sexta-feira, 16 de maio de 2008

De Volta Para O Passado

Esse aqui é pra recordar! Pra quem viveu uma das melhores épocas do mundo. Estava dando uma olhada nos meus arquivos no computador e por sorte acabei encontrando um slide que minha prima Agda havia me enviado há algum tempo. O nome do slide era “Melhores Momentos da Vida”. A cada página uma volta aos anos 70 e 80. As séries, os desenhos, os brinquedos e carros que fizeram sucesso, enfim, detalhes de quem teve a sorte de passar a infância em um mundo de constante transformação. Tudo bem que eu não tenha estado presente nos anos 70, mas muitas de suas características se estenderam até os anos 80 e as destes até início dos 90.

Para começar, que tal calçar um tênis All Star, pegar carona no primeiro chevete que passar, parar na bodega da esquina e comprar um tablete de Chiclets ou mesmo um Chocolate Surpresa e seguir para a Caverna do Dragão? Seria uma aventura de outro mundo. Quem sabe De Volta Para o Futuro? Poderíamos conhecer outros seres como uma tal de Formiga Atômica, He-man, Shirra. Ah, ouvi falar de um grupo de defensores japoneses que usam roupas coloridas e capacetes para lutar contra monstros, eles são chamados de Flashman e Chageman. Tem ainda outro mais conhecido como Jaspion.

Essa viagem parece que não tem fim. Quanto mais se anda, mais recortes e figuras são descobertos no caminho. Vejam só aquele grupo de duendes pedindo carona ali na frente. Todos azuis com toucas brancas e vermelhas. São os Smurfs. Eles estão fugindo da sua aldeia nos cogumelos distantes para escapar do feiticeiro Gasganete e do seu gato Azarel. Se olharmos para o leste, vamos ver a casa dos Muppet Babies. Vários animaizinhos de brinquedo com uma imaginação muito ativa, que só se dispersa quando a dona Nanny aparece. Olha aquele jardineiro de bochecha gorda e cabelo de pano acenando pra gente ali na frente. Ele é um Fofão!

E o mundo dos brinquedos se aproxima. Vejam essa montanha enorme de Cigarro de Chocolate. Dizem que ela foi construída pelos PlayMobil e que atrás dela existe um Banco Imobiliário. Nossa! Olhem só aquele labirinto de pega-varetas. E aquele bate-bumba da Estrela brincando com um vai-e-vem. O chevete agora pega outra direção. Vamos mudar de automóvel. Vamos embarcar num Corcel e seguir pela estrada de tijolos amarelos em direção ao mundo Mágico de Oz. Vejam aqueles quatro atrapalhados ali na frente. Ah, são Os Trapalhões se preparando para produzir mais um filme. Olha! O Zacarias acenou. Ei, vejam ali aquele cavalo roxo e aquela menina loira montada nele subindo em direção a um portal no céu. Ela grita: Cavalo de Fogo!

Nossa! Estão ouvindo essa música que chega aos pouquinhos vindo lá de longe? É um ritmo bem dançante. Agora escuto perfeitamente. É o Kaoma! Vamos descer e nos juntar a eles “...e o sol nos levar pelas águas do mar, nessas ondas dourar um pedaço de nós, hey, venha pra dançar, dançar, mexa sem parar, deixa o corpo lambar, deixa a hora passar, passar...”. Como eles são simpáticos!

É, parece que está ficando tarde. Melhor voltar pra casa. Vamos pegar uma Belina e nos dirigir aos nossos aposentos. “Querida, cheguei!”. Opa! Acho que errei de endereço. Estou vendo uma família de dinossauro discutindo na cozinha. O pai tenta explicar a cadeia alimentar ao filho rebelde, a filha passa exibindo sua calda recém-chegada, a mãe tira comida de uma geladeira cheia de animais, enquanto um bebê joga panela no pai dizendo “não é a mamãe”. Que Família Dinossauro maluca!

Agora sim, vou pegar minha Calói, ir para casa, ligar a TV e assistir ao Xou da Xuxa. “Bom, estar com você, ficar com você, deixar correr solto o que a gente quiser...”. Pra encerrar esse Trem da Alegria, só mesmo algo bombástico como toda a década. Opa! Invadiram a minha porta. O que houve? É um homem loiro com uma arma na mão pedindo para sair de casa porque tem uma bomba aqui. Seu nome? Macgyver!

