quinta-feira, 29 de novembro de 2007

A Mente Por Trás Da Emoção

Uma garota corre pela praia de braços abertos e seu namorado a persegue sorrindo. Um rapaz abre uma lata de cerveja e comemora com os amigos sua conquista no esporte. E aquele cachorro que salva o seu dono e ganha o dia? Pois é, todos esses momentos podem ser apenas traços do dia-a-dia de qualquer pessoa, mas podem também ser cenas de um filme, novela ou seriado. Há um detalhe, no entanto, que muitos não param para se atinar. Por trás de toda a produção, personagens, diretores há um texto, alguém que pensou e idealizou tudo o que se vê. Esse é o roteirista.

Nos Estados Unidos a greve dos roteiristas colocou pelo menos um pouco em evidência a carreira desses profissionais. Há algum tempo venho desejando escrever algo sobre isso, mas o tempo e os compromissos me impediram de fazê-lo. Contudo, ainda quero manifestar meu pensamento tendo em vista a relevância do assunto para mim.

Escrever e imaginar situações, fantasiar, vivê-las no papel e na mente são algumas das emoções dessa profissão tão solitária. E solitária por dois motivos. Primeiro porque a arte de escrever é por si só solitária, embora alguns roteiristas optem pela colaboração e parceria com outros, na hora de pôr as idéias no papel é um encontro consigo mesmo. E segundo porque a profissão de roteirista ainda não tem o merecido valor que ela deveria ter.

Quando se produz um filme, um seriado ou algo do gênero o nome de destaque não é o do roteirista, quem brilha é o diretor. É totalmente aceitável e merecido o trabalho do diretor, foi ele quem deu vida e buscou o melhor de si para transformar aquela história agradável ao público. Entretanto, esquecem que sem o trabalho daquele que escreveu todos os passos que o diretor devia tomar não haveria honra alguma. Não seria possível destacar o trabalho dos dois com a mesma importância? De quem é o filme afinal, de quem escreveu ou de quem dirigiu? Muitas vezes, quando o próprio roteirista não produz o filme também, ele passa a ser de quem dirigiu.

No Brasil o papel do roteirista só ganha grande ênfase nas produções das telenovelas. O autor de novelas é sem dúvida aquele que detém o grande estágio de um profissional dessa área. Talvez pela longa jornada que é manter uma novela no ar ele seja tão reconhecido. O mesmo não acontece com autores de sitcons e filmes brasileiros. E ainda sendo a única referência em termos de sucesso profissional, o espaço da telenovela é bastante fechado. A Rede Globo que controla a grande produção da teledramaturgia brasileira mantém um núcleo em torno de dez autores fixos alternados nos três horários de exibição da casa. Mas nos bastidores escondem-se cerca de 200 roteiristas com trabalhos secundários, engavetados e congelados à espera de uma aprovação quase que irreal de sua sinopse.

A nova janela que se abre do outro lado do muro parece caminhar na mesma direção. A Rede Record trabalha com autores que estavam engavetados na Rede Globo e já são reconhecidos tanto no trabalho como no financeiro. Tiago Santiago, autor de novelas como Escrava Isaura e Prova de Amor já recebe o mesmo que o consagrado Gilberto Braga da Globo. Contudo, uma nova ninhada de roteiristas entrarão na emissora e terão que se preparar para o frio do novo congelador.

Apoio a iniciativa dos roteiristas americanos que lutam por uma fatia mais do que justa das vendas dos DVDs dos filmes e dos seriados, um grande mercado que se abre mais a cada dia. Quem se dedica em ficar horas intermináveis diante do computador escrevendo, vivendo, mergulhando e fugindo do mundo merece uma atenção mais especial. Afinal, nós que escrevemos, escrevemos porque gostamos, escrevemos porque queremos compartilhar nossa visão de mundo com as pessoas e tentar quem sabe mudar um pouco a concepção que a sociedade faz dele. Abrir os olhos para uma nova realidade e fazer sonhar, imaginar, planejar e desejar estar em um lugar melhor, onde tudo seja possível. E só assim, através das teclas do computador, uma letra se junta a outra e consegue levar esperança, brotar emoções e transformar o que parecia fantasia na mais pura realidade. Porque se uma criança passar por um mendigo ao término de um filme e o olhar diferente, já fizemos a nossa parte.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Poeira na Janela

Quando somos crianças desejamos ficar em casa e passar o maior tempo do mundo brincando com os amigos. Na adolescência os papos e as conquistas dominam os espaços e as idéias de cada um. E talvez só na casa dos vinte comece a surgir uma leve preocupação com o amanhã. Estou falando de futuro? Não exatamente. Falo de educação e responsabilidade. E educação no Brasil tem sido meio complicado. Tanto o ensino como as estruturas físicas estão debilitadas. Se quando crianças temos a opção de ficar em casa e brincar com os amigos ou ir para a escola, os estudantes das escolas públicas de Inhapi em Alagoas, Nossa Senhora do Livramento no Mato Grosso e Tarumirim em Minas Gerais não tem nem o direito de escolher.

