Há muito deixei de criar expectativa com a estreia de alguma telenovela na Rede Globo ou em qualquer outra emissora. Não sei se posso considerar perda de criatividade, saturação do modelo no mercado ou mesmo mudança de hábito dos telespectadores. A grande interrogação se deve ao fato de muita gente concordar que não se produzem mais novelas como antes. Mas não sou tão radicalista a esse ponto. Talvez se grandes sucessos como Beto Rockfeller, O Astro ou Tieta fossem lançados hoje não surtissem o mesmo efeito. A exemplo de Irmãos Coragem, Anjo Mau e Pecado Capital que bateram grandes índices de audiência na primeira versão e não emplacaram na segunda. Em contrapartida temos também Mulheres de Areia, A Viagem e Sinhá Moça que se mostraram bastante satisfatórias em seus remakes. As duas primeiras chegando até a superar o sucesso dos anos 70. Então fica difícil jogar toda a culpa nas novas produções ou dizer que somente as novelas do início da televisão brasileira é que eram dignas de apologias.
O que fez de Roque Santeiro, Vale Tudo, Pantanal e Xica da Silva grandes destaques da teledramaturgia nacional? Ouso dizer que a inovação. E até por que não? A ousadia. A primeira foi censurada em plena ditadura pela sua crítica bem-humorada ao fanatismo religioso e implicitamente ao regime militar em vigor na época. Já a trama de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères não teve medo de mostrar uma filha capaz de passar a perna na própria mãe em nome da sua ambição. Sem dúvida alguma, os mitos e segredos do mato e as paisagens exuberantes, totalmente opostas ao mundo urbano e agitado dos folhetins vigentes até o momento, fizeram de Pantanal a maior audiência de uma telenovela não produzida pela Rede Globo desde que o império de Roberto Marinho se consagrou. E o "atrevimento" de uma escrava que queria ser rainha nas Minas Gerais do século XVIII, com toda pompa, capaz de escandalizar a sociedade hipócrita da época com suas mais inusitadas peripécias, conquistou o país e marcou o nome de Taís Araújo como a primeira protagonista negra da história da televisão brasileira.
Partindo do pressuposto da inovação, seria errado pensar que toda obra que vai contra a maré tem mais chance de obter um grande êxito. É só lembrar fiascos recentes como o faroeste retratado na Bang Bang de Mário Prata e o grande reality show de Bosco Brasil em Tempos Modernos. Mas aí encontramos no caminho a clássica Que Rei Sou Eu?, que transportou os telespectadores para o período da Revolução Francesa, e com humor, bruxaria e combate conseguiu registrar sua passagem com bastante esplendor; e ainda a república das bananas na década de 50 com a irreverente e por momentos surrealista Kubanacan de Carlos Lombardi, que apesar de uma boa audiência, foi para muitos um projeto fracassado. Dá para perceber por aí que não basta querer inovar, é preciso saber como. Não à toa Glória Perez é a novelista que mais se destaca nesse quesito, trazendo sempre à discussão temas polêmicos e culturas desconhecidas do grande público, como o universo cigano e o islamismo. Em algumas tentativas acerta como Barriga de Aluguel e O Clone, e em outras como Explode Coração e América fica a dever.
Inevitavelmente, assim como na moda, as telenovelas também sobrevivem de ciclos, que vez por outra retornam. Provavelmente muitas tramas alcançaram o sucesso por virar a página no momento preciso. Se Pantanal quebrou o círculo de novelas urbanas e implantou na Globo o cenário rural com Renascer e O Rei do Gado, esse mesmo esquema saturou em Terra Nostra. Assim como as novelas de época se mostraram um ótimo filão para o horário das seis em O Cravo e a Rosa, e já chegou sem gás a Desejo Proibido. E ainda a temática espírita implantada em Alma Gêmea, que trouxe a segunda reprise de A Viagem, o remake de O Profeta, e a pincelada de Elizabeth Jhin pelo tema com Escrito nas Estrelas.
