terça-feira, 30 de novembro de 2010

A Globo e os seus sete pecados - Parte 3

E continua aqui a saga da atual reprise da Rede Globo no Vale a Pena Ver de Novo. Desde quando foi anunciado que Sete Pecados seria a próxima novela a ser reapresentada, eu venho arquitetando um golpe diabólico contra as fitas originais de telenovelas como essa. Quem sabe tocar fogo no acervo, levar pra reciclagem, ou fazer linha de empinar pipa pra que ninguém mais seja obrigado a saber que uma trama desse nível, se é que existe nível, está novamente no ar. Depois da resposta prontinha da emissora ao meu e-mail indignado, achei que tinha perdido a batalha contra o império Plim Plim. Entretanto, "however", felizmente, dessa vez eles estão descobrindo que não se trata de um único e-mail inofensivo, mas de vários spams incontroláveis.

Um fato que não se pode questionar, é que o grande determinante de um programa permanecer no ar em um canal de TV é a sua audiência. E contra ela, nenhuma desculpinha enlatada pode resolver o problema. Pois bem! Com pouco mais de dois meses no ar, Sete Pecados é a pior audiência do horário desde 2000. E agora não sou eu quem está dizendo, mas os telespectadores. Segundo o blog do jornalista Daniel Castro, a emissora está cortando quase 60% das cenas originais do folhetim. Ou seja, correndo contra o tempo pra tirar do ar o que nem deveria ter entrado. E olhe que não foi por falta de aviso. No capítulo 43 da reprise já estavam sendo exibidas cenas do 108, resultando o equivalente a dois capítulos e meio da trama por dia. E nesse ritmo, ela se despede da programação em 7 de janeiro, com apenas 85 capítulos, e entrando para o time das novelas reprisadas mais picotadas da emissora.

Algum maluco de um jornal online vinculado a Globo, divulgou uma notinha anunciando que Sete Pecados bateu recorde de audiência no dia 02 de novembro. Bem, vamos averiguar o fato. O record a que faziam referência era 16 pontos na programação, o que até parece muito, levando em conta que a trama não sai dos 11 pontos desde que reestreou. Contudo, se analisarmos as telenovelas exibidas anteriormente, esse número não parece tão expressivo. Sinhá Moça já registrava esse índice diariamente quando foi reprisada, Mulheres Apaixonadas se mantinha nos 17, Alma Gêmea nos 19 e Senhora do Destino nos 21. Talvez por ser um feriado em que exaltamos os mortos, nada mais justo do que a audiência subir nesse dia. E nem deu tempo de se acostumar, o pastelão voltou aos seus 11 pontos rapidinho no dia seguinte.

A maior preocupação da Globo quanto à reprise é a sua influência no Vídeo Show (outro ser vegetativo da emissora) e na Sessão da Tarde, que acabam sofrendo com o desempenho da audiência da novela, que apesar de baixa, ainda se mantém na liderança (por falta de opção pior). Quem sabe em janeiro eles não lançam Beleza Pura, Eterna Magia, Bang Bang ou Pé na Jaca, e mudam o nome do programa também pra Vale a Pena Manipular de Novo. Afinal, essa é uma arte que a emissora domina como ninguém. E nem preciso dizer que estou de alma revigorada com o fiasco da trama. E deixo uma dica: da próxima vez, eles devem estudar melhor o conteúdo do meu e-mail se quiserem se manter na frente da Globo 2.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Yesterday and today

O que faz uma banda permanecer viva quarenta anos após o seu término?  Quais critérios definem o sucesso de um grupo de rock? A música? Os fãs? Os cantores? Os compositores? Qual o ingrediente utilizado por John, Paul, George e Ringo nas suas canções, capaz de continuar conquistando novos admiradores a cada ano? Acho que não seria capaz de resolver tal questão. Talvez suas batidas She Loves You, From me To You, Can’t Buy me Love, ou suas baladas If I Fell, In My Life, Something, talvez o estilo psicodélico, as inovações em Revolver, Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, os filmes, a Índia, as drogas. É muita vida para uma década apenas. O detalhe curioso nos shows de Paul McCartney no Brasil foi a gigantesca multidão que esgotou ingressos poucas horas depois de postos à venda. Uma multidão que não acompanhou a febre da beatlemania, que não viu os garotos inebriados com o sucesso se transformarem em ícones, não presenciou o crescimento, as desavenças e até o rompimento em estilo Abbey Road, mas seguiu o cantor em todas as suas canções ao delírio.

