E eis que a coroa do BBB cai finalmente sobre uma mulher que não seja necessitada ou esteja fora dos padrões de beleza. Maria, nome simples, que lembra a mãe de Jesus, na verdade estaria mais para Madalena. Nome, inclusive que fez questão de manter em sigilo durante toda sua estadia na casa. Os vídeos de ensaios sensuais e até concursos digamos, um pouco extravagante, nunca foram mencionados em qualquer site da emissora enquanto o programa estava no ar. Afinal, como enfatizou Bial, Maria era uma das protagonistas, e assim sendo o misto de mulher ingênua e ousada era o que agradava aos interesses dos produtores e iludia os telespectadores. Ah, qualquer mulher pode ser assim, morosa e libertina, sem deixar de ser autêntica. Mas aquelas atitudes dela não eram impulsos naturais de uma mulher inocente, mas resultado de sua experiência nos BBBs da vida. Até anteontem cheguei a pensar que o programa estava tentando de tudo para tornar Daniel o campeão, mas será que no fundo não era apenas uma máscara para o prêmio acabar caindo finalmente numa mulher sedutora, livre dos estereótipos de todos os vencedores até então?
Não sou contra a vitória de Maria. Até torci por ela. Só me senti um pouco traído por descobrir só agora, e pelo próprio site da emissora, o passado devasso da felizarda. A notícia correu o país antes, eu que infortunadamente por buscar notícias do programa apenas no site da Globo não associei granizo ao orvalho. Ah, ela não era tão boba assim. Será que teria torcido por ela com essa informação em mãos? Agora passado o espanto, creio que sim. Entendi porque MauMau, que virou Luís Maurício depois ninguém sabe porquê, se afastou da menina quando retornou à casa. Não atiro nenhuma pedra em quem expõe sua figura na internet, disputa sua beleza em concursos e se exibe em cliques eróticos, o próprio site da emissora faz o mesmo com cada brother eliminado na página do Paparazzo. Só que a autenticidade da participante foi apenas até a esquina, já que as atitudes de determinados comportamentos não revelavam de fato a todos quem era aquela jovem. Mas desde quando o programa se dedica em evidenciar os verdadeiros perfis dos participantes? O mais importante é criar personagens e jogar traços caricatos para apontar o lado mais vil e apelativo do ser humano em rede nacional.
Algo semelhante ao que se encontra no texto Dr. Fausto da Silva, do dramaturgo paraibano Paulo Pontes, um grande nome da televisão brasileira, precursor da série A Grande Família e do premiado espetáculo Gota d'Água em parceria com Chico Buarque. Em Dr. Fausto da Silva somos apresentados aos bastidores de um programa de TV e a toda escória que habita os corredores de uma emissora, capaz de vender a própria alma pela audiência. Fausto da Silva seria uma espécie de Luiz Datena, Ratinho, Márcia Goldschmidt, Roberto Cabrini e por que não, Pedro Bial? Já que seu discurso incitante na véspera da final do BBB noticiando que um novo milionário sairia do programa no dia seguinte, lembra muito o discurso apelativo do Dr. Fausto anunciando que dentro de instantes deceparia uma parte de si diante dos telespectadores. O texto foi escrito em 1972, embora não pareça diferir muito dos dias atuais.
O fundamental em programas como Brasil Urgente, Casos de Família, Programa do Ratinho ou Big Brother Brasil é explorar o lado mais miserável do ser humano e poder tripudiar em cima de sua própria desgraça. A vitória de Maria não mostra que o público está mudando e abandonando certos preconceitos. O prêmio acabou indo a outra "ingênua", já que o verbo "mariar" foi o figurino que melhor lhe caiu bem desde sua chegada e se revelou de bastante interesse à produção. E só ficou mesmo na casa quem o Brasil queria ver e não causava repulsa. A explicação para Ariadna ser a primeira eliminada? Como se questionou Bial, "quem é o burro agora?". Não sei porque senti a necessidade de procurar um espelho na hora, dá um retoque no cabelo talvez, como Rodrigão. Bom, a tese de doutorado sobre o porquê de apenas homens ganharem o BBB - com duas exceções - acaba de perder fundamento, ou talvez ganhe outro a mais. O público gosta do barraco, mas quer a vitória do bonzinho, ao mesmo tempo em que também quer se ver, com suas fraquezas, medos, falta de escrúpulos e pudor. E Maria reunia a ingenuidade do bom moço e o atrevimento velado de cada um. E com sua caridade aos anseios dos telespectadores, faturou a bolada dessa inusitada edição. Dica pro próximo aspirante a vencedor.
quinta-feira, 31 de março de 2011
sexta-feira, 25 de março de 2011
Antes da alvorada
Luz apagada no quarto. Apenas o brilho do computador ilumina o ambiente. Os incensos de cravo e sete ervas queimando no parapeito interno da janela. A noite abafada não permite que o ar circule. A cama preparada para dormir. O canto dos galos à distância. Latidos de cachorros do outro lado da avenida. Nuvens em formato de golfinhos percorrem o céu. O silêncio! E o rangido da cadeira giratória. Cada coisa em seu lugar. A mochila encostada à parede. A coberta da cama no tapete. O tênis no canto do chão. A toalha molhada estendida na porta. Vou à janela. Os carros estacionados. As luzes apagadas nos apartamentos. O murmúrio da noite. A cidade dorme. O cheiro do repouso percorrendo as narinas. Finalmente uma brisa em meu rosto. A portaria, o estacionamento. O mesmo ponto de vista. A mesma altitude. O mesmo anseio: pular! Pular não! Voar!
Aqui dentro o vazio, a quietude, o abandono. Na cabeça o medo, a dúvida, a insegurança. Lá fora, o leão descansa. Em poucas horas o agito, a mudança, a perseguição. A cama a me agarrar, o ensaio daquela peça, o filme a assistir no dvd, o shampoo que acabou, o comprimido a engolir, a conta da padaria, as leituras a apresentar. Aniversários vêm. Aniversários vão. Promessas, sonhos, fantasias, olho gordo, simpatias. A motivação que chega. A coragem que leva embora. O tédio! Barulho lá embaixo. O portão se abre. Um carro em movimento. Mais alguém a partilhar as horas. No Twitter já não há quem circule. Aos poucos tudo se acomoda. E pelo quarto só os incensos continuam a se reduzir desenhando sua fumaça pelo ar.
Já não há o que pensar. Fome, sono, insônia e ninguém a desdenhar. Nenhuma mensagem no e-mail, nenhum comentário no blog, nenhuma notícia que não conheça, nenhum amigo online, nenhum vento na cortina. Só os incensos e eu! O nevoeiro inebriante que sai das hastes e percorre os contornos da janela, encontrando a saída e sumindo na cegueira da noite. Aquela chama vermelha libera uma torre de cinzas que se espalha até o chão. Agora somos só eu e ela, preenchendo o meu vácuo como a bruma de um atrevido cigarro ou um derivado da cannabis sativa adentrando os pulmões e entorpecendo os sentidos.
Aspiro o seu aroma e a jacente melancolia se irrompe numa intensa gargalhada. Não consigo reprimir. Posso acordar as paredes, os apartamentos, os e-mails, as nuvens e o vento. Amanhã terei uma multa na porta e uma dor latejante no juízo. Tudo é divertido. Sopro mais cinzas e abocanho as labaredas. Quero mergulhar no misticismo da noite. O vazio é preenchido e o medo se traveste de ousadia. Tudo posso antes dessa alvorada. Sorrir, xingar, bater, pular, cheirar, saltar, voar. E por fim com a queda dos últimos resíduos, também caio e salto exausto no reconforto da cama.
Aqui dentro o vazio, a quietude, o abandono. Na cabeça o medo, a dúvida, a insegurança. Lá fora, o leão descansa. Em poucas horas o agito, a mudança, a perseguição. A cama a me agarrar, o ensaio daquela peça, o filme a assistir no dvd, o shampoo que acabou, o comprimido a engolir, a conta da padaria, as leituras a apresentar. Aniversários vêm. Aniversários vão. Promessas, sonhos, fantasias, olho gordo, simpatias. A motivação que chega. A coragem que leva embora. O tédio! Barulho lá embaixo. O portão se abre. Um carro em movimento. Mais alguém a partilhar as horas. No Twitter já não há quem circule. Aos poucos tudo se acomoda. E pelo quarto só os incensos continuam a se reduzir desenhando sua fumaça pelo ar.