É, parece que fomos longe mesmo! Pena que só na imaginação. São tantos signos que marcam essas décadas, que torna quase impossível lembrar de todos. Mas espero ter feito realmente um breve passeio na memória de algum sobrevivente desse período. Algumas das séries e dos desenhos clássicos que transformaram a imaginação de milhares de crianças nas últimas décadas, conseguiram ser resgatados hoje, mas outros só existirão mesmo para sempre na memória de cada um que viveu e ainda vive no coração, os ritmos, os estilos, as histórias e as fantasias desses anos. Afinal não dá mais pra dizer “beijinho, beijinho, tchau, tchau” e muito menos “de novo!”.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Diário de Lucas - Parte III - "O Casamento"

“Era o vestido mais bonito que já havia visto. E a noiva mais bela que já pude imaginar. Estava na sala da casa do professor Miguel. Um grande imóvel com um imenso jardim rodeado de frondosas árvores e uma bela piscina. Eu observava as manicuras e cabeleireiras prepararem a professora Elvira para a grande ocasião. O sorriso no rosto dela me feria como agulhas no peito. Não merecia vê-la ir embora assim. E pior que tudo, eu havia sido convidado para ser padrinho dela ao lado da Amanda. Decidi deixa-la com as companheiras e fui ao jardim, onde os últimos preparativos estavam sendo feitos. Alguns convidados já circulavam em volta da piscina. O padre espalhava seus livros e taças sobre o altar improvisado. Ao lado dele, Carol tentava conter a ansiedade do Miguel.

Fui ao encontro de Amanda, Eduarda e Susi. Depois de algum papo-furado, fomos magnificados com a presença de uma criatura mais irreverente que a Rossicléia e mais enigmática que o Zé do Caixão. Era Mãinha! Uma baiana que não levava desaforo pra casa. Seu parceiro não tardou em chegar. Rafa tinha ido passar as últimas férias na Bahia e lá encontrou não só sua cara-metade, como as delícias e os costumes baianos, num foi, meu rei? Ainda tivemos que assistir uma demonstração de suas nuances, antes dos dois saírem agarrados pelo jardim.

Pouco tempo depois, eu entrava com Elvira e caminhava pelo solado vermelho em direção ao padre, ou mais precisamente a um torto rival. Bem, era hora de encarar os fatos. A professora Elvira, embora demonstrasse uma graciosidade que lhe era própria da sua jovialidade, já era uma mulher, com experiências pessoais até mais do que profissionais. E eu era simplesmente um aluno. Um aluno que levava um namoro com uma garota da turma e desejava sutilmente uma professora. Ela estava decidida a desafiar novos trilhos e nem desconfiava dos interesses por trás do sorriso camuflado, sempre em resposta à sua simpatia.

Ainda cheguei a gelar quando o padre perguntou a célebre frase ‘alguém contra?’. Pensei em me manifestar. Mas o que diria? O que meu irmão pensaria de mim? E a Amanda? A Amanda! Finalmente eu tinha olhado para ela. Estávamos juntos há um bom tempo. Mas o que sentíamos um pelo outro não parecia ser o mesmo. Dessa forma, encarei o ‘sim’ e o beijo que poderia ser meu. Minhas pernas ainda tremeram, mas não foi pior do que a tal da Mãinha, que se jogou no chão na hora do buquê para agarrá-lo e quem acabou recebendo foi Eduarda.

Decidi que não iria à festa. Comentei com a Amanda e o Gustavo que estava com enxaqueca e precisava ir para casa. Amanda ainda quis ir comigo, mas acabei a convencendo a ir com o pessoal. Em casa pude refletir sobre todos os sentimentos que acabara de presenciar. Estaria mesmo amando a professora ou era apenas paixão de adolescente? Já era por volta das 3 da manhã quando ouvi os passos do Gustavo entrando em casa. Ele ainda chegou dedilhando as emoções e a felicidade estampada no rosto de cada um, em particular no de Elvira. Fingi estar com sono e pedi para ele não me narrar os flashes do último capítulo.

Na manhã seguinte tomei uma decisão. Fui à casa da Amanda, saímos até o parque, tomamos sorvete e no meio da conversa decidi pôr fim na nossa relação. Segundos após sua perplexidade, notei a sua conformação e percebi que de certa forma aquilo já não era tão surpreendente quanto imaginava. Foi uma longa conversa que se sucedeu a partir daí, e nem o gelo do sorvete derretendo em nossas mãos, foi suficiente para romper nossa concentração. Ali se encerrava uma história. E por mais que tivesse certeza de que já não teríamos futuro, não fiquei satisfeito com a resolução dos fatos. Estava perturbado.

