interpretação de Tarcísio Meira na figura do inflexível Berdinazi. Sua cena no cafezal plantando a medalha do filho morto na guerra, na esperança de vê-lo renascer é de uma verdade cênica e poesia incomparáveis na teledramaturgia nacional. Raul Cortez também soube conduzir precisamente seu velho rancoroso e solitário Geremias, corroído pelo remorso dos erros do seu passado. A dúbia Rafaela, de Glória Pires, chegava a despertar diferentes reações nos telespectadores, que ora a sentiam como vilã, ora se apiedavam dela, nada mais humano. Letícia Spiller, que acabara de sair de sua espevitada Babalu, de Quatro por Quatro, não poupou encanto e talento na sua doce e determinada Giovana. Encanto que pudemos ver ressurgir logo na primeira cena de Patrícia Pillar como a bronca Luana. Por trás do jeito xucro e arredio da cortadora de cana, podíamos perceber os traços delicados da Berdinazi de Letícia. 

São muitos os destaques da história, mas não poderia deixar de mencionar também a riqueza de Zé do Araguaia e Donana, de Stenio Garcia e Bete Mendes. Juntos, eles representaram fielmente o universo rural da segunda fase fundindo-se quase em um personagem só. E claro, Antônio Fagundes, que conseguiu dar vida a dois personagens completamente diferentes e cheios de nuances e sensibilidade. O maior mérito de Benedito em O Rei do Gado talvez esteja na valorização de personagens incomuns nas telenovelas, mas corriqueiros no dia a dia. É possível enxergar-se em O Rei do Gado ou enxergar um amigo, um vizinho... E ainda não falei de sua trilha sonora, a mais vendida de todos os tempos, recheada do sertanejo da época e de pérolas como Admirável Gado Novo, de Zé Ramalho, e Correnteza, de Tom Jobim, na voz de Djavan. Em tempos de escassez de boas histórias para acompanhar, a re-reprise de O Rei do Gado talvez seja uma boa oportunidade para relembrarmos que já tivemos e temos capacidade para produzir grandes e memoráveis obras na nossa teledramaturgia. Finalizo com a frase do capítulo final que resume bem todo o fio da trama:

"Deus quando fez o mundo, não deu terra pra ninguém, porque todos os que aqui nascem são seus filhos. Mas só merece a terra aquele que a faz produzir, para si e para os seus semelhantes. O melhor adubo da terra é o suor daqueles que trabalham nela".

domingo, 28 de dezembro de 2014

Entre as molas

Esses dias andei pensando... O tempo é uma estrada feita de mola que só tende a esticar. E quanto mais se estica um lado, mais distante ficamos da sua outra ponta. Ele não poderia ser uma reta porque precisa amaciar os percalços da vida. Mas o que vai ficando nesse meio? Ou melhor, o que vai surgindo e desabrochando enquanto ela cresce? Quando mais novo, eu costumava analisar o quanto mais distante eu estava ficando de um determinado ano. Épocas e momentos especiais iam se alongando sempre mais. De repente, aquele ano mágico ia se tornando velho e mais velho, até virar apenas uma pequena sombra distante. Era a mola distendendo-se e fazendo do garotinho, um adolescente; e desse, um homem.

Hoje cruzam por mim diariamente Eduardas, Luanas, Thalias, que, não fosse um simples detalhe, me pareceriam meros nomes de jovens adolescentes. Porém, alguns anos atrás não era comum encontrar por aí uma garota chamada Thalia ou mesmo Eduarda - o masculino sim era o comum -, assim como o feminino de Marcelo também soava estranho e só a Machado de Assis e a seu Brás Cubas remetia-se tal referência. Daí que olhando a idade dessas meninas, entre seus 16 e 18 anos, a explicação é bastante óbvia. Em 1996 a Rede Globo exibia - como agora voltará a exibir - um dos seus maiores sucessos da teledramaturgia, a novela O Rei do Gado, cuja mocinha se chamava Luana, uma boia-fria bronca, mas de coração doce, que cativou não só Bruno Mezenga, mas o público brasileiro. E haja Luanas a nascerem naquele ano, filhas do poder de influência da mídia.

O mesmo aconteceu no ano seguinte, quando Manoel Carlos arrebatou o público com sua Helena que sacrificou seu bebê vivo em troca do filho morto da filha, para não vê-la sofrer diante da impossibilidade de voltar a engravidar, em Por Amor. A filha mimada e egoísta, apesar de sofrer forte rejeição do público, parece que conquistou o coração de alguns futuros papais, que batizaram suas filhas naquele ano de Eduarda, nome da mocinha da história. E quem não se lembra do fenômeno das três Marias da atriz e cantora mexicana Thalia? Maria Mercedes, Mari-Mar e Maria do Bairro consagraram Thalia no Brasil e a fez visitar o país, pela primeira vez, em 1997, quando todos passaram a conhecer não só a atriz, mas também a cantora, e seu nome virou sensação.