O que parece acontecer hoje com autores como Walcyr Carrasco, Aguinaldo Silva e Gilberto Braga é que eles estão há algum tempo em um território que ainda não se definiu qual é. As histórias não envolvem, não empolgam e quando pensamos que algo interessante está por vir, somos novamente decepcionados com a ausência total de originalidade. Não vou nem me estender ao ibope cada dia mais baixo, porque vejo isso como um processo natural, principalmente com o aumento de acesso aos canais pagos. Mas se vivenciamos uma fase improdutiva da telenovela, talvez tenha chegado a hora de virar a página mais uma vez. A estreia de Cordel Encantado ontem me surpreendeu e parece sinalizar essa mudança. Uma história como há muito tempo não se via na televisão. Baseada na literatura de cordel e com uma trama bem costurada já no primeiro capítulo, reis e cangaceiros se cruzam e prometem no mínimo prender os telespectadores por mais alguns capítulos. Só espero que seus personagens não se percam no decorrer da trama e que sua chegada abra novamente os caminhos para uma safra de produções originais e instigantes, que ainda é possível vivenciar na teledramaturgia de hoje.
terça-feira, 12 de abril de 2011
quinta-feira, 7 de abril de 2011
Um aniversário
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| Um flash de vida nunca se esvai das entranhas de um coração |
Quando a tarde se fez presente, eu já estava pronto. Roupa feita na costureira da minha mãe. Uma camisa quadriculada de vermelho e branco com um colete e uma bermuda jeans. Minha mãe também havia preparado algo especial para ela. Um short marrom da moda de cintura alta acompanhado de um cinto, uma blusa de cetim rosa e para completar, um colar estilo idade da pedra que descia até os seios. Saí do quarto e circulei pela sala, agora toda decorada com balões. Na parede atrás da mesa, um isopor em formato de casa com a frase: "Uma tarde no circo com Samuel e amigos". Nem preciso dizer que o bolo era um palhaço. O nariz vermelho e redondo saltando para cima. Parecia delicioso! O rapaz encarregado de filmar o evento em VHS já se fazia presente, assim como os vizinhos mais chegados e boa parte da família. Afinal, meus tios e primos tinham vindo à cidade só para me prestigiar. Na área de entrada ficou uma caixa grande onde eu colocaria os presentes, e claro, na parede outro palhaço com a cabeça enorme de isopor e os braços e pernas feitos de bexigas.
Aos poucos a casa foi se enchendo. Os convidados me olhavam sem parar e isso começou a me preocupar. Não sabia mais para onde olhar e aos poucos já nem sabia como caminhar. Parece que roubavam cada expressão minha toda vez que me observavam. Finalmente minha avó chegou. Me abraçou, me beijou e ali em seus braços me senti seguro e protegido. Com ela chegaram também meu tio e minha prima Agda, que trazia o presente da minha tia Auxiliadora. Eu sabia de antemão que ela me daria um robô preto de meio metro que andava e mexia as mãos. Agarrei o pacote e, apesar da ansiedade, coloquei na caixa, queria saboreá-lo sozinho depois. Um carro então estaciona lá fora, e dele sai pacientemente um homem de calça jeans, camisa branca e cabelo grisalho. Sua entrada desvia os olhares dos convidados sobre mim. Ao menos até ele se aproximar, passar a mão no meu cabelo sorrindo e proferir sua saudação: "diga, comandante".
Meu pai era um militar do exército aposentado. Em seu ofício, percorrera o país partindo também o coração de muitas jovens. Não era seu primeiro filho e nem seria o último, assim como minha mãe não detinha o título de exclusividade. Aliás, estavam separados há quase dois anos. Com essa situação perdi a relação de intimidade, e uma onda de medo e responsabilidade assolavam meu ser, inconscientemente, sempre que o via. Meu pai era dado a mágico também nas horas vagas, e numa festa com o tema circo, sua mesa já estava posta e o picadeiro armado. Todo mundo se apertava para ver o grande mágico Seledon. A área ficou lotada. Gente em pé, gente sentada. Várias crianças com olhares curiosos agarrados ao portão do lado de fora. E eu? Bom, eu fiquei meio que escondido entre as pessoas. Tinha medo dele querer realizar alguma mágica com o aniversariante. Me fazer urinar ou botar ovo em cena como fez com um menino. Não. Naquela hora eu queria ser mais um simples convidado do que qualquer anfitrião.
Inexplicavelmente, gostava de estar em cena, de estar em evidência em um palco. E basta rebobinar um pouquinho a fita antes do show de mágicas do meu pai, para me encontrar dançando lambada na sala com minha prima Agda aos olhares atônitos de todos. Sim. É verdade. Minha prima cinco anos mais velha aprendeu a dança "proibida" do Kaoma e resolveu que precisava de um par para praticar em casa. E lá estava eu, dançando no meio da minha festa de aniversário. E mesmo com a expressão fechada, não de raiva, mas de insegurança, ainda dancei com outra colega da escola, essa da minha idade, e a cozinha literalmente fez um break. Foram todos assistir o desempenho daquelas duas crianças ousando ser gente grande. Minha avó olhava fascinada. Minha mãe direcionou toda sua agitação naquela cena, focou e congelou por alguns minutos. Nem eu sabia por que impulso estava levando à praça um hábito corriqueiro da infância. Talvez um anseio de me mostrar capaz de algo que poucas crianças naquela idade ousariam fazer.