O semestre seguinte chegou como uma tempestade. Entrei na universidade para o curso de arquitetura e fui morar na capital com três amigos. De recepção fomos limpar carros no trânsito cobertos de tinta e farinha. Era o famoso trote. Uma nova turma estava prestes a se formar. Novas aventuras, emoções e claro, paixões. No momento estava aberto a tudo. Não queria me encanar com ninguém. Cheguei a ficar com várias garotas da faculdade. Fui a muitas farras com a galera. Parecia realmente que o passado de incertezas e nuvens escuras estava dizendo adeus. Curtia com todas as letras o significado da expressão ‘liberdade’.

As primeiras férias chegaram mais rápido do que nunca. Em um momento estava sozinho com os amigos na capital e no outro olhava o horizonte e as belas praias de Floripa. Resolvi viajar sozinho para fugir um pouco da agitação de Vitória. Me habituei a caminhar descalço pela areia todas as manhãs, sentindo as ondas baterem contra as pernas e aquecerem a circulação. Nada poderia me afetar ali, naquele pedaço de édem. Foi quando de repente, avistei uma jovem que vinha ao meu encontro descalça, com um vestido transparente e um grande chapéu, que segurava na cabeça com as mãos. Sua presença me pareceu familiar. Logo percebi que não era o único a pensar assim. Ela me olhava querendo me identificar também e conseguiu. ‘Lucas’! Ela exclamou com um imenso sorriso, antes de vir correndo ao meu encontro. Eu não podia acreditar. Era a professora Elvira. Ela me abraçou fortemente e por um minuto voltei a ser o mesmo Lucas de meses atrás. Cheio de sonhos, paixões secretas e incertezas”.

Lucas Mendes

sexta-feira, 9 de maio de 2008

O Embrulho e o Presente

Mais um dia das mães se aproxima. As lojas começam a explorar os presentes para as mamães com promoções e ofertas “imperdíveis”, naquela que já é a segunda maior data de aquecimento do mercado, perdendo apenas para o Natal. Mas será que as lojas sabem mesmo o melhor presente para cada mãe em particular? E será que esses presentes são mesmo o que toda mãe desejaria ganhar nesse dia? Mãe é um ser complicado. Sofre dores terríveis para nos pôr no mundo. Depois nos enche de carinho e proteção ao longo da vida. Sofre, rir, chora e se desespera conosco e com os nossos problemas. Nos surpreendem quando achamos que já sabemos tudo delas. Somos sempre os seus bebês. Os mais bonitos do mundo. Nos machucam para ensinar o caminho do bem e se mutilam quando alguém nos faz o mal. Tem como encontrar nas lojas algo que nem a essência humana ainda conseguiu desvendar?

Era junho de 1994, Copa do Mundo dos Estados Unidos. O Brasil fervia na busca pelo tetracampeonato. Fitas verdes e amarelas enfeitavam as ruas sempre a cada jogo. Era época das famosas luvinhas da vitória, que cobriam apenas os dedos indicador e médio com as cores do Brasil. Eu estava na casa dos meus exatos 9 anos de idade. Costumava usar uma camisa verde e amarela nesses dias e outra branca com estrelas azuis e vermelhas e com o cachorrinho mascote da Copa. Nem chegava a acompanhar com precisão os jogos. A minha animação era ver a gritaria na rua, as comemorações nos bares e restaurantes a cada gol e as passeatas recheadas de bandeiras ao término de mais uma etapa.

Naquela época, comecei a sair de casa com os amigos seguindo os conselhos da minha mãe. Os amigos que me acompanhavam, Adriano e Eusélio, eram meus vizinhos. Geralmente saíamos à tardinha, depois de tomar banho e nos perfumar todo. Até parecia que íamos nos encontrar com várias garotas. Nós percorríamos vários pontos da cidade. Andávamos por estradas de terra, ruas que não tínhamos o costume de passar com freqüência, casas de farinha abandonadas e tudo era sempre uma descoberta. Chegamos a penetrar em eventos de escolas, festas de aniversário de algum amigo de Adriano sem sermos convidado. Um dia quando percebi estávamos explorando a vegetação dos muros do hospital.

