quinta-feira, 7 de abril de 2011

Um aniversário

Um flash de vida nunca se esvai das entranhas de um coração
Nem lembro como acordei. Só me recordo dos preparativos. Das minhas primas Agda, Ana Carla, Larissa, Pollyana e Andréa circularem pela casa. De sentarmos na calçada inclinada da garagem com o portão aberto. Ah, o portão! Ele nunca era aberto. Não havia carro e sempre entrávamos pelo portão menor. Deixá-lo totalmente aberto como naquele dia era uma completa realização. Era como se nossa casa passasse a ser uma extensão da rua, onde não havia limites. Na cozinha um entra e sai. Muita gente ocupada correndo de um lado pro outro. O cheiro de doce invadia o paladar. Tentava surrupiar algum, mas tinha aquelas mulheres também que eu não conhecia, e ficava envergonhado. Na sala outras pessoas enchiam bexigas. Vez por outra se ouvia o pipocar de alguma e o riso de alguém. Minha mãe sempre aparecia pedindo para terem cuidado. Ela estava realmente agitada com todo aquele movimento na casa, a cabeça em tantos convidados e sempre a suspeita que não haveria comida suficiente para todos. Eu apenas observava todo o ambiente e tentava me divertir com tantas pessoas se dedicando em tornar aquele dia inesquecível em minha vida.

Quando a tarde se fez presente, já estava pronto. Roupa feita na costureira da minha mãe. Uma camisa quadriculada de vermelho e branco com um colete e uma bermuda jeans. Minha mãe também havia preparado algo especial para ela. Um short marrom da moda de cintura alta acompanhado de um cinto, uma blusa de cetim rosa e para completar, um colar estilo idade da pedra que descia até os seios. Saí do quarto e circulei pela sala, agora toda decorada com balões. Na parede atrás da mesa, um isopor em formato de casa com a frase: "Uma tarde no circo com Samuel e amigos". Nem preciso dizer que o bolo era um palhaço. O nariz vermelho e redondo saltando para cima. Parecia delicioso! O rapaz encarregado de filmar o evento em VHS já se fazia presente, assim como os vizinhos mais chegados e boa parte da família. Afinal, meus tios e primos tinham vindo à cidade só para me prestigiar. Na área de entrada ficou uma caixa grande onde eu colocaria os presentes, e claro, na parede outro palhaço com a cabeça enorme de isopor  e os braços e pernas feitos de bexigas.

Aos poucos a casa foi se enchendo. Os convidados me olhavam sem parar e isso começou a me preocupar. Não sabia mais para onde olhar e aos poucos já nem sabia como caminhar. Parece que roubavam cada expressão minha toda vez que me observavam. Finalmente minha avó chegou. Me abraçou, me beijou e eu me senti mais aliviado. Poderia ficar ali em seus braços, protegido dos olhares inimigos pelo resto da festa. Ao seu lado chegaram também meu tio e minha prima Agda, que trazia o presente da minha tia Auxiliadora. Eu sabia de antemão que ela me daria um robô preto de meio metro que andava e mexia as mãos. Agarrei o pacote e, apesar da ansiedade, coloquei na caixa, queria saboreá-lo sozinho depois. Um carro então estaciona lá fora, e dele sai pacientemente um homem de calça jeans, camisa branca e cabelo grisalho. Sua entrada desvia os olhares dos convidados sobre mim. Ao menos até ele se aproximar, passar a mão no meu cabelo sorrindo e proferir sua saudação: "diga, comandante".

Meu pai era um militar do exército aposentado. Em seu ofício, percorrera o país partindo também o coração de muitas jovens. Não era seu primeiro filho e nem seria o último, assim como minha mãe não detinha o título de exclusividade. Aliás, estavam separados há quase dois anos. Com essa situação perdi a relação de intimidade, e uma onda de medo e responsabilidade assolavam meu ser, inconscientemente, sempre que o via. Meu pai era dado a mágico também nas horas vagas, e numa festa com o tema circo, sua mesa já estava posta e o picadeiro armado. Todo mundo se apertava para ver o grande mágico Seledon. A área ficou lotada. Gente em pé, gente sentada. Várias crianças com olhares curiosos agarrados ao portão do lado de fora. E eu? Bom, eu fiquei meio que escondido entre as pessoas. Tinha medo dele querer realizar alguma mágica com o aniversariante. Me fazer urinar ou botar ovo em cena como fez com um menino. Não. Naquela hora eu queria ser mais um simples convidado do que qualquer anfitrião.