Em reportagem ao Fantástico há algumas semanas, foi mostrado a precária situação em que se encontravam várias escolas públicas brasileiras, onde a falta de um prédio digno e decente forçava professores e alunos a improvisarem uma sala de aula em palhoças e pastagens de bovinos, sem dispor sequer de uma porta que pudesse evitar a entrada do rebanho e conseqüentemente a destruição do material escolar. Os repasses de verba do governo são altíssimos, mas parecem não atingir e alcançar seus objetivos propostos, o fundo da educação desaparece no espaço e as escolas e as crianças se deparam sempre com a mesma e dura realidade.

Se a nossa educação pública já é deficiente por natureza, com uma educação básica e fundamental que não consegue atender a todas as necessidades dos estudantes, um ensino médio que não corresponde às expectativas de um pré-vestibulando e muito menos prepara jovens para o mercado de trabalho, agora as instalações dos ambientes escolares é mais um motivo de preocupação e até chacota, como é possível um país que busca o desenvolvimento econômico e social não ser capaz de suprir o alicerce desse progresso, as condições mínimas para se buscar o processo de aprendizado?

Inevitavelmente, somos vítimas do sistema, “e isso não pode”, como diria a doutora Lorca. É uma realidade um tanto contraditória. Enquanto estudantes crescem querendo até fugir da escola, reservando a ela as piores horas do dia e torcendo para que acabe logo, outras crianças como Valdirene da Conceição de Inhapi daria tudo para poder usufruir um espaço digno e minimamente dividido por turmas. É preciso se espelhar nos exemplos de quem sonha com um futuro próspero e enxerga nas escolas a porta ou até a janela para isso. Quando será que deixaremos de nos utilizar de políticas assistencialistas e vamos buscar melhorar a base de tudo? Somente uma educação básica fortalecida pode mudar a sinopse dessa novela brasileira. E enquanto lápis e papel tivermos nas mãos é possível encaminhar os próximos capítulos ao seu desenlace feliz.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Um Mergulho no Amanhã

Outro dia enquanto aguardava minha vez de ser atendido em um consultório de oftalmologia, entraram duas crianças com seus pais e fiquei observando os quatro. Eram dois meninos, tinham 4 e 6 anos mais ou menos. Ao contrário de muitas crianças que por essa idade costumam ficar inquietas em consultórios, eles pareciam calmos e tranqüilos. A mãe era quem estava mais inquieta porque a autenticação do filho mais novo para a consulta não estava sendo confirmada. O pai pouco menos se importava com isso. E eles permaneciam ali, olhando quietos o ambiente, a tv, com poucas e vagas conversas. O fato me chamou a atenção por me fazer mergulhar na imaginação e me ver em alguns anos casado, com meus filhos e pensando se eu e Ingridy seríamos parecidos com a realidade daquele casal.

O meu desejo de ser pai sempre foi mais alto do que mesmo o casamento. Minha namorada e eu sempre brincamos sobre esse futuro que pode chegar, idealizamos os nomes dos nossos futuros filhos e até chegamos a querer ditar seus comportamentos, como se fosse possível. Mas, pelo menos sonhar e tentar enxergar como nosso futuro de casados será é razoavelmente possível. E isso me instigou com a presença daquele casal no consultório. Imaginei se eu seria descansado com relação a determinados tipos de assuntos familiares que as mulheres geralmente são mais dedicadas. Achei estranho a presença dos dois no consultório com os filhos, quando a quantidade de mães que levam os filhos ao médico é superior aos pais no Brasil. Mas logo percebi que o pai também ia se consultar.

Fiquei observando o comportamento tanto dos meninos quanto dos pais. Em alguns momentos realmente me vi abraçando e brincando com um dos meninos. Vi também Ingridy reclamando com a recepcionista sobre a autenticação e querendo ir reclamar na sede do convênio logo após sair dali. Parecia mesmo que o futuro tinha aberto uma lacuna e estava se desvendando diante de mim. E claro, dois meninos como sempre imaginei. Faltava só a menina. E Ingridy faria de tudo para tê-la. Tudo bem. Eu também depois de algum tempo venho desejando muito uma garotinha. E minha análise continuava. Buscava entender o comportamento deles e comparar com algum traço tanto meu como de Ingridy.