São meras constatações, mas que me fizeram refletir sobre essa mola que se distende mais a cada dia, fora do nosso controle. Não penso melancólico sobre os bebês que nasciam batizados com os nomes da época e hoje estão às portas da universidade, de onde parece que saímos ontem. Apenas me divirto com as mudanças que acontecem. Não há como descrever o tempo, como segurá-lo, ou mesmo observá-lo, ele simplesmente passa, e só depois o sentimos, ou sentimos as mudanças que ele nos deixa. O tempo é o hoje, é o agora, é o sol que se põe no fim da tarde, é o garotinho atravessando a rua, a folha de papel picada caindo da sacada, o tempo é o instante, é o momento que nos cerca, o que fica atrás dele é essa estrada percorrida sem sinalização de retorno. Sendo uma mola, às vezes nos aproximamos de algum caminho percorrido, quando nos vem alguma saudade ou quando uma Eduarda te faz lembrar que já temos algumas estradas construídas, não muito longas, mas que já nos mostraram algo a mais e nos tornaram mais flexíveis.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Ainda há espaço pra Maneco?

Uma narrativa lenta, os costumeiros barracos em família, o cotidiano quase caricato de tão puxado para o dia a dia... Não imaginei algum dia escrever isso, mas Em Família cansa. Parece que dessa vez Manoel Carlos errou a mão, ou sua fórmula - assim como Glória Perez com Salve Jorge - já tenha se desgastado. A impressão que fica é que não há mais o que mostrar, tudo já é conhecido, e ninguém tem paciência para acompanhar um pouco mais do mesmo.

Quem vinha seguindo o ritmo dos últimos autores, de João Emanuel Carneiro a Walcyr Carrasco, sentiu a diferença ainda no primeiro capítulo. Embora Glória e Walcyr não tenham mantido o frenesi de Avenida Brasil, os primeiros capítulos de Salve Jorge e Amor à Vida foram bem mais movimentados. A história de Em Família até parece envolvente, mas a lentidão de novela das seis com que vem sendo apresentada tem prejudicado seu desempenho.

E ainda há mais três fatores que têm contribuído para a novela andar para trás: o excesso de atores desconhecidos do grande público entre os protagonistas e os principais coadjuvantes das duas primeiras fases; a história centrada num grupo de adolescentes, que faz lembrar uma Malhação no horário nobre; e a longa, exaustiva e monótona segunda fase da trama. Na verdade, se Maneco tivesse reunido toda a história dessas duas fases num primeiro capítulo bem enxuto, conseguiria mostrar ainda umas duas ou três cenas da terceira fase, deixar o público ansioso pelo que viria depois e garantir uma boa estreia.

Todavia, o autor optou por esmiuçar o máximo possível a adolescência de sua última Helena, e a resposta do público, sedento por agilidade, veio em sequência: 33 pontos de audiência no primeiro dia - o pior dos últimos tempos - 29.4 no segundo e 29.2 no terceiro. A Globo já providenciou as alterações para não continuar perdendo seus preciosos pontinhos na programação: a reedição dos capítulos. A mudança para a fase com Júlia Lemmertz, que já tinha sofrido uma antecipação do roteiro original do capítulo 12 para o 10, agora chegará no capítulo 8. Tudo isso para ver se a fase atual da trama, com o elenco de peso da casa, consegue prender os telespectadores e garantir a liderança com tranquilidade.

E como uma falha nunca anda desacompanhada, o tal "Momentos em Família" ao final de cada capítulo não deixa claro para o público se o que é produzido é ficção ou realidade. A princípio parece tratar-se de fatos, até pela tradição do autor de acrescentar um depoimento real a cada dia, nas novelas anteriores. Mas é possível perceber que há manipulação de imagens, cortes e intervenção de atores. A ideia original de aproximar as histórias apresentadas no folhetim com as de pessoas normais ficou embaçada, e o que se vê mais parece uma novela dentro da outra. E para completar o ciclo de estranhezas de Em Família, a disposição dos créditos do elenco na abertura não estava tão desajustada desde que O Clone, em 2001, inovou a maneira como eles aparecem.

Mas Em Família está só no comecinho, pode fazer muito ainda para ganhar a fidelidade do público. Talvez quando a história começar a se desenvolver no Rio de Janeiro, no elitizado Leblon, as coisas tomem um rumo. Ou a mesma fórmula batida de Maneco prove que a inovação é essencial, até mesmo para quem tem um estilo único. Parece que sozinho, o bom texto trabalhado em Por Amor, Laços de Família, Mulheres Apaixonadas, Páginas da Vida e Viver a Vida não consegue mais o mesmo sucesso. E esse nem foi o problema da última - duramente criticada -, mas a falta de uma boa trama para a Helena de Taís Araújo, e até mesmo a interferência do Ministério Público do Trabalho na vilania da personagem de Klara Castanho, como se ela, "uma velha disfarçada de criança", não conseguisse distinguir realidade de ficção.

Enfim, talvez em nome das grandes obras que já saíram de suas mãos, seja de bom tom ter um pouco mais de paciência com Manoel Carlos e aguardar o desenrolar dos próximos capítulos. Afinal, com clichês ou não, Em Família é sua despedida, e tem muito autor por aí que deveria estar de despedindo também das telenovelas, mas infelizmente ainda estarão no ar por um bom tempo.