Inexplicavelmente, gostava de estar em cena, de estar em evidência em um palco. E basta rebobinar um pouquinho a fita antes do show de mágicas do meu pai, para me encontrar dançando lambada na sala com minha prima Agda aos olhares atônitos de todos. Sim. É verdade. Minha prima cinco anos mais velha aprendeu a dança "proibida" do Kaoma e resolveu que precisava de um par para praticar em casa. E lá estava eu, dançando no meio da minha festa de aniversário. E mesmo com a expressão fechada, não de raiva, mas de insegurança, ainda dancei com outra colega da escola, essa da minha idade, e a cozinha literalmente fez um break. Foram todos assistir o desempenho daquelas duas crianças ousando ser gente grande. Minha avó olhava fascinada. Minha mãe direcionou toda sua agitação naquela cena, focou e congelou por alguns minutos. Nem eu sabia por que impulso estava levando à praça um hábito corriqueiro da infância. Talvez um anseio de me mostrar capaz de algo que poucas crianças naquela idade ousariam fazer.

As horas foram passando. A festa ganhando a noite. O time da cozinha dedicado em servir os convidados e certificar que todos estavam providos, e como minha mãe previu, as iguarias começaram a faltar. Mas nada de desespero. Hora de cantar parabéns e cortar o bolo. Todos se reuniram em volta da mesa. Muito barulho. No som Sacrifice de Elton John. Algumas crianças colocavam a cabeça nas lancherinhas para ver o que tinha dentro. Colocaram um banquinho para que eu ficasse numa altura razoável. Eu observava tudo esperando que alguém me dissesse o próximo comando. De repente o disparo e todos cantavam e batiam palmas sorridentes para mim. Naquela hora não sabia o que fazer. Me perdi completamente. Batia palmas junto com todo mundo ou só ficava olhando aquela celebração? Ninguém me passou a informação. Então sorrateiramente do impulso de bater palma, fui escorregando as mãos devagar até elas congelarem na altura da cintura. Olhos esbugalhados. Parecia que eu é que seria devorado ao final ao invés do bolo. E quando a cantiga cessou, veio o pior. Tive que apagar a vela. Foram três tentativas, várias vozes me encorajando, meu pai me pedindo força e só aí a chama evaporou. Mas nem fui eu o responsável. Um menino, provavelmente impaciente com a situação e louco pelos docinhos, se antecipou e contribuiu com seu sopro.

Desfeita as formalidades, todos foram se dissipando e as crianças formando filas para receberem as lembrancinhas, enquanto a sessão de fotos tinha início em frente ao bolo. Bateram uma fotografia minha com minha avó e depois a família toda queria uma foto exclusiva com ela. Em seguida minha mãe mandou chamar meu pai para a foto da família. Embora separados, ela ainda nutria uma remota esperança de reconciliação. Nos preparavam para o flash quando só então reparei que a vela de 6 anos do bolo estava voltada para mim e não para os convidados, como seria o correto. Com essa constatação, olhei para a câmera e a cena foi registrada. A mesma foto que agora olho aqui sobre a escrivaninha do meu apartamento e que todos os dias me encara com desafio. Faz exatos 20 anos. Minha mãe não voltou mais com meu pai. Ele teve outra família, outros filhos e hoje já nem se encontra mais entre nós. Eu fui crescendo, tentando superar os fantasmas da insegurança, encarar o mundo sem medo de falhar, embora aqui acolá busque nas fobias e inocência daquele garotinho a grande razão de continuar seguindo sempre. Encontro naquelas raízes o fruto do cara de 26 anos que me torno hoje.

11 comentários:

  1. Parabéns pra vc!Muita Paz Interior!

    Ri muito com o post.As vezes,juntamos os amigos e falamos sobre infância.É a melhor maneira de acabar com estresse.
    Abraços.

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  2. nossa parece que foi ontem e hj ja se faz 26 anos que vc chegou pra alegrar nossa familia e te ama dimais como eu teamo filho, nao tenho palavras pra tanto coisa, mas foi uma festa bacana como vc falou, sempre leio seus texto com muito amor e carinho, porque vc sabe transpitir tudo ,continue sendo essa pessoa maravilhosa que vc e teamo.............

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  3. PArabéns pra você! Não somente por ser seu aniversário, mas por me fazer participar da sua festa de aniversário,cada detalhe que você descreveu me transportou para um mundo só seu, vi o menino tímido que tentava dizer aqui estou se "exibindo" numa dança e hoje este homem que ainda tem muito daquele menino expõe seus sentimentos e sua timidez através das palavras.
    Nem preciso dizer o quanto você é especial, mas direi o quanto você é capaz de nos levar a viver momentos especiais, ri muito e fiquei imaginando cada detalhe, as mágicas, a vela ao contrário? rsrs. Olha menino, eu desejo pra você um futuro brilhante,cheio de realizações. Um abraço.