De repente o mais velho pergunta ao pai a hora. Talvez para testar o filho ou para mostrar que ele já conhece as horas, o pai o mostrou o relógio do consultório e mandou ele mesmo olhar a hora. Para surpresa geral, o garoto se confundiu e não soube dizer a hora, porém o mais novo se virou no mesmo momento para o relógio e informou exatamente a hora. Aí já me carregou para uma outra visão. Me senti o garotinho que perdia do mais novo algo tão simples. E por que isso? Sou filho único por parte de mãe e o excesso de amor e cuidado talvez tenha me travado em algum momento da vida aliado a uma imensa timidez. Mas aí também analiso. Os filhos mais novos geralmente são mais espertos e conseguem desenrolar mais rápido do que os mais velhos. Talvez por aprenderem valores morais ao mesmo tempo em que o mais velho aprende, e por não serem tão superprotegidos e detentores de todas as atenções.

Quando a mulher engravida é motivo de festa para toda a família. O primeiro filho, o início de uma outra etapa na vida de muita gente. É a mulher que vira mãe, a mãe que vira avó. É realmente uma fase de muitas mudanças e alegrias. E quando a criança nasce então, todas as atenções são voltadas para ela. É um “nenhenhem" pra cá e pra lá o tempo todo. A criança se torna a mais bonita, a única notícia da família para os amigos e as únicas fotos que enchem os álbuns e enchem também a paciência dos vizinhos. E até a chegada de outro, a criança carrega essas regalias, que podem ou não ser benéficas para ela. Daí quando chega o segundo, o terceiro, a empolgação acaba, perde a graça e a criança cresce querendo buscar dos familiares essas atenções que não tiveram. Talvez por isso se dediquem em aprender mais rápido e mostrem que são até capazes de superar o irmão, naquelas famosas rivalidades entre irmãos.

E assim trouxe minha imaginação de volta à minha realidade no consultório. Percebi que embora parecidos ou supostamente idealizados como meu futuro, aquele casal não era a minha realidade, ao menos por enquanto. E mesmo que um dia chegue em algum consultório com minha mulher e meus filhos, talvez não seja nada parecido com o que imaginei. Quem sabe ao invés de quietos, as crianças sejam impulsivas e barulhentas? Ou eu seja o preocupado e Ingridy a relaxada. Quem sabe as crianças sejam cobertas de mimos de um pai tão babão e minha mulher tente controlar esses vícios sem sucesso? Quem sabe? Quem sabe? É, o futuro é escuro. Não posso fantasiá-lo e idealizar algo que pode nunca acontecer. Só espero ser feliz e conseguir constituir uma família alegre, saudável e cheia de disposição e poder acompanhar cada passo dessa etapa da vida que tanto arquiteto. Afinal, quem decide se na história da educação e participação do crescimento dos filhos o pai será o mais ausente somos nós, e se depender de mim Ingridy terá um forte concorrente.

Do Outro Lado

Aliar a vivência da teoria da universidade com o exercício da prática foi a razão da visita que fiz outro dia com alguns amigos aos estúdios da TV Itararé aqui de Campina Grande. Foi possível analisar o processo de produção de um telejornal desde a construção das pautas até o “boa noite” dos apresentadores. Quis então descrever aqui para os curiosos e interessados no assunto como é a vida dos jornalistas por trás das câmeras.

Para começar o corre-corre diário, os produtores checam com freqüência na redação os e-mails que as assessorias de imprensa enviam para eles. Começa então a discagem para todas as centrais policiais em busca de alguma ocorrência que renda pauta. Com informações nas mãos, é preciso analisar o que é notícia e dentro do que é notícia, o que será mais importante para o telespectador. Decidido as matérias que entrarão no ar, é hora de colher o máximo de informações para a elaboração das pautas que serão entregues aos repórteres.

Os repórteres recebem as pautas e se dirigem aos locais indicados junto com o cinegrafista. Enquanto isso na redação, a verificação dos B.O.s (Boletins de Ocorrência) nas centrais de polícia continua. Novas pautas podem surgir a qualquer momento. Quando uma matéria chega o editor de texto pega as informações sobre entrevistados, passagens, locação e organiza no roteiro do telejornal que será entregue aos apresentadores mais tarde.

As imagens capturadas pelo cinegrafista são entregues aos responsáveis pela edição de imagens. Lá, eles montam a matéria de acordo com o que o repórter indicou na gravação do off (narração do repórter enquanto as imagens sobre a matéria passam). Organizam entrevistas, passagens e casam com as imagens e a narração do repórter.

Quando os apresentadores chegam aos estúdios passam o texto para analisar qualquer defeito e em seguida se preparam para a gravação da escalada (aquelas chamadas iniciais do jornal). Exercícios bocais e lidas repetidas no texto que passa no teleprompter (equipamento que fica na câmera e capta os textos que o apresentador ler) . Algumas chamadas são feitas ao vivo e outras gravadas. Ah, uma curiosidade que muitos não sabem. Quem olha de casa aqueles sérios e engravatados apresentadores, não imaginam que embaixo da bancada se encontram calças jeans e até pés descalços. É o lado bastidor do telejornal.

