O que um perfume, uma música ou uma ‘novela’ não são capazes de fazer. Por mais que as pessoas tentem me convencer do contrário, me chamem de nostálgico, de baú, é inevitável o fascínio que desenvolvo e a ligação que ainda preservo com o meu passado. Somos hoje o fruto necessariamente das nossas escolhas, dos caminhos tomados, enfim, do nosso passado. Desde muito pequeno fui encantado pelos mais de seis meses de aventuras e desenlaces das tramas da televisão brasileira. Me interessava bastante as mudanças que determinados personagens sofriam, o seu estado inicial, as pessoas que conhecia e não conhecia no início; e o seu estado final, com as pessoas que passou a conhecer e as que ficaram pra trás.Imaginava que a nossa vida era exatamente assim. Hoje estamos aqui, amanhã ali, hoje conhecemos algumas pessoas, amanhã outras que nunca vimos estarão no nosso circulo de amizades. A grande diferença é que na telenovela existe o Vale a Pena Ver de Novo para podermos embarcar em todos os estágios como se vivêssemos tudo novamente. Na vida real, isso não acontece. O que passou, passou. No máximo fica alguma fotografia, um pequeno vídeo, mas todas as etapas nunca mais serão recuperadas. O tempo corre, as pessoas mudam, os sonhos se perdem, os momentos são esquecidos. Por quê?
Essa semana acompanhando alguns capítulos da atual reprise do Vale a pena Ver de Novo, Mulheres Apaixonadas, descobri que se ligamos nossos sonhos, nossos momentos a um perfume, uma música ou mesmo uma telenovela, podemos sim reviver muita coisa. Esse é o poder mágico que determinadas substâncias têm sobre algumas de nossas percepções. O cheiro atravessa o corpo e leva a alma aos lugares mais remotos do tempo, assim como a melodia nos faz voltar dez anos em apenas 3 minutos. Desse modo, encontrei outro túnel do tempo que nos faz viajar sem sair de onde estamos: a telenovela.
Quem nunca tentou se lembrar onde estava, o que fazia e até os detalhes da sua vida no ano da novela que está sendo reprisada? É sempre assim, basta passar a propaganda da reapresentação que já começa “ah, nessa época eu morava em tal lugar”, “eu lembro que eu sempre perdia o primeiro bloco porque estudava à noite”, “eu adorava dizer tal bordão”. É o passado dizendo “olá” de maneira bem sutil. Do mesmo modo aconteceu comigo.
E M
ulheres Apaixonadas tem uma importância muito grande quando falo de novelas que nos lembram o passado. Ela foi ao ar no meu primeiro ano de cursinho em Natal, um garoto de 18 anos, cheio de sonhos e acreditando firmemente que todos eles poderiam acontecer. Suas músicas eram como trilha sonora dessa minha fase. E assim, sem perceber, Mulheres Apaixonadas se transformou em um grande detalhe da minha vida em 2003. Hoje, escutando a melodia, vendo os personagens, consigo até sentir o cheiro do apartamento, das revistas, do bairro, das roupas, o cheiro dos sonhos, de uma fase inesquecível.Quando alguém me pega hoje acompanhando a novela em alguns momentos que tenho para assistir, pensa que se trata apenas do gosto por ela, dos conflitos, da história. Não! Acompanhar Mulheres Apaixonadas é como tentar resgatar aqueles momentos perdidos, aqueles sonhos que enchiam de alegria os meus dias. E como gostaria de poder vivê-los novamente, de poder ter outra vez 18 anos, de sonhar... ah, sonhar!!
Sempre comparando as novelas com a nossa vida, nem sempre estamos satisfeitos com o estado final de determinados personagens, preferindo até mesmo seu estado inicial. Na vida acontece o mesmo. Eu tinha bem mais força e paixão pela vida em 2003 do que agora. Respirava fielmente todos os sonhos que hoje a universidade conseguiu destruir quase totalmente. Posso até estar mais rico em sabedoria do que antes, mas trocaria tudo pela convicção e anseio de outrora. Contudo, fico feliz que ainda possa recordar esse e outros passados mágicos através de elementos incríveis que o tempo não pode jamais apagar.
Outro dia baixei pela internet o cd Meu Jeito de Ser de Angélica de 1993, uma outra grande recordação. Escutá-lo enquanto dou minha geral no apê uma vez por mês, me transforma, eu viajo, grito, tento fortemente retornar àqueles momentos, àqueles lugares. Nossa! Algumas vezes até consigo, e q
uando isso acontece, a emoção é inevitável. Não sei como as outras pessoas pensam, mas o que me faz agüentar a saudade dessas épocas e só viajar de vez em quando, é a sensação de que um dia elas irão voltar, é uma certeza de que poderei reviver algo semelhante de novo no mesmo lugar, mesmo que algumas vezes parece impossível. É como se ainda estivesse construindo a novela para que um dia ela seja reprisava novamente no Vale a Pena Viver de Novo.