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  4. Samuel, esse aniversário seu foi inesquecível!!
    vc o descreveu e eu me recordei de muitos detalhes, temos quase a mesma idade e ainda me lembro do seu pai faznedo mágicas e vc dançando com Agda e a sua amiga!rsrsrs... me diverti de montão!! saudades desse tempo!! parabéns pelo dia! beijos e tudo de bom de sua prima,

    Larissa!!

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  5. Depois de todos os comentários fica até repetitivo escrever aqui.É mágico ter um pai que faz mágica, e como é encantado cada momento que nos deixa lembranças tão carinhosas e inesquecíveis. Fiquei lendo imaginando as cenas. O que me comoveu em tudo isso foi o abraço de tia Josefa. Lugar em que vc desejou ficar... lugar de segurança.Falar sobre seus posts eu já nem falou. Sou fã incondicional desse garoto que se expõe de forma tão poética. Desejo a vc tudo de bom. Principalmente muita saúde e ousadia para encarar os desafios que vinherem pela frente. Sucesso Sam. Sou tua fã.

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  6. Vc quase me fez chorar agora.. essas lembranças são foda. Reuniões em família, bolos de aniversário, fotografias antigas me trazem sempre uma nostalgia. Mas, temos que passar por tudo isso. Crescemos, às vezes com uma dificuldade que julgamos impossível superar, mas crescemos.

    E viva à felicidade dos dias que virão!
    Parabéns, Samuca, não por seu 26º aniversário, mas por seres quem és.

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  7. Kárem Vasconcelos7 de abril de 2011 16:16

    Sami, cada dia da nossa vida é especial! Trata-se de um novo presente vindo diretamente do Criador para nós. Mas o dia do nosso aniversario é sempre uma data peculiar... Considero-o um presente especial!!! Esse dia se diferencia pelo fato de o chamarmos de ‘nosso'. Nele geralmente refletimos sobre o que somos, pensamos em que podemos melhorar daqui pra frente, recordamos fatos importantes da nossa existência e claro, comparamos esse nosso dia com outros dias (que já foram só nossos).
    Sem dúvida, o seu aniversario de 6 anos foi um marco na sua vida. Outras festas aconteceram, mas aquela foi única, inesquecível. Não é a toa que 20 anos mais tarde, ela ganhou destaque entre tantas recordações...
    Você já havia me contado em outras ocasiões essa história, até cheguei a ver trechos da fita VHS convertidos em DVD no seu notebook, mas nunca me envolvi tanto com o episódio do seu aniversário como hoje, ao ler a sua postagem. Cada detalhe descrito me fez entender um pouco melhor, os sentimentos vividos naquele dia por aquele garotinho tímido e inseguro, mas ao mesmo tempo criativo e ousado, que hoje tenho o prazer de chamar de amigo! Parabéns pelo texto emocionante!
    Mas, parabéns principalmente por tudo o que és, pelas boas lembranças que conservas da infância e pela maturidade adquirida com o passar dos anos, que fazem de ti, a cada dia, alguém melhor.
    Se em 1991, surpreendeste familiares e vizinhos com a audácia de apresentar a ‘dança proibida’ em plena festa de aniversário, hoje continuas deixando boquiabertos inúmeros admiradores seus (dos quais faço parte), que conquistaste com teu jeito de ser e com os talentos que Deus te deu.
    Desfrute do seu 26° 'presente especial' com muito carinho e não se esqueça de agradecer a Quem fez este dia só pra você e te permitiu estar hoje aqui contando marcos da tua história! Feliz vida, meu grande amigo... Eu te amo!

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  8. Agradeço o carinho de todos neste dia em que perdemos uma parte de nós, mas ganhamos outra. Ficamos mais velhos e tornamos o hoje, passado, que fica cada dia mais distante.
    Obrigado!

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  9. nossos olhares não se cruzarão mais como antes...porém serei sempre seu fã de longe, mas serei!!!

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  10. parabens, atrasado mas acho que sempre vale...

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  11. Foi um delícia ler o seu texto primo! Fazer a viagem no tempo... Sinto saudade da época em que nosso maior preocupação era se teria tempo suficiente para brincar de tds as brincadeiras q gostávamos...

    Saudade vc tbm...
    Bjs

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