Telejornal no ar! Começa a maior atenção do diretor de tv quanto ao tempo e seqüência das câmeras. É preciso ligar as câmeras certas em cada hora que o apresentador se virar e saber o momento exato de jogar as matérias no ar. Ele também informa ao cinegrafista quando a matéria está próxima de terminar e este avisa os apresentadores.

A galera que controla os créditos do telejornal também deve ficar atenta. Todos os créditos das matérias são colocados no ar na hora em que a matéria entra, seguindo o roteiro que o editor de texto encaminhou. Por isso o editor de texto deve ter bastante cuidado para não trocar os nomes ou inverter a ordem de escala dos créditos.

Com o telejornal no ar a equipe de produção não descansa, continuam produzindo, buscando outras informações e atentos a uma notícia de última hora. Os apresentadores passam o texto a cada intervalo comercial e ainda aproveitam para relaxarem um pouquinho brincando um com o outro, que o diga Polion, que na sua postura profissional, descola brincadeiras e desconcentra a amiga da bancada bem mais do que a simpática e jovem Luciellen.

Com o término do telejornal os produtores continuam atentos para possíveis pautas para o dia seguinte. Os apresentadores sorriem aliviados o término de mais um dia de trabalho, certos que aquelas brincadeiras que tiraram fora do ar serão guardadas a sete chaves e esquecidas nos bastidores, mas sorte que existem estudantes como eu que se preocupam em levar a verdade ao público doa a quem doer. E assim chega ao fim mais um dia de trabalho nos estúdios de telejornalismo da TV Itararé. E o fim da nossa visita também. Espero que essa descrição tenha sido útil de alguma forma para alguém mesmo que seja para matar a curiosidade.

sábado, 17 de novembro de 2007

Cinco Minutos a Mais

Quão inevitável é a sensação de desprezo e distanciamento que o ser humano é capaz de ter antes mesmo de se conhecer a outra face da laranja. É certo que vivemos em "sociedade" e que temos direitos e deveres a serem cumpridos, mas um dos direitos que talvez não chegamos a decidir foi a necessidade de isolamento de determinadas camadas sociais. Desde muito antes da construção de uma sociedade civil, o isolamento de pessoas portadoras de algum mal que poderiam prejudicar os demais foi a principal causa do preconceito e aversão ao estranho. Leprosos eram isolados, loucos presos e os condenados iam mais adiante, eram sacrificados em praça pública.

Estudar isso na escola, ler em livros ou ver na televisão não abala mais a nossa sociedade, estamos acostumados com o erro e nem questionamos. Porém, ao se deparar cara a cara com a realidade que ainda persiste é realmente perturbador. Não é possível existir situações semelhantes ao Império Romano em pleno século XXI. Pois acreditem, existe! Fazendo uma visita a uma clínica psiquiátrica para um trabalho da universidade, me deparei com a situação de maior isolamento social a que uma pessoa pode se encontrar. Aglomerados, vagando, curiosos, temerosos, alegres, distantes. É um mundo à parte que se esconde por trás de uma porta. Uma porta! Apenas uma porta separa a realidade da fantasia. Como segregamos as pessoas ao nosso interesse e as isolamos sem direito ao que temos por natureza, a liberdade?

Será que sabemos ao certo o que é perigoso aos nossos olhos e o que não nos faz mal? É óbvio que alguém que sofre de algum tipo de transtorno mental merece cuidados especiais, mas será que esses cuidados devem necessariamente ser através do completo isolamento? Vivemos em um mundo que achamos o certo, um portador desses transtornos também vive em um mundo que considera o certo, e qual de nós podemos julgar e opinar sobre o verdadeiro mundo, se é que existe um verdadeiro? E se existir quem garante que não estamos no errado? O "louco", como dizem, pode enxergar muito mais do que vemos e encontrar a sabedoria da vida bem antes de nós. É uma linha tênue que separa a verdade da fantasia, mas se vivemos uma fantasia diariamente e aceitamos, por que não podemos entender quem vive sua própria realidade?

E eis que vem o famoso preconceito. E aí não vou tirar o corpo fora. Somos criados e acostumados a viver nessa separação social, que sentimos medo ao que nos parece estranho. A primeira impressão que tive ao entrar na clínica e ver aquelas pessoas isoladas do mundo, sonhando em ir embora, idealizando histórias que nunca existiram, foi de espanto mesmo. Imaginei como somos frágeis e imperfeitos. Estamos na sociedade que descarta seus funcionários. Se temos algum defeito que não corresponde às suas necessidades somos jogados fora e condenados ao esquecimento. E esse preconceito afeta a própria família que não sabe como lidar com a situação e termina buscando as piores alternativas por falta de esclarecimento.