Não sei desde quando, mas em algum momento da minha infância, eu tomei conhecimento de que existiu uma banda chamada The Beatles que fez muito sucesso no passado e de que todos falavam extasiados. Contudo, era algo distante de mim, uma realidade para os que viveram duas décadas antes de eu nascer. Cheguei a descobrir que havia um John Lennon, que parecia ter sido o cabeça do grupo e que havia feito muito sucesso também após o fim da banda, principalmente com uma música que todos aclamavam chamada Imagine, mas que ele havia sido assassinado. Sabia que outro grande cabeça chamado Paul McCartney ainda estava vivo, mas desconhecia alguma música solo de referência. Os demais não sabia sequer o nome. Bem, também por algum motivo que eu desconheço, sempre mantive uma ligação de encanto e nostalgia por músicas dos anos 60, 70 e 80. Gostava do ritmo, das lembranças que eu nunca tive e que elas me remetiam, e muitas escutava nas ruas, nos sons altos dos carros insistentes em bares até tarde da noite.

Havia algum fascínio na música Feche os Olhos de um tal de Renato e Seus Blue Caps, que me envolvia, apesar de minha mãe dizer que a música era antiga e brega. Tinha outra também chamada Menina Linda que eu me fissurava, mas não tinha conhecimento do nome da música, do cantor e muito menos do compositor. Achava a melodia de outra incrível, mas muita gente gravava e eu cheguei a pensar que a música não tinha dono. Aos 15 anos fui morar na casa da minha tia pra estudar e descobri que o marido dela tinha um cd duplo do famoso grupo The Beatles, intitulado Anthology 3. Deduzi que deveria haver o 1 e o 2. Era música pra não acabar mais. Minha prima só gostava de uma canção e vez por outra colocava pra tocar, era Let it be. Soava interessante. Mas eu queria ouvir mesmo era Imagine que todos diziam ser perfeita, só que era da carreira solo de John Lennon. Ah, tinha outra bem conhecida desse grupo, Yesterday, mas não constava no cd da casa da minha tia.

Finalmente pude escutar Imagine completa quando Paulo Ricardo regravou e eu comprei o cd. Não entendia o inglês, mas a mensagem parecia ser bonita. No mesmo ano, escutei uma versão, agora em espanhol, da música que eu gostava e que todos regravavam. Chamava-se Mi Grand Amor Le Di, de José Alberto El Canário, título original: And I Love Her, composição: Lennon/McCartney. Ah, achava que eles só cantavam rock pesado e musiquinhas broncas. Depois escuto uma Sgt. Peppers na voz de Cássia Eller e uma Here, There and Everywhere de Rita Lee, de autoria dos mesmos. Mas o grande insight só aconteceu sete anos depois, no último ano da faculdade, na cadeira de cinema, quando o abençoado e beatlemaníaco Rômulo Azevedo me apresentou definitivamente a John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr no auge de uma loucura que teve início na Inglaterra dos anos 60 conhecida como beatlemania, retratada no filme A Hard Days Night pelos próprios rebentos.

A partir daí foi um Love me Do, Please Please me, Twist and Shout, All My Loving, I Should Have Known Better, I Want to Hold Your Hand, Ticket to Ride, Help, Penny Lane, Day Tripper, Eleanor Rigby, Hey Jude, All You Need Is Love, Yellow Submarine, Paperback Writer, Revolution, Across the Universe, Strawberry Fields Forever, A Day in the Life, Lucy in the Sky with Diamonds, Ob La Di Ob La Da, Dear Prudence, Golden Slumbers, Come Together, Here Comes the Sun, Get Back. Um mergulho cada dia mais intenso em busca de “novas” canções, “novas” melodias. De repente me vi revivendo uma época que nunca vivi. Conheci Liverpool, The Quarrymen, o clube Caverna, Hamburgo, Pete Best, Stuart Sutcliffe, Brian Epstein, George Martin, a gritaria nas ruas, a recepção em Nova York, os cinemas de A Hard Days Night e Help, o título do MBE, o LSD, o Shea Stadium, o sargento Pepper, Maharishi Yogi e a meditação transcendental, Yoko Ono, o terraço da Apple, a faixa da Abbey Road, o acervo do Beatles Anthology. E quanto mais eu pudesse penetrar. 