Já não há o que pensar. Fome, sono, insônia e ninguém a desdenhar. Nenhuma mensagem no e-mail, nenhum comentário no blog, nenhuma notícia que não conheça, nenhum amigo online, nenhum vento na cortina. Só os incensos e eu! O nevoeiro inebriante que sai das hastes e percorre os contornos da janela, encontrando a saída e sumindo na cegueira da noite. Aquela chama vermelha libera uma torre de cinzas que se espalha até o chão. Agora somos só eu e ela, preenchendo o meu vácuo como a bruma de um atrevido cigarro ou um derivado da cannabis sativa adentrando os pulmões e entorpecendo os sentidos.
Aspiro o seu aroma e a jacente melancolia se irrompe numa intensa gargalhada. Não consigo reprimir. Posso acordar as paredes, os apartamentos, os e-mails, as nuvens e o vento. Amanhã terei uma multa na porta e uma dor latejante no juízo. Tudo é divertido. Sopro mais cinzas e abocanho as labaredas. Quero mergulhar no misticismo da noite. O vazio é preenchido e o medo se traveste de ousadia. Tudo posso antes dessa alvorada. Sorrir, xingar, bater, pular, cheirar, saltar, voar. E por fim com a queda dos últimos resíduos, também caio e salto exausto no reconforto da cama.
quinta-feira, 24 de março de 2011
Temporada de selos

A blogosfera está numa verdadeira chuva de selos. E olha que com a quantidade de blogs que existem no momento, é surpreendente que tamanha demanda chegue cada dia mais em tantos blogs. Recebo dessa vez o selo Seu Blog é Música para os Meus Ouvidos. Quem me indicou foi novamente a querida Luciene Pinheiro, dona do Lu Pinheiro, uma prima, amiga e leitora assíduo do Celeiro. Mais uma vez agradeço sua presença sempre constante aqui nesse espaço revolto, e claro, o seu gesto ao escolhê-lo para mais essa premiação, principalmente por um prêmio que expressa em seu próprio nome o significado e o valor ao recebê-lo. Fico muito satisfeito em saber que minhas inquietações e devaneios conseguem penetrar ao menos um pouquinho na psique de alguém.
E como o selo não pode parar, vou indicá-lo a outros celeiros de valores culturais, artísticos e que desempenham importante papel na difusão do conhecimento livre pela internet. Dessa vez vou tentar contemplar alguns blogs que não foram selecionados em meu último selo, com exceção do blog de Nayara Belmonte, que apesar de afirmar não gostar de receber nenhum selo, não posso deixar de incluí-lo nessa indicação, e do Dispirocada de Suellen Maria, que reclamou comigo a falta de selo em seu espaço, e mesmo depois de ter lhe conferido duas premiações, ainda não postou nenhuma em seu blog. Vamos lá, mais uma lembrancinha para vocês. E juntem-se aos demais.
01. @jhmedeiros
02. , digo velado, a boca no travesseiro, o hálito...
03. .condução
04. As Cartas de Chico Xavier
05. Dispirocada
06. Empowerment 21
07. Escritos Tortos
08. Somos Espíritos
09. Tareb Edson
O último blog não há atualização há quase 5 anos, mas achei que deveria incluí-lo aqui, já que foi através das crônicas de seu blog que me inspirei a criar o Celeiro. Uma homenagem a Tareb nessa comemoração dos 100 posts do Celeiro do Sam.
domingo, 20 de março de 2011
Centésimo desatino
Parecia ontem. Não! Já faz quase 4 anos. Essa seria mais uma simples postagem não fosse o detalhe que ela é a publicação número 100 do Celeiro. Noventa e nove ideias, opiniões, sonhos, recordações e momentos hilariantes da vida desse cara aqui estão espalhados nesse espaço. O ano era 2007, outubro. A intenção: criar um blog para escrever crônicas sobre o ponto de vista do meu dia-a-dia maluco no terceiro ano da faculdade de Comunicação Social. Primeiro devo agradecer ao talentoso fotógrafo, Tareb Edson, que por perda de contato não sei se enveredou para outra profissão, de modo que pra mim ficou a imagem do fotógrafo. Foi por descobrir o seu blog, as crônicas bem-humoradas e as reflexões que fazia que me inspirei a criar minha própria página. Tanto que até hoje ainda tenho o link dele, mesmo não havendo atualizações há cinco anos. Naquela época, dava para abrir uma página e se admirar com o que encontrava, hoje de cada dez perfis no Twitter, oito tem um link de um blog, parece que já vem no pacote.
Meu primeiro texto não poderia ser outro, foi sobre o processo que me levou ao estágio do Sebrae durante a Feira do Empreendedor. O primeiro comentário que recebi foi da minha amiga Kárem, em 9 de outubro, um dia depois de publicar a primeira história. Bem, extraindo um trecho do seu enorme a carinhoso comentário, ela escreveu: "É um cantinho bastante aconchegante e que promete muitas risadas e fortes emoções!!". Não sei se consegui corresponder a profecia, mas analisando alguns dos 318 comentários que constam no Celeiro até então, pude perceber que ao menos alguns sorrisos fui capaz de arrancar. Com o passar dos anos, o Celeiro foi se modificando, ganhando modernos layouts, novas aventuras em cada publicação e obtendo reconhecimento ao mesmo tempo em que seu dono se descobria, crescia e compartilhava com ele suas conquistas e frustrações.
Hoje, 20 de março de 2011, três anos, cinco meses e doze dias após a primeira postagem entrar no espaço cibernético e o nome Celeiro do Sam começar a ser difundido, eu chego ao meu centésimo texto. Poderia já ter escrito duzentos, quinhentos ou mil histórias, ou poderia estar na quarenta, na setenta. Não! Estou na cem! Só escrevo quando sinto necessidade de externar alguma inquietação ou relatar outras peripécias da vida desse jovem irrequieto aqui, embora essa necessidade tenha sido bem mais constante nos últimos tempos. Não por acaso, ou totalmente porventura, atinjo essa meta numa data curiosa. Ontem foi aniversário da minha avó. Um ser que sempre irradia luz à minha vida. Temos uma ligação tão intensa que aos que acreditam na reencarnação, há quem diga que esse moço aqui deveria ter vivido de perto toda a febre da beatlemania, pois eu poderia ter sido o filho mais novo da minha avó que morreu atropelado no auge de Ticket to Ride.
Curiosamente, na mesma data de hoje em 1969, John Lennon se casou com Yoko Ono no território britânico de Gibraltar. Aos olhos de "todo" beatlemaníaco, ela seria a grande vilã da separação da banda e por isso condenada a eterna expiação de seus pecados. Já não parto desse pressuposto. Quem conhece a história do quarteto a fundo, sabe que o fim dos Beatles seria inevitável com ou sem Yoko. Tudo bem, ela pode ter antecipado um pouquinho, mas foi o descomunal amor da vida de John Lennon. As loucuras que esse cara fazia com ela eram inimagináveis. A canção The Ballad of John and Yoko narra esses momentos dos dois, que mais pareciam uma brincadeira com o mundo. Não sei se isso é babaquice de fã, mas se meu ídolo está feliz, devo embarcar junto na felicidade dele. E a contrapartida se mostrou significativa com uma década de memoráveis composições em sua carreira solo.
Mas 20 de março também costuma ser o dia do equinócio de outono no hemisfério sul. E a partir de amanhã, na astrologia, o sol entra no signo de áries e o ano astrológico tem início. Áries tem como elemento o fogo e entre suas características, a coragem, o pioneirismo, o entusiasmo, e também a impaciência, a impulsividade e a raiva. Bem, e eu sou ariano. Então o sol entra na minha casa a partir de amanhã e todas as minhas manifestações estarão mais acentuadas, ou não, não domino a lógica da astrologia. Mas aprendi pesquisando que áries é regido por Marte, planeta que tem o poder da conquista e da busca pela realização pessoal. Uma dica para investir nesse território? Um ariano que cruzou meu caminho em dois momentos foi Junior Lima. Na infância e adolescência ao embalar minhas aventuras ao lado de sua irmã Sandy, quando ainda não era devassa, e ano passado ao ler um texto meu no Celeiro sobre o seriado da dupla e indicá-lo em seu Twitter. Meu blog ficou mais popular que o clipe de Stefhany Absoluta. Com a diferença que continuei a pé.