Durante a visita à clínica, conheci entre tantos internos uma garota na ala feminina que me chamou a atenção. Seu jeito espontâneo de falar e sua identificação conosco nos chamou a atenção. Mas um detalhe era mais gritante do que todos, sua juventude. Em meio a tantos casos mais avançados em termos de idade, ela parecia querer fugir da sua realidade com toda a energia que detinha. Tremia sem parar e demonstrava uma enorme alegria com a nossa presença, como alguém que recebe visita em casa de surpresa e não sabe o que faz para agradar. Acho que escolhi esse tema entre tantos propostos pela professora, pela identificação que já tinha presenciado com minha tia. Ali era como conhecer o território que ela pisou por muito tempo. Além de reviver a história, estaria entendendo e tentando compreender a vida vista pelos olhos e pela mente dela.

Foram poucos os minutos que permaneci lá dentro com Lea e Isabeli, mas foram intensas as experiências que vivemos. O valor de um abraço ganha outro sentido, o contato com as pessoas se tornam momentos de curiosidade e descobertas. Se somos capazes de mergulhar de coração nesse mundo que parece estranho aos nossos olhos, podemos desfrutar e desvendar os mistérios que a vida nos esconde e conhecer e apreciar a vida através de outros valores, pelos olhos de quem consegue ver o que não percebemos e podem compreender muito mais do que imaginamos. Afinal, se todos temos nossos cinco minutos de insanidade, o que cinco minutos a mais fariam de diferença?

domingo, 11 de novembro de 2007

E As Luzes Se Acendem...

E os sinos já soam, as luzes já anunciam, o cheiro já está no ar! As músicas, canções de corais, trenós e árvores natalinas. É ele! O Natal se aproxima!! E com ele todas as nossas forças e energias. Momentos de avaliação do ano que se acaba, agradecimento pela partilha de mais um ano e muitos presentes e panetones. Família reunida, paz, harmonia e alegria. Sempre cheio de amor e magia, ele soa sua chegada. Vamos buscar a paz e a felicidade. Acreditar que tudo é possível, que somos capazes de superar as dificuldades e vencer. Natal é isso! É superação, sonhos, desejos, conquistas. Natal simboliza família, e família simboliza união, e união simboliza alegria. Vamos reviver todos os momentos bons e torcer pela realização de muitos outros ainda. Viva a paz, viva a vida! É Natal!!! Jingle Bells!! Jingle Bells!! Ho!! Ho!! Ho!!


sábado, 10 de novembro de 2007

O Futuro no Pretérito

Felicidade! E existe palavra mais abrangente e almejada? Estamos sempre em busca dela. Podemos dizer que camufladamente é ela o nosso objetivo diário. E o que vem a ser felicidade? Um estudante de ensino médio talvez diga que é passar no vestibular. Algum funcionário de uma firma afirme que seria uma mudança de cargo. A uma mulher estéril poderia ser a possibilidade de engravidar. Para algum jovem casal seria simplesmente o casamento. Mas é possível afirmar que esses desejos são mesmo felicidade? Poderíamos entender que a felicidade então depende de pessoa a pessoa ou que ela pode ser o fruto dos desejos e dos sonhos de cada um. Mas felicidade não é isso.

Quantas vezes não olhamos para trás e dissemos: “como eu era feliz e não sabia”. Se felicidade são fragmentos, momentos, instantes, então estamos sendo felizes a todo tempo e não percebemos. Felicidade pode ser uma risada gostosa com os amigos; uma situação inusitada com a namorada; uma viagem de fim de ano; aquele passeio ao sítio do amigo; e a fuga de um rebanho de vacas. Felicidade é simplesmente um sorriso vago que mostra a expressão da saudade, da lembrança, do momento. O que atribuímos à palavra felicidade é na verdade o que a sociedade impõe. Queremos o carro do ano, um emprego que nos dê boa instabilidade e dinheiro porque isso é felicidade, ou no mínimo o passaporte para ela.

Esquecemos que dinheiro não traz felicidade. Pode ser um clichê, mas estamos tão acostumados ao consumismo que só enxergamos a felicidade como o resultado da posse e do poder de adquirir tudo o que muitas vezes nem necessitamos. Se entramos nesse pensamento, nenhum pobre é feliz ou vive sua felicidade de sonhos e desejos que nunca se realizarão. Quando na verdade a felicidade pode estar muito mais presente nesse meio do que em volta de todo o luxo do mundo. O que é felicidade na favela e o que é felicidade nos condomínios de luxo? Mundos diferentes, sonhos parecidos, realidades desiguais. Nem assim é possível afirmar que os moradores do condomínio são mais felizes do que os da favela.