Nossa aventura tinha um destino novo da cidade a cada dia e sempre terminava na casa da minha avó por volta das 6h da tarde. Já havia se tornado um ritual. Todo dia naquelas horas já estávamos prontos para caminhar. Contudo, naquele momento de Copa, o clima estava pesado na cidade. O fluxo de carro havia se intensificado e as comemorações eram imprevisíveis e até agressivas. A pedido da minha mãe, nossos passeios foram encurtados em meia-hora nesse período, horário em que os jogos eram transmitidos. Porém, certa vez, algo fugiu ao nosso controle.

Saímos de casa como de costume. Percorremos os lugares que havíamos escolhidos para aquele dia, na certeza que teríamos que retornar cedo. No entanto, o passeio foi se esticando e fomos descobrindo novos lugares, querendo ir sempre mais a fundo. Já era noite quando atravessamos a rua de trás da casa da minha avó. Não queríamos terminar o passeio daquele dia ali. A cidade estava em festa com mais uma vitória do Brasil. Assim, seguimos na direção da igreja matriz. Nossa intenção era percorrer outros caminhos, mas paramos lá e resolvemos explorar as escadarias. Subíamos um degrau e saltávamos para a rua. Depois dois degraus, três, quatro, até nos aproximar do último e saltar já a uma altura considerável. Essa brincadeira durou algum tempo e quando percebemos, já havíamos extrapolado o limite de voltar para casa. Deixamos a igreja e pegamos o rumo de casa.

Ainda na praça da igreja nos encontramos com uma amiga da minha mãe que nos informou que ela estava desesperada atrás de mim. Aceleramos os passos e quando chegamos na esquina de um beco da rua da minha avó, avistamos uma grande multidão reunida ao fim. Adriano me perguntou sobre o que teria acontecido e eu em tom de brincadeira respondi: -“é minha mãe atrás de mim”. Surpresa foi a minha quando chegamos ao fim do beco e vi minha mãe falando desesperada, porém um pouco aliviada, no meio de toda aquela gente que olhava pra mim como se eu acabasse de ser resgatado de um prédio em chamas.

Realmente tinha sido minha mãe a responsável por todo aquele fuzuê na rua. Eu só a ouvia me perguntar onde eu tinha me enfiado, enquanto olhava assustado. Ela já tinha rodado várias ruas, batido na porta de várias pessoas, procurado a polícia e solicitado carro para sair atrás de mim seja onde fosse. E para aumentar o terrorismo, alguém dizia ter visto crianças que tinham sido atropeladas por perto. O desespero era evidente em seu rosto. Mas ao invés de uma surra, um abraço e um beijo acalmaram a situação.

Depois desse dia, meus passeios foram perdendo a força e acabaram alguns meses depois. Entretanto, descobri que nada pode ser maior para uma mãe do que se sentir impotente quando acredita que o filho está em perigo. Percebi que o melhor presente de uma mãe no dia das mães é ter a certeza que seu filho está bem, se alimentou direito, dormiu tranqüilo e continua respirando. Sua maior satisfação nesse dia é saber que por ser mãe, pode comemorá-lo. Então, o presente não é o que chega embrulhado no papel com várias fitas coloridas e um cartão em volta, mas as mãos que entregam e os braços que envolvem, mesmo que algum dia a tenham feito arrancar os cabelos e passar o maior vexame na rua. Afinal, o que é vexame a quem tenta proteger um ser com toda sua força, como se ainda o gerasse no mais íntimo do seu útero?

quinta-feira, 1 de maio de 2008

E Lá Vem o Trem...

Mais um novelo vai começar a se desmanchar a partir de segunda-feira na Rede Globo. Dessa vez trata-se de Ciranda de Pedra, de outro senil da teledramaturgia brasileira, Alcides Nogueira. A novela vem substituir a atual Desejo Proibido de Walter Negrão. Baseada na obra de Lygia Fagundes Telles, as chamadas de Ciranda de Pedra tentam mostrar que vem mais uma novidade no ar. Ou seja, Força de um Desejo parte 12. Desde 1999 quando a Globo descobriu que voltar a produzir novelas de época no horário das 18h era um bom negócio, ela vem investindo maciçamente.

Só para recapitular. Desde Força de um Desejo até agora foram 11 novelas de época que se alternaram quase que seguidamente no horário. Na lista temos Esplendor, O Cravo e a Rosa, A Padroeira, Chocolate com Pimenta, Cabocla, Alma Gêmea, Sinhá Moça, O Profeta, Eterna Magia e Desejo Proibido salvo algumas exceções como Estrela-Guia, Coração de Estudante, Sabor da Paixão, Agora é Que São Elas e Como Uma Onda. Agora vem mais outro “trunfo” da emissora. Uma estratégia que já vem sendo utilizada desde 2004 com Cabocla, o remake de tramas de épocas. Ah, mas Ciranda de Pedra não é um remake, é só uma “nova” adaptação do livro homônimo.