As horas foram passando. A festa ganhando a noite. O time da cozinha dedicado em servir os convidados e certificar que todos estavam providos, e como minha mãe previu, as iguarias começaram a faltar. Mas nada de desespero. Hora de cantar parabéns e cortar o bolo. Todos se reuniram em volta da mesa. Muito barulho. No som Sacrifice de Elton John. Algumas crianças colocavam a cabeça nas lancherinhas para ver o que tinha dentro. Colocaram um banquinho para que eu ficasse numa altura razoável. Eu observava tudo esperando que alguém me dissesse o próximo comando. De repente o disparo e todos cantavam e batiam palmas sorridentes para mim. Naquela hora não sabia o que fazer. Me perdi completamente. Batia palmas junto com todo mundo ou só ficava olhando aquela celebração? Ninguém me passou a informação. Então sorrateiramente do impulso de bater palma, fui escorregando as mãos devagar até elas congelarem na altura da cintura. Olhos esbugalhados. Parecia que eu é que seria devorado ao final ao invés do bolo. E quando a cantiga cessou, veio o pior. Tive que apagar a vela. Foram três tentativas, várias vozes me encorajando, meu pai me pedindo força e só aí a chama evaporou. Mas nem fui eu o responsável. Um menino, provavelmente impaciente com a situação e louco pelos docinhos, se antecipou e contribuiu com seu sopro.
Desfeita as formalidades, todos foram se dissipando e as crianças formando filas para receberem as lembrancinhas, enquanto a sessão de fotos tinha início em frente ao bolo. Bateram uma fotografia minha com minha avó e depois a família toda queria uma foto exclusiva com ela. Em seguida minha mãe mandou chamar meu pai para a foto da família. Embora separados, ela ainda nutria uma remota esperança de reconciliação. Nos preparavam para o flash quando só então reparei que a vela de 6 anos do bolo estava voltada para mim e não para os convidados, como seria o correto. Com essa constatação, olhei para a câmera e a cena foi registrada. A mesma foto que agora olho aqui sobre a escrivaninha do meu apartamento e que todos os dias me encara com desafio. Faz exatos 20 anos. Minha mãe não voltou mais com meu pai. Ele teve outra família, outros filhos e hoje já nem se encontra mais entre nós. Eu fui crescendo, tentando superar os fantasmas da insegurança, encarar o mundo sem medo de falhar, embora aqui acolá busque nas fobias e inocência daquele garotinho a grande razão de continuar seguindo sempre. Encontro naquelas raízes o fruto do cara de 26 anos que me torno hoje.
domingo, 3 de abril de 2011
Esperando o efeito passar
Havia acabado de assistir a mais um filme das comemorações do centenário de Chico Xavier, e ainda envolto de emoções caminhava em busca da saída do shopping. Pessoas passando por mim e minha mente ainda nos 110 minutos que ficaram na tela. Cheguei à saída, mas não podia ir embora ainda, precisava respirar um pouco o ar fresco daquela noite. Olhei em volta, todos os banquinhos estavam ocupados. Fiquei parado por alguns segundos na esperança que alguém abandonasse um deles e eu pudesse me sentar. Ao olhar mais ao lado percebi que em um dos bancos havia somente uma moça sentada. Resolvi ir até lá e ocupar o espaço restante. Da maneira sorrateira que me aproximei, atravessando até alguns galhos de palmeira, me surpreendi pela moça não pensar que iria assaltá-la. Sentei, coloquei a mochila em meu colo e fiquei revivendo todas as sensações que o filme tinha me proporcionado. Olhei para a moça do meu lado enquanto ela olhava na outra direção e tudo parecia tão sem importância tamanha a dimensão do que acabara de assistir. Ela então se voltou para o meu lado e eu desviei o olhar.