Quando chegamos ao mundo somos apenas um ser, uma nova criatura que busca apoio, carinho e proteção. Não somos tão diferentes dos filhotes de uma vaca, uma cadela, uma leoa ou uma girafa. O que muda depois são as impressões que adquirimos com o convívio entre os seres humanos e principalmente a sociedade. A partir do momento que abrimos os olhos, passamos a enxergar o mundo em que vivemos e as pessoas que estão em volta. Se somos bem educados, bem amados e já nascemos respirando o luxo, passamos a ter uma noção de mundo e dos valores que representam as coisas em volta com um olhar, mas se não somos bem amados e nascemos com o cheiro do esgoto na cara, a vida ganha outro significado. A linha da felicidade é a mesma a cada um, mas a sociedade diz que apenas o dinheiro irá fazer todos serem felizes.

Erroneamente, acreditamos nas palavras da sociedade e caímos na tentação do consumismo, outra faceta do capitalismo. Por valores materiais pessoas morrem todos os dias. Pessoas que buscam em um tênis, em um celular, a felicidade que a sociedade prega. Estamos perdendo a direção do mundo e caindo cada vez mais no abismo. Somos obrigados a fazer o que não gostamos, a ouvir o que não devemos, a viver sem sentido. E não pensamos. É preciso tirar a máscara que encobre a vida dos robôs sociais. A vida está aí. E nós estamos nela para ser feliz, ajudar uns aos outros e buscar a nossa própria felicidade, mas não a felicidade externa, e sim a interna. Devemos trabalhar para ser feliz e não para enriquecer o sistema e destruir aos poucos nossa saúde e nossa própria vida com os estresses diários. Somos livres. Por que não paramos um pouco de querer o futuro e deixamos que ele chegue tranqüilamente?

Desde que nascemos começamos uma maratona que só acaba no leito de morte, vivemos alucinadamente em busca do futuro e não paramos para olhar o presente. Procuramos a felicidade futura, aquela que acreditamos existir. O problema é quando ela chega e descobrimos que já não somos tão felizes, que a verdadeira felicidade já passou e nem notamos, estava lá atrás conosco o tempo todo, mas não vimos porque estávamos ocupados olhando para o futuro.

“...e aquela saudade dos bons momentos, daqueles amigos inesquecíveis e das risadas companheiras que não se esvaem no tempo e ainda assim roem o coração e a mente quando as folhas do tempo às trazem de volta...”

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Aqueles Momentos

Um ano! Há exato um ano ia embora do nosso convívio uma guerreira. Chegava ao fim uma história de amor e dor, deixando saudade nos corações de quem ficava. Há exato um ano nós perdíamos Lúcia, minha tia que sempre esteve em meu coração e que algumas vezes até não percebi. Eu não poderia deixar de escrever algumas linhas para prestar minha homenagem nesse novo espaço que criei. Porém, ao contrário do que fiz ano passado quando produzi uma mensagem na missa de mês falando sobre a dor que sentíamos com sua perda, agora quero fazer diferente, quero exultar sua vida, tentar relembrar seus momentos bons e felizes e buscar passar isso aos leitores.

Tia, quero te dizer que hoje não é um dia de tristeza, pois sei que está sorrindo como sempre fez. E seu sorriso... ah, seu sorriso! Enchia de alegria quem estava em volta. E alguém sabe como esse sorriso cativante surgiu? Ah, deixe eu me lembrar. Eu não era nascido, mas eu conheço a história de uma jovem sonhadora que se apaixonou perdidamente por um rapaz da sua cidade. É, eles viveram uma longa história de amor, muitos anos de namoro, cartas, promessas. Mesmo tendo que trabalhar em São Paulo, ele não deixava de garantir seu retorno e alimentar a promessa do casamento.

Tá reconhecendo a história, tia? Acho que sim. Então deve lembrar o que aconteceu depois. É, pois é, o jovem retornou à cidade como prometido após alguns anos e cumpriu com sua palavra. Ele casou com a jovem. Foi o dia mais feliz da vida dela. Ah, depois eles foram morar em São Paulo. E lá viveram o ano mais feliz de suas vidas. Os detalhes eu não posso contar porque não estava lá, mas sei que lembra de todos. Das músicas, dos passeios à cidade de Aparecida, das pizzas e dos famosos sucos de laranja. Quanta história em um ano, não? E depois vem o inesperado, a gravidez, um filho.