Somente uma banda capaz de conquistar uma multidão de novos fãs 40 anos após deixar de existir, pode se considerar consagrada mundialmente. O poder e o alcance dos Beatles ultrapassaram não só a fronteira da Grã-Bretanha, mas a do tempo, e continuam influenciando gerações, transformando comportamentos, revirando as cabeças de jovens, adultos e deixando um rastro de obsessão aonde chegam. Paul McCartney e Ringo Starr hoje são relatos vivos de uma página da História do planeta, tipo como se Colombo, Napoleão, Cleópatra ou Hitler estivessem ainda aqui. A energia emanada de suas canções chegou até mim inconscientemente desde muito cedo, já era um fã dos Beatles em estado latente, e quando vislumbrei diante de mim tudo o que buscava, foi como um flash de memória perdida ressurgindo. Ainda engatinho pelo universo gigantesco de composições, bastidores e curiosidades do quarteto, mas ando absorvendo sua essência tão forte quanto a inalada de John em Girl. E sei que as partículas da explosão cósmica The Beatles continuam chegando a galáxias cada vez mais anos luz de nós, yesterday and today.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Vamos fugir!

Sempre tive um espírito andarilho. Mesmo que muitas vezes tenha me imaginado em algum lugar fixo, levando uma vida regrada. Quando criança adorava viajar, sair da minha cidade, adentrar lugarejos diferentes, e muitas vezes, a viagem em si, o passeio de ônibus parecia bem mais empolgante do que o destino final, quando eu não enjoava dentro do carro. Porém, sempre queria seguir, nunca ficar pelos novos lugares. No fundo, sair com uma mochila nas costas pedindo carona pela estrada, sem rumo, sem destino, sempre foi um desejo reprimido da minha alma. Pensar que não temos lugar no mundo pra ir nem pra voltar, que nossa estadia é aqui e ali, seguindo em frente sempre, descobrindo novos lugares, conhecendo outras pessoas, vivendo cada emoção e aventura, nos torna paradoxalmente mais donos do nosso destino. Não é à toa que eu mantive, por vezes até inconsciente, uma afinidade muito grande por filmes americanos de andarilhos, pessoas que estão sempre percorrendo de carro aquelas estradas americanas imensas e desertas. Hoteizinhos baratos em beira de estrada, postos de gasolina e fast-food.

É uma estranha e contraditória sensação, como se por aqueles fins de mundo eu pudesse encontrar um sentido maior na vida, uma saída, um recomeço. Não quero filosofar nem divagar em pensamentos confusos e solilóquios, mas a onda de bem estar que me invadia a ponto de querer me transportar a esses lugares, era como um anúncio de que a mim só o essencial era necessário. Por que quartos de luxo em um hotel em Toronto, se me bastaria um lugar simples e confortável para passar a noite e seguir caminho no dia seguinte? E uma sensação de desapego a bens materiais, a pessoas, a lugares estava sempre presente. Ainda hoje não consigo raciocinar corretamente pra entender e repassar o que sinto às pessoas. Por isso filmes como Cinema, Aspirinas e Urubus, Central do Brasil, Diários de Motocicleta, Perseguição - A estrada da morte, Vencer ou Morrer estão entre os meus prediletos.

E o que me mantém ainda aqui atado esperando que as caronas venham até mim? Compromissos que me fazem sempre protocolar esse futuro. O ensino médio, o vestibular, a faculdade, a família, a namorada, e sempre alguma tarefa, responsabilidade que me impede de viver de espírito. Hoje realmente me sinto livre de qualquer compromisso ou obrigação, posso finalmente ousar seguir os caminhos de um destino sem destino. Mas será que irei? Terei forças para assumir e seguir? O momento é agora, ou logo mais outros compromissos me prenderão. O trabalho, por exemplo. Não sei de fato o que me prende hoje, talvez a ausência de algo a me prender. Espero o momento certo. Mas esse momento é agora. Sinto que se conseguisse passar o primeiro reveillón longe de casa e da cantoria da igreja, em uma praia, uma montanha, um deserto, uma cabana, um nada no nada já seria sensacional.