Mais alguns minutos, um rapaz apareceu e começou a conversar com ela sobre uma moto. Parece que a moto dele estava com problema e seria preciso levá-la até a oficina mais próxima. Ele não parecia aborrecido. Pelo horário a oficina estaria fechada, mas ele havia telefonado ao proprietário que autorizara levar o veículo até lá. Ele saiu então e logo o vi passando por nós empurrando uma Biz. A moça pegou o celular e ligou para alguém. Queria confirmar com uma amiga se iriam sair mais tarde, e enquanto narrava o problema com a moto do namorado, lamentava provavelmente não poder ir. Desligou o celular, olhou para os lados e entrou novamente no shopping. Eu, porém, nem pude me estender um pouquinho mais no banco. Logo uma senhora e um rapaz se aproximaram como se encontrassem os últimos ingressos para um show de rock. Com sua bagagem bastante espaçosa, fiquei bem mais exprimido no espaço que me restou do banco. Puxei meu braço debaixo de sua axila, quando ela se virou para mim, me examinou e saiu com essa: - Você faz engenharia?
Pensei: "quem é essa mulher? Será que está me confundindo com alguém?" Então a olhei surpreso, e neguei sua pergunta. Sua explicação era óbvia. Quando vê alguém da minha idade com uma mochila nas costas já sabe que faz engenharia na UFCG. Afinal, que outro curso alguém que usa mochila poderia fazer, não é verdade? Não, minha senhora, eu uso mochila simplesmente porque gosto. Claro que ela não se contentou com o fato de ter errado seu palpite e o interrogatório teve início.
- Terminei jornalismo. - respondi.
- Na UEPB? O curso é bom? Quer dizer que tudo depende do aluno. Se fizer um curso bem feito vai ter algum futuro, agora se for como eu fiz Serviço Social, aí já era, não consegue nada. Ô "cursozinho" difícil e mal feito esse que eu fiz. Você é daqui?
- Não. Rio Grande do Norte.
- Ah, então a gente pode falar mal da cidade. Porque pense numa cidade sem nenhum lazer e cheia de gente metida. Eu aguento porque não tenho outra opção. Olha esse trânsito! Já viu coisa mais absurda? Todo mundo quer passar na frente. Tá cheio demais aqui pra mim. Lá no Ceará também é assim? Eu penso que é só aqui.
- Rio Grande do Norte. - enfatizei.
- Ah, é. Natal!
- Não. Eu sou do interior.
- Ah, então não deve ter nem trânsito, né?
- Olha que incrível. Tem! - afirmei numa ironia que não sei de onde arranquei.
- E tem? (numa admiração impressionante). Mas garanto que não é como esse inferno aqui. E espere aí, você saiu de lá e veio fazer faculdade aqui? Não tinha nenhuma por lá, não? Ah, é porque é interior, né? Tá certo. Eu já fui ao Rio Grande do Norte. Natal é maravilhoso. Natal! - enfatizou bem no final.
Fiquei cá comigo. Claro, minha senhora! Que outro lugar no Rio Grande do Norte poderia ser tão exuberante quanto a capital? Se até Campina Grande era ínfima aos anseios daquela cidadã, imaginem todo o interior de um outro estado que a seu ver deveria ser igual ou pior ao que nos encontrávamos.
- Você gosta daqui? - continuou investigando para saber se poderia prosseguir o tricô e ainda fazer um babado.
- Gosto!
- É, a gente se acostuma com o que tem. Já conheci muita gente que diz só sentir falta daqui depois que sai.
- A senhora é de onde? - agora quem não aguentou de curiosidade fui eu.
- João Pessoa! Meu marido que é campinense.
Ah, tá. Agora entendi. Primeiro mundo. Outra cultura. Temperatura amena. Cento e vinte quilômetros de uma realidade bem distante da nossa. O rapaz ao seu lado, que parecia seu filho, transparecia o incômodo que aquela conversa estava gerando ali através da facilidade daquela mulher em estabelecer diálogos tão "agradáveis" com estranhos. Ainda bem que o carro de seu marido chegou e ela saiu correndo com o garoto entre o trânsito caótico que descreveu. Ainda escutei seu "tchau". "Tchau, senhora! Cuidado com os raios UV mesmo à noite, afinal a senhora não está acostumada com um clima tão mirrado". Ainda tentei redirecionar meus pensamentos novamente ao filme, mas um novo casal se aproximou do banco com um filho pequeno.