Não sou contra as novelas de época, pelo contrário, sou muito fã de obras que se passam em outros séculos, acredito que elas servem de resgate histórico e enriquecem o nosso conhecimento a respeito de costumes, hábitos e comportamentos. No entanto, não é isso que eu tenho encontrado nos folhetins ditos de época da Rede Globo. Só pra começar, todas as mocinhas que se apaixonam nas histórias são verdadeiras Mias Coluccis. Enfrentam os pais, saem de casa, moram sozinhas, se entregam aos amores. Não desmerecendo as jovens daquelas épocas, mas os pais exerciam uma pressão muito forte nas famílias para os filhos serem tão rebeldes como os que são representados. Tem dias que até parece um capítulo de Páginas da Vida ou da maçante Rebelde.

O encanto que dominava as verdadeiras novelas de época se perdeu no espaço. Bons tempos aqueles em que podíamos mergulhar na São Paulo de 30 com a simplória, porém rica Éramos Seis, podíamos vivenciar a força das espadas e a magia dos bruxos na França do século XVIII em Que Rei Sou Eu?, ou mesmo a escravatura e a vida pudica dos arraiais em Xica da Silva. Quando novela de época se tornou puramente negócio, sua essência desapareceu.

E agora vem o Vale a Pena Ver de Novo reprisando a chata e aguada Cabocla que mal disse fim. Se é pra repetir novelas das 6 que não fazem jus ao título do programa, é preferível reprisar clássicos como Mulheres de Areia, Barriga de Aluguel, Felicidade ou até mesmo sucessos recentes como Estrela-Guia e Esplendor. Coração de Estudante foi um segundo de lucidez de algum gênio do Projac.

O que falta de verdade para tornar novela de época, realmente novela de época é criatividade. E não acredito que seja possível a Benedito Ruy Barbosa, Alcides Nogueira, Walcyr Carrasco e tantos outros, buscar novidades a essa altura do campeonato. Só Walcyr Carrasco que escreveu a célebre Xica da Silva na extinta Manchete, se especializou em dramas à la Maria del Barrio na Globo, e ainda consegue gabarito quando escreves absurdos que distorcem a filosofia espírita como Alma Gêmea.

Quando Desejo Proibido ia começar até me animei um pouco. Parecia ser uma história diferente com um autor que não tem muitas referências em tramas antigas. Mas bastou chegar na cena do trem no primeiro capítulo, quando Laurinha conhece o padre Miguel que já me remeti a Sinhá Moça, Cabocla, Chocolate com Pimenta e tantas outras. É incrível como o mesmo ganha sentido de novo, quando é mostrado numa nova roupagem.

Admiro muito os grandes autores como Benedito Ruy Barbosa, Manoel Carlos, Glória Perez, Gilberto Braga, Sílvio de Abreu, Aguinaldo Silva, o próprio Alcides Nogueira, mas eles já deram sua cota de contribuição para a teledramaturgia brasileira. É preciso surgir uma nova fase com nomes que marquem toda uma nova geração. O grupinho de autores da Globo precisa urgentemente passar por uma faxina. Abrir as portas para as novas mentes, como já vem sendo feito com João Emanuel Carneiro, que inovou em Da Cor Do Pecado de forma simples e já conseguiu espaço no horário nobre. Espero que não seja o mesmo resultado da sua segunda e inóspita investida Cobras & Lagartos.

É uma tarefa difícil e nem todos os novatos conseguem se dar bem. A estreante Andréa Maltarolli tenta fazer algo diferente mexendo pra aqui e pra lá na insossa Beleza Pura, que de beleza não tem nada. O jeito, enquanto a galera não muda, é continuar não esperando muito do que vai começar. Contudo, acreditando que Alcides Nogueira foi autor de sucessos como as minisséries JK e Um Só Coração ao lado de Maria Adelaide Amaral, é possível que saia alguma coisa decente a partir de segunda-feira. É só esperar e conferir a estréia de Ciranda de Pedra. Mas se eu encontrar logo no primeiro capítulo algum futuro casal que se conhecem numa viagem de trem, desligo a TV na mesma hora.