Talvez eu não tenha a coragem e o dinheiro de Elizabeth Gilbert, a escritora norte-americana, autora de Comer, Rezar, Amar, que se desfez dos bens materiais, pediu demissão e saiu em uma viagem de um ano pela Itália, Índia e Indonésia. Posso sair pedindo carona, mas preciso de grana pra comer e pernoitar no mínimo. Talvez se ganhasse na loteria. Mas aí obviamente optaria por voar pelo mundo de primeira classe, hospedado nas suítes mais caras e ostensivas dos principais cartões-postais do globo. E não seria a mesma coisa nunca. Só sei que o tempo avança e a minha única carona é viver à espera de uma mudança que pode nunca acontecer. E enquanto não acontece, viajo pela estrada do logo do Celeiro, como quem cai em um sonho, onde a gente nunca lembra como começou e nunca sabe onde irá terminar.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Questão de números

E naquela noite eu precisava deixar uma cópia do nosso documentário com a colega de trabalho da minha amiga Ana Célia, antes de pegar o ônibus pra casa. Chamavam essa colega popularmente de Galega, e fui informado que ela residia no mesmo condomínio que eu, era apenas uma questão de letras e números. Abandonei o U404 em direção ao E101. Ao chegar constatei que o interfone não funcionava. Haveria de esperar alguma alma caridosa surgir ali com uma chave que me permitisse entrar no bloco. Mas o tempo era meu inimigo também. Como o apartamento que procurava era no térreo, decidi dar a volta e chamar pela Galega na varanda. Ao passar pela janela do quarto, notei que havia uma moça no computador. Deduzi que seria a filha dela, já que haviam me informado que tinha uma. Chegando à varanda, rapidamente comecei a bater palmas, porém, ninguém apareceu. Bati de novo. E de novo. Nada! Como assim? Havia gente no quarto.

Retornei à janela do quarto. Não havia mais ninguém lá. Só um computador ligado e uma cortina voando na janela. O que poderia ter acontecido? Voltei a varanda. A menina deve ter ido pra lá. Mas nada! Também não havia ninguém lá. Foi quando me acometeu que a garota poderia ter se escondido de mim. Sim! Agora eu era visto como um bandido dentro do meu próprio condomínio. Não! Mas eu precisava deixar o dvd ali antes de viajar. Ela haveria de me receber. Voltei à janela, onde a cortina voando era o único movimento que se via no quarto, e comecei a chamar pela Galega. Informei que estava ali para deixar algo à mãe da garota, e que ela deveria entregar a minha amiga na agência bancária onde trabalhavam. Praticamente implorei que a moça aparecesse e só não afirmei que não era nenhum bandido, porque achei previsível demais. E se ela resolvesse ligar pra síndica ou pra polícia?

Retornei ao meu U404, peguei o celular e liguei para minha amiga enquanto voltava ao E101. A deixei a par da situação. Informei que a Galega não estava no apartamento e que sua filha havia me confundido com um ladrão. Mais que depressa, Ana Célia desliga o celular e liga para a Galega. Porém, ninguém atende. Óbvio! A Galega havia saído e provavelmente não tinha escutado o celular tocar. E no apartamento só estava a atormentada de sua filha, que a essa hora, ou já teria ligado pra alguém, ou teria petrificado de tanto medo. Resolvi constatar. O quarto permanecia no mesmo silêncio, e a proteção de tela do computador avisava que ninguém havia tocado aquele solo há algum tempo. Se ao menos pudesse entrar no bloco, tocaria a campainha e tentaria explicar mais uma vez a situação. Que menina complicada!

Foi quando retornando à entrada do bloco, vi uma alma caridosa circulando dentro. Corri e a mulher abriu a porta. Mal tive tempo de agradecer. Ela olhou pra mim, eu olhei pra ela. Não sei quem perguntou primeiro. Eis a Galega a minha frente. Atônito, tentei entender o que havia acontecido. Mas logo compreendi quando vi a porta do E103 aberta. Por algum motivo, me informaram o número do apartamento errado. Não sei se agradecia por ver finalmente a Galega e poder entregar o vídeo, ou se esganava quem havia me passado a informação errada. Mais uma espiada dentro do apê dela, encontrei a sua filha, uma garotinha bem menor do que a moça do E101. Entreguei o dvd e saí dali. Pensei na garota do outro apartamento. Estaria ainda escondida esperando seus pais chegarem para lhes relatar em soluços, o perigo que havia lhe ocorrido àquela noite? Pensei em ainda ir lá na janela e esclarecer que tudo não passou de um engano e que ela poderia voltar ao computador tranquila, mas achei que ela não acreditaria e já tinha sido traumatizada demais pra uma noite.