A mulher e a criança sentaram e o homem permaneceu em pé. Esses ao menos não eram dados a colóquios com estranhos. E depois de acenderem um cigarro cada, e do homem afirmar que desejaria passar mal toda vez que iria fumar na tentativa de parar, se levantaram e foram embora. Agora o banco era só meu. Nenhuma ameaça de invasão. Só eu e meus pensamentos. Foi quando lá distante comecei a escutar a música A Whiter Shade of Pale da banda britânica Procol Harum que vinha de não sei onde. A canção famosíssima na década de 60, detentora de uma nostalgia sem igual e que recentemente esteve na série Afinal, O Que Querem as Mulheres? da Rede Globo, sendo a música preferida do personagem principal. Com essa definitivamente despertei de qualquer estado que o filme As Mães de Chico Xavier pudesse ter me deixado. Voltei rapidinho ao mundo real, peguei minha mochila, coloquei nas costas e fui embora deixando o banco vazio, enquanto a canção continuava soando ao fundo como uma trilha sonora. Minha ou do banco?
sexta-feira, 1 de abril de 2011
Me mente uma verdade
Hoje acordei e me deparei com as seguintes manchetes: Pico de dengue no Rio pode durar mais três semanas. Bebê é achado com queimaduras nas costas e na perna direita. Adolescente usa seringa para agredir colega em São Paulo. Pais rejeitam terceira gêmea após inseminação. Motociclista é arremessado de viaduto em Salvador. Rebeldes tentam retomar pólo petrolífero na Líbia. Vendas de carros no Japão têm a maior queda desde 1974. Protestos antigoverno espalham-se pela Síria e sete pessoas morrem. Duas toneladas de presas de elefantes são apreendidas na Tailândia. Oito mil animais silvestres morreram atropelados no Pantanal no ano passado. Petróleo atinge pinguins em ilha britânica. Motorista é flagrado levando cavalo no banco traseiro. ONU confirma oito mortes de funcionários em ataque no Afeganistão. Carro banhado a ouro é exposto na China. Deputado federal deprecia abertamente negros e homossexuais em seus discursos. Ex-menudo é acusado de agressão. Pastor vê podridão em gays e maldição sobre africanos. E hoje é o dia da mentira. Infelizmente é essa a verdade nossa de cada dia.
Bom seria se cada notícia dessas fosse um trote que um amigo passou a outro hoje. Tantos infortúnios em apenas um único dia. Nenhuma mentira. Somente a verdade ríspida e nua a nos olhar desprovida de qualquer fantasia. Vamos mentir um pouco então para aplacar a rigidez do homem e a sucção da vida no mundo. Vamos combater todos os focos de dengue. Encontrar uma família ao bebê abandonado. Respeitar as leis de trânsito. Considerar a importância da vida animal paralela à nossa existência. Exercer a igualdade social. Extinguir a fome. Saciar a sede. Viver a liberdade de expressão, permitindo o direito de cada um. Abortar as guerrilhas, os conflitos de interesses e os atentados. Partilhar a paz. Irradiar o amor. Exterminar preconceitos. Olhar o planeta como uma única residência na qual todos devem cooperar pela sua limpeza e organização, na busca pela convivência pacífica e harmoniosa. Uau! Isso sim parece o dia da mentira.
Há algo errado na simetria da realidade. Onde se encontra o dia da verdade então? O dia em que todas as mentiras serão fatos? Onde sonhar já não será necessário e a utopia se fará presente? Penso que hoje, 1º de abril, seja o dia de buscar viver uma realidade longínqua da nossa. Mentir equivale a idealizar uma verdade cobiçada e inexistente. Hoje poderia ser o dia em favor dos sonhos. - Mente e me faz crer que é possível. - Me ilude com uma falsa verdade e por alguns segundos até meus fantasmas serão gente. Alguém já disse que acreditar ferozmente numa mentira pode torná-la verdade. Então vamos confiar na esperança de um amanhã mais justo, democrático, solidário e humano, e quem sabe transformar esse dia da mentira na nossa futura realidade. E para não perder o momento e já começar a acreditar no impossível...
... Eis as novas manchetes do dia: O salário mínimo subiu para R$ 1.000. Cinquenta bilhões de reais são destinados a modernização de hospitais públicos e capacitação de novos profissionais no país. Professores tem reajuste salarial de 250%. Medidas de inclusão social diminuem o crime organizado no Rio. A baía de Guanabara e o rio Tietê ganham projeto de despoluição das águas. O Brasil assume a posição de nova potência mundial. Floresta amazônica recupera 80% de sua área devastada. Mobilização global dos países reduz o nível de CFC na camada de ozônio. Estados Unidos e Oriente Médio assinam cessar fogo. Judeus e palestinos criam novo tratado e determinam pacificamente suas divisões territoriais. O casamento gay é legalizado na maior parte do mundo. A maconha tem seu uso aprovado na medicina. A Agência Espacial Internacional estabelece seu primeiro contato com vida inteligente fora da Terra e descobre definitivamente que Elvis não morreu, estava apenas de férias com James Dean, Marilyn Monroe, John Lennon e George Harrison numa colônia hare krishna anos-luz daqui.
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