A história que se segue daí poderia ter tomado vários rumos, mas o destino, Deus, o acaso, o direcionou para seu desenlace. A perca do filho, sua doença, não devem ser encarados como um problema e o fim de uma história. Nós estamos nesse mundo com uma missão e muitas vezes para cumpri-la, temos que nos submeter a determinadas situações, provas que talvez tenhamos solicitado antes mesmo de chegar. E se uma parte da sua tarefa foi contribuir para a inspiração de um pequeno escritor pode ter certeza que já foi cumprida. É, ele bebe sem cessar da fonte de vida de uma guerreira. A dona daquele sorriso, daquela gargalhada. Ah, até posso senti-la sorrindo.

E dos momentos seguintes que pude presenciar da história dessa jovem, me lembro de muitos. Lembra quando eu chegava das novenas do padroeiro e te encontrava na porta de casa olhando quem passava? Pois é, você sempre me informava se vovó já havia chegado. E da bateria? Lembro de te ver tapar os ouvidos e abrir aquele sorriso. E quando eu me machucava com algo sempre ouvia de você “Ô, Samuelzinho, cuidado!” Agora lembrou! É, esses momentos são apenas trechos de um longo convívio que não se perde entre os espaços do tempo. Saudade? Ela estará sempre presente, mas se ainda derramar alguma lágrima será de alegria por reviver esses momentos e infelizmente só poder tê-los na mente.

Acredito que consegui cumprir minha missão de hoje. Já que não pode olhar aqui comigo o meu celeiro e sorrir ao meu lado, quero que receba toda a minha emoção e energia que te dedico hoje. A história da jovem seguirá comigo enquanto vida me houver para poder um dia quem sabe revelá-la ao mundo. Sim, porque se nossa vida é uma novela, a sua já ganhou o Troféu Imprensa. Agora sou eu quem abro aquele sorriso e me despeço aqui na certeza que sempre estará por perto, seja na inocência e na ingenuidade dos últimos anos, seja na alegria e exuberância da juventude. Porque hoje eu só queria te abraçar... e abraçar... e abraçar...

Samuelzinho

Minha mãe, minha avó e meus tios (Lúcia, Vilaneide, Auxiliadora e Dagmar)

sábado, 3 de novembro de 2007

O Círculo da Vida

Crescer, casar, ter filhos e constituir uma família. Parece ser o sonho de muita gente, principalmente de muitas garotas. Mas se administrar a nossa própria vida já é uma tarefa complicada, imagine então organizar uma vida a dois. Lembro de imaginar quando criança que casamento era coisa de gente adulta e que demoraria muito pra chegar. Mas a primeira lição para mergulhar nesse estágio, eu descobri semana passada no casamento da irmã da minha namorada. Quando a marcha nupcial soou na entrada da igreja e Edivânia entrou vestida de noiva, a idéia de matrimônio finalmente se concretizou na minha cabeça.

Parece estranho. A garota que eu conheci assistindo novela mexicana e tricotando no sofá com um sorriso ingênuo de menina, agora estava abrindo as portas para um novo mundo. Deixando de lado as brigas infantis e as mordomias da mamãe para viver sua própria vida. Aquele namoro que pude acompanhar ao longo de três anos tornava-se uma relação eterna, ao menos foi o que prometeram diante do padre.

E no cartório um dia antes, estavam eles, ansiosos e felizes pelo futuro que se desdobrava. Eu, junto de Ingridy, minha namorada, fomos as testemunhas desse momento, ao lado de Clécio e Elisângela. Pausa para algumas fotos. Fui o fotógrafo quase oficial. E logo mais sorrisos e registros de momentos únicos. Sem muitos discursos, estavam 50% casados. Agora, a oficialização na igreja esperava para esse grande futuro.

E eis que entrava Edivânia na igreja. Seu noivo Lucenildo, com um leve sorriso e uma firmeza no olhar, escondia a ansiedade e o nervosismo. O sorriso da noiva exultava sua satisfação e demonstrava seu estado interior. Eu, como fotógrafo quase oficial fazia a minha parte e não perdia nenhum momento... opa, exceto pela entrega da aliança do noivo, quando o filme da máquina acabou.

Ao lado de três outros noivos, o casamento seguiu seus requisitos e o grande momento ficava cada vez mais próximo. Finalmente ocorreu a troca das alianças e o casal estava unido assim pelos laços do amor. Ué, mas cadê o beijo? Isso deve ser só em novela mesmo. Bom, assim eles partiram para assinar as papeladas da igreja. E logo em seguida os momentos dos flashes. Agora não era eu. O fotógrafo oficial os guiou numa sessão de fotos em seu estúdio.

Ah, naturalmente seguimos agora para a festa e onde tem festa tem comida. Mas fotógrafo só come depois de trabalhar. Tudo bem, eu espero. A festa foi no sítio Bonito, onde o casal iria residir a partir dali. A mãe da noiva que não pode ir à igreja a esperava na porta. O encontro das duas foi emocionante. Embora, algumas mães desejem ver suas filhas casadas e vivendo suas vidas, a separação sempre é cheia de grandes recordações e muita emoção. Flash! Aí fui eu!

