quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Bastidores do censo

O Censo 2010 acabou. Quem foi recenseado, foi. Quem não foi vai ter que se somar às estatísticas do IBGE. Me lembro de que quando criança devo ter presenciado alguma entrevista do censo em minha casa. Olhos curiosos ao que perguntavam. Achava bonitinho a gente ter que responder de que cor era, quantos cômodos havia na casa, se tinha geladeira, televisão, videocassete... De alguma forma sabia que estavam contando o país. Cresci ligado à geografia, aos atlas, vendo as estatísticas que o IBGE fornecia desde a vegetação ao turismo. Mas nunca havia eu mesmo respondido ao censo. E de uma maneira ou de outra, sempre simpatizei com o trabalho dos recenseadores. Achava interessante ir de casa em casa fazendo perguntas pessoais aos moradores. Então eis que o Censo 2010 não só me possibilitou responder sozinho ao IBGE, como fui a campo, ou melhor, aos domicílios particulares permanente ocupados entrevistar os moradores.

O compromisso que tomei comigo mesmo era de ser simpático, colher as informações corretamente, esclarecer os moradores e dar o melhor de mim para ajudar na construção de um novo retrato do país, que eu poderia ver no próximo atlas e saber que fui contribuinte com as informações daqueles dados. Bom, com esse pensamento teve início minha caminhada. Comecei me atrapalhando nas primeiras entrevistas, ficando receoso de verificar certos dados e constatando que lidar diretamente com as pessoas seria mais complicado do que o imaginado. A simpatia durou até a segunda esquina e o primeiro domicílio fechado. E havia horas que sentia vontade de dá um tapa no morador pra ver se o esclarecia. Descobri que a cor do brasileiro é o "moreno", moreno claro pra ser exato, como afirmou insistentemente uma senhora que não se encaixava nas cores que o IBGE sugeria. Alguns reclamavam das perguntas serem demais, outros de serem de menos. Questionavam a necessidade de certos quesitos: "saneamento básico? Tá muito ultrapassado", reclamou uma moradora.

Desculpas eram frequentes. Falta de tempo. "Volte outra hora". "O que é isso?". "E o que é IBGE?". "Isso serve pra quê?". Tentei ser prestativo e persuasivo o suficiente para não ter que voltar outro dia, nem perder a paciência. "Essa hora?". "Desculpe, mas durante o dia não tem ninguém em casa". Entrevistei por interfone, com morador na janela do primeiro andar, bati palmas, bati em portas até minhas falanges mudarem de cor, berrei em prédios fechados, apertei campainha pra toda uma infância de travessuras, deixei bilhetes embaixo de portas, peguei gente de toalha, de pijama, pelado, segurei bebê no colo, recebi cuspe de criança falando em cima de mim, entrei em ambientes sombrios, me confundiram com ladrão e fui recepcionado por muitos amiguinhos peludos. Fazendo justiça, muitos cães se mostraram bem mais evoluídos que seus donos no quesito recepção. Fiz até amizade com alguns que me avisavam se seus donos já estavam em casa. No meio disso tudo estava apenas um recenseador que precisava concluir seu setor.

Depois de algum tempo as perguntas saíam automaticamente. Eu acionava o piloto automático e seguia: "o domicílio é próprio? quantos banheiros existem? morava alguém no exterior...? 31 de julho de 2010?..." E por aí seguia. Peguei muitas famas no serviço de moto-táxi, já que em várias ocasiões quando tive que trabalhar à noite, dava pontos diferentes como referência. A princípio fui o evangélico devoto da Universal do Reino de Deus. Cada noite era morador de um edifício novo. Às vezes pedia que me pegassem em postos de gasolina ou em esquinas. Batendo ponto? Deviam pensar, tendo em vista o ambiente em volta ter sua fama própria. Vi um pouco a cara do país nas pessoas que me recebiam. Encontrei gente hospitaleira, simpática, dedicada em contribuir para as estatísticas e encontrei gente indelicada e arrogante que respondiam àquele pobre recenseador como a um favor. Diversos tipos passaram pelo meu caminho. Diversas situações. Me surpreendi uma noite quando descobri que a mulher alta que entrevistava, na verdade era um "menininho", como se definiu ao se referir ao seu nome masculino.

Aos poucos, na correria, na impaciência, na pressão do tempo, fui descobrindo que o trabalho dos recenseadores não era simplesmente entrar nas casas perguntando isso e aquilo. Consistia na verdade em um grande aparato que envolvia não só a minha disposição em perguntar, como a disposição dos moradores em contribuir. A falta de esclarecimento das pessoas em relação ao censo e ao IBGE foi bem maior do que pensei. Descobri um mundo que a mídia e a sociedade consideram extinto, mas na realidade ele ainda existe. Perguntar se as pessoas sabem ler... "Claro" era a resposta da maioria. Mas ainda existem analfabetos, mais do que deveria. E o saneamento básico falta em muitos lugares ainda.

Todavia, foi gratificante entrar assim mesmo na casa de muitos brasileiros, pessoas que nunca havia visto, sentir as energias de cada local, os sorrisos compartilhados, as caras fechadas, as ajudas, as lambidas. Descobri que existiam pessoas que almejavam também responder ao censo pela primeira vez, crianças curiosas me olhando mexer na maquininha, como eu olhava para o recenseador anotando no papel. Pouco antes de terminar meu último setor, me vi discutindo com o dono de um blog que postou algo falando mal do censo. Tomei as dores do IBGE. Acho que vesti a camisa e isso significa no mínimo, que se acredita naquilo que se faz, ou resumindo, um trabalho bem feito. Pois não acho que tomaria as dores do Sebrae quando estive lá, ou de uma empresa de comunicação. E de certa forma, ter feito um trabalho, onde a principal ferramenta era a entrevista, me trouxe de volta ao universo do jornalismo, e me fez avaliar minhas possíveis deficiências na área. E do censo levarei mais um aprendizado: tratar bem o recenseador que à minha casa for, no censo de 2020.

2 comentários:

  1. Tirou as palavras de minha boca!
    Parabéns Samuel!
    Belo escrito!

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  2. parabens meu lindo adorei esse comentario do Censo, vc sabe ser um bom resenciador, vc e um bom jornalista basta acreditar,e da continuidad,um xero.

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