Quem quase nasce ariano também é o autor de novelas Manoel Carlos. Mais uma semana e ele herdaria todo o temperamento impulsivo dessa espécie. O que talvez interferisse na construção de suas Helenas e de suas narrativas cheias de sensibilidade e romantismo, palavra-chave no pisciano. Mas seguindo os acontecimentos de 20 de março que marcam a data da minha centésima postagem, em 1815 Napoleão entrou em Paris depois de escapar de seu exílio na ilha de Elba dando início ao Governo dos Cem Dias; Albert Einstein publicou sua teria geral da relatividade em 1916; os EUA iniciaram a invasão ao Iraque em 2003; e em 2006 o Museu da Língua Portuguesa foi inaugurado na Estação da Luz em São Paulo. Tudo isso não tem nada a ver comigo, nem com o Celeiro, mas achei que se encaixaria no contexto de alguma forma. Afinal, aqui tem espaço suficiente para tantas proezas, que não estaria ainda nem próximo de encerrar o primeiro ato. Tenho bastante disposição para escrever e muitos delírios ainda na alma que precisam se transformar em palavras e ideias absurdas. Que maravilha um ser pensante e a loucura de se julgar normal em meio a lucidez da insanidade. E aí quem sabe o Celeiro seguirá uma outra profecia e será imenso do tamanho do amor que um dia alguém ousou sentir por mim.
Meu primeiro texto não poderia ser outro, foi sobre o processo que me levou ao estágio do Sebrae durante a Feira do Empreendedor. O primeiro comentário que recebi foi da minha amiga Kárem, em 9 de outubro, um dia depois de publicar a primeira história. Bem, extraindo um trecho do seu enorme a carinhoso comentário, ela escreveu: "É um cantinho bastante aconchegante e que promete muitas risadas e fortes emoções!!". Não sei se consegui corresponder a profecia, mas analisando alguns dos 318 comentários que constam no Celeiro até então, pude perceber que ao menos alguns sorrisos fui capaz de arrancar. Com o passar dos anos, o Celeiro foi se modificando, ganhando modernos layouts, novas aventuras em cada publicação e obtendo reconhecimento ao mesmo tempo em que seu dono se descobria, crescia e compartilhava com ele suas conquistas e frustrações.
Hoje, 20 de março de 2011, três anos, cinco meses e doze dias após a primeira postagem entrar no espaço cibernético e o nome Celeiro do Sam começar a ser difundido, eu chego ao meu centésimo texto. Poderia já ter escrito duzentos, quinhentos ou mil histórias, ou poderia estar na quarenta, na setenta. Não! Estou na cem! Só escrevo quando sinto necessidade de externar alguma inquietação ou relatar outras peripécias da vida desse jovem irrequieto aqui, embora essa necessidade tenha sido bem mais constante nos últimos tempos. Não por acaso, ou totalmente porventura, atinjo essa meta numa data curiosa. Ontem foi aniversário da minha avó. Um ser que sempre irradia luz à minha vida. Temos uma ligação tão intensa que aos que acreditam na reencarnação, há quem diga que esse moço aqui deveria ter vivido de perto toda a febre da beatlemania, pois eu poderia ter sido o filho mais novo da minha avó que morreu atropelado no auge de Ticket to Ride.
Curiosamente, na mesma data de hoje em 1969, John Lennon se casou com Yoko Ono no território britânico de Gibraltar. Aos olhos de "todo" beatlemaníaco, ela seria a grande vilã da separação da banda e por isso condenada a eterna expiação de seus pecados. Já não parto desse pressuposto. Quem conhece a história do quarteto a fundo, sabe que o fim dos Beatles seria inevitável com ou sem Yoko. Tudo bem, ela pode ter antecipado um pouquinho, mas foi o descomunal amor da vida de John Lennon. As loucuras que esse cara fazia com ela eram inimagináveis. A canção The Ballad of John and Yoko narra esses momentos dos dois, que mais pareciam uma brincadeira com o mundo. Não sei se isso é babaquice de fã, mas se meu ídolo está feliz, devo embarcar junto na felicidade dele. E a contrapartida se mostrou significativa com uma década de memoráveis composições em sua carreira solo.
Mas 20 de março também costuma ser o dia do equinócio de outono no hemisfério sul. E a partir de amanhã, na astrologia, o sol entra no signo de áries e o ano astrológico tem início. Áries tem como elemento o fogo e entre suas características, a coragem, o pioneirismo, o entusiasmo, e também a impaciência, a impulsividade e a raiva. Bem, e eu sou ariano. Então o sol entra na minha casa a partir de amanhã e todas as minhas manifestações estarão mais acentuadas, ou não, não domino a lógica da astrologia. Mas aprendi pesquisando que áries é regido por Marte, planeta que tem o poder da conquista e da busca pela realização pessoal. Uma dica para investir nesse território? Um ariano que cruzou meu caminho em dois momentos foi Junior Lima. Na infância e adolescência ao embalar minhas aventuras ao lado de sua irmã Sandy, quando ainda não era devassa, e ano passado ao ler um texto meu no Celeiro sobre o seriado da dupla e indicá-lo em seu Twitter. Meu blog ficou mais popular que o clipe de Stefhany Absoluta. Com a diferença que continuei a pé.
Quem quase nasce ariano também é o autor de novelas Manoel Carlos. Mais uma semana e ele herdaria todo o temperamento impulsivo dessa espécie. O que talvez interferisse na construção de suas Helenas e de suas narrativas cheias de sensibilidade e romantismo, palavra-chave no pisciano. Mas seguindo os acontecimentos de 20 de março que marcam a data da minha centésima postagem, em 1815 Napoleão entrou em Paris depois de escapar de seu exílio na ilha de Elba dando início ao Governo dos Cem Dias; Albert Einstein publicou sua teria geral da relatividade em 1916; os EUA iniciaram a invasão ao Iraque em 2003; e em 2006 o Museu da Língua Portuguesa foi inaugurado na Estação da Luz em São Paulo. Tudo isso não tem nada a ver comigo, nem com o Celeiro, mas achei que se encaixaria no contexto de alguma forma. Afinal, aqui tem espaço suficiente para tantas proezas, que não estaria ainda nem próximo de encerrar o primeiro ato. Tenho bastante disposição para escrever e muitos delírios ainda na alma que precisam se transformar em palavras e ideias absurdas. Que maravilha um ser pensante e a loucura de se julgar normal em meio a lucidez da insanidade. E aí quem sabe o Celeiro seguirá uma outra profecia e será imenso do tamanho do amor que um dia alguém ousou sentir por mim.
sábado, 19 de março de 2011
Alimente o meu ego
Sempre queremos mais! Queremos ser alguém. Queremos ser vistos. Queremos mostrar. Queremos ser! De todas as características da personalidade humana, o ego é aquela capaz de abrir uma fenda na estrada tornando a passagem inacessível. Somos escravos do espelho, e não apenas o de vidro, mas o narcisismo presente em cada um em diferentes intensidades. Sentimos a necessidade do elogio alheio, do incentivo amigo, do carinho do próximo. Como sabemos, alguns afagos faz bem ao ego. Eis o intrépido ego! Nada de mau buscar nos olhos dos outros o mérito por algo realizado. É uma carência humana a busca constante pela própria superação, desejar ser relevante na vida de alguém. Um arquiteto já disse uma vez em uma palestra que até um tijolo quer ser mais do que ele é, afinal, nenhum tijolo foi feito pra ser apenas um tijolo. E onde podemos chegar, quantos edifícios seremos capazes de erguer, vai depender do quanto deixamos que esse traço da nossa personalidade determine o nosso alicerce.
Se o ser humano busca sua importância no mundo, seu nome reconhecido ou até imortalizado, por quê não?, nada mais vinculado ao ego do que a fama. O reconhecimento público que pode ir do porteiro do prédio a um monge do outro lado do planeta, pode gerar mais estrago que uma úlcera no duodeno. Não é difícil ganhar notoriedade nos dias de hoje e conquistar um número razoável de admiradores pelo mundo. É só analisar a quantidade de celebridades instantâneas que surgiram do nada e ganharam fama nos últimos anos, muitos motivados apenas pela perda do anonimato, sem qualquer conteúdo para acrescentar ou oferecer ao público. O Big Brother Brasil é a mais influente fábrica desse artigo, porque transforma anônimos em celebridades a cada ano. Há uma necessidade alucinante pelo reconhecimento, ludibriado pelo glamour que essa exposição representa na sociedade e na vida de cada um.
E por que cada vez mais pessoas partem em busca desse estrelato? É só a fama, a perseguição dos paparazzis e a participação nas colunas de fofocas? De certo não. Depois de assistir ao filme de outra celebridade autogerada na mídia, Bruna Surfistinha, pude refletir melhor acerca da situação. Não é a notabilidade que faz tantos buscar a fama. É a necessidade de ser amado, de se sentir querido e idolatrado por inúmeras pessoas. Inacreditável concluir que um dos maus do novo século é a falta de afeto ou a demonstração dele. Num universo cada dia mais individualista, é paradoxo pensar que o alimento do ego está na doação alheia. Eis aí mais outra ilusão desse status: a adoração gerada pela calorosa multidão de fãs não cobre a carência afetiva que cada um necessita. Só neutraliza temporariamente os efeitos da escassez de estima; e quando esse indivíduo cai no esquecimento da frenética mídia, entra novamente na briga de ego e dessa vez com a agravante da desvalorização pessoal.
Como então conseguir ser alguém e manter a posição depois de ser exposto ao julgamento do mundo? Quem sabe não se afogando no rio de Narciso. O controle do ego é tão complicado e impreciso quanto o fluxo aéreo. Quem trabalha com arte, principalmente atores, bailarinos, cantores, pintores, escritores, entre outros, estão sempre expondo sua imagem e precisam saber dosar os tipos de críticas que recebem, os elogios ou até mesmo a ausência total deles. Quem atua, dança, canta, pinta, escreve, não quer apenas fazer o seu trabalho, quer que o outro se aproxime e descreva as sensações que aquela arte despertou. E até estar preparado e solidificado o suficiente para encarar todos os tipos de reação, um irrisório comentário pode destruir a autoestima, levar à depressão e pôr fim numa carreira promissora.
Talvez por esse despreparo muitos jovens não saibam o que fazer do futuro e se percam nas opiniões alheias. Eu mesmo. Há momentos que me pergunto por que ninguém me enxerga. Se Geisy Arruda virou história por usar minissaia na faculdade, Felipe Neto e PC Siqueira foram pra TV depois que viraram celebridade na internet, outra ganha um CrossFox por colocar um clipe no YouTube, e até um gato que parece com o vilão da série Harry Potter ganha os jornais, por que também não posso? Há instantes que queria poder erguer um caminhão com o dedo mindinho pro mundo inteiro se voltar pra mim. Ser alguém no mundo a todo custo! Mas será que vale? Será que já não sou? A popularidade não equivale necessariamente a relevância de alguém no mundo. O que queremos de fato é ser admirado pelo que fazemos, e será que a quantidade de pessoas que irá perceber esse valor é mais importante do que as reações sinceras e os sentimentos que brotarão de quem nos cerca? Provavelmente não, se nosso eu estiver em harmonia. Do contrário alguma voz vai continuar sussurrando no ouvido que é preciso sempre subir mais e mais, alcançar o Empire State, o Burj Khalifa*, o Everest e não sossegar enquanto metade do planeta não conseguir perceber e aplaudir a presença magnífica daquele ser dotado de uma necessidade exaustiva de satisfazer a sua larva interna vulcânica chamada ego.
* Maior arranha-céu do mundo com 828 metros localizado em Dubai.
Se o ser humano busca sua importância no mundo, seu nome reconhecido ou até imortalizado, por quê não?, nada mais vinculado ao ego do que a fama. O reconhecimento público que pode ir do porteiro do prédio a um monge do outro lado do planeta, pode gerar mais estrago que uma úlcera no duodeno. Não é difícil ganhar notoriedade nos dias de hoje e conquistar um número razoável de admiradores pelo mundo. É só analisar a quantidade de celebridades instantâneas que surgiram do nada e ganharam fama nos últimos anos, muitos motivados apenas pela perda do anonimato, sem qualquer conteúdo para acrescentar ou oferecer ao público. O Big Brother Brasil é a mais influente fábrica desse artigo, porque transforma anônimos em celebridades a cada ano. Há uma necessidade alucinante pelo reconhecimento, ludibriado pelo glamour que essa exposição representa na sociedade e na vida de cada um.
E por que cada vez mais pessoas partem em busca desse estrelato? É só a fama, a perseguição dos paparazzis e a participação nas colunas de fofocas? De certo não. Depois de assistir ao filme de outra celebridade autogerada na mídia, Bruna Surfistinha, pude refletir melhor acerca da situação. Não é a notabilidade que faz tantos buscar a fama. É a necessidade de ser amado, de se sentir querido e idolatrado por inúmeras pessoas. Inacreditável concluir que um dos maus do novo século é a falta de afeto ou a demonstração dele. Num universo cada dia mais individualista, é paradoxo pensar que o alimento do ego está na doação alheia. Eis aí mais outra ilusão desse status: a adoração gerada pela calorosa multidão de fãs não cobre a carência afetiva que cada um necessita. Só neutraliza temporariamente os efeitos da escassez de estima; e quando esse indivíduo cai no esquecimento da frenética mídia, entra novamente na briga de ego e dessa vez com a agravante da desvalorização pessoal.
Como então conseguir ser alguém e manter a posição depois de ser exposto ao julgamento do mundo? Quem sabe não se afogando no rio de Narciso. O controle do ego é tão complicado e impreciso quanto o fluxo aéreo. Quem trabalha com arte, principalmente atores, bailarinos, cantores, pintores, escritores, entre outros, estão sempre expondo sua imagem e precisam saber dosar os tipos de críticas que recebem, os elogios ou até mesmo a ausência total deles. Quem atua, dança, canta, pinta, escreve, não quer apenas fazer o seu trabalho, quer que o outro se aproxime e descreva as sensações que aquela arte despertou. E até estar preparado e solidificado o suficiente para encarar todos os tipos de reação, um irrisório comentário pode destruir a autoestima, levar à depressão e pôr fim numa carreira promissora.
Talvez por esse despreparo muitos jovens não saibam o que fazer do futuro e se percam nas opiniões alheias. Eu mesmo. Há momentos que me pergunto por que ninguém me enxerga. Se Geisy Arruda virou história por usar minissaia na faculdade, Felipe Neto e PC Siqueira foram pra TV depois que viraram celebridade na internet, outra ganha um CrossFox por colocar um clipe no YouTube, e até um gato que parece com o vilão da série Harry Potter ganha os jornais, por que também não posso? Há instantes que queria poder erguer um caminhão com o dedo mindinho pro mundo inteiro se voltar pra mim. Ser alguém no mundo a todo custo! Mas será que vale? Será que já não sou? A popularidade não equivale necessariamente a relevância de alguém no mundo. O que queremos de fato é ser admirado pelo que fazemos, e será que a quantidade de pessoas que irá perceber esse valor é mais importante do que as reações sinceras e os sentimentos que brotarão de quem nos cerca? Provavelmente não, se nosso eu estiver em harmonia. Do contrário alguma voz vai continuar sussurrando no ouvido que é preciso sempre subir mais e mais, alcançar o Empire State, o Burj Khalifa*, o Everest e não sossegar enquanto metade do planeta não conseguir perceber e aplaudir a presença magnífica daquele ser dotado de uma necessidade exaustiva de satisfazer a sua larva interna vulcânica chamada ego.
* Maior arranha-céu do mundo com 828 metros localizado em Dubai.
quarta-feira, 16 de março de 2011
Tráfego transcendental
Sempre me questionei a respeito da existência humana no mundo. Por que eu sou eu e não outra pessoa? O que me faz ser quem sou? Um planeta vagando na imensidão do espaço, com seres pensantes, capazes de construir mundos de novas invenções a cada ciclo e uma sede insaciável pelo desconhecido. Qual nossa influência e verdadeira importância nessa área delimitada à nossa sobrevivência? Como descendente original de uma família católica, ir às missas aos domingos fazia parte das incubências de um praticante devoto do catolicismo, ao menos no compromisso presencial. Porém, esse hábito nunca significou nada além de uma obrigação de minha parte, sem me vincular às crenças que ouvia repetidamente a cada celebração, a ponto de chegar em um estágio de quase ateísmo na adolescência. Essa fase chegou ao fim quando vislumbrei algo "tangível" e concreto, fundamentado na razão e não apenas em crenças infundadas e distorcidas ao longo dos tempos. O espiritismo me abriu as portas para o inexplicável, para o que representamos genuinamente, e o melhor, para os caminhos que enfrentaremos após essa travessia.
Não é minha intenção converter nenhum católico, evangélico, budista, pagão ou ateu ao espiritismo. Quero apenas divagar alguns pensamentos acerca da existência humana e ousar lançar uma fagulha de incerteza na mente de algum leitor. Um dos principais, senão o maior princípio que permeia o espiritismo é a crença na reencarnação da alma. Algo completamente abominado para os cristãos católicos ou protestantes. Ora, muito comodismo usufruir de uma única vida e depois alcançar a salvação divina ou o castigo sepulcral. Uma única vida é pouco para evoluir uma alma e determinar sua posição no "paraíso" ou no "inferno". Imaginem todas as provas que são necessárias ser alcançadas numa constante evolução espiritual, com tantos aprendizados, conhecimentos que numa única existência seria impossível de se atingir. Por isso o espírito retorna quantas vezes forem necessárias até conseguir se elevar espiritualmente. Escolhendo muitas vezes quais provas deseja se submeter em sua nova jornada.
Não é minha intenção converter nenhum católico, evangélico, budista, pagão ou ateu ao espiritismo. Quero apenas divagar alguns pensamentos acerca da existência humana e ousar lançar uma fagulha de incerteza na mente de algum leitor. Um dos principais, senão o maior princípio que permeia o espiritismo é a crença na reencarnação da alma. Algo completamente abominado para os cristãos católicos ou protestantes. Ora, muito comodismo usufruir de uma única vida e depois alcançar a salvação divina ou o castigo sepulcral. Uma única vida é pouco para evoluir uma alma e determinar sua posição no "paraíso" ou no "inferno". Imaginem todas as provas que são necessárias ser alcançadas numa constante evolução espiritual, com tantos aprendizados, conhecimentos que numa única existência seria impossível de se atingir. Por isso o espírito retorna quantas vezes forem necessárias até conseguir se elevar espiritualmente. Escolhendo muitas vezes quais provas deseja se submeter em sua nova jornada.
Alguém já se questionou o que poderia ter sido em uma existência anterior? Sempre há uma intuição que cada um carrega consigo como algo intrínseco sobre o que tenha cometido e que influencia até as determinadas atividades com que tenha familiaridade. Por isso vez por outra tenho conclusões excêntricas e até assustadores sobre o que realizei em outras situações. Já cheguei a pensar que fui um assassino e conheci as prisões de perto, ou que me dediquei a vidas desregradas, ao mesmo tempo em que me sinto ligado a mosteiros e poderia facilmente ter tido uma vida reclusa da sociedade, dedicada às orações e ao jejum. Bom, eu posso não ter a certeza do que fui no passado, mas o pequeno James Leininger, do estado da Louisiana nos EUA, hoje com 12 anos de idade, sabe desde seus 2 anos que o fascínio pelos aviões da Segunda Guerra Mundial não era apenas admiração, mas uma similaridade com os pilotos dos porta-aviões americanos, mais especificamente com o jovem piloto morto em combate em 1945 James M. Huston Jr.
A envolvente e enigmática história contada meticulosamente no livro A Volta, narra a saga alucinada dos pais de James, Bruce e Andrea Leininger, em busca de explicações para os estranhos pesadelos que passaram a fazer parte da rotina da família a partir de maio de 2000, quando a criança ainda contava com seus 2 anos de idade. Acompanhado dos pesadelos que envolviam fortes agitações durante o sono, com chutes e impressionantes gritos de socorro, o garoto passou a descrever com ardilosa precisão detalhes sobre os tipos de aviões que decolavam dos navios de guerra nos anos 40. Recordou o nome do homem, que seria ele mesmo, o qual se debatia em um avião em chamas em seus sonhos, e ainda o nome de um amigo Jack Larsen. Imagens de acidentes aéreos e muita bomba eram constantes entre seus desenhos. E suas lembranças não pararam por aí, mais três amigos foram lembrados e ganharam homenagem em sua coleção de bonecos. Quando questionado pelos pais o porquê de tais nomes, ele saiu com a inesperada resposta: "foram eles que me receberam quando cheguei ao céu".
Já tinha lido um livro da escritora americana Sarah Hinze, A Vida Antes da Vida, onde ela aborda a experiência de muitas crianças que conseguiam ainda nos primeiros anos recordar suas experiências em vidas passadas, mas nada tão envolvente quanto a narrativa da família Leininger. Aos poucos as peças do quebra-cabeça vão se encaixando, e aquilo que parecia um delírio de início, ganha força e evidências irrefutáveis de que o pequeno James era de fato a reencarnação do falecido piloto de guerra James M. Huston Jr. Em alguns anos de busca incessante, de contato com inúmeros veteranos de guerra e familiares de militares mortos, a família Leininger não havia mais como negar o incontestável. James com sua inocente maturidade, despejava diariamente de maneira natural fatos e informações inadmissíveis para uma criança de sua idade. Ele "reencontrou" a irmã de James Huston Jr, agora uma senhora com mais de 80 anos e a cumplicidade entre os dois era algo inexplicável. "Reviu" seus antigos companheiros de combate, e lamentou estarem tão envelhecidos. Seu caso chegou à TV, e acabou levando-os ao Japão e ao local onde o avião de James Huston havia caído no mar.
O fascinante no livro é mostrar através dos fatos como o espírito de um piloto da Segunda Guerra poderia habitar o corpo de uma criança mais de meia década depois. A ideia de reencarnação ficou tão evidente que convenceu muitos ex-combatentes, a irmã do falecido piloto e o próprio pai de James Leininger, um cético incorrigível e defensor de suas crenças religiosas. A história que daria tranquilamente um belo filme, chega ao fim quando o pequeno James "reencontra" o local de sua tragédia na outra vida e escuta de sua mãe que aquele homem embora tenha feito parte de suas lembranças por um longo tempo, havia chegado o momento de deixá-lo ir e seguir em frente. Com lágrimas nos olhos, James se despede dele e bate continência. Ou seja, apesar do garoto abrigar o espírito daquele ex-piloto, sua vida agora era outra, ele tinha uma nova família, outras missões a cumprir na sua escala evolutiva e precisava tocar o navio, agora como James Leininger e não mais como James M. Huston Jr. Tudo o que suas lembranças poderiam ter contribuído nessa nova empreitada chegara ao fim. Veteranos se reuniram, uma nova placa com os nomes dos soldados mortos que não haviam sido incluídos como baixa de guerra foi inaugurada, familiares tiveram acesso a registros até então desconhecidos sobre o destino dos militares mortos, e Anne Huston pôde finalmente receber o seu irmão que a deixou esperando por mais de 60 anos. Nos novos desenhos de James agora a tranquilidade, aviões sobrevoando pacificamente os céus e golfinhos mergulhando ao lado de navios, sem mais acidentes ou bombas. Assim como seus pesadelos, as memórias passadas foram se apagando e cedendo lugar ao que de fato ele era agora: apenas um garoto com mais uma vida cheia de desafios e metas a cumprir.
terça-feira, 15 de março de 2011
Sunshine Award
Mais um selo que chega até mim por intermédio da blogosfera. Dessa vez quem me indicou foi a amiga Luciene Pinheiro, proprietária do blog Lu Pinheiro. Agradeço a indicação por mais esse reconhecimento desse espaço que já virou sinônimo do fantástico mundo de Samuel. O Celeiro é para mim muito mais que um blog onde escrevo para alguns poucos leitores e recebo comentários. Aqui eu me sinto livre do fardo que carrego diariamente nas costas. Escrever um pouco daquilo que me persegue constantemente me alivia a caminhada, descansa o solado e sossega a alma. Não tenho como não dizer que me renovo também a cada postagem. Encontro a válvula que me mantém vivo e firme no propósito da minha jornada terrena. O Selo Prêmio Sunshine Award deve passar adiante e por isso indico os blogs a seguir que merecem o devido reconhecimento.
01. Ao Vento
02. De Acordo Com
03. Dispirocada
04. Divagante
05. Idiossincrasia
06. Juliny Barreto
07. Projeto Dr Dóidói
08. Salvem os Gatos
09. S.A.M.: Eterno Garoto
10. Simples Assim
11. Sonhos Literários
12. Tiago Carioca
01. Ao Vento
02. De Acordo Com
03. Dispirocada
04. Divagante
05. Idiossincrasia
06. Juliny Barreto
07. Projeto Dr Dóidói
08. Salvem os Gatos
09. S.A.M.: Eterno Garoto
10. Simples Assim
11. Sonhos Literários
12. Tiago Carioca
sexta-feira, 11 de março de 2011
Onde habita a intimidade?
O que é mais íntimo numa relação? Um beijo na boca ou o ato sexual de fato? O que desperta mais prazeres e sensações pelo corpo? É possível alguém chegar ao orgasmo apenas com um beijo? Mas não seria um beijo qualquer. Seria 'aquele' beijo! Existe ainda a famosa "lenda" sobre os profissionais do sexo não beijarem seus clientes para evitar intimidade. Mas que tipo de intimidade estamos falando afinal? Quer relação mais íntima do que compartilhar o próprio corpo com outra pessoa? Bem, esse é o ponto de vista moral quando associamos intimidade às partes do corpo que não costumam ser vistas no dia-a-dia. Entretanto, se transferimos esse critério de aproximação para o lado afetivo de cada um, as relações íntimas vão depender do estágio de entrega emocional que uma pessoa consegue extrair do âmago da outra. Nesse caso um beijo poderia causar bem mais estrago do que uma bem sucedida cópula.
Na falta de sono numa dessas madrugadas, resolvi assistir um filme pela internet. Um garoto de programa e sua noite de aventuras em um prédio. "Strapped", amarrado em inglês, nos convida a conhecer a vida de um jovem à medida que ele adentra em uma noite de prazer e dinheiro em meio ao desconhecido e muitos pseudônimos. Não sabemos onde habita o verdadeiro ser que circula pelos corredores vazios à procura de grana. Mas aos poucos, entre um cliente e outro que arranja ao acaso, é possível ir penetrando no autêntico território desse personagem. O seu envolvimento é sempre sexual, como uma máquina preparada apenas para satisfazer o desejo do próximo, enquanto se mantém na maioria das vezes distante das emoções alheia. E uma vez feito, se veste e parte para outra.
O detalhe curioso acontece já no fim de sua maratona pelo prédio, quando seus olhos quase vencidos pelo sono e seu corpo cansado de praticar todas as modalidades de sexo com os clientes, o jovem se depara com um rapaz que lhe faz um único pedido em troca do valor que ele conseguiu durante toda a noite: um beijo na boca. Contrariado, ele até tenta argumentar que não beija em serviço, que o seu trabalho é sexual e não afetivo. É aí então que o outro elabora uma explanação genial. Olhando fundo nos olhos do garoto de programa, ele diz que não quer ser tocado nos seus órgãos sexuais, não é sexo que ele precisa no momento, ele quer ser tocado no coração, e quer que o outro esteja presente com ele no momento. Convencido mais pelo dinheiro do que pela argumentação, o rapaz aceita, a princípio receoso, mas termina por se entregar e depois de um intenso, longo e extasiante beijo, atinge o orgasmo sem nem ao menos tocar em seu pênis.
Há quem diga, "ah, é filme". Mas será que alguém já tentou? Estamos acostumados a associar prazer e orgasmo diretamente aos órgãos sexuais, mas muitos não se atentam para o fato que outras regiões do corpo humano podem produzir efeitos semelhantes de maior, menor ou igual intensidade. E as pessoas que sofrem danos na coluna vertebral e perdem a sensibilidade abaixo da cintura nunca terão mais prazer? O filme que a princípio parecia não dizer nada, me chamou a atenção pela minúcia e sensibilidade que tratou a relação de intimidade entre duas pessoas, além do sexo. Enquanto simplesmente realizava seu trabalho proporcionando deleite nos outros, o rapaz não se envolvia e não estava junto na relação. No momento que dividiu um beijo passou a sentir o outro e se deixou levar pelas sensações que aquela experiência mútua produzia.
Daí me questiono onde está o maior grau de intimidade numa relação a dois. Será que o corpo tem mais domínio que o sentimento nisso tudo? Existe um maior que o outro ou ambos se completam? Só a relação sexual torna duas pessoas mais íntimas do que aquelas que apenas se beijaram? Talvez seja mais fácil jogar com o corpo do que com a emoção. Não digo que o beijo possa proporcionar mais prazer que o sexo, com verdade e afeição um pode levar ao outro, ou não, mas que nessa ligação de intimidade, o segundo ganha na categoria de melhor fotografia, enquanto o primeiro leva a direção de arte.
Na falta de sono numa dessas madrugadas, resolvi assistir um filme pela internet. Um garoto de programa e sua noite de aventuras em um prédio. "Strapped", amarrado em inglês, nos convida a conhecer a vida de um jovem à medida que ele adentra em uma noite de prazer e dinheiro em meio ao desconhecido e muitos pseudônimos. Não sabemos onde habita o verdadeiro ser que circula pelos corredores vazios à procura de grana. Mas aos poucos, entre um cliente e outro que arranja ao acaso, é possível ir penetrando no autêntico território desse personagem. O seu envolvimento é sempre sexual, como uma máquina preparada apenas para satisfazer o desejo do próximo, enquanto se mantém na maioria das vezes distante das emoções alheia. E uma vez feito, se veste e parte para outra.
O detalhe curioso acontece já no fim de sua maratona pelo prédio, quando seus olhos quase vencidos pelo sono e seu corpo cansado de praticar todas as modalidades de sexo com os clientes, o jovem se depara com um rapaz que lhe faz um único pedido em troca do valor que ele conseguiu durante toda a noite: um beijo na boca. Contrariado, ele até tenta argumentar que não beija em serviço, que o seu trabalho é sexual e não afetivo. É aí então que o outro elabora uma explanação genial. Olhando fundo nos olhos do garoto de programa, ele diz que não quer ser tocado nos seus órgãos sexuais, não é sexo que ele precisa no momento, ele quer ser tocado no coração, e quer que o outro esteja presente com ele no momento. Convencido mais pelo dinheiro do que pela argumentação, o rapaz aceita, a princípio receoso, mas termina por se entregar e depois de um intenso, longo e extasiante beijo, atinge o orgasmo sem nem ao menos tocar em seu pênis.
Há quem diga, "ah, é filme". Mas será que alguém já tentou? Estamos acostumados a associar prazer e orgasmo diretamente aos órgãos sexuais, mas muitos não se atentam para o fato que outras regiões do corpo humano podem produzir efeitos semelhantes de maior, menor ou igual intensidade. E as pessoas que sofrem danos na coluna vertebral e perdem a sensibilidade abaixo da cintura nunca terão mais prazer? O filme que a princípio parecia não dizer nada, me chamou a atenção pela minúcia e sensibilidade que tratou a relação de intimidade entre duas pessoas, além do sexo. Enquanto simplesmente realizava seu trabalho proporcionando deleite nos outros, o rapaz não se envolvia e não estava junto na relação. No momento que dividiu um beijo passou a sentir o outro e se deixou levar pelas sensações que aquela experiência mútua produzia.
Daí me questiono onde está o maior grau de intimidade numa relação a dois. Será que o corpo tem mais domínio que o sentimento nisso tudo? Existe um maior que o outro ou ambos se completam? Só a relação sexual torna duas pessoas mais íntimas do que aquelas que apenas se beijaram? Talvez seja mais fácil jogar com o corpo do que com a emoção. Não digo que o beijo possa proporcionar mais prazer que o sexo, com verdade e afeição um pode levar ao outro, ou não, mas que nessa ligação de intimidade, o segundo ganha na categoria de melhor fotografia, enquanto o primeiro leva a direção de arte.
quarta-feira, 9 de março de 2011
E no fim... as cinzas
Quarta-feira de cinzas! Para muitos ainda uma extensão do feriadão de carnaval. No Rio de Janeiro a apuração das escolas de samba. De certo modo a vida vai se encaminhando à normalidade. Há quem acredite que o ano começa pra valer agora. Porém, uma curiosidade assolou meu juízo esses dias. Não que já não houvesse perturbado antes, mas resolvi pesquisar e ainda bem que nossa amiga internet está sempre a postos para nos esclarecer qualquer dúvida. Por que o carnaval acompanha sempre a data da quarta-feira de cinzas? E por que uma festa tão espalhafatosa, colorida, com direito a bebida e nudez gratuita estaria associada a uma data religiosa? Foi aí que tive que investigar o sentido das cinzas na religião católica. A partir dessa data, onde as cinzas simbolizam um convite à reflexão sobre a efemeridade da vida humana, dá-se início a Quaresma no calendário cristão ocidental, ou seja, quarenta dias antes da Páscoa, sem contar os domingos. E como a cerimônia da Páscoa é realizada sempre baseada na primeira lua cheia após o equinócio de outono no hemisfério sul, quando o dia e a noite tem a mesma duração, sua data transita entre março e abril.
Até aí tudo tranquilo. Mas onde entra o carnaval no meio disso tudo? Para entender, é preciso saber que o período da Quaresma é reservado a reflexão, a conversão espiritual e ao jejum, um momento no qual os fiéis se aproximam de Deus em busca de um crescimento espiritual, ou seja, nada de festas e badalações. Não que todos os católicos levem esse ritual ao pé da letra, mas quando a Igreja Católica implantou a Semana Santa no século XI, algum engraçadinho achou esses quarenta dias de privação muito longo e resolveu que os dias que antecedem a quarta-feira de cinzas deveriam ser marcados por muita festividade e animação, para compensar mais de um mês de penitência. Daí surgiu o carnaval. E ao contrário do que muitos pensam, o carnaval não é uma festa genuinamente brasileira, constatando que quando ele apareceu, o Brasil ainda era um mundo conhecido apenas pelos indígenas em seu habitat natural.
Nos carnavais de outrora havia muita comida, bebida e grandes celebrações numa busca incessante dos prazeres. A animação durava sete dias pelas ruas, praças e casas da Roma Antiga. Atividades eram suspensas, escravos ganhavam liberdade provisória, pessoas trocavam presentes, reis eram eleitos por brincadeira e comandavam cortejos, e as fitas que amarravam os pés do deus Saturno eram retiradas num convite à folia. Quando o período do Renascimento chegou, o baile de máscaras, as fantasias e os carros alegóricos foram incorporados às comemorações. Assim não fica difícil perceber o destino que essa festa tomou ao longo dos tempos. Paris foi a principal cidade no século XIX a exportar o modelo carnavalesco conhecido hoje. E o Brasil ganhou o mundo com sua fama, quando o Rio criou o estilo dos desfiles de escolas de samba, tendo entrado já para o Livro dos Recordes como o maior carnaval do mundo.
Dessa maneira, caro leitor, é que fiquei sabendo porque essa tradicional festa está sempre mudando de data entre os meses de fevereiro e março, e porque acontece sempre antes da quarta-feira de cinzas. Provavelmente essa minha descoberta não seja novidade para muita gente, mas ainda assim achei que deveria compartilhar com aqueles que como eu se questionavam o que a Sapucaí tem a ver com a missa. Agora faz sentido tanta algazarra nas ruas e no fim... as cinzas. Movidos ou não pelos sentimentos de reclusão e retiro espiritual do período que segue a Quaresma, as pessoas começam a se dedicar de verdade a seus afazeres e esquecem as festas que tiveram início ainda no natal do ano anterior. O ano verdadeiramente tem início. Se o carnaval fosse em junho então, o ano seria literalmente dividido ao meio. Agora preparados para o jejum das folias e a entrega à conversão desejo a todos um feliz 2011!
Até aí tudo tranquilo. Mas onde entra o carnaval no meio disso tudo? Para entender, é preciso saber que o período da Quaresma é reservado a reflexão, a conversão espiritual e ao jejum, um momento no qual os fiéis se aproximam de Deus em busca de um crescimento espiritual, ou seja, nada de festas e badalações. Não que todos os católicos levem esse ritual ao pé da letra, mas quando a Igreja Católica implantou a Semana Santa no século XI, algum engraçadinho achou esses quarenta dias de privação muito longo e resolveu que os dias que antecedem a quarta-feira de cinzas deveriam ser marcados por muita festividade e animação, para compensar mais de um mês de penitência. Daí surgiu o carnaval. E ao contrário do que muitos pensam, o carnaval não é uma festa genuinamente brasileira, constatando que quando ele apareceu, o Brasil ainda era um mundo conhecido apenas pelos indígenas em seu habitat natural.
Nos carnavais de outrora havia muita comida, bebida e grandes celebrações numa busca incessante dos prazeres. A animação durava sete dias pelas ruas, praças e casas da Roma Antiga. Atividades eram suspensas, escravos ganhavam liberdade provisória, pessoas trocavam presentes, reis eram eleitos por brincadeira e comandavam cortejos, e as fitas que amarravam os pés do deus Saturno eram retiradas num convite à folia. Quando o período do Renascimento chegou, o baile de máscaras, as fantasias e os carros alegóricos foram incorporados às comemorações. Assim não fica difícil perceber o destino que essa festa tomou ao longo dos tempos. Paris foi a principal cidade no século XIX a exportar o modelo carnavalesco conhecido hoje. E o Brasil ganhou o mundo com sua fama, quando o Rio criou o estilo dos desfiles de escolas de samba, tendo entrado já para o Livro dos Recordes como o maior carnaval do mundo.
Dessa maneira, caro leitor, é que fiquei sabendo porque essa tradicional festa está sempre mudando de data entre os meses de fevereiro e março, e porque acontece sempre antes da quarta-feira de cinzas. Provavelmente essa minha descoberta não seja novidade para muita gente, mas ainda assim achei que deveria compartilhar com aqueles que como eu se questionavam o que a Sapucaí tem a ver com a missa. Agora faz sentido tanta algazarra nas ruas e no fim... as cinzas. Movidos ou não pelos sentimentos de reclusão e retiro espiritual do período que segue a Quaresma, as pessoas começam a se dedicar de verdade a seus afazeres e esquecem as festas que tiveram início ainda no natal do ano anterior. O ano verdadeiramente tem início. Se o carnaval fosse em junho então, o ano seria literalmente dividido ao meio. Agora preparados para o jejum das folias e a entrega à conversão desejo a todos um feliz 2011!
terça-feira, 8 de março de 2011
Assumo a culpa
Desde criança já aprendemos a apontar o outro como culpado de qualquer erro que cometemos. É o medo da bronca e repreensão dos pais, ou às vezes até da chinelada. Estamos prontos a qualquer momento para fazer uso desse instinto natural de defesa quando nos sentimos ameaçados. Crescemos com o conceito de que se alguma merda aconteceu, a culpa é de alguém ou de alguma burrada que o outro fez, e nunca nossa. Há quem até opte por deixar suas decisões nas mãos alheias para no caso de cometer uma escolha errada, ter quem apontar como culpado. E de quem é a culpa afinal de tanta culpa? Como culpar quem tenta se defender em um mundo que não admite erros? Ninguém é perfeito, mas a sociedade exige a perfeição. Assumir uma falha é assumir uma incapacidade, um erro, uma imperfeição. E ninguém está preparado para esse tipo de repreensão.
Ainda hoje me deparo com situações curiosas que acontecem na minha família. Minha mãe até hoje tem dificuldade de assumir sua culpa ao menor equívoco que cometa. Está sempre preparada para culpar a maçaneta da porta, a quina da cama, o celular que descarregou, a pessoa que amarrou errado a caixa do isopor, e na cozinha sobra até para as panelas. Por vezes pergunta a minha opinião sobre algo que pretende fazer, e quando a situação desanda, de quem é a culpa? Em uma circunstância de desespero então, melhor sair de perto que faísca para todo lado. E quando inevitavelmente não consegue negar a responsabilidade do ato que cometeu, passa horas numa auto-tortura psicológica de "mea máxima culpa". E não escapei imune a convivência diária da fuga do culpado. Vez por outra me pego apontando o atraso dos transportes coletivos quando na verdade dormi demais e perdi a hora.
Será que nessas ocasiões não seria o momento de assumir a nossa culpa, parar de lamentar o ocorrido e pensar em como reverter a situação? Cada atitude nossa implica uma consequência e precisamos estar preparados para enfrentá-las. Desde um prato que escorregou da mão aos rumos que se deve tomar na vida é preciso assumir a responsabilidade. Se errou, se o caminho está difícil, é hora de mudar a situação e seguir em frente. Afinal, errar faz parte do aprendizado. E se aprende muito mais com os erros do que necessariamente com os acertos. Antes que alguém tenha a oportunidade de nos olhar e nos lançar seu dedo indicador apontando a culpa por algo, levante o indicador primeiro e mostre o seu caráter e honestidade ao assumir o erro que cometeu e se dispor a consertá-lo. Não é uma postura fácil de adquirir na vida, mas agindo com verdade, alimentamos nossa força para enfrentar todas as adversidades que surgirem pelo caminho. Bom seria se desde pequeno fôssemos ensinados a não negar nossas faltas, respondendo pelas nossas culpas sem susto, pois não há porque temer as falhas, e sim a falta de coragem de enfrentá-las.
sexta-feira, 4 de março de 2011
Um hipocondríaco no Rio
Com todo esse reforço farmacológico, chegamos ao tão sonhado Rio de Janeiro. Todos os sintomas que eu pudesse ter sentido durante a viagem se esvaíram quando vi ainda de Niterói aquela imagem pequenina do aclamado Cristo Redentor. Olha! O Pão de Açúcar! É, realmente estávamos ali. Desci com cuidado do ônibus para poder pisar pela primeira vez em solo fluminense. Uau! Chegamos ao paraíso. Um pouco mais quente do que se pensava, mas ainda assim, deslumbrante. Fomos encaminhados de mala, cuia, bacia e bengala (ser ator tem seus vexames) ao nosso alojamento. Não era o Copacabana Palace, mas pra mim já estava de bom tamanho. A cada momento chegava mais gente de todo buraco do país. Era um carnaval de sotaque. Até quis brincar de "advinha de onde eu sou?", mas rolou um certo preconceito com quem não forçasse o "r" ou chiasse no "t". Teve uma discussão interessante acerca do organizador do evento ser gay, porque destinou os melhores banheiros aos homens com direito a espelho e ducha privada, enquanto as mulheres sofriam em duchas coletivas e apertadas. Mas no fim chegou-se a conclusão que a organizadora era que deveria ser lésbica, porque poderia ver toda a mulherada nua tomando banho.
No mesmo dia, depois de atravessar a Baía de Guanabara de barca e fazer uma visita à famosa praia de Copacabana, caímos num sono merecido e finalmente livre do desconforto das poltronas do ônibus, apesar de termos dormido com a luz acesa, pois nos avisaram que se apagassem a luz os ventiladores também desligavam, e no meio da noite acordei derretendo com a danada da luz acesa e os ventiladores parados zombando de mim. Amanheci já tenso com tudo isso. Depois enfrentamos uma fila do tamanho da ponte Rio-Niterói para comprar o ticket do nosso almoço no restaurante universitário, e outra maior ainda para entrar. O calor e a multidão começaram a me inquietar. Uma canseira nas pernas, coração acelerou. Olhava o Cristo e a sensação aumentava. E no dia seguinte ainda teria a nossa apresentação da esquete. Almocei e de volta ao alojamento tentei dormir um pouco. Inútil. Acordei pior. O coração ia sair pela boca, uma tremedeira. "Vou ter um infarto, uma parada cardíaca". Lá fomos eu, Suellen e Cris de táxi ao hospital mais próximo evitar que o ônibus retornasse com um passageiro a menos.
Nossa primeira parada foi no Hospital das Clínicas de Niterói. Requinte até no lixeiro. Ainda bem que plano de saúde serve para isso. Ao menos no nordeste. Não aceitaram minha Unimed. De volta à rua com um paciente à beira de um colapso, saímos sem destino em busca de outro hospital ou um táxi. Nessas horas é que acredito na intervenção divina. Acabamos nos deslocando exatamente ao hospital que uma moça do alojamento havia indicado. Chegamos e a notícia é que a situação era precária, e nem a emergência estava funcionando, só em casos extremos. Mas o meu era extremo! Saí do nordeste pra morrer em Niterói, sem conhecer o Cristo, Ipanema, Leblon, o Jardim Botânico? Fomos avisados de outro hospital duas esquinas dali, mas que a situação também era semelhante. Resolvemos arriscar. Fomos na recepção, fizemos uma ficha e pouco tempo depois um moço descontraído nos atendeu. Tinha uma tranquilidade na voz que até relaxei um pouco. Ele então nos encaminhou a uma médica em outra sala. Uma moça jovem também, simpática, mas não tanto quanto o rapaz, me examinou, perguntou o que eu sentia, segurou meu braço, que não parava de tremer e sentiu o pulso por alguns segundos. Diagnóstico: crise nervosa! Medicamento: 10mg de diazepam.
Saber que não estava em processo de infarto e que meu coração funcionava bem foi tranquilizante. Sentei na enfermaria à espera do meu medicamento. Foi aí que Suellen resolveu pensar alto: vai dormir por uns dois dias. "O quê?! Como assim? Não! Não vou dormir por dois dias aqui. E a esquete amanhã? E o Rio todo ainda a conhecer?" Para completar uma senhora começou a se tremer toda numa cadeira a minha frente. Outros gemiam. Saí de fininho em direção a saída, enquanto Suellen tentava tranquilizar a senhora. Quando a enfermeira chegou com o meu medicamento, cadê o senhor Francisco Samuel? Cris queria sumir em meio àquilo tudo. Lá Suellen me procura pelo hospital, até me encontrar do lado de fora. "Entra já e vai tomar aquele remédio, ou eu não apresento a esquete amanhã". - "Mas se eu tomar e dormir, não vamos apresentar do mesmo jeito". A discussão rolou ainda alguns minutos até que terminei entrando e tomando. Ela foi convincente. Ficamos ainda um tempinho por lá e fomos embora. Até boa parte da noite, as palpitações sumiram. Mas algumas horas depois retornaram. Tentei dormir, mas o efeito colateral do remédio ficou no mito. Passei a noite em claro.
Saímos para a apresentação pela manhã e eu só rezava para não cair no meio dela. Respirava fundo, tentava manter o equilíbrio, meio difícil para quem sofre também de labirintite. Mas enfim, conseguimos apresentar o trabalho, e olha, não passei mal durante a apresentação. Na verdade, me senti extremamente disposto ao final. Tanto que já queria atravessar a Baía de novo e sair explorando o Rio. O que acabamos fazendo nos dias seguintes. Conheci tudo que desejava, fui até guia de Suellen em algumas paradas, sem nem perguntar ao cobrador onde descia. Resolvi o problema da luz acesa, descobrindo onde apagavam as luzes sem desligar os ventiladores. E aquele mal estar? "Qual?" Me senti tão bem nos outros dias que enfrentaria mais um mês ali. Na volta pra casa estava tão exultante com tudo que tinha conhecido que esqueci até dos horários dos anti-inflamatórios. Fui um dos mais animados, enquanto boa parte da galera voltava com gripe, crise de garganta, febre. Aí nesses momentos que é bom ter um amigo hipocondríaco por perto. A farmácia da minha mochila foi o banquete e a salvação de todos.
quarta-feira, 2 de março de 2011
Desencanando
Realmente a novidade me pegou de supetão. Sandy loira e sendo garota propaganda de cerveja? Que loucura foi essa? Duvidei da capacidade dela em se submeter a esse tipo de trabalho, principalmente agora que recomeçou sua carreira num estilo mais intimista. Li algumas matérias antes, vi os primeiros comentários no Twitter, mas tudo me parecia meio sem sentido ainda. Só quando vi a propaganda pelo YouTube foi que entendi a jogada da empresa. Meu passado condena e por isso não deveria opinar, mas foi realmente brilhante. Quem acompanhou a carreira de Sandy ao lado de Junior não teve como não se surpreender. Admito, assisti ao vídeo umas dez vezes. Afinal, não é todo dia que podemos ver o lado descontraído de uma cantora como Sandy subir ao palco, mostrar sensualidade e jogar bebida para a plateia. Nessas horas é que pensamos quais outras facetas ela terá escondida e só Lucas Lima tem conhecimento.
Mas deixando o mítico e indo ao factual, o que vemos representado na propaganda é nada mais que uma cena cotidiana que pode e deve acontecer a cada um, ao menos uma vez na vida. Quem nunca tomou umas a mais e excedeu na comemoração em público? Eu mesmo, um eremita contemporâneo, despojado do álcool e das baladas noturnas, quase a versão masculina de Sandy, já banquei o ridículo dançando e cantando Deslizes de Fagner nas alturas em um bar. E o mais divertido, é que não há nada de errado nisso. Eu aprecio uma vida reclusa, me manter distante das farras que a maioria da galera da minha idade curte, o que não me impede ou me condena a permanecer eternamente assim. Há momentos que é necessário extravasar, se permitir ser ousado, libertino, insensato. Revelar o lado devasso mesmo que existe em cada um. Afinal, ninguém é um bloco de gesso imutável, que nunca tenha suas nuances.
A decisão de Sandy em participar dessa campanha publicitária revela que apesar de sempre ter tido uma postura bastante reservada, ela pode ser uma mulher como outra qualquer, que quebra a rotina, sai com os amigos, bebe um pouco no bar e pode abusar algumas vezes. Nada melhor do que usar do contraditório para chamar a atenção. Se tivessem colocado uma Claudia Leite, Danielle Winits ou Viviane Araújo que impacto teria no telespectador? O improvável é mais instigante. Ainda vi por aí quem postou uma entrevista anterior de Sandy comentando que não aprecia o sabor de cerveja por achar amargo. E daí se ela não bebe do produto que faz propaganda? Garanto que Xuxa não usa Monange. E ninguém caiu em cima de Zeca Pagodinho quando fez a propaganda da Nova Schin enquanto é um degustador assíduo da Brahma. O que falta é uma maior abertura e complacência das pessoas para burlar certos preconceitos e estereótipos que se criam na mídia em torno de alguém ou algum objeto. Se Sandy vai convencer de devassa ou não, a quem importa? O que a fabricante de bebidas quer é vender, e olha que até me deu uma vontade de abandonar meu tarja preta e experimentar essa cerveja, ou quem sabe misturar os dois, ficar "doidão" e sair aí pelo mundo bem devasso.
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