E depois de fotos, comida, churrasco, bebidas, presentes, o dia chegava ao fim. O primeiro dia de uma nova história. O terreiro e a calçada pareciam já sentir a presença dos novos moradores. Agora era hora de criar suas próprias responsabilidades e experimentar o lado adulto da vida. Realmente parece que o casamento sela a divisão entre a juventude e o mundo adulto. É preciso estar bastante certo para saber enfrentar todos os desafios que nos esperam a partir dali. Afinal, novas criaturas estarão por vir e com elas a renovação dos laços que juramos naquele dia que parecia ser o mais importante da vida até a chegada deles. E assim continua o círculo da vida, numa eterna volta que fará da noiva de hoje, a mãe que se despede da filha amanhã.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Um Dia Especial

Há datas que significam muito para a gente por conter algum significado importante, como o nosso aniversário, o natal, o reveillon. Mas existem outras ocasiões que nos tocam sem nenhum motivo aparente. E assim se deu a minha identificação pelo dia de finados. Lembro fortemente das vezes que fui ao cemitério visitar familiares que nunca cheguei a conhecer, e sempre me animava por poder estar lá.

Não sei explicar o fascínio que encontrava em acender velas e caminhar pelo cemitério olhando os outros túmulos. Lembro de estar me curando de uma catapora aos nove anos e querer ainda assim ir ao cemitério, só não fui porque minha mãe não deixou. Talvez as experiências raras de ir a um cemitério pudessem explicar um pouco. Alguns tios meus geralmente iam a minha cidade prestar seus sentimentos e com eles minhas primas. Juntos saíamos pelas alamedas tentando encontrar os mais bonitos túmulos e as mais enigmáticas covas. Na inocência que escondia mais uma aventura do que sentimentos de saudade e lembranças.

O Dia de Finados sempre foi uma rotina lá em casa. Os preparativos da limpeza e pintura dos túmulos começavam uma semana antes. As coroas eram organizadas e levadas ao cemitério na manhã do mesmo dia. Eu sempre queria ser o responsável por pregá-las em cima dos túmulos, mas minha mãe não deixava, e algumas vezes, quando acordava cedo e conseguia ir com minha avó, ficava só olhando o menino que fixava as coroas. Era realmente um dia especial.

À tarde, umas 4 horas, todos nos arrumávamos e íamos ao cemitério novo, como é conhecido até hoje. Lá, a visita era à mãe da minha avó. Acendíamos velas e depois minha mãe, minha avó e meus tios rezavam enquanto eu ia “passear”. Pra mim, podia não ser o cemitério mais bonito que já havia entrado, mas escondia seus mistérios, e minha visita lá só acontecia uma vez ao ano.

À noite era a vez de irmos ao cemitério velho. Lá, havia mais familiares, inclusive Cicinho, meu tio que havia morrido ainda criança em um acidente e que mexe até hoje com os sentimentos da minha mãe. E o ritual continuava. Velas acesas e orações. Meu olhar se encontrava com outros enigmas. Tentava entender esse mistério da morte. Fixava meu olhar para toda aquela estrutura e para as gavetas onde se encontravam os corpos e não conseguia entender a inexplicável viagem que poderia ter levado embora aquelas pessoas. Porém, como criança que era, esquecia um pouco esses pensamentos e saia desbravando os outros túmulos.

Hoje, passados alguns anos das minhas peripécias infantis, o dia de finados ganhou um outro significado pra mim. Os passeios às alamedas tornaram-se um encontro com a saudade. As velas acesas refletem uma lembrança de momentos felizes. E encontro nos túmulos não mais apenas parentes desconhecidos, mas meu avô, meu pai e minha tia Lúcia. As orações que antes apenas ouvia minha família rezar, hoje as elaboro sozinho, movido por um sentimento de eterna saudade e memórias que nem o tempo será capaz de apagar.

Contudo, apesar das mudanças, uma incógnita persiste até hoje. Qual o destino daqueles que partem e nunca mais retornam? Será que eles entendem também o significado desse dia? Onde estão realmente? Conseguem receber as energias que as pessoas direcionam à elas nesse dia ou tudo é apenas uma simbologia e o resultado da saudade e da angústia dos que ficam aqui? Essas perguntas nem o tempo poderá me responder. Porém, a certeza da importância do dia de finados ficou mais acesa em mim hoje. O que poderia ser um interesse sem muitas explicações pode ter ficado sem resposta no passado, mas a necessidade e o desejo de estar no cemitério nesse dia permanecem. Embora com idéias e pensamentos diferentes, o Dia de Finados será sempre um dia